A noite no palácio de Lâfrer era envolta em um silêncio que, para Claire, soava como um grito. O relógio de carvalho no corredor ecoava cada batida, lembrando-a de que o tempo estava passando e que aquela sensação avassaladora de "espera" que ela carregara por dezessete anos parecia ter encontrado um destino.

​Sem conseguir fechar os olhos sem ver o brilho metálico do olhar de Yaman, ela se levantou. Calçou seus chinelos de seda e envolveu-se em um robe de veludo azul-profundo. As damas de companhia dormiam no quarto ao lado, e o palácio, imerso em sombras, parecia um labirinto de segredos. Ela desceu as escadarias laterais, aquelas usadas pelos criados, e escapou para o jardim real, buscando o frescor da noite para acalmar o fogo que sentia nas bochechas.

​O jardim de Lâfrer era famoso por suas esculturas e roseiras raras, mas, sob o luar, ele parecia um reino fantasmagórico. Claire caminhou até a fonte central, mas parou abruptamente quando avistou uma silhueta alta e imponente encostada em uma estátua de mármore de uma deusa antiga.

​Era ele.

​Yaman não usava o casaco de gala que exibia no baile. Ele estava apenas com uma camisa de linho branco, cujas mangas estavam dobradas até os cotovelos, revelando braços fortes e marcados por cicatrizes que pareciam mapas de batalhas esquecidas. O mico estava aninhado em seu ombro, dormindo calmamente. O pirata observava a lua com uma expressão que Claire não conseguira decifrar: uma mistura de liberdade e uma solidão profunda.

​— O sono das princesas costuma ser perturbado pelo sereno da noite, ou apenas pelo mistério? — ele perguntou, sem sequer se virar. Seus sentidos eram afiados como a lâmina que carregava na cintura.

​Claire deu um sobressalto, o coração saltando na garganta.

— Eu... eu não sabia que havia mais alguém aqui. O senhor não deveria estar nos aposentos da ala leste?

​Yaman virou-se lentamente. A luz da lua batia em seu rosto, esculpindo suas feições de forma quase divina e perigosa. Ele deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Claire, fazendo-a sentir o cheiro de sândalo, tabaco e o salitre do mar.

​— Paredes de pedra me dão calafrios, Alteza. No mar, o teto são as estrelas e as paredes são feitas de vento. Eu precisava ver se o céu daqui é o mesmo que guia meu navio.

​Claire, movida por uma curiosidade que vencia sua timidez, deu um passo corajoso em direção a ele.

— E é? O céu é o mesmo?

​— As estrelas são as mesmas — ele respondeu, baixando o tom de voz, tornando-a uma carícia rouca. — Mas o horizonte... o horizonte aqui parece ter uma cor diferente. Mais doce. Mais perigosa para homens como eu.

​— Por que perigosa? — ela perguntou, os olhos grandes e ingênuos fixos nos dele.

​Yaman riu baixo, um som vibrante que ecoou no peito de Claire.

— Porque a terra firme tenta nos convencer a lançar âncoras. E um pirata sem movimento é como um pássaro sem asas. Mas veja você... — ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta, tocou uma mecha de cabelo ruivo que caía sobre o ombro dela. — Você é a própria definição de terra firme. Tudo em você é calma, ordem e beleza.

​Claire sentiu um choque percorrer seu corpo com o toque dele. Ela nunca fora tocada daquela forma, com tanta intensidade e verdade.

— Eu sempre achei que a calma fosse uma prisão, Capitão. Eu olho para o mar da minha janela e sinto que ele está me chamando. James teve coragem de escolher o amor acima do protocolo. Eu... eu ainda estou esperando minha vida começar.

​Yaman aproximou-se mais, diminuindo a distância até que seus hálitos se misturassem. Ele podia ver o brilho das lágrimas de ansiedade nos olhos dela.

— Pois saiba, Claire Lâfrer, que a vida não começa quando recebemos permissão. Ela começa quando decidimos que o horizonte não é longe demais para ser alcançado.

​Ele levou a mão ao rosto dela, o polegar traçando levemente a linha de sua mandíbula. Claire fechou os olhos, entregando-se àquela sensação desconhecida.

— O senhor vai embora, não vai? — ela sussurrou, a voz embargada. — Assim que o navio estiver abastecido.

​— Os ventos costumam ser cruéis com os meus desejos — Yaman murmurou, o rosto agora a milímetros do dela. — Eu vim por comida e água, mas sinto que posso partir com uma sede que nenhum oceano será capaz de saciar.

​Naquele momento, o silêncio do jardim foi preenchido por uma tensão elétrica. Eles estavam em mundos opostos: ela, a herdeira de uma linhagem milenar; ele, um fora da lei que não devia lealdade a ninguém. Mas, sob a luz daquela lua, eles eram apenas dois jovens cujos destinos haviam acabado de colidir de forma irremediável.

​Um barulho de passos metálicos ecoou ao longe — a troca de guarda do palácio. Yaman se afastou rapidamente, voltando para a sombra da estátua, mas seu olhar permaneceu fixo nela.

​— Volte para o seu sonho, princesa. Mas não esqueça... o horizonte continua lá fora, esperando por você.

​Claire ficou ali, parada, observando-o desaparecer entre as sombras das árvores, enquanto seu coração batia em um ritmo que nunca mais voltaria ao normal. Ela não era mais a mesma menina que descera aquelas escadas minutos atrás. O pirata não tinha roubado ouro, mas acabara de levar consigo o sono e a paz da princesa de Lâfrer.