O Homem De Preto

6 Capítulo 6 - Perigo


Eu não conseguia me mover, estava tão apavorada que meu corpo não reagia. Podia perceber que Bruna, Let e Sama me chamavam e falavam comigo, mas meu cérebro não conseguia processar as palavras, eu estava atordoada demais. Ele estava vindo. Estava me ameaçando e ameaçando minhas amigas, e não havia nada que eu pudesse fazer para impedi-lo. Olhei de relance para a janela e percebi que ela estava escancarada, e o vento forte arrastava as cortinas brancas e pretas para trás, quase arrancando-as do suporte de metal que as prendia. Levantei depressa e fui em direção à janela para fecha-la, sob o olhar de minhas amigas. Coloquei a cabeça para fora para conferir, mas não havia nada diferente. Apenas percebi que havia uma sombra atrás da árvore e... aquilo seria um pé? Chamei as meninas para confirmar o que eu havia visto, mas elas disseram que nada viram. Acho que estou ficando paranoica demais. Fechei a janela e me afastei indo novamente em direção à cama.

–--Passaremos a noite aqui com você! – disse Bruna — Não vamos deixar você sozinha.

Sama e Let concordaram com a cabeça, mas eu fiquei em silêncio. Eu queria que elas ficassem ali comigo, não me sentia segura sozinha, mas tenho medo do que pode acontecer se elas ficarem. Por que isso estava acontecendo comigo? E por que agora? Por que ele esperou tanto tempo para vir atrás de mim? Eu estive vulnerável todos esses anos, ele poderia ter me matado junto com os meus pais, mas por que não o fez?

Falei para as meninas que iria arrumar as coisas para elas dormirem ali. Fui até o quarto de hóspedes — que ficava no final do corredor na porta à esquerda – acompanhada por Sama, e juntas levamos até o quarto um colchão grande de casal e um de solteiro. Arrumamos em meu quarto de modo que ficasse apenas em um único colchão maior ao lado direito de minha cama. Ainda era cedo para dormirmos, e nenhuma de nós estava com sono, então depois de arrumar as coisas, nos sentamos em cima da cama e ficamos conversando para distrairmos a cabeça.

Desci até a cozinha para buscar coca para nós e deixei-as conversando. Separei quatro copos e os coloquei empilhados em cima da mesa. Abri a geladeira branca ao lado do fogão e peguei a garrafa de coca-cola, que já estava pela metade. Coloquei os copos empilhados de cabeça para baixo na tampa da garrafa e deixei o recinto retornando para meu quarto. Mas, quando eu estava na metade da escada, senti um calafrio percorrer minha espinha e parei. Olhei para trás e percebi que a janela que ficava ao lado da porta de entrada estava escancarada do mesmo modo que a do meu quarto. Apoiei a coca com os copos no canto do degrau e voltei até onde a janela se encontrava. Passei o olhar por toda a área que se estendia ao lado de fora, mas nada vi.

–-- Gio, cadê você? Estamos com sede! — ouvi Let gritar lá de cima.

–--Já estou indo! – Respondi

Fechei a janela, me certificando de que a havia trancado, e voltei ao meu quarto. Decidi não comentar com as garotas sobre o acontecido, já estávamos nos preocupando demais com aquela ligação no momento anterior. Apoiei a coca-cola na escrivaninha com os copos e servi para nós. Ficamos acordadas até as três horas da manhã, estávamos combinando tudo para o show do cover do Queen que aconteceria no próximo final de semana. Sama iria com a gente, descobrimos que ela também era fã de rock. Iríamos nos encontrar no shopping ela manhã e depois viríamos até a minha casa nos arrumar. Seria um grande show.

Nos aprontamos para dormir e deitamos cada uma em sua cama. Virei-me e peguei a caixinha na gaveta do bidê e peguei a foto de meus pais, abraçando-a com força. Demorei um tempo para conseguir dormir, fiquei pensando sobre tudo o que acontecera esta noite. Naquele homem e naquele telefonema estranho. Não pude deixar de ficar me perguntando o que ele queria comigo ou porque ele estava fazendo isso. Adormeci com essas perguntas em minha cabeça.

Eu estava novamente naquela cabana abandonada. Tudo estava muito escuro, e o vento gélido da noite lá fora invadia o recinto me fazendo tremer. Minhas mãos e pés estavam amarrados, eu não conseguia me mover. Sentia uma dor intensa na região abaixo das costelas, que irradiava por todo o meu corpo. Olhei para baixo, onde a dor era insuportável, e percebi que estava sangrando. Havia um corte profundo que se estendia por toda a parte lateral da minha barriga. Eu não podia estancar o sangue, com as mãos amarradas para trás não havia nada que eu pudesse fazer, apenas sentir dor. Tentei me libertar das cordas que me prendiam, mas eu estava muito fraca devido a perda de sangue. Tentei me mover um pouco para o lado para poder me afastar da janela, mas parei no momento em que minha mão direita encostou-se a alguma coisa fria. Tateei mais para ver o que era, parecia... um braço! Olhei assustada para onde o braço estava e consegui perceber a silhueta de alguém amarrado ao meu lado. Meus olhos já estavam se acostumando com a escuridão, então empurrei o braço que estava cobrindo o rosto da pessoa para trás. Uma onde de pavor percorreu meu por meu corpo. Era Bruna.

Me arrastei para mais perto dela o mais rápido que pude.Usei as mãos amarradas com dificuldade e tentei sacudi-la. Eu queria berrar, chamar o nome dela, mas a fita que estava presa em minha boca não me permitia. Finalmente vi que Bruna mexeu seus pés e logo após abriu os olhos. Um sentimento de alívio me invadiu enquanto Bruna olhava assustada para mim. Ela também estava amarrada e com uma fita presa a boca, portanto não conseguimos nos comunicar direito. Ela indicou com a cabeça algo que estava um pouco mais para o lado dela. Olhei naquela direção e percebi que Sama e Let também estavam lá. Bruna se arrastou para o lado e conseguiu alcançar as pernas de Sama com seus pés. Depois de algumas tentativas Sama acordou assustada, e logo em seguida acordamos a Let.

O ferimento em minha barriga estava doendo. Bruna tentou me ajudar, mas era difícil com as mãos amarradas. Ouvimos o som de passos ao longe, que ficava cada vez mais alto conforme o passar dos minutos. O barulho cessou e meu corpo enrijeceu. Um homem apareceu parado em nossa frente, um homem do qual eu nunca me esqueceria. O homem de preto.

Acordei num enorme salto encharcada de suor. Eu estava febril e meu corpo inteiro tremia incontrolavelmente. Olhei para o lado, procurando minhas amigas e o terror me invadiu. Todas haviam desaparecido.