O Homem De Preto
7 Capítulo 7 - A Caminho do Desconhecido
Notas iniciais
Levantei rapidamente e comecei a olhar para todos os lados desesperada. Desci as escadas, fui até a cozinha, a sala, o banheiro, procurei em todos os cômodos da casa e não consegui encontrá-las. O que havia acontecido com as minhas amigas? O pavor e o desespero começaram a tomar conta de mim neste momento. Era tudo culpa minha. Minhas amigas haviam tentado me ajudar e agora estavam desaparecidas, e era tudo culpa minha! Eu já tinha quase certeza de quem havia sido o responsável. Corri até o computador e chequei minha caixa de e-mails para ver se encontrava alguma coisa. Um novo e-mail, novamente de um desconhecido. Abri-o:
“Bom Dia Giovanna,
Gostou da pequena surpresa que preparei para você?
Aposto que você deve estar desesperada agora procurando por suas preciosas amiguinhas! Pois bem, faça tudo o que eu lhe disser e ninguém sairá ferido. Caso contrário, suas amigas podem sofrer as consequências!
Faça o seguinte:
Vá até o Parque, e caminhe até onde você estava com os seus pais no dia em que eu os assassinei. Lá você irá encontrar uma pequena trilha escondida em meio às árvores. Siga esta trilha até o final, lá você irá encontrar dois casebres. Siga em direção ao da direita e vá até os fundos. Pegue tudo o que estiver dentro da sacola que deixarei para você, entre na casa e vá até a sala, lá você receberá mais instruções sobre o que quero que você faça para mim.
Faça isso e poderá ver suas amigas novamente. Qualquer truque contra mim e elas pagarão por você!
Vejo você em breve...”
A sensação de desconforto e de pavor novamente me invadiram. Ele havia capturado minhas amigas, como pude deixar isso acontecer? Elas eram a única coisa que eu ainda tinha e eu consegui deixá-las nesta situação. Mas eu não vou deixar aquele homem passar impune por tudo isso, irei fazê-lo pagar por tudo o que ele me fez sofrer, e irei em busca da justiça pela morte dos meus pais. Devo isso a eles.
Eu queria chamar a polícia, mas a vida da Bruna, da Let e da Sama estavam em perigo, e eu não podia arriscar. Mas a polícia de nada resolveria, não resolveram sete anos atrás com a morte dos meus pais... Porque resolveriam agora? A única coisa que me restava fazer agora era ir até o local que o homem havia mandado. Teria de encontrar minhas amigas sozinha.
Fui até o armário perto da janela, e peguei minha velha mochila preta com notas musicais estampadas, que estava na gaveta de baixo, e a joguei em cima da cama. Abri a mochila e tirei de dentro dela meus materiais escolares. Caminhei até o bidê ao lado de minha cama e abri a gaveta. Peguei a pequena caixa vermelha e fiquei segurando-a por um tempo. Fiquei olhando para os detalhes em dourado que cobriam toda a caixa e sentindo o peso não muito grande que a caixa trazia à minhas mãos.
Cloquei-a com cuidado na parte superior do bidê e abri a trava que a mantinha fechada. Tirei todas as fotos e papéis que haviam ali, deixando o fundo aparecer claramente. Apertei o botãozinho quase imperceptível que havia no canto direito, fazendo aparecer um lugar bem no centro do fundo da caixa para por uma chave pequena. Retirei o cordão prateado que estava preso em meu pescoço e segurei a chavezinha de prata. Encaixei-a em seu respectivo lugar e a girei. Houve um estalo, e uma pequena abertura surgiu na lateral. Coloquei a ponta de meus dedos na abertura e fiz força para cima, levantando o fundo da caixa. O compartimento não era muito grande, era estreito, com o fundo vermelho, e com os mesmos detalhes em dourado da parte exterior da caixa. Dentro dele, havia duas chaves. Uma grande e dourada, com um brilho intenso, como se tivesse acabado de ser polida. A outra menor e prateada, percebendo-se que a ponta estava levemente enferrujada.
Peguei as duas chaves e me levantei, saí do meu quarto e parei na porta do corredor logo em frente a ele. A porta que dava para o quarto de meus pais. Coloquei a chave maior na fechadura, que se encaixava perfeitamente, e a girei. Respirei fundo, ansiosa, eu não entrava lá desde a morte dos meus pais, quando eu havia trancado a porta e guardado a chave na caixinha. Segurei firmemente a maçaneta, e a girei para o lado esquerdo, ao mesmo tempo em que eu empurrava a porta para trás, abrindo-a.
Cliquei no interruptor da parede logo ao lado da porta e uma forte luz branca iluminou o recinto. O quarto estava exatamente como eu o havia deixado. A cama grande de casal estava arrumada com uma colcha braça florida e dois travesseiros brancos à cabeceira. Em frente ao travesseiro direito, o que pertencia ao meu pai, havia um pequeno terço. Meu pai sempre o deixava junto à suas coisas de trabalho, ele dizia que se sentia mais seguro quando estava com ele, eram raros os dias que isso não estava junto com ele. Ele e minha mãe eram historiadores, e trabalhavam juntos, então estavam quase sempre em função do trabalho. Mas sempre que podiam, eles ficavam comigo, ou me levavam a algum lugar diferente para nos divertirmos juntos. Eram os meus momentos mais felizes.
Em frente ao travesseiro de minha mãe, havia uma correntinha dourada, com um medalhão de um coração em chamas, que se abria revelando uma foto dela e de meu pai no dia em que se casaram, e uma foto minha quando eu era pequena, no dia em que eu completei cinco anos. Eu e meu pai o havíamos comprado para dá-lo de aniversário a minha mãe dois meses antes de sua morte. Ela nunca o tirava, dizia que eu e meu pai éramos as coisas mais importantes da vida dela. Pendurei a corrente em meu pescoço e apertei o terço entre os dedos. Lágrimas escorriam por minhas bochechas enquanto as lembranças de todos os nossos momentos juntos inundavam minha mente. Queria tanto que eles estivessem aqui comigo neste momento, sentia falta da maneira como eles cuidavam de mim, de como eles se sentavam ao meu lado quando eu tinha algum problema, e me diziam que eu não precisava me preocupar, e que eles sempre estariam ali para me ajudar. E agora aqui estava eu, sentada em cima da cama deles, chorando, sob ameaça do homem que os assassinou.
Levantei-me limpando as lágrimas e me dirigi ao balcão de madeira em frente à cama. Em cima dele havia a caixinha de joias da minha mãe, alguns perfumes, o relógio de ouro que meu pai usava para ir trabalhar e alguns papéis espalhados. Folheei-os e encontrei anotações sobre diversos crimes ocorridos há muito tempo. Achei isso muito estranho, então recolhi as folhas e as dobrei, deixando-as separadas em um canto. Peguei o relógio de meu pai e o coloquei no pulso, era um relógio lindo e eu sempre havia gostado dele.
Virei meu olhar em direção à grande gaveta que se encontrava na parte de baixo do balcão. No centro da gaveta, logo abaixo do puxador, se encontrava uma fechadura, onde encaixei a chave prateada menor que havia pego na caixa. Abri a gaveta lentamente, e encontrei no fundo dela o que eu estava procurando, a faca de ouro que pertencia ao meu pai. Eu o havia visto saindo uma noite com aquela faca presa à cintura. Ela era inteiramente dourada, seu cabo era revestido em detalhes e imagens que eu não conseguia identificar, e sua lâmina era tão afiada que qualquer descuidado poderia resultar em algo desastroso. Na lateral da lâmina, haviam alguns símbolos gravados, eu não conseguia identificá-los, mas eles me pareciam muito familiares. Um símbolo maior, no centro da faca me chamou a atenção. Era composto por duas espadas grandes que se cruzavam, formando um X, com as siglas “GS” gravadas em cima. Era um símbolo diferente, mas eu tinha quase certeza de que já o havia visto em algum lugar, só não conseguia lembrar onde.
Apoiei a faca no chão com cuidado, pegando em minhas mãos uma garrafa dourada, que também estava na gaveta. No centro da garrafa havia o mesmo símbolo que estava gravado na faca. Abri a tampa da garrafa, ela estava cheia de um líquido transparente, que parecia água, mas o cheiro era muito forte, algo que eu nunca havia sentido.
Levei tudo o que encontrei no quarto de meus pais até o meu, colocando tudo cuidadosamente em cima da cama. Apaguei a luz do quarto dos meus pais depois de dar uma última olhada e tranquei a porta. Guardei as duas chaves e as fotos na caixinha e a coloquei de volta na gaveta.
Dirigi-me até o armário, e coloquei uma camiseta preta, e uma calça jeans escura. Peguei o all-star preto e branco de cano alto, na prateleira de cima e calcei-os. Coloquei meu notebook dentro da mochila, e logo em seguida coloquei as coisas que eu havia separado em cima da cama, deixando apenas a faca dourada de fora. Esta, coloquei em um cinturão especial preto que eu havia ganhado de meus pais depois de muito implorar, pendurando-o a minha calça. Deixei minha camiseta solta, de modo que cobrisse todo o cinto, juntamente com a faca. Peguei a mochila na mão, e saí em direção às escadas.
Desci-as lentamente e segui para o escritório. Lá, alojado na parede, havia um armário branco de metal. Peguei a chave que o abria embaixo do móvel da escrivaninha e parei em frente a ele. Abri o armário, revelando duas armas contidas lá dentro, uma maior apoiada na parte de cima, e uma pistola menor na parte de baixo. Peguei a menor, e conferi se havia munição. O cartucho estava cheio, mas peguei mais um para prevenção.
Meus pais gostavam de manter aquilo ali por motivos de segurança. Os dois mantinham o máximo de segurança possível na casa, eu nunca havia entendido direito o porquê de tanta segurança, mas sempre agradeci a eles por isso, agora mais do que nunca.
Guardei a arma e as balas dentro do bolso da mochila, ficando assim mais fácil para eu pegar caso fosse preciso, e fui em seguida para a cozinha. Abri a gaveta e peguei mais uma faca, grande e bem afiada. Como meus pais, eu gostava de sempre me sentir o mais segura possível, e estar sempre prevenida, pegando mais coisas do que o necessário, afinal, era a minha vida, e a das minhas amigas que estavam em jogo. Cobri a lâmina da faca com uma proteção, para que não rasgasse a mochila, mas que fosse de um modo fácil de retira-la, e guardei-a no bolso maior da mochila, deixando o aposento.
Na parte de baixo das escadas, havia uma pequena despensa, onde guardávamos velharias, ou coisas que não usávamos frequentemente. Abri a porta que dava acesso a essa despensa e ali peguei uma corda, que estava meio gasta, porém em boas condições. Coloquei-a na mochila também, e parti em direção à porta da frente. Dei uma olhada na mochila para conferir se não havia esquecido nada e tranquei a porta, guardando a chave dentro dela.
Percebi que o terço do meu pai ainda estava entrelaçado em meus dedos. Apertei-o mais forte, começando a caminhar em direção ao parque. Eu estava muito nervosa, minhas mãos não paravam de remexer no terço, e minhas pernas tremiam a cada passo dado. Quanto mais perto eu chegava do parque, mais ansiosa eu ficava. As perguntas ecoavam em minha cabeça: Quem realmente era aquele homem? Porque estava vindo atrás de mim? E que poder era aquele, do qual ele tanto falava? Eu esperava encontrar as respostas, não sairia de lá sem elas.
Cheguei no parque, e fui no local que o homem havia mandado, o lugar onde meus pais morreram. Lembranças daquele dia começaram a tomar conta de mim. Da horrível maneira como ele os matou, e dos dois deitados ensanguentados no chão, sem nada que eu pudesse fazer para ajudá-los. Cada vez que eu me lembrava dessa cena, com mais raiva dele eu ficava, e menos medo eu sentia. Entrei na trilha escondida em meio às árvores e segui confiante. O caminho era estreito, haviam muitas árvores no meio e estava começando a escurecer. Meus braços estavam arranhados por espinhos e minha calça estava coberta de barro, mas após uns trinta minutos de caminhada consegui identificar uma abertura nas árvores, dando vista a um lugar enorme.
Na área externa do lugar não havia praticamente nada, apenas grama. Um pouco mais ao fundo, haviam duas casas velhas de madeira. Algo nelas me parecia muito familiar, mas eu não conseguia identificar o que. Andei até os fundos da casa da direita, como o homem havia mandado. Encontrei uma grande sacola preta apoiada no chão em frente a porta. Abri-a e peguei de lá uma roupa larga, de cor acinzentada. Pra que isso? Havia ali também uma faca, era prateada e muito pequena, mas sua lâmina era muito afiada. Guardei o terço que estava em minhas mãos e empunhei a faca com cuidado, jogando as roupas de volta na sacola e pegando-a com a mão livre. Ao me virar para voltar à porta da frente, percebi uma coisa que eu não havia visto antes... um cemitério.
No terreno dos fundos, em meio às duas casas, havia um vasto cemitério contendo milhares de túmulos. Um único pensamento invadiu minha mente: seria eu a próxima? Tudo o que eu queria era me virar e sair correndo dali, ir para casa e não sair nunca mais de lá. Mas eu não podia, teria de engolir meus medos e encarar tudo isso. Virei-me rapidamente e voltei para a frente da casa, deixando o cemitério para trás.
Olhei para a grande porta de madeira velha e senti um arrepio, não queria entrar ali. Apertei com força o medalhão de minha mãe e em seguida girei a maçaneta. A porta se abriu com um forte rangido, respirei fundo e entrei. A casa era velha, de aspecto abandonado, e cheirava muito mal. Era a casa que eu estava em meus pesadelos.
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