O Horizonte de Claire
20 Despedidas
O céu sobre o Reino de Lâfrer estava pesado, uma cortina de cinzas que parecia lamentar a partida do seu soberano. O Rei Richard, o homem que construíra muros para proteger sua flor e acabara por ver essa mesma flor ganhar asas, havia descansado.
O Horizonte Negro atracou no porto sem canhões ou gritos. O silêncio da tripulação era um tributo à sua capitã. Claire desceu a prancha de madeira com passos firmes, mas o coração parecia uma âncora arrastando-se pelo fundo do mar. Ao seu lado, Yaman, vestindo um traje de gala negro e solene, segurava sua mão com uma força que dizia: “Eu estou aqui para te segurar se você cair”.
O Encontro na Catedral
A catedral estava mergulhada no perfume sufocante de lírios e no brilho de centenas de velas. No centro, o caixão real era vigiado por James, que agora usava a coroa, e Elisandra, que segurava a mão de seus filhos com os olhos vermelhos de tanto chorar.
Quando as portas se abriram e Claire entrou, um sussurro percorreu a nobreza. Ela não era mais a menina que fugira; era uma mulher do mundo, com a pele marcada pelo sol e o olhar profundo de quem conhecia o infinito.
James caminhou até ela, abraçando-a com um desespero que as formalidades reais não podiam conter.
— Ele esperou por você, Claire — sussurrou James no ouvido da irmã. — Nos últimos dias, ele pedia para Margot abrir as janelas. Ele dizia que conseguia ouvir o som das velas do seu navio cortando o vento.
Diálogos de Despedida
Claire aproximou-se do caixão. O Rei Richard parecia pequeno sob as vestes de estado, uma sombra do gigante que um dia fora. Ela tocou as mãos gélidas do pai, as mesmas mãos que um dia a proibiram de sonhar e que, no fim, a abençoaram para voar.
— Eu cheguei, papai — disse ela, a voz embargada, mas clara. — Eu trouxe as histórias que você queria ouvir. Eu vi as ilhas de areia rosa, vi as estrelas do Sul e vi como o mundo é grande demais para ser guardado em um mapa.
A Rainha Catarina aproximou-se, abraçando a filha por trás.
— Ele guardou todas as suas cartas, Claire. Ele as lia todas as noites. No fim, ele não tinha medo de que você se perdesse; ele tinha orgulho de que você se encontrara.
Yaman deu um passo à frente, fazendo uma reverência profunda e solene diante do homem que fora seu maior adversário.
— Majestade — disse Yaman, em um tom que apenas a família podia ouvir. — O senhor me confiou o seu tesouro mais precioso. Eu prometo, diante do seu descanso, que o horizonte continuará sendo o jardim dela, e o meu braço continuará sendo a sua muralha. Obrigado por ter sido o porto que me ensinou o valor de voltar para casa.
A Lição Final
Claire olhou para James, o novo Rei, e viu o peso da responsabilidade em seus ombros.
— Ele foi um bom rei, James — disse Claire, segurando a mão do irmão. — Ele nos amou da forma que sabia, tentando nos manter seguros. Mas a maior lição que ele nos deixou foi a de que o amor sobrevive à distância e até ao tempo.
— O que você vai fazer agora? — perguntou James. — O trono precisa de você, Claire. O reino adoraria ter a princesa de volta.
Claire olhou para a saída da catedral, onde a luz do dia lutava contra a névoa, e depois para Yaman, que a observava com uma adoração silenciosa.
— Meu trono é o convés de um navio, James. Minha coroa é a espuma das ondas. O papai entendeu isso no final. Ele me deixou ir para que eu pudesse ser livre, e eu não honraria a memória dele se eu me trancasse novamente.
Naquela tarde, Claire Lâfrer não se despediu apenas de um pai, mas do último fio que a prendia à terra firme. Ela chorou, não como a menina que fora ferida na biblioteca, mas como a mulher que sabia que a morte é apenas mais um horizonte que todos, um dia, terão que navegar. E quando ela saiu da catedral, de braços dados com o seu pirata, o sol finalmente rompeu as nuvens, iluminando o caminho de volta para o mar.
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