O Horizonte Negro navegava por águas tranquilas, em um azul tão profundo que parecia espelhar o céu sem nuvens. Seis meses haviam se passado desde a despedida do Rei Richard, e a vida no mar retomara seu ritmo vibrante. No entanto, para Claire, algo havia mudado. O balanço do navio, que antes era sua canção de ninar, agora trazia um leve desconforto, e o cheiro do café matinal de Yaman parecia subitamente insuportável.

​O Segredo no Camarote

​Yaman entrou no camarote e encontrou Claire sentada à mesa de mapas, mas ela não estava traçando rotas. Ela segurava um pequeno amuleto de jade que ganhara no Império de Jade, com o olhar perdido na linha do horizonte através da janela de popa.

​— Claire? — Yaman aproximou-se, colocando as mãos nos ombros dela. — Você mal tocou no jantar ontem e não subiu ao convés para ver o pôr do sol. O que está acontecendo, meu amor? O mar está te cansando?

​Claire virou-se lentamente, um sorriso radiante e emocionado começando a florescer em seu rosto. Ela pegou a mão calejada de Yaman e a colocou suavemente sobre seu ventre, ainda plano sob a camisa de linho.

​— O mar nunca me cansaria, Yaman. Mas acho que o nosso horizonte acabou de ficar um pouco mais populoso.

​Yaman paralisou. O homem que enfrentara tubarões, tempestades e exércitos sentiu os joelhos fraquejarem. Seus olhos subiram para os de Claire, buscando confirmação.

​— Você quer dizer que... — A voz dele falhou, uma vulnerabilidade rara surgindo em seu rosto.

​— Sim, Capitão — Claire riu, as lágrimas de alegria brilhando nos olhos. — Temos um pequeno marujo a caminho. Ou talvez uma pequena pirata que vai nos dar muito trabalho.

​Yaman soltou um som que era mistura de riso e soluço, ajoelhando-se diante dela e encostando a testa em seu ventre com uma reverência que nenhum rei jamais recebera.

​— Um filho... — sussurrou ele. — Claire, eu nunca pensei que um homem como eu teria o direito de ter algo tão puro. Eu prometo que este navio será o lugar mais seguro do mundo para ele.

​A Comemoração no Convés

​Yaman não conseguiu guardar o segredo por mais de dez minutos. Ele saiu para o convés com Claire ao seu lado e gritou para que todos os homens se reunissem. Kaelen, que estava no leme, olhou para baixo curioso.

​— Escutem todos! — a voz de Yaman trovejou, mas carregada de uma felicidade óbvia. — Abram os barris do melhor rum que temos! Hoje não navegamos para tesouros de ouro. Hoje comemoramos a chegada do herdeiro do Horizonte! A Capitã vai nos dar um novo tripulante!

​Um silêncio de choque durou apenas um segundo antes que o navio explodisse em gritos, assovios e aplausos. Kaelen desceu as escadas de dois em dois degraus, abraçando Yaman com força e depois fazendo uma reverência exagerada para Claire.

​— Uma pequena Lâfrer-Olivier! — exclamou Kaelen, rindo. — Já vou começar a esculpir uma espada de madeira pequena o suficiente para as mãos do bebê. E, por favor, Claire, que ele herde a sua paciência, porque se tiver o temperamento do pai, o navio afunda em uma semana!

​— Ele vai ter a liberdade de ambos, Kaelen — respondeu Claire, rindo enquanto era cercada pelos marinheiros que traziam canecas e votos de saúde.

​Sob as Estrelas

​Mais tarde, quando a festa no convés se acalmou e apenas o som da água cortada pelo casco permanecia, Claire e Yaman ficaram na proa, observando o reflexo das estrelas no oceano.

​— Você acha que meu pai ficaria feliz? — perguntou ela, encostada no peito de Yaman.

​— Eu acho que ele está rindo lá de cima — Yaman a apertou com carinho. — Ele sempre quis que você estivesse segura. E agora, você vai criar uma criança onde não existem muros, apenas possibilidades.

​— Ele ou ela vai conhecer o mundo inteiro antes de saber andar — Claire comentou, sonhadora. — Vamos contar a história de como um pirata rabugento e uma princesa teimosa decidiram que o amor era a única bússola que importava.

​Yaman beijou o topo da cabeça dela, olhando para o horizonte escuro e infinito.

— Nossa história está apenas começando, Claire. Cada porto será uma descoberta, e cada onda será uma lição.

​Ali, no meio do oceano, longe de tronos, coroas ou protocolos, a Princesa de Lâfrer e o Capitão do Horizonte encontraram sua maior aventura. O epílogo de suas vidas não era o fim, mas a promessa de que o amor, quando é verdadeiro, transforma o mar em lar e o amanhã em uma esperança eterna.

​O navio seguiu seu curso, carregando agora não apenas dois amantes, mas o futuro de uma linhagem que nunca mais seria aprisionada por paredes de mármore. O horizonte, enfim, estava completo.

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