A atmosfera no palácio mudou no instante em que as velas negras cortaram a neblina do porto. Claire não era mais a jovem que esperava permissão para olhar pela janela; ela era a própria tempestade.

​O Avistamento

​Claire estava jogada em uma poltrona de veludo na biblioteca, uma perna pendurada sobre o braço do móvel e a outra apoiada na mesa de carvalho. O livro de táticas de guerra repousava em seu colo, mas sua mente estava longe. Vestida com calças de couro gastas e uma camisa de linho entreaberta no pescoço, ela parecia mais um jovem oficial do que uma princesa.

​— Alteza! Claire! — Margot entrou correndo, sem fôlego, apontando para a varanda. — Ele voltou. O navio... o Horizonte está atracando!

​Claire fechou o livro com um estrondo. Um sorriso lento e perigoso, que ela não usava há cinco anos, surgiu em seus lábios. Ela se levantou com uma agilidade felina e caminhou até a sacada, observando o navio de Yaman Olivier lançar âncoras.

​— Ele demorou — sussurrou ela, os olhos brilhando com uma chama antiga.

​O Confronto na Sala do Trono

​Claire atravessou os corredores a passos largos, ignorando os protestos dos guardas, e entrou no salão onde a família real estava reunida. O Rei Richard discutia mapas com James, que agora exibia uma barba mais cheia e um olhar de quem compreendia o peso da coroa. Elisandra estava sentada próxima à Rainha Catarina, acariciando o ventre onde crescia seu segundo filho, enquanto o primogênito brincava no tapete.

​— Ele está de volta — anunciou Claire, sua voz ecoando com autoridade.

​O Rei Richard sentiu o peso dos anos nos ombros. Ele olhou para a filha — a mulher rebelde, forte e indomável que ele mesmo ajudara a criar ao tentar podá-la — e depois para o porto através da janela.

​— Eu dei ordens para que nenhum navio pirata fosse recebido — disse Richard, mas sua voz não tinha a mesma firmeza de outrora.

​— Suas ordens não valem nada contra o que o mar decide devolver, meu pai — rebateu Claire, cruzando os braços. — Ele veio. E desta vez, o senhor não vai usar minha ingenuidade contra mim, porque ela não existe mais.

​— Richard... — a Rainha Catarina levantou-se, colocando a mão no braço do marido. — Olhe para ela. Veja como ela se transformou. Você tentou protegê-la de um homem, mas acabou transformando-a na imagem dele. Se você lutar contra isso agora, você não vai apenas perdê-la... você vai destruí-la de vez.

​James trocou um olhar cúmplice com Elisandra. Ele se aproximou do pai.

— Deixe que ele suba, pai. Eu sou o herdeiro, o reino está seguro comigo e com a família que construí. Claire merece ter o que o resto de nós tem: uma escolha. Mesmo que a escolha dela cheire a salitre e perigo.

​Elisandra sorriu suavemente para Claire.

— Eu vim da plebe e fui aceita. O amor tem formas estranhas de se manifestar nos Lâfrer. Deixe que o capitão fale por si mesmo, Majestade.

​O Rei Richard suspirou profundamente, caindo sobre o trono. Ele olhou para Claire, que esperava com a cabeça erguida.

— Eu perdi você há cinco anos, não foi? No dia em que ele partiu e eu sorri achando que venci.

​— O senhor não me perdeu, pai — disse Claire, aproximando-se e tocando a mão do Rei com uma rara doçura. — Mas eu não sou mais sua menina. Eu sou o horizonte que ele prometeu.

​Richard fechou os olhos por um segundo e assentiu.

— Que ele suba. Mas se ele a ferir de novo... eu mesmo afundo aquele navio com ele dentro.

​A Espera

​Enquanto os guardas desciam para escoltar o Capitão, Claire voltou para a varanda principal. O vento agitava seus cabelos ruivos, e ela não sentia mais medo. Ela sabia que Yaman estava subindo a colina. Ela sabia que o homem que a deixara chorando na biblioteca estava prestes a encontrar uma mulher que ele mal reconheceria, mas que o amava com a intensidade de mil tempestades.

​O silêncio do palácio era absoluto, quebrado apenas pelo som metálico das botas de um pirata que, finalmente, decidira que nenhum mar era mais vasto do que o amor que tentara negar.