O Horizonte de Claire
11 5 anos
Cinco anos são capazes de transformar o curso de rios e a alma dos homens. No Reino de Lâfrer, a brisa suave da primavera havia sido substituída por um vento impetuoso que parecia carregar o espírito de uma nova Claire.
Aos vinte e dois anos, a princesa meiga e ingênua era uma lembrança guardada em retratos empoeirados. A "Nova Claire" era o terror dos protocolos reais.
O Desafio nos Jardins
O Rei Richard, agora com os cabelos mais brancos e o cenho permanentemente franzido, observava da janela o borrão de velocidade que atravessava o campo. Claire não usava mais as selas laterais de seda; ela cavalgava como um cavaleiro, montada em um garanhão negro, vestindo calças de couro ajustadas e uma camisa de linho larga, com os cabelos ruivos soltos, chicoteando o ar como chamas.
Quando ela saltou do cavalo no pátio, suada e com as botas sujas de lama, o Rei a esperava.
— Isso é comportamento de uma rainha, Claire? — trovejou Richard. — Seus pretendentes desistem antes mesmo de passarem pelo portão! Você fala como um marinheiro e se veste como um soldado. Onde está a doçura que eu protegi com tanto afinco?
Claire entregou as rédeas ao cavalariço e encarou o pai. O olhar dela não baixava mais; era como aço temperado no fogo da desilusão.
— A doçura morreu de fome, meu pai — respondeu ela, limpando o suor da testa com as costas da mão. — O senhor protegeu a menina para que ela fosse uma boneca, mas esqueceu que bonecas não têm alma. Eu prefiro o cheiro de cavalo e a liberdade das estradas ao perfume sufocante de um salão de baile onde todos mentem.
— Você está sendo rebelde sem motivo! — Richard exclamou, frustrado.
— Sem motivo? — ela riu, uma risada curta e seca. — O senhor me tirou a única verdade que eu já tive porque tinha medo que eu me "sujasse". Pois veja agora: eu me sujo por escolha. E se o senhor tentar me trancar novamente, eu juro que o mar será pequeno para o quão longe eu pretendo fugir.
O Peso do Tempo no Mar
Enquanto isso, a centenas de milhas dali, o Horizonte Negro cortava as águas com uma precisão mortal. Yaman Olivier, agora com trinta e seis anos, era um homem cuja presença silenciava tavernas inteiras. As marcas do tempo em seu rosto apenas acentuavam sua beleza bruta; seus olhos pareciam ter guardado toda a melancolia dos oceanos que navegou.
Ele estava em seu camarote, cercado por mapas que mal olhava. O mico, agora mais lento e grisalho, dormia em uma almofada de veludo que Yaman fizera questão de comprar — um pequeno luxo que o lembrava do palácio.
Kaelen entrou sem bater, encontrando o capitão segurando um pequeno objeto de prata: um prendedor de cabelo que ele encontrara no jardim de Lâfrer cinco anos atrás e que nunca tivera coragem de jogar fora.
— Cinco anos, Yaman — disse Kaelen, encostando-se na porta. — Cinco anos que você navega em círculos, voltando para essa mesma rota toda vez que a lua fica cheia.
— O vento me traz para cá, Kaelen. Não eu — mentiu Yaman, a voz mais profunda e cansada.
— O vento não segura prendedores de cabelo no bolso do casaco — retrucou o amigo. — Você rejeitou todas as mulheres, todos os tesouros fáceis. Você se tornou um santo ou um covarde? Porque um homem de verdade admite quando cometeu o maior erro da vida dele.
Yaman levantou-se, caminhando até a janela de popa. O mar estava calmo, mas dentro dele havia uma tempestade que nunca cessava.
— Eu era um homem de trinta e um anos assustando uma menina de dezessete. Eu achei que estava sendo nobre ao quebrá-la. Achei que ela encontraria um príncipe, teria filhos e seria feliz na sua ignorância.
— E as notícias dizem o contrário, não dizem? — Kaelen cruzou os braços. — Dizem que a princesa de Lâfrer é uma fera que ninguém doma. Dizem que ela monta como o diabo e fala verdades que fazem o Rei tremer. Parece que você não a salvou da "sujeira", capitão. Você apenas a ensinou que o mundo dela era uma mentira.
Yaman apertou o prendedor de prata na palma da mão até sentir a ponta furar sua pele.
— Eu sinto falta dela todos os dias, Kaelen. Sinto falta daquela doçura que eu destruí. Mas o que ela veria agora? Um pirata ainda mais velho, ainda mais amargo.
— Talvez ela veja o homem que ela esperou a vida toda para encontrar de novo — disse Kaelen, saindo do camarote. — O suprimento de água está baixo. O porto mais próximo é o de Lâfrer. O que vai ser, Capitão? Vai fugir de novo ou vai enfrentar o seu destino?
Yaman ficou em silêncio por um longo tempo, observando o reflexo da lua na água. Ele se lembrou do riso de Claire, da pele alva sob o luar e da forma como ela acreditava em promessas.
— Prepare os homens — ordenou ele, finalmente, com um brilho perigoso voltando aos olhos. — Vamos para Lâfrer. E desta vez, nem o Rei, nem o mar, nem as minhas próprias mentiras vão me impedir de ver quem aquela menina se tornou.
A promessa do horizonte estava chamando, mas agora, o horizonte tinha um nome, e ele se chamava Claire.
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