O Horizonte de Claire

4 Histórias ao café da manhã


A manhã no palácio de Lâfrer nasceu tingida de um dourado pálido, mas o clima no grande salão de refeições era mais vibrante do que o habitual. A mesa longa, feita de carvalho escuro e coberta por linho finíssimo, estava repleta de frutas frescas, pães artesanais e geleias.

​O Rei Richard e a Rainha Catarina presidiam a mesa, com James e Elisandra ao lado. Claire ocupava seu lugar habitual, mas seus olhos, levemente sombreados pela falta de sono, não paravam de viajar em direção à cadeira onde Yaman Olivier se sentava.

​Yaman parecia estranhamente à vontade, apesar de cercado por talheres de prata que ele mal sabia usar. O pequeno mico, instalado em seu ombro, recebia pedaços de maçã das mãos de Elisandra, que estava encantada com o animal.

​— Então, Capitão — começou o Rei Richard, cortando uma fatia de queijo —, meu filho diz que o senhor enfrentou criaturas que fariam nossos cavaleiros tremerem. É verdade ou apenas o efeito do rum nas tavernas?

​Yaman deu um sorriso de lado, recostando-se na cadeira com uma confiança que desafiava a etiqueta real.

​— Majestade, o rum ajuda a contar a história, mas as cicatrizes não mentem. Houve uma vez, nas águas do Mar de Vidro, onde o sol é tão quente que a água parece ferver... encontramos um Tubarão-Cicatriz.

​Claire parou com a xícara de porcelana a meio caminho dos lábios.

— Tubarão-Cicatriz? — ela repetiu, a voz doce carregada de fascínio.

​— O maior que já vi, princesa — Yaman respondeu, fixando o olhar nela, fazendo o coração de Claire dar aquele solavanco familiar. — Ele tinha quase o tamanho do meu barco de apoio. Tinha a pele cinza como metal e olhos negros que não tinham alma. Ele não queria apenas comer; ele queria o navio.

​— E o que o senhor fez? — James perguntou, inclinado para frente, esquecendo-se completamente de seu café.

​— Ele investiu contra o casco, fazendo a madeira ranger como se fosse papel. Meus homens estavam prontos para atirar, mas eu sabia que pólvora não matava aquele demônio. Peguei um arpão de osso, amarrei uma corda na cintura e esperei. Quando ele saltou, a mandíbula aberta revelando fileiras de dentes como adagas... — Yaman fez uma pausa dramática, usando as mãos para demonstrar o tamanho da criatura.

​Claire soltou um pequeno suspiro, os olhos brilhando. Ela conseguia imaginar a cena: o azul do mar, o perigo iminente e aquele homem destemido enfrentando o monstro.

​— Eu mergulhei — continuou Yaman, baixando o tom de voz. — Foi um segundo de silêncio sob a água, apenas eu e ele. O arpão encontrou o lugar certo, mas a força da fera me arrastou por quase um quilômetro mar adentro. A corda queimava minha pele, a água entrava nos meus pulmões, mas eu não soltei. Um pirata que solta sua arma, solta sua vida.

​— O senhor poderia ter morrido! — exclamou a Rainha Catarina, levando a mão ao peito, embora houvesse um sorriso de admiração em seu rosto.

​— A morte e eu temos um acordo, Majestade: ela me persegue, e eu corro mais rápido — Yaman piscou para a Rainha, que soltou uma risada rara e sonora.

​Claire sorria abertamente agora, uma risada contida e melódica. Ela estava encantada não apenas pela história, mas pela forma como ele a contava — como se o perigo fosse apenas um velho amigo.

​— E o tubarão? — perguntou Claire, curiosa.

​— Ele sobreviveu. E eu também. Hoje, ele deve estar por aí com uma marca de osso no flanco, lembrando-se de que o navio do Capitão Olivier não é uma presa fácil.

​— Que história magnífica! — James exclamou, batendo na mesa. — Viu, Elisandra? Eu disse que a vida no palácio era pacata demais.

​— Pacata, mas segura, James — respondeu Elisandra, embora olhasse para o noivo com carinho. — Nem todos nascemos para mergulhar com monstros.

​O Rei Richard observava a interação. Ele notou como sua filha, a meiga e ingênua Claire, não tirava os olhos do pirata. O sorriso dela era diferente naquela manhã — mais vivo, mais desperto.

​— O senhor tem o dom das palavras, Olivier — disse o Rei, com um tom mais sério. — Mas diga-me, um homem que vive entre monstros e tempestades, o que busca em um reino de paz como o nosso?

​Yaman tomou um gole de café, seu olhar encontrando o de Claire por cima da borda da xícara. O momento mágico da noite anterior no jardim brilhou entre eles como um segredo compartilhado.

​— Às vezes, Majestade, um homem viaja pelo mundo inteiro fugindo de tempestades, apenas para descobrir que a calmaria de um porto pode ser o maior desafio de todos.

​Claire sentiu as bochechas queimarem. Ela sabia que aquelas palavras eram para ela. O café da manhã continuou com mais perguntas de James sobre navegação, mas para Claire, o mundo havia se reduzido àquele homem sentado à mesa de seu pai, transformando o palácio em um lugar pequeno demais para os sonhos que ele acabara de despertar nela.