Notas iniciais
Queridos leitores, segue o terceiro capítulo já revisado e reescrito. Esse é um daqueles que está beeeeem diferente em relação à versão original. Se alguém aqui estiver relendo essa história, perceberá que há um elemento completamente novo. Isso mesmo, leitor antigo, nem você sabe o que pode acontecer a partir de agora. Muahahahahaha Aproveitem o capítulo!

Naruto colocou as duas mãos na cabeça, sentindo o cérebro fritar. “Eu não estou entendendo nada!”, ele teria gritado caso estivesse sozinho. Mas não ali. Não na frente dela.

Estavam no jardim interno da mansão da Casa Principal dos Hyuuga, onde tudo — até mesmo o próprio vento — parecia ser treinado para fazer silêncio. A grama aparada se estendia em linhas perfeitas ao redor do pequeno lago ornamental, onde algumas carpas deslizavam lentamente sob a superfície cristalina. Arbustos podados com precisão ladeavam o caminho de pedras, e uma cerejeira antiga, ainda sem flores naquela época do ano, projetava sua sombra suave sobre a mesa baixa onde Naruto Uzumaki lutava contra um inimigo muito diferente daqueles aos quais estava habituado: o estudo.

Papéis. Livros. Pergaminhos. Gráficos. Mapas.

E questões com enunciados enormes.

Muitas questões.

Sentada ao lado dele, Hinata Hyuuga mantinha a postura impecável. As mãos repousavam sobre a mesa, e o olhar permanecia atento, paciente. Ela usava uma blusa clara de mangas compridas e uma saia longa azul-escura. O cabelo longo caía sobre seus ombros com a mesma serenidade que havia em sua voz. Dela vinha ainda um perfume floral, suave e adocicado. Como estavam tão próximos, Naruto sentia o aroma sempre que ela se inclinava para lhe explicar alguma coisa; e isso bastava para que ele mal conseguisse manter a concentração.

Dez dias haviam se passado desde que Naruto começara a estudar com Hinata Hyuuga. E, para surpresa de muitos — dele próprio, acima de todos —, Naruto mantivera assiduidade exemplar. Chegava sempre no horário marcado e, algumas vezes, até com antecedência. Procurava manter o foco como podia durante as horas de estudo, mesmo quando os exercícios pareciam estar escritos numa língua inventada apenas para torturá-lo. Também se esforçava de verdade para compreender os temas mais variados; e quando precisava de ajuda, ouvia atentamente as explicações de Hinata.

Ah, Hinata...

Ela, sem dúvida, era um verdadeiro anjo.

Para Naruto, era surpreendente como Hinata conseguia não apenas compreender com precisão as muitas dúvidas que ele lhe trazia, como também possuía uma facilidade singular para explicar o conteúdo de um jeito que ele pudesse assimilar. E, caso Naruto ainda não entendesse determinado assunto ou exercício, Hinata tinha a paciência necessária para explicar de novo, e de novo, até que ele finalmente conseguisse acompanhar.

Durante aqueles dias, Naruto descobriu algo muito importante: Hinata era doce, sim. Gentil, sim. Paciente, mais do que qualquer pessoa tinha o direito de ser.

Mas também sabia ser rigorosa. Muito rigorosa.

E, naquele exato momento, a paciência de Hinata Hyuuga estava sendo posta à prova novamente.

— Naruto-kun — disse ela gentilmente —, leia o enunciado da questão mais uma vez. Com calma.

Naruto obedeceu. Pôs os olhos no texto primeiro. Depois nos gráficos. Por último, nas alternativas.

A questão da vez era de uma disciplina com a qual Naruto vinha encontrando maior dificuldade: Engenharia de Campo. Ela descrevia uma missão hipotética em terreno montanhoso e acidentado, com variação climática, possibilidade de deslizamento, duas rotas de evacuação, uma ponte parcialmente danificada e uma equipe médica posicionada a três quilômetros do ponto de conflito. O candidato deveria calcular o trajeto mais seguro para retirar civis feridos, no menor tempo possível, considerando riscos ambientais, capacidade de transporte e probabilidade de emboscada.

Naruto encarou o papel. O papel encarou Naruto de volta.

“Ei, pessoal...”, Naruto fechou os olhos por alguns segundos, chamando em seus pensamentos. “Será que alguém pode me dar uma mão nessa daqui? Por favor, só dessa vez!”

As respostas pipocaram em sua mente quase de imediato, uma após a outra:

“Pela última vez, Naruto, não”, resmungou Kurama.

“Esforce-se, garoto”, ordenou Son Goku.

“Francamente. Assim você nos decepciona”, lamentou Matatabi.

“Ai, que burro, dá zero para ele”, comentou Saiken, em meio a algo que parecia uma gargalhada borbulhante.

Naruto contraiu o rosto. “Traidores.”

— Naruto-kun.

Ele piscou duas vezes, quase em um susto.

— Sim, Hinata?

A garota o olhava fixamente com um sorriso doce nos lábios. Era uma expressão tão bela e, ao mesmo tempo, tão assustadora, que Naruto sentiu um arrepio discreto correr pelas costas. Naquele instante, Hinata Hyuuga parecia alguém capaz de ler cada microexpressão dele — e, quem sabe, até mesmo sua mente — sem sequer precisar ativar o Byakugan.

— Não pode usar as Bestas com Caudas para isso — disse ela.

Naruto arregalou os olhos.

— Hã... não, não, eu só ia—

— Estamos conversados? — perguntou Hinata, sem perder o tom gentil da voz.

Naruto engoliu em seco.

— Estamos.

— Ótimo.

Ela sorriu e, em seguida, posicionou o dedo sobre o papel, indicando o mesmo exercício no qual Naruto havia travado.

— Agora, mais uma vez.

O destemido Naruto Uzumaki, herói de todo o mundo shinobi, portador do chakra de todas as Bestas com Caudas e futuro Hokage da Folha, tremia enquanto lutava com todas as forças para resolver mais uma questão de Engenharia de Campo... aquela bendita questão.

E Hanabi Hyuuga observava toda aquela cena de longe com ar divertido.

Enquanto Naruto e sua irmã mais velha estudavam reservadamente no jardim dos fundos da mansão, Hanabi estava na sala de estar, deitada em um dos sofás com um livro de romance policial nas mãos. Ou, ao menos, fingia estar lendo. Na prática, dedicava muito mais atenção a cada mínimo detalhe que seu Byakugan conseguia captar do jardim do que às páginas abertas diante de si.

Junto com ela, sentado em sua própria poltrona, Hiashi Hyuuga desfrutava de uma xícara de sencha em silêncio. O líder do clã Hyuuga confiava em Naruto Uzumaki o bastante para não se incomodar em deixá-lo a sós com sua primogênita no jardim da Casa Principal. Além disso, conhecia Hinata o suficiente para saber que, se ela lhe dissera que iriam somente estudar, então era verdade.

Mesmo assim, Hiashi não era alheio ao que estava acontecendo. Afinal, também já fora jovem. E, atualmente, além de tudo, era pai de duas meninas.

— Pare de bisbilhotar sua irmã, Hanabi — repreendeu, após terminar a xícara de chá.

— Mas é bem divertido, pai — disse a garota, rindo sem qualquer tipo de culpa. — O senhor também deveria experimentar.

Hiashi meneou a cabeça e serviu-se de mais chá verde.

— Não tenho necessidade disso.

— Claro que não — respondeu Hanabi, ainda com o Byakugan ativado e focado no jardim. — O senhor só está sentado exatamente no melhor ângulo possível para observar os dois sem parecer que está observando.

Hiashi parou por um instante, a mão ainda sobre o bule, e encarou a filha caçula. Hanabi, por sua vez, sorriu, satisfeita consigo mesma.

— Só estou dizendo que eu percebo certas coisas — justificou-se a garota.

— Percebe até demais para sua idade.

Hanabi deu de ombros.

— Obrigada.

— Não foi um elogio — respondeu o líder do clã Hyuuga. — E desative este Byakugan. Agora.

Hanabi deu um suspiro cansado.

— Sim, senhor...

Hiashi balançou a cabeça e voltou a servir-se do chá com a mesma calma de antes. Contudo, por baixo de uma expressão firme e disciplinada, havia algo muito discreto em seu semblante. Embora nunca fosse admitir, as respostas da filha caçula o haviam divertido mais do que ele pretendia demonstrar.

Enquanto isso, lá fora no jardim, Naruto parecia ter finalmente entendido a questão. Inclinou-se sobre o papel, escreveu alguma coisa e ergueu o rosto para Hinata com brilho nos olhos e a expectativa de quem aguardava um julgamento. Hinata lia tudo enquanto Naruto prendia a respiração. Quando ela apontou algo no que ele havia escrito, Naruto murchou na hora. Sua expressão era tão nitidamente desanimada que podia ser facilmente percebida mesmo de longe.

Hanabi abafou uma risada com o livro.

— Ele está sofrendo — comentou.

— Está estudando — corrigiu Hiashi.

— No caso dele, não parece haver muita diferença.

— Hanabi.

— Mas é verdade! — protestou a garota. — O grande herói dessa vila não é reconhecido exatamente por sua inteligência.

Hiashi bebeu um gole de chá, silencioso.

— Mesmo assim. Tenha respeito — ordenou à filha, que fez uma careta contrariada.

E por alguns instantes pai e filha permaneceram em silêncio, observando a cena. Hinata explicava alguma coisa, movendo o lápis sobre o papel. Naruto acompanhava o movimento com atenção quase exagerada. Vez ou outra, ele franzia a testa, fazia uma pergunta, recebia a resposta e balançava a cabeça, voltando a encarar o caderno de exercícios.

Apesar dos comentários jocosos de sua filha mais nova, Hiashi percebera algo ao avaliar Naruto Uzumaki ao longo de todos aqueles dias: ele não fazia o tipo de rapaz oportunista. Não era como se Naruto fosse alguém que quisesse apenas se aproximar de sua filha mais velha por interesse. Pelo contrário, Naruto estava comprometido com a aprovação no Exame Jounin, e estava se esforçando para isso.

E isso era algo que Hiashi certamente admirava.

— O que você acha? — perguntou o líder Hyuuga, após algum tempo.

Hanabi desviou os olhos do jardim.

— Como assim, pai?

— Sua irmã e Naruto Uzumaki. — Hiashi bebericou o chá ainda quente. — O que você pensa a respeito?

Hanabi deixou o livro repousar sobre o peito.

— Que já estava na hora de as coisas começarem a avançar.

Hiashi permaneceu calado.

— O Naruto é um cara legal, apesar de parecer um pouco careta às vezes — continuou Hanabi. — É forte. Muito forte. Mas não é arrogante... e é gentil com a Nee-sama. Eu gosto dele.

Hiashi pousou a xícara sobre o pires.

— Isso é tudo?

— Para mim, sim — respondeu Hanabi, sinceramente —, e acho que para a Nee-sama também.

Hiashi voltou a olhar para o jardim. Hinata agora corrigia a postura de Naruto diante dos papéis, aproximando um dos livros para explicar alguma coisa. Naruto coçou a nuca, constrangido, e disse algo que fez Hinata rir. A expressão dela era contida, discreta, porém inconfundível.

Hinata parecia leve. Mais leve do que Hiashi se acostumara a vê-la durante muitos anos.

— Naruto Uzumaki é mesmo uma pessoa rara — comentou ele enfim.

Hanabi piscou, surpresa. Talvez esperasse uma resposta mais fria.

— E isso é bom, não é?

— É — respondeu o pai. — Mas pessoas raras costumam atrair tanto admiração quanto temor. Às vezes, as duas coisas ao mesmo tempo.

O sorriso de Hanabi morreu aos poucos.

— O senhor fala do Pequeno Conselho?

Hiashi não respondeu de imediato. No jardim, Naruto escrevia algo no papel e Hinata inclinava-se para verificar a resposta. Após alguns segundos, ele ergueu os punhos em comemoração silenciosa, ao passo que ela ria divertida.

A cena arrancou de Hiashi uma expressão quase imperceptível; não exatamente um sorriso, mas algo próximo disso.

— Estou falando do mundo, filha. Dos anciãos. Da Alta Cúpula da vila. De qualquer um que ainda veja aquele rapaz não por quem ele é, mas pelo que ele carrega dentro de si.

Hanabi fechou o livro devagar.

— A Nee-sama não enxerga o Naruto assim. Eu também não.

— Eu sei.

— E o senhor? — perguntou Hanabi.

Hiashi voltou a erguer a xícara, mas não bebeu desta vez.

— Não posso enxergar um monstro naquele que mudou este clã sem sequer ser um Hyuuga — admitiu Hiashi. — Naruto fez por Hinata, por Neji e por todos nós mais do que eu ou qualquer um de meus predecessores jamais fez. Sempre serei grato a ele por isso.

Por um instante, Hanabi pareceu satisfeita. Até perceber que o olhar do pai continuava sério.

— Mas Hinata é minha filha — continuou Hiashi — e talvez venha a ser, de fato, a próxima líder do clã Hyuuga. A depender do tipo de laço que formarão, aproximar-se de Naruto Uzumaki certamente não será algo simples para ela. Tampouco para ele.

Hanabi baixou os olhos por um momento. Era jovem, mas não ingênua. Crescera dentro da Casa Principal. Conhecia os corredores, as vozes contidas atrás das portas, os olhares ásperos dos anciãos quando Hinata passava ou quando Naruto cruzava os portões do distrito. Para algumas mentes, Hinata Hyuuga não passava de um galho fraco, e Naruto Uzumaki, uma bomba-relógio.

— Eles estão errados — disse Hanabi, apertando os dedos contra a capa do livro. — A Nee-sama é plenamente capaz. Eu confio nela.

— Eu também — concordou Hiashi.

Hanabi olhou para o pai, cujo rosto naquele momento parecia distante, pensativo.

— O que o senhor pretende fazer, pai? — a caçula ousou perguntar.

Hiashi permaneceu em silêncio por alguns instantes.

— Mostrarei a eles o quanto sua irmã cresceu — disse, por fim.



***



Shizune havia chegado ao Edifício Hokage pontualmente às oito da manhã. Como já era de seu costume, tinha a pauta do dia organizada desde a semana anterior, além dos compromissos da Hokage muito bem memorizados. Primeiramente, Tsunade deveria prestar contas ao Conselho da Folha naquela manhã; depois, ao longo do dia, revisar relatórios de rotina, assinar alvarás referentes ao projeto de reforma urbana da vila, homologar pedidos de renovação de registros ninjas que estavam vencidos e, por último e mais importante, participar de uma reunião virtual com os líderes de todas as vilas participantes do Exame Jounin Unificado.

Se tudo ocorresse conforme o planejado, aquela prometia ser uma segunda-feira até que tranquila. Trabalhosa? Sem dúvida! Mas nada que não pudessem dar conta.

Shizune caminhava pelo corredor trazendo todas as pastas de documentos contra o peito, e Tonton caminhava fielmente ao seu lado. No caminho para o gabinete de Tsunade, Shizune cruzou com o jovem Chuunin do Setor de Arquivo, que lhe sorriu gentilmente enquanto acenava com a cabeça. Shizune cumprimentou-o de volta.

Tudo parecia tão normal.

Ao menos era o que Shizune pensava até abrir a porta do gabinete. Porque depois de abri-la, seu costumeiro “Bom dia, Tsunade-sama!” ficou preso na garganta.

O que Shizune encontrou foi um completo caos.

Tsunade dormia profundamente, com os braços sobre a mesa lhe servindo de travesseiro. Ao redor dela, havia autos físicos empilhados aos montes, que Shizune logo identificou como sendo os documentos do já concluído projeto de reconstrução da vila — e que, pelo visto, não haviam sido arquivados. Espalhadas pela mesa e pelo chão, Shizune encontrou as listas enviadas pelas delegações estrangeiras com os nomes dos participantes do Exame Jounin Unificado. Também havia pedidos de alojamento, informes da Divisão Sensorial, além de três pergaminhos ainda lacrados... e, bem ao lado da cadeira da Hokage, uma garrafa vazia de saquê.

Tonton olhou de Tsunade para Shizune, depois de Shizune para Tsunade, e guinchou baixinho, desapontada. Já Shizune estava em choque. Toda a pauta meticulosamente organizada por ela havia desmoronado bem ali diante de seus olhos.

A assistente fechou os olhos e respirou fundo.

— TSUNADE-SAMA!

No outro canto do gabinete, a Quinta Hokage apenas moveu uma das mãos no ar, como se tentasse espantar um inseto invisível.

— Oh, não! — Shizune entrou no gabinete, rapidamente trancando a porta atrás de si, e correu para sacudir a Hokage. — Vamos! Acorde!

— Hmm? Quem é? — balbuciou Tsunade, ainda de olhos fechados.

— Sou eu, senhora. Shizune.

— Ah, é você, Shizune... só mais cinco minutos...

— Tsunade-sama, por favor! — insistiu Shizune, com urgência. — Homura-sama e Koharu-sama logo estarão aqui; e a senhora tem outra reunião muito importante à tarde.

A Hokage ergueu a cabeça devagar, com os olhos entreabertos. Uma folha ficou colada em sua bochecha por dois segundos antes de deslizar lentamente de volta para a mesa.

— Shizune... que horas são?

— Oito e sete — respondeu Shizune, após consultar rapidamente o relógio de parede.

Tsunade bocejou.

— Está tarde... amanhã eu dou uma olhada...

Shizune empalideceu.

— ... já é segunda-feira, Tsunade-sama.

A Quinta Hokage piscou duas vezes enquanto sua cabeça ainda processava aquela informação. Em seguida, Tsunade se levantou em um sobressalto como se tivesse acabado de tomar um tremendo choque.

— O que você disse?! — gritou.

— Ontem a senhora trabalhou até mais tarde... e acabou passando da conta — esclareceu Shizune, com o olhar escapulindo para a garrafa no chão — Depressa! A senhora precisa se lavar e comer alguma coisa antes que—

Uma batida insistente se fez ouvir detrás da porta do gabinete.

“Oh, não!”, Shizune estremeceu.

— Tsunade. — A voz seca do conselheiro Homura Mitokado chamou do outro lado. A conselheira Koharu Utatane, sabia Shizune, estava com ele. — Abra, por favor.

Mestra e discípula se entreolharam.

— Remarco para o fim do dia? — sugeriu Shizune.

— Para o fim do dia.

Enquanto Shizune atualizava a anotação na pauta, Tsunade abriu os janelões de seu gabinete e pôs o primeiro pé para fora.

— A-aonde a senhora vai? — perguntou Shizune, incrédula.

— Em casa — respondeu Tsunade, pondo o segundo pé para fora da janela. — Vou tomar um banho, me arrumar e comer alguma coisa. Cuide de tudo por mim, Shizune. Eu volto antes da próxima reunião.

— M-mas Tsunade-sama—

Contudo, a Hokage já havia desaparecido. E, com ela, a garrafa de saquê.

Shizune olhou para Tonton sem saber o que fazer. A porquinha olhou de volta e guinchou baixinho. Enquanto isso, os conselheiros chamavam insistentemente por Tsunade de fora do escritório.

Shizune suspirou.

— Hoje vai ser um longo dia...

Antes que Homura Mitokado chamasse outra vez, a porta se abriu, revelando uma Shizune sorridente — era um sorriso que Shizune havia treinado por anos de convivência com Tsunade: cordial, respeitoso e absolutamente desesperado por dentro.

— Bom dia, Homura-sama. Koharu-sama — ela cumprimentou, curvando-se com educação. — Peço perdão pela espera.

Homura ajustou os óculos sobre o nariz e lançou um olhar para dentro do gabinete, como se pudesse atravessar Shizune apenas com a força da irritação.

— Onde está Tsunade?

— A Hokage-sama precisou se ausentar por alguns instantes e lamentou não poder recebê-los conforme o programado — mentiu Shizune. — Ela gostaria de remarcar a reunião com os nobres conselheiros para o fim do dia, se possível.

Koharu estreitou os olhos.

— O que exatamente aconteceu?

— Tsunade-sama não me deu todos os detalhes, Koharu-sama — Shizune coçou a cabeça, sorrindo e desconversando —, disse apenas se tratar de uma questão relacionada ao próximo Exame Jounin Unificado.

Os dois conselheiros se entreolharam.

— Que tipo de demanda? — perguntou Homura.

Shizune sentiu Tonton se mexer atrás de suas pernas, como se também aguardasse a resposta.

— Uma daquelas que a Tsunade-sama prefere tratar pessoalmente antes de submeter ao Conselho — respondeu, escolhendo cada palavra com cuidado. — Desculpem-me, mas eu mesma não disponho de mais informações.

O silêncio que se seguiu durou pouco, mas permaneceu longo o bastante para que Shizune pudesse ouvir o próprio coração batendo.

Homura e Koharu trocaram um olhar. Não era bem uma vitória; Shizune sabia disso. Era apenas o tipo de pausa que antecedia novas cobranças. Mas, aparentemente, estava conseguindo enrolar os dois conselheiros e salvar o pescoço de sua mestra.

— O Exame Jounin Unificado tem mobilizado recursos demais da vila — disse Koharu. — Segurança, alojamento, equipes médicas, alimentação, barreiras, escoltas... Tsunade não pode usar isso como justificativa para adiar indefinidamente as obrigações internas.

— A Hokage-sama está ciente disso — assentiu Shizune, concordando.

— Está? — indagou Homura, desconfiado.

Shizune manteve o rosto firme.

— Está — e enquanto respondia, Shizune torcia, com todas as forças, para que sua mestra não tivesse sido avistada por ninguém saltando pela vila àquela hora da manhã com a roupa suja e uma garrafa de saquê na mão.

Koharu olhou por cima do ombro de Shizune, na direção da mesa abarrotada de documentos.

— Ao menos diga que ela assinou os relatórios da reconstrução.

— Assinou — disse Shizune, sem hesitar.

Era verdade. A própria Shizune havia passado semanas inteiras com Tsunade revisando aqueles arquivos, folha por folha. Por isso, o espanto de Shizune foi ainda maior ao se deparar mais cedo com aqueles volumes ainda no gabinete da Hokage, todos pendentes de arquivamento.

Homura suspirou.

— Muito bem. No fim do dia, então.

— Eu enviarei a nova confirmação formal ao gabinete do Conselho assim que possível — garantiu Shizune, satisfeita.

— Faça isso — disse Koharu. — E diga a Tsunade que esperamos pontualidade.

— É claro, Koharu-sama.

Os dois conselheiros se afastaram pelo corredor sem parecer completamente satisfeitos, mas satisfeitos o bastante para não invadirem o gabinete. Shizune esperou até que eles dobrassem a esquina antes de fechar a porta.

Então deixou os ombros caírem.

— Foi por pouco...

Tonton guinchou em concordância.

A assistente virou-se para o interior do gabinete e encarou o próximo desafio. Não havia tempo para lamentações. A reunião virtual começaria às 14 horas, e o escritório da Hokage não poderia receber transmissões diplomáticas naquele estado. Com um suspiro, Shizune colocou as pastas sobre uma cadeira, prendeu as mangas do casaco, abriu os janelões restantes para dissipar os últimos resquícios do odor etílico e começou a pôr as coisas em ordem.

Primeiro, separou tudo que deveria ser enviado ao Arquivo. Depois, os relatórios de rotina. Em seguida, as listas de cada uma das delegações e seus respectivos pedidos de alojamento. Os informes da Divisão Sensorial ficaram em uma pilha própria sobre a mesa, à espera da Hokage, assim como os três pergaminhos.

Tonton ajudava como podia, empurrando papéis menores com o focinho quando Shizune apontava para o lugar certo.

— Não, Tonton, esse é da Cachoeira. O da Chuva fica ali.

A porquinha guinchou, entendendo perfeitamente.

Quando o relógio se aproximava das 11 horas, o gabinete finalmente voltara a se parecer com o gabinete da Hokage. Shizune, enfim, pôde se sentar e saborear a xícara de chá que fizera para si.

Foi quando a porta se abriu de repente, e Shizune quase deixou a xícara cair.

Desta vez, a Quinta Hokage parecia outra pessoa. Os cabelos loiros estavam presos e bem arrumados, o manto verde assentava-se sobre os ombros, e o selo violeta em sua testa destacava-se no rosto limpo e desperto. Ainda havia uma sombra de mau humor nos olhos castanhos de Tsunade, e não necessariamente causada pela ressaca. Era o mau humor de alguém pronta para trabalhar em uma segunda-feira.

— Como foi com aqueles dois? — a Hokage perguntou.

— Conforme a senhora me pediu, a reunião foi remarcada para o fim do dia — respondeu Shizune.

— Ótimo.

— Homura-sama e Koharu-sama esperam pontualidade.

— Eles esperam muitas coisas.

— Tsunade-sama — criticou Shizune.

A Hokage apenas sorriu e deu de ombros. Depois, caminhou até a mesa e sentou-se em sua cadeira.

— Obrigada, Shizune.

A assistente piscou, surpresa.

— Hã?

— Pelo gabinete. E pelos conselheiros.

Shizune desviou os olhos, um pouco desconcertada.

— Eu só fiz o meu trabalho.

— Exatamente — assentiu a Hokage. — É por isso que eu agradeci.

Tonton guinchou baixinho, satisfeita com a resposta. Já Shizune, como se tivesse acabado de ter um estalo, exclamou:

— Não temos tempo a perder, senhora! Ainda há muito a se fazer antes do almoço.

A Hokage apoiou o queixo em uma das mãos.

— Eu li tudo, Shizune.

— Tudo? — A assistente franziu a testa.

Tsunade fez que sim. Depois, estendeu a mão para a primeira pasta de documentos sobre o Exame Jounin Unificado.

— Nossos amigos da Areia pediram que sua delegação ficasse alojada próxima a um de nossos campos de treinamento, para evitar dispersão desnecessária de seus candidatos. E acrescentaram que, se possível, pudéssemos lhes reservar a 25ª Zona de Treinamento de Batalha, que fica perto das fontes termais. — Tsunade deu um risinho. — Tenho certeza de que Gaara fez esse pedido extra por recomendação de Temari.

Shizune ficou em silêncio.

Tsunade pegou as próximas duas pastas de uma vez.

— A Névoa e a Nuvem enviarão menos candidatos do que poderiam, mas ambas querem autorização para observadores adicionais — disse, dando de ombros. — Está claro que pretendem avaliar o padrão do exame antes de investirem mais recursos nas próximas edições.

Passou para a próxima pasta.

— A Pedra enviará uma delegação numerosa. Numerosa até demais, eu diria. — Tsunade mordeu a unha, desconfortável. — Serão dezoito candidatos.

— Seis a mais do que havíamos cadastrado — observou Shizune, surpresa. — Vão ser a maior delegação do exame.

Tsunade assentiu.

— Mas apenas nós temos o Naruto — disse em tom otimista. — De qualquer forma, quero que fique de olho nesse caso aqui, Shizune — exigiu, entregando à assistente a pasta com os arquivos da Pedra. — Por precaução.

Shizune, sem demora, pôs os arquivos sobre a própria mesa.

— Como quiser, senhora.

Na sequência, Tsunade reuniu todas as quatro pastas restantes, com os arquivos enviados pelas vilas da Grama, Cachoeira, Chuva e Fontes Termais, e passou a folhear tudo rapidamente, sem demonstrar grande interesse. Não demorou dois minutos e as pastas foram parar em uma pilha com as demais pastas que a Hokage havia revisado. Shizune observou aquilo incrédula, mas antes que pudesse abrir a boca para repreender, Tsunade olhou-a nos olhos e falou:

— Com isso, serão doze candidatos da Folha, onze da Areia, dezoito da Pedra, nove da Névoa e da Nuvem, seis da Grama e da Cachoeira, três da Chuva e das Fontes Termais. Setenta e sete participantes, divididos em nove vilas. — Deu um suspiro, seguido de um sorriso confiante. — O primeiro Exame Jounin Unificado tem tudo para ser um sucesso.

— A senhora realmente leu tudo — admirou-se Shizune.

— Eu te disse, não? Eu dormi em cima dos relatórios. Não disse que não fiz meu trabalho.

Shizune deu uma risada.

— A senhora vai acabar me matando de preocupação algum dia, Tsunade-sama.

— Talvez. Mas não hoje e nem tão cedo, espero.

As duas seguiram trabalhando a todo vapor, seguindo rigorosamente a pauta do dia. De todos os compromissos matinais, a prestação de contas fora o único reagendado. Shizune não comentou nada, mas tinha a ligeira impressão de que Tsunade havia trabalhado até tarde da noite e se embriagado de propósito, apenas para não ter que lidar com os conselheiros logo pela manhã. Se fora uma manobra calculada ou um simples acidente, Shizune nunca teria a resposta.

Quando o relógio marcou meio-dia, Tsunade se levantou.

— Hora do almoço — disse, esticando as costas. — Shizune, tranque tudo. Não quero receber mais papéis enquanto eu estiver fora.

— É claro, senhora.

— E me diga: onde quer almoçar?

Shizune franziu a testa.

— E-eu?

— Você. — Tsunade assentiu. — Considere isso uma recompensa pelo que fez por mim hoje. Vamos sair para almoçar juntas e você que vai escolher o lugar. Tudo por minha conta.

A expressão de Shizune era um misto de surpresa e gratidão. Com um sorriso singelo, ela curvou-se brevemente, aceitando o convite de Tsunade. Foi ali que Shizune sentiu um ligeiro cansaço que havia se acumulado ao longo da manhã subir-lhe pelas costas. Era um sinal claro de que o corpo lhe pedia uma pausa; e, desta vez, não seria no refeitório nem no gabinete com sua marmita de sempre. Shizune já tinha o restaurante perfeito em mente, mas hesitou por um momento. Afinal, quando se tratava de gastar dinheiro, sua mestra poderia ser um tanto irresponsável.

— O Yakiniku Q? — sugeriu Shizune, incerta.

Tsunade sorriu em aprovação.

— Você tem mesmo bom gosto, Shizune — disse a Hokage para a assistente. — Vamos indo?

Shizune suspirou aliviada.

— É claro, senhora. Tonton, vamos.

A porquinha guinchou entusiasmada e seguiu as duas mulheres. No momento em que a porta do gabinete foi trancada, Tsunade virou-se para a assistente e comentou:

— Estou pensando em deferir o pedido de alojamento da Areia para deixá-los próximo às fontes termais.

— Eu acho uma boa ideia, Tsunade-sama — concordou Shizune.

— Maravilha. Agora resta escolher os alojamentos das outras delegações — disse Tsunade, enquanto caminhavam. — Shizune, cuide disso. Você é boa em escolher lugares.

— O quê?!




Às catorze horas em ponto, Tsunade já estava de volta ao escritório, com o notebook ligado e pronta para a transmissão.

A reunião com os líderes das vilas participantes do Exame Jounin Unificado transcorreu de maneira surpreendentemente objetiva. Discretamente, de sua mesa auxiliar na lateral do gabinete, Shizune acompanhava Tsunade conduzir os trabalhos com uma maestria que quase fazia aquela manhã parecer fruto de sua imaginação. A Quinta Hokage explicou detalhadamente os protocolos de entrada das delegações, os horários e limites de circulação dentro da Folha, as regras de registro junto à Divisão Sensorial, a distribuição dos alojamentos, a autorização para observadores, a atuação das equipes médicas, os critérios de escolta e a estrutura geral das fases do exame. Cada dúvida era respondida com clareza, sem que Tsunade sequer precisasse consultar suas anotações. Ela citou dados, antecipou perguntas; e quando Kira Toraiyama, o novo líder da Vila Oculta da Chuva, ousou pôr em dúvida a segurança do evento, Tsunade manteve a reunião sob seu controle, respondendo aos questionamentos da Chuva com firmeza e autoridade.

Shizune, que havia encontrado a mesma mulher dormindo sobre a mesa de trabalho poucas horas antes, não pôde deixar de sentir um orgulho silencioso. Aquela era sua mestra, Tsunade Senju. A pessoa a quem Shizune mais admirava no mundo todo.

Quando a pauta oficial finalmente terminou, os líderes da Chuva, da Grama, das Fontes Termais e da Cachoeira se despediram em sequência, cada qual com sua medida de formalidade, respeito ou cautela. Suas imagens desapareceram uma a uma, até que a transmissão ficou restrita aos rostos dos Cinco Kage. Ali, em meio a seus pares, Tsunade sentia-se mais à vontade.

— Bom, foi mais rápido do que eu havia imaginado — comentou, já relaxada.

— Eu a parabenizo pela condução dos trabalhos, Tsunade-sama — elogiou Mei Terumi, a Quinta Mizukage. — Estou certa de que teremos um ótimo exame.

Gaara assentiu em concordância.

— Sim. Como esperado da Quinta Hokage.

Tsunade agradeceu e já se preparava para encerrar a transmissão quando Oonoki, que até então permanecera mais calado do que de costume, abriu os olhos estreitos e pigarreou.

— Princesa Tsunade, antes que encerremos, há um assunto que preferi não levantar diante de todos.

O silêncio foi geral entre os Cinco Kage. Gaara permaneceu imóvel. Mei perdeu parte do sorriso diplomático. Ay cruzou os braços, fechando o semblante. Tsunade, por sua vez, apoiou os cotovelos sobre a mesa e encarou o velho Tsuchikage com atenção renovada.

— Estou ouvindo, Tsuchikage-sama.

Oonoki demorou um instante para responder, como se calculasse as próximas palavras. Tsunade, que conhecia o Terceiro Tsuchikage há bastante tempo, sabia que era exatamente isso.

— Há rumores aqui no País da Terra — disse ele, enfim. — Rumores que eu preferiria ignorar, se tivesse idade suficiente para ainda me dar ao luxo de ser tolo.

A expressão de Tsunade endureceu.

— Que tipo de rumores?

— A Kigan no Kai parece ter voltado a se mover.

A notícia não provocou explosão alguma. Apenas um silêncio pesado e desconfortável. Gaara e Mei estranharam aquele nome, o que não era nenhuma surpresa, visto que eram os dois Kage mais jovens. Em contrapartida, o Raikage, veterano de duas guerras mundiais, e Tsunade, veterana de três, reagiram de forma completamente diferente. Ambos sabiam do que se tratava a Kigan no Kai, só não esperavam que, após tantos anos, ouviriam aquele nome de novo.

— A antiga facção radical que pretendia implementar uma revolução no País da Terra anos atrás — relembrou Tsunade.

Oonoki assentiu.

— Faz alguns meses que boatos envolvendo a Kigan no Kai têm ganhado cada vez mais repercussão na minha vila — admitiu o Tsuchikage, a contragosto. — E o cerne do problema, pelo que pude apurar, está relacionado ao desfecho da última guerra... — Oonoki olhou diretamente para Tsunade. — A Folha saiu da Quarta Grande Guerra Ninja mais poderosa do que nunca, e mais forte do que qualquer outra vila.

Tsunade respirou fundo, procurando manter a compostura. Já imaginava para onde aquela conversa iria se encaminhar e qual seria o centro de todo o debate. E, como o velho Tsuchikage jamais dava qualquer ponto sem nó, Tsunade sabia que Oonoki havia escolhido justamente uma reunião dos Cinco Kage para levantar a questão.

— Pensei que essa fosse uma questão já superada — criticou Tsunade. — As Bestas com Caudas escolheram ficar com Naruto Uzumaki. Isso está além da intervenção dos Cinco Kage.

— Não é uma questão tão simples e você sabe disso, Tsunade — respondeu Oonoki, com certo ar de ironia. — Entendo perfeitamente que Naruto foi aquele profetizado pelo Sábio dos Seis Caminhos para reunir as Bestas com Caudas. Mas isso não muda o fato de que ele é um ninja da Vila Oculta da Folha e possui, sozinho, o poder de nove armas de destruição em massa. Armas que, como todos já sabem, seu avô Hashirama fez questão de distribuir entre as demais vilas ocultas visando preservar o equilíbrio de poder.

— Meu avô impôs uma paz mundial pela força e o mundo colapsou — frisou Tsunade. — Nós, porém, conquistamos uma paz pelo sacrifício mútuo e cooperação entre nossas vilas. Olhar para o passado é retroceder à era da desconfiança.

— Eu concordo — reforçou Gaara. — O Primeiro Hokage não lidou com aliados em sua época, ao contrário de nós. Temos a oportunidade de construir algo ainda mais sólido do que ele fez.

Oonoki fez uma careta.

— É fácil falar quando sua vila recuperou parte da Besta de Uma Cauda — ironizou. — Apenas a Pedra e a Névoa não recuperaram uma porção do chakra de suas Bestas com Caudas.

De sua transmissão, Mei apoiou a cabeça sobre uma das mãos.

— Não tenho a menor pretensão de transformar um de meus subordinados em Jinchuuriki, Tsuchikage-sama — disse a Mizukage, recusando-se a morder a isca. — Naruto é o Herói do Mundo Ninja e provou seu valor a todos nós. Eu não gostaria de entrar em atrito com meus aliados da Folha apenas para reclamar uma parte do Três Caudas.

Tsunade olhou para Mei e sorriu discretamente.

— Tão ingênuo da sua parte, Senhorita Mizukage — criticou Oonoki.

— Lamento desapontá-lo.

Oonoki deu uma quase risada.

— Desapontar-me? Oh, não. Mas devo alertá-la de uma coisa: nossas vilas possuem outra coisa em comum além da perda de poder bélico para a Folha; temos manchas no passado das quais nos envergonhamos. E se todas as ervas-daninhas não forem arrancadas, não demorará para que cresçam novamente.

O Raikage esmurrou a própria mesa, roubando a atenção de todos para si.

— Já chega, Tsuchikage. Você mencionou o ressurgimento da Kigan no Kai. É exatamente disso que iremos tratar.

Oonoki encolheu os ombros.

— Está certo. Deixemos essa questão das Bestas com Caudas para outra hora — disse. — Contudo, é preciso que todos aqui tenham alguma ideia do que há por trás desses sussurros envolvendo a Kigan no Kai.

— Tsuchikage-sama, por favor, esclareça para nós — pediu, educadamente, Mei Terumi. — O que esse grupo representa hoje?

Oonoki deu um suspiro cansado.

— Senhorita Mizukage, trata-se de uma erva-daninha que não foi arrancada e cresceu.

Em poucas palavras, Oonoki explicou que, no passado, a Kigan no Kai — ou a Sociedade da Rocha Fundamental — fora uma facção ultranacionalista muito influente no País da Terra, que nascera dentro da Vila Oculta da Pedra no final do governo do Segundo Tsuchikage. Os revolucionários da Kigan no Kai rejeitavam fortemente o sistema feudal e pretendiam transformar a Vila Oculta da Pedra em uma potência militar autônoma, ainda que pelo uso da violência e do terror. A facção, no entanto, foi desmantelada e seus membros executados após Oonoki assumir como Terceiro Tsuchikage. Entretanto, rumores acerca do retorno da facção vinham se popularizando, sobretudo após a Vila Oculta da Folha sair como a grande vitoriosa da Quarta Grande Guerra Ninja. Isso porque Naruto Uzumaki, o Herói do Mundo Ninja, concentrava em si o poder total de sete das nove Bestas com Caudas, além de metade do chakra da Besta de Uma Cauda e da Besta de Oito Caudas. E se não bastasse todo o poder que Naruto Uzumaki representava, a Folha também havia adquirido o lendário Rinnegan, através de Sasuke Uchiha, visto amplamente como o segundo ninja mais forte do mundo.

Aos olhos desses radicais, enquanto o poderio militar da Folha havia aumentado exponencialmente, a Vila Oculta da Pedra, que outrora possuía as Bestas de Quatro Caudas e de Cinco Caudas, retornou não somente de mãos vazias, mas com baixas significativas em seu exército; e completamente presa a uma aliança ninja que poderia se romper cedo ou tarde.

— O discurso da Kigan no Kai ganhou alguns ecos aqui — concluiu o Tsuchikage —, especialmente entre os mais jovens.

Tsunade comprimiu a boca. “Ou seja, é provável que algum candidato da Pedra esteja ligado à Kigan no Kai”, refletiu.

— E por que mencionou isso apenas agora, Tsuchikage?! — vociferou o Raikage. — Explique-se. E rápido.

Oonoki meneou a cabeça.

— Presuma que tive minhas próprias razões para não compartilhar essa informação com os colegas até agora — o Tsuchikage se limitou a responder. — Muito menos durante uma reunião com líderes de vilas menores.

Por mais irritada que Tsunade estivesse naquele momento, o velho Oonoki tinha um ponto. Vilas ocultas de países pequenos, especialmente aqueles não ligados ao sistema feudal, eram sempre as mais misteriosas e problemáticas. Não à toa, a antiga Akatsuki operava nos países da Chuva e dos Rios, ao passo que Orochimaru tinha diversos esconderijos no País da Grama, além de seu principal laboratório secreto, disfarçado sob o nome de Vila Oculta do Som. Se a Kigan no Kai fosse minimamente organizada, ela certamente teria uma célula operando em algum país pequeno, fora da jurisdição do Tsuchikage.

Gaara foi direto ao ponto.

— Tsuchikage-sama, acha que alguma vila pode estar tendo envolvimento com a Kigan no Kai?

— É difícil dizer, jovem Kazekage... ao menos por enquanto — respondeu Oonoki, que rapidamente dirigiu um olhar astuto para Tsunade. — Gostaria de pedir a colaboração de sua vila nessa questão, Princesa Tsunade. Afinal de contas, como já deve ter visto, minha delegação será a maior do Exame Jounin Unificado.

“Velho ardiloso”, pensou Tsunade, sentindo uma enorme vontade de socar o nariz enrugado de Oonoki naquele momento. Felizmente, a reunião era feita por videoconferência. Do contrário, a pobre Shizune teria o dever de segurá-la.

— Deixe-me dizer com outras palavras — Tsunade se reclinou para frente na cadeira. — O senhor suspeita que sua delegação pode estar comprometida. E, ainda assim, pretende trazer possíveis agentes de uma facção radical para dentro da minha vila, durante um exame internacional, para ver se algum deles se revela. E se, e é um grande se, isso acontecer, usar o sujeito para chegar às cabeças da Kigan no Kai.

Oonoki sorriu.

— Precisamente.

— Eu seria uma tola se permitisse algo assim — Tsunade falou devagar, embora sua paciência estivesse por um fio. — Não colocarei a segurança do meu povo em risco por um problema exclusivamente seu.

O sorriso do Tsuchikage desapareceu aos poucos.

— O Exame Jounin Unificado talvez seja a melhor oportunidade que teremos para descobrir até onde a Kigan no Kai se espalhou. — Oonoki cruzou os braços, insistente. — Se a deixarmos passar, saiba que não será um problema exclusivo da Pedra.

— Isso foi uma ameaça? — Tsunade ergueu a voz.

— Um aviso — corrigiu Oonoki.

Desta vez, o punho do Raikage destruiu a própria mesa, o que prejudicou a conexão da Nuvem por alguns segundos. Da sala virtual, os outros Kage ouviam Ay praguejando e gritando para que Samui restabelecesse rapidamente sua imagem.

— Se há suspeitos dentro de sua delegação — disse o Raikage, assim que retornou à sala virtual —, prenda-os antes que cruzem a fronteira!

— Se eu tivesse provas suficientes para prendê-los, Raikage, esta conversa não estaria acontecendo — respondeu Oonoki, seco. — O que tenho são meros indícios. Codinomes, mensagens interceptadas pela metade, movimentações suspeitas. Nada mais que isso.

— Então retire os suspeitos da lista — insistiu Ay.

— E entregar a eles a certeza de que estão sendo vigiados? — retrucou Oonoki. — Não. Eles desapareceriam antes do fim do dia. E, quando voltassem, já não seria dentro de um ambiente cercado por sensores, barreiras, caçadores especiais ANBU e cinco Kage atentos ao mesmo problema.

Tsunade estreitou os olhos.

— Fala como se a Folha fosse o seu campo de testes.

— Falo como alguém que já viu extremistas escaparem por entre os dedos porque agiu precipitadamente, apenas para parecer firme diante dos outros — disse Oonoki, se encolhendo na cadeira. — Não cometerei o mesmo erro duas vezes. Já bastou o Deidara.

Gaara permaneceu calado por um instante, pensativo.

— Um movimento prematuro iria dispersar o inimigo, tornando o cenário ainda pior — ponderou o Kazekage. — Precisamos identificá-los e neutralizá-los de uma vez.

— Mas permitir que os agentes da Kigan no Kai se movam durante o exame cria vários outros problemas — observou Mei. A Mizukage já não sorria. — Para começar, se isso se tornar público, o Exame Jounin Unificado será visto como uma armadilha política antes mesmo de começar. Por outro lado, as vilas menores não aceitarão bem a ideia de terem sido deixadas no escuro, o que é péssimo para a imagem de cooperação entre vilas que a Aliança Shinobi deseja transmitir.

— Por isso elas permanecerão no escuro — disse Tsunade.

Shizune, ao ouvir aquilo, sentiu um arrepio discreto. A voz de sua senhora já não trazia irritação comum. Era baixa, firme e perigosa.

Oonoki ergueu o queixo.

— Então compreende minha posição.

— Compreendo — respondeu Tsunade. — Não significa que eu goste dela.

O Tsuchikage deu uma risada seca.

— Eu não esperava que gostasse.

— Ótimo. — Tsunade cruzou os dedos diante do rosto. Agora seria ela a fazer seu movimento. — Se vamos trabalhar juntos, Tsuchikage-sama, não espere que eu aceite qualquer condição sua sem impor as minhas.

— Estou ouvindo — disse Oonoki.

— Primeiro: quero todos os relatórios que a Pedra possui sobre a Kigan no Kai. Todos. Boatos, interceptações, nomes, vínculos familiares, qualquer coisa que sua Inteligência tenha separado nos últimos meses.

— Enviarei o que for relevante.

— Não — cortou Tsunade. — Você me enviará tudo. Eu decidirei o que é relevante dentro da minha vila.

Mei deu um sorriso discreto.

— Segundo — continuou Tsunade —, a delegação da Pedra estará alojada em novo local, que será meticulosamente selecionado. E, ao sinal de qualquer movimento suspeito, toda a delegação da Pedra será detida e ficará sob custódia. Aos cuidados de Ibiki Morino.

Oonoki franziu a testa.

— Isso seria uma afronta à minha vila — ressaltou. — Como espera que eu responda a esse tipo de atitude?

— Use a diplomacia. — Tsunade cruzou os braços. — Afinal, trazer deliberadamente suspeitos de extremismo para a minha vila também seria visto como uma afronta.

Oonoki não se dignou a responder.

— Terceiro: se, durante a realização do exame, for constatado que a Vila Oculta da Folha, ou qualquer delegação convidada, está em risco, eu não esperarei autorização da Pedra para agir. Assim que cruzarem aqueles portões, seus ninjas estarão sob minha jurisdição.

— É justo — concordou Oonoki.

— Necessário — o Raikage corrigiu.

Gaara assentiu.

— A Areia cooperará com medidas adicionais de segurança, Hokage-sama, desde que mantidas com discrição.

— A Névoa também — disse Mei. — Não temos interesse em ver o primeiro Exame Jounin Unificado fracassar por causa de uma ameaça mal administrada.

O Raikage soltou um som grave, entre irritação e concordância.

— Minha assistente acompanhará a delegação da Nuvem como agente diplomática. Se houver movimentação suspeita, quero que ela seja informada.

— Serão todos informados dentro do necessário — retrucou Tsunade, impaciente, sem tirar os olhos de Oonoki.

O Tsuchikage pareceu envelhecer alguns anos em silêncio. Então fechou os olhos por um breve instante e assentiu.

— Muito bem. Enviarei os relatórios.

— Agora.

Oonoki abriu um dos olhos.

— Princesa Tsunade...

— Agora, Tsuchikage-sama — a voz de Tsunade saiu calma, mas não menos exigente.

O velho soltou um suspiro derrotado. Virou o rosto para alguém fora do alcance da transmissão e deu uma ordem baixa demais para ser compreendida. Alguns segundos depois, uma notificação surgiu no canto da tela da Hokage.

Shizune, que acompanhava a mesma transmissão a partir de seu próprio notebook, avisou:

— Tsunade-sama, estamos recebendo uma transmissão de arquivos da Pedra.

— Aceite e encaminhe uma cópia para a Divisão de Inteligência — ordenou Tsunade, afastando-se do microfone para falar apenas à assistente. — Outra para a Divisão Sensorial, e outra para Shikamaru Nara. Classifique tudo com sigilo nível três.

— Imediatamente, senhora.

Os dedos de Shizune se moveram rapidamente sobre o teclado. Ao ver a quantidade de documentos que fora recebida, ela sentiu o estômago afundar. Não eram, nem de longe, poucos.

— Pelo visto, o senhor tinha mais do que boatos, Tsuchikage-sama — ironizou Tsunade.

— Eu disse que tinha meros rumores. Não disse que eram pequenos.

— Quero muito acreditar que não tenha omitido qualquer informação que coloque minha vila em risco.

— Não omitirei o que for necessário para impedir a Kigan no Kai — respondeu Oonoki. — Acredite, Princesa Tsunade, eu não quero ver essa erva-daninha florescer de novo. Muito menos às custas da paz que sofremos tanto para conquistar.

Por um momento, a dureza entre os dois diminuiu, permitindo que a verdade nas palavras do Tsuchikage respirasse. Oonoki podia ser ardiloso, orgulhoso e irritante. Mas estava longe de ser um tolo.

— Então estamos de acordo — disse Gaara.

— Por ora — completou o Raikage.

Mei inclinou levemente a cabeça.

— Que essa conversa permaneça entre nós até segunda ordem.

A reunião terminou pouco depois, sem sorrisos diplomáticos ou despedidas longas. As imagens dos Kage desapareceram uma a uma, até que Tsunade se viu sozinha dentro da sala virtual. E assim permaneceu durante alguns minutos, pensativa diante de uma tela escura.

Do lado de fora, a Folha seguia viva. Os cidadãos subiam e desciam as ruas, completamente alheios aos problemas que martelavam a cabeça de Tsunade, mas confiantes de que ela estaria lá para protegê-los. Afinal, esse era o dever da Hokage.

— Shizune — ela chamou com voz cansada.

— Sim, Tsunade-sama.

— Convoque Sasuke Uchiha — ordenou a Hokage. — Diga que quero falar com ele imediatamente.




***




Era noite e a chuva caía insistentemente pelo terceiro dia seguido.

Naquela região esquecida do País dos Rios, tudo o que havia antes da floresta de pinheiros era a velha mina. Ela estava desativada há cinco anos, após um deslizamento que causara a morte de mais de trinta homens. Dizia-se que espíritos assombravam a floresta e seus arredores, e teriam sido eles os causadores do acidente. Verdade ou não, após o ocorrido, ninguém ousou passar perto dali. E o vilarejo mais próximo ficava a cerca de dez quilômetros.

Era o local perfeito para uma reunião.

A entrada principal continuava soterrada de propósito. Mas a rocha escondia túneis infinitos, fornecendo várias rotas alternativas debaixo de toneladas de pedras, umidade e poeira. No interior, uma galeria subterrânea se estendia por vários metros e desembocava num fosso escuro e sinistro. No fundo do fosso, porém, havia luz. Era onde a pedreira dava lugar a outra coisa — uma base de operações muito bem-estruturada, capaz de comportar e mobilizar dezenas de soldados pelo subsolo.

No salão principal, a luz amarelada das lamparinas tremia sobre paredes ásperas de rocha escavada. Uma mesa grande e pesada ocupava o centro do salão. Nela, havia um mapa da Vila Oculta da Folha cheio de marcações em tinta vermelha, indicando pontos de controle, rotas secundárias, alojamentos e possíveis pontos cegos.

Genzan Iwagura estava sentado em uma das cabeceiras.

O líder da Kigan no Kai era um homem de vinte e quatro anos, alto, magro, de postura rígida. Tinha cabelos negros curtos, cortados de maneira simples, e olhos cinza-escuros. Seu rosto era sério, de uma frieza educada. Vestia o uniforme padrão da Vila Oculta da Pedra: largas vestes vermelhas de mangas compridas, debaixo de um colete marrom e, na testa, um protetor ninja avermelhado. Para muitos, Genzan era um Jounin leal e promissor, não o comandante de um grupo extremista.

Também estavam presentes com ele os outros três membros do alto escalão da Kigan no Kai. Seiji Moritsuchi ajeitava os óculos enquanto analisava cuidadosamente as informações postas na mesa. Ao lado dele, Suzuha Ishioka observava tudo em silêncio, sempre com seu ar sereno. Já Touma Sekigan não fazia qualquer esforço para esconder o desprezo que sentia. Seus dedos grossos tamborilavam impacientemente contra o próprio braço.

Os quatro, cada um à sua maneira, observavam os dois visitantes, que não pareciam nem um pouco desconfortáveis por estarem centenas de metros abaixo da terra e em completa desvantagem numérica. Iruzu Ibe, um ninja mercenário listado no Livro Bingo com uma recompensa de trinta e sete milhões de ryō, sentava-se à cabeceira oposta a Genzan, com as botas cruzadas sobre a mesa. Os cabelos brancos caíam em fios desalinhados ao redor de um rosto duro, e seus olhos mantinham uma expressão de divertimento frio e arrogante, que Touma simplesmente odiava.

A guarda-costas de Iruzu permanecia em pé atrás dele, em silêncio absoluto. Genzan e os outros a conheciam bem o suficiente para jamais baixarem a guarda, mesmo ali, apesar de toda vantagem que possuíam. Mera Kujiro, uma mulher de longos cabelos negros e olhar felino, era uma assassina extremamente habilidosa, de precisão cirúrgica. Muitos a chamavam de “A Invisível”. Antes de desertar, fora integrante dos ninjas-caçadores Oinin, da antiga Vila da Névoa Sangrenta. O fato de Iruzu Ibe tê-la trazido para aquele encontro era, por si só, uma mensagem.

Porém, nada falava mais alto do que a catana ao lado da cadeira de Iruzu. Kokujin era o nome daquela espada. A lâmina era inteiramente negra e parecia emanar uma energia maligna, quase opressiva. Nenhum dos quatro líderes da Kigan no Kai se atrevia a olhá-la por tempo demais.

— E então? — perguntou Iruzu. — O que acharam?

Genzan inclinou o corpo para frente.

— Suas informações certamente nos serão muito úteis. Agora, tenho certeza de que não veio até aqui só para nos entregar um mapa.

— Não — sorriu Iruzu, em concordância. — Há algo que eu quero em troca.

— Pois bem. Fale.

Iruzu ergueu uma das mãos. Mera retirou de dentro da túnica um estojo estreito, envolto em tecido encerado, e o colocou sobre a mesa.

— O que é isso? — perguntou Genzan.

— Digamos que seja a sua parte no acordo — respondeu Iruzu, simplesmente. — Vamos, abra.

Genzan estreitou os olhos. Mas quando iria pegar o objeto, Seiji tomou a frente.

— Permita-me — disse o rapaz de óculos e cabelo loiro caído para os lados, que era o analista da Kigan no Kai. Seiji abriu o estojo devagar e, assim que o fez, franziu a testa. Ergueu os olhos para Iruzu. — Isso são... tarjas de selamento?

Iruzu assentiu.

— Da melhor qualidade. Você não vai encontrar nada parecido por aí.

O mercenário tinha razão. A fórmula daquele selamento fora toda escrita em um idioma desconhecido, o que era intrigante e perigoso ao mesmo tempo. Seiji retirou uma pinça de seu estojo de ferramentas e, com muito cuidado para não acionar nada, pegou uma tarja para ver de perto.

Seu rosto mudou pouco, mas Genzan o conhecia havia tempo suficiente para perceber.

— Fale — ordenou o líder.

Seiji demorou a responder.

— Esse padrão de selamento... eu diria que não é praticado por nenhuma das Cinco Grandes Nações. A estrutura externa simula um arranjo simples de contenção, mas é uma camada falsa. Parece que há outra fórmula sob a primeira. E outra sob a segunda! — exclamou, fascinado. — Isso aqui é trabalho de um verdadeiro mestre.

Suzuha esticou os olhos sobre o ombro de Seiji.

— Não foi você quem fez isso, foi? — perguntou a jovem de cabelo castanho-claro, que era a propagandista da Kigan no Kai. Iruzu riu.

— Eu só sei como funciona. Não faço a menor ideia de como montar.

— Quem é o seu fornecedor? — perguntou Genzan.

Iruzu sorriu com os olhos.

— Uma pessoa importante demais para ser mencionada por escória como nós.

Touma bateu na mesa, irritado. Iruzu virou os olhos para o executor da Kigan no Kai, com a expressão um pouco mais séria. Só um pouco. Não se sentia intimado. Na verdade, até que aquilo tudo o divertia. Touma Sekigan era um jovem grande, corpulento, e não exatamente conhecido por sua paciência. Ou pela inteligência. Iruzu se questionava como alguém assim fazia parte do comando de uma organização.

— Não escutou, mercenário? Diga o que queremos saber — exigiu o executor.

Iruzu suspirou.

— Genzan, controle seu cachorro — pediu, calmamente, ao líder da Kigan no Kai. — Do contrário, Mera irá silenciá-lo. Para sempre.

— Ora, seu—

— Touma — cortou Genzan, imediatamente. — Acalme-se.

O executor puxou o ar com força, controlando-se. Suas mãos ainda estavam fechadas. Seus punhos, prontos para explodir se assim Genzan ordenasse. Touma fuzilava Iruzu com o olhar. Porém, quando levantou o rosto, percebeu a guarda-costas Mera Kujiro o observando sem piscar. Ela sorriu enquanto balançava vagarosamente a cabeça em desaprovação.

Genzan voltou-se novamente para seu analista.

— Seiji, percebeu mais alguma coisa?

— Sim — respondeu, ainda curioso com a tarja de selamento. — Essa fórmula possui linhas que não obedecem a direção de leitura comum. Elas parecem rodopiar e voltar para o centro. Como uma espiral.

Suzuha estreitou os olhos.

— O que isso quer dizer?

Seiji guardou a tarja com cuidado. Depois, virou-se para Iruzu Ibe.

— Isso seria... Fuuinjutsu Uzumaki? — questionou.

Aquele sobrenome ficou no ar por alguns segundos. Iruzu balançou a cabeça, aprovando.

— Eu disse que era da melhor qualidade.

— Por que nos trouxe isso, Iruzu? — perguntou Genzan, desconfiado. — O que exatamente você quer?

Iruzu se ajeitou na cadeira. Finalmente, a conversa chegara onde ele queria.

— Vocês deverão usar isso durante o tal Exame Jounin não-sei-o-quê — disse o mercenário —, e me trazerem uma amostra de chakra. Não precisa ser grande, e uma tarja já deve ser suficiente.

Os quatro líderes da Kigan no Kai se entreolharam.

— Amostra de chakra? — repetiu Seiji. — De quem?

Iruzu deu-lhes um sorriso debochado.

— De Naruto Uzumaki. Ou melhor, de qualquer uma das Bestas com Caudas que ele possui.

Desta vez, foi Suzuha quem perdeu o controle.

— Não pode estar falando sério! — exclamou a jovem, virando-se para seus colegas em busca de apoio. — Ele não pode estar falando sério.

— Atacar Naruto Uzumaki diretamente é suicídio — Seiji estremeceu, só de imaginar. — Ainda mais dentro da Vila Oculta da Folha, que terá a segurança reforçada devido ao Exame Jounin Unificado.

Iruzu pareceu não se importar.

— Foram ingênuos se achavam que os olhos da Folha já não estariam sobre vocês desde o começo. Pelo que sei, a Pedra levará a maior delegação do exame — disse. — E foi pensando nisso que lhes trouxe essas informações.

— Nós pagamos por elas — frisou Suzuha.

— Sim, e eis o meu pagamento, docinho: quero uma amostra do chakra Bijuu de Naruto Uzumaki.

— E como espera que façamos isso?

Iruzu deu de ombros.

— Eu sei lá. Pensem em alguma coisa.

A boca de Touma Sekigan transformou-se numa linha dura.

— Eu vou dizer o que vamos fazer — apontou na direção do mercenário. — Te matamos aqui e agora. Genzan, não precisamos mais desse cara. É só dar a ordem e eu explodo o infeliz com a vadia dele.

Iruzu olhou dentro dos olhos de Touma.

— Mera, se esse idiota disser mais uma palavra, mate-o.

Agulhas senbon apareceram entre os dedos da guarda-costas.

— Será um prazer — disse ela, sorrindo.

— Ninguém morre nesta sala sem a minha ordem, Iruzu — disse Genzan, sem erguer a voz. — Touma, cale-se ou saia da sala. Estou cansado desse seu temperamento.

O executor abriu a boca para protestar, porém não falou nada. Percebera que Mera Kujiro o encarava com um olhar predatório, como se estivesse apenas esperando que ele dissesse algo. E o próprio Touma sabia que, se Mera o atacasse, ele estaria morto.

— Assim está bem melhor — disse Iruzu, com desdém.

— Esse pedido não é, de fato, seu. — Genzan observou a reação de Iruzu, que confirmou suas suspeitas. — A pessoa que lhe forneceu essas tarjas de selamento... é ela a verdadeira interessada no chakra de Naruto Uzumaki, não você. Em outras palavras, você é só um intermediário.

Iruzu ergueu as mãos, como se estivesse na defensiva.

— Você me pegou, amigo — disse o mercenário. — Está certo. Eu trabalho para pessoas muito importantes, que têm interesse nessa amostra. Como a Kigan no Kai se infiltrará na Vila Oculta da Folha e me deve um favor, eu pensei comigo mesmo: por que não?

E acrescentou logo em seguida:

— Não se preocupe. Meus empregadores já têm conhecimento da Kigan no Kai.

Genzan arregalou os olhos.

— Você nos delatou?! Diga quem são seus empregadores, Iruzu. Agora! — exigiu o líder da Kigan no Kai.

— Lamento, mas eu não posso — respondeu Iruzu.

— E por que não?

— Porque se eu falar, todos vocês estarão mortos — pela primeira vez, o tom de Iruzu era completamente sério. — É melhor que eu seja o intermediário.

Genzan prendeu a respiração.

— Você envolveu algum dos Cinco Kage?

Iruzu fez que não.

— Não pergunte mais por meus empregadores, Genzan. É um conselho.

— Entendo... e se nós recusarmos?

— A coletar a amostra? — Iruzu arqueou a sobrancelha, sorrindo. — Isso não vai acontecer. Digamos que meus empregadores têm uma proposta irrecusável. Uma que certamente beneficiará os interesses da Kigan no Kai.

Genzan estreitou os olhos.

— Que proposta?

Um sorriso vitorioso apareceu nos lábios de Iruzu.

— Tragam-me a amostra e, em troca, meus empregadores lhes darão uma Besta com Cauda.

Os quatro líderes da Kigan no Kai se entreolharam, tão perplexos quanto desconfiados. A recompensa era, sem dúvida, tentadora. E esse era o problema.

— Como exatamente seus empregadores pretendem extrair uma Besta com Cauda de Naruto Uzumaki? — Seiji perguntou o que todos queriam saber.

Iruzu apontou para as tarjas de selamento.

— Quem fez isso é capaz de coisas inimagináveis, garoto — o mercenário falava sério. — Extrair uma Besta com Cauda é brincadeira de criança.

— Mesmo que seja um mestre em Fuuinjutsu habilidoso, existe um teto que não pode ser ultrapassado pelo limite humano — insistiu Seiji, cético. — Naruto Uzumaki recebeu poderes divinos do Sábio dos Seis Caminhos; mas você está nos dizendo que seus empregadores podem lidar com isso?

— Todos nós aqui estivemos na Quarta Grande Guerra Ninja — acrescentou Suzuha. — Vimos de perto o que Naruto Uzumaki é capaz de fazer.

Iruzu ignorou os demais e olhou diretamente para Genzan, que o observava em silêncio.

— Todo shinobi tem uma fraqueza. A de Naruto Uzumaki já é conhecida — disse Iruzu.

A expressão de Genzan era sombria.

— Os laços dele — respondeu.

— Exatamente — assentiu Iruzu, com um aceno de cabeça. — De certo ponto de vista, o Herói do Mundo Ninja é um shinobi cheio de fraquezas. Saibam como explorar essas fraquezas e terão sucesso.

Genzan estava pensativo. Ao se virar para o lado, viu que Suzuha e Seiji o observavam com o mesmo ar de inquietação. Até mesmo o falastrão de Touma parecia refletir sobre o assunto. Se a Kigan no Kai rejeitasse colaborar com Iruzu Ibe, poderia atrair problemas para si, ainda mais após descobrirem que, por trás do mercenário, havia gente bem poderosa envolvida. O plano de realizar uma série de atentados contra a Folha, durante o Exame Jounin Unificado, corria sérios riscos de falhar.

Porém, se aceitassem a oferta de Iruzu, a Kigan no Kai teria que lidar pessoalmente com Naruto Uzumaki, o ninja mais poderoso do mundo. Mesmo que todos os seus agentes caíssem sobre Naruto durante o exame, as chances de sucesso eram baixíssimas. O risco de perdas humanas era alto demais.

Todos sabiam, Genzan Iwagura deveria fazer uma escolha naquele momento. E não importava qual fosse a sua resposta, a Kigan no Kai estaria prestes a mergulhar em um oceano desconhecido. Como líder e como soldado, Genzan detestava não saber o que viria a seguir.

Escolheu arriscar.

— Nós lhe traremos sua amostra — disse o líder da Kigan no Kai. — Em troca, quero informações atualizadas em tempo real. Você pôde entrar e sair da Vila Oculta da Folha sem ser detectado. Usaremos isso a nosso favor. E, se tudo der certo, a amostra lhe será entregue ainda dentro da Folha.

— Não seja tão audacioso, Genzan... — falou Iruzu, em tom de advertência.

O líder da Kigan no Kai sorriu. Encontrara ali uma oportunidade.

— Temos interesse na Besta com Cauda, assim como você em cumprir sua missão — disse Genzan calmamente. — Se falharmos, imagino que seus empregadores não virão atrás apenas de nós.

Iruzu deu um pequeno e resignado sorriso.

— Muito bem, amigo — disse, erguendo-se e estendendo a mão para Genzan. — Parece que temos um acordo.




***



Era quase meia-noite quando Sakura deixou o Hospital da Folha.

O expediente havia terminado mais tarde do que o previsto, o que, infelizmente, não era nenhuma novidade. Desde que a Folha havia sido escolhida para sediar a primeira edição do Exame Jounin Unificado, o fluxo de trabalho havia aumentado consideravelmente; e como ocupava um cargo de chefia, Sakura tinha, semanalmente, pelo menos uma centena de relatórios para revisar antes de remetê-los à diretoria do hospital. E à medida que o exame se aproximava, mais e mais tarefas surgiam, apenas para deixar Sakura e sua equipe loucas, exaustas ou as duas coisas.

Pelo menos amanhã ela teria folga.

Ao sair pela entrada principal, Sakura ajustou a bolsa sobre o ombro e respirou fundo. O ar da noite trouxe consigo um cheiro familiar: comida quente das barraquinhas que funcionavam até a alta madrugada. Mesmo naquele horário, a vida noturna da Folha era relativamente movimentada, especialmente quando se tratava do Distrito Central. Movimentada, mas não barulhenta. Para alguém como Sakura, que muitas vezes saía do trabalho tarde da noite, aquilo era bastante acolhedor.

Seguindo seu caminho de sempre, Sakura parou em uma barraca de doces e comprou para si uma porção de anmitsu. Duas, na verdade. Uma ela levaria para casa, a outra consumiria no caminho. Ela provavelmente se arrependeria mais tarde, quando tivesse que encarar as consequências na balança, mas decidiu não pensar nisso naquela hora. Depois de um dia exaustivo, Sakura Haruno julgava ter conquistado o direito de comer o que quisesse sem ouvir a própria consciência lhe dando sermão.

“Ino, com certeza, iria reclamar se me visse agora”, pensou, sorrindo ao imaginar a expressão da melhor amiga. “Mas aposto que, para manter aquele corpo, ela não pode comer nem mesmo um docinho.”

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Enquanto percorria as ruas de volta para casa, Sakura olhava ao redor. Patrulhas cruzavam seu caminho com uma frequência maior do que o habitual. A vila estava diferente. Mais tensa. E Sakura sabia bem o porquê. Não que duvidasse da importância do exame, pelo contrário. Desde que Tsunade-sama anunciara o Exame Jounin Unificado, Sakura já esperava que a vila teria muito trabalho pela frente. Contudo, os novos protocolos de segurança já haviam sido implementados pelo menos duas semanas atrás...

E, ainda assim, Sakura percebia algo diferente naquela noite.

Por alguns instantes, Sakura pensou em ir até o gabinete da Hokage para perguntar o que teria acontecido, mas desistiu quase imediatamente. Se sua mestra quisesse envolver o Corpo Médico, Sakura seria uma das primeiras pessoas a ser informada. Do contrário, era porque não havia nada que Sakura precisasse saber. E, talvez, fosse melhor assim.

Com um suspiro, seguiu para casa.

O restante do trajeto foi tranquilo. Talvez tranquilo até demais, considerando a sensação estranha que se acumulara em sua nuca desde que havia cruzado com a última patrulha. O ar já estava mais frio, e Sakura apressou um pouco o passo. Cumprimentou um jovem casal que fechava uma pequena barraca de dango na esquina e, quando atravessou a próxima rua, lançou um olhar rápido para os telhados acima.

Nada.

Sakura franziu levemente a testa.

“O que é isso?”, perguntou-se.

Aprendera com Tsunade que uma kunoichi jamais deveria ignorar esse tipo de sensação. Às vezes, podia ser apenas o cansaço. Às vezes, a mente assustada pregando alguma peça. Mas, na maioria das situações, era o instinto de batalha percebendo algo que os olhos ainda não tinham encontrado. E Sakura Haruno havia sobrevivido tempo demais como ninja para desprezar o próprio instinto.

Quando chegou em casa, trancou a porta imediatamente. Depois, tirou as sandálias e permaneceu imóvel por alguns segundos na entrada.

Silêncio.

O apartamento estava exatamente como ela havia deixado. A pequena mesa junto à janela continuava arrumada, os livros de medicina repousavam empilhados ao lado de um vaso simples, e a cortina clara movia-se suavemente com a brisa que entrava pela fresta aberta. Nada parecia fora do lugar. Nenhum cheiro estranho. Nenhum ruído. Nenhum sinal de arrombamento.

Ainda assim, Sakura demorou alguns instantes até finalmente relaxar os ombros.

— Estou cansada demais... — murmurou para si mesma, sentindo-se uma idiota por estar imaginando coisas.

Depois de tomar um bom banho e colocar uma camisola confortável de seda, Sakura foi até a cozinha e preparou uma xícara de chá. Em seguida, sentou-se no sofá, acomodou uma das pernas sob o corpo e ligou a televisão para maratonar alguns episódios de Promessa sob a Chuva, seu dorama favorito naquele momento. Era uma daquelas histórias românticas e clichês que Sakura jamais admitiria acompanhar com tanta seriedade, embora nunca perdesse um episódio sequer.

O anmitsu repousava sobre a mesinha de centro. O chá aquecia suas mãos. E, aos poucos, o corpo de Sakura começou a lembrar que também sabia relaxar.

Depois de três episódios, ela já havia rido, revirado os olhos e chamado o protagonista de idiota pelo menos duas vezes. Agora estava encolhida no sofá, com os olhos vidrados na tela, acompanhando aquele que poderia ser o tão aguardado beijo do casal principal. Na televisão, os dois personagens encaravam um ao outro sob uma chuva cenográfica que não convencia ninguém. A trilha sonora aumentava de volume. A garota disse alguma coisa sobre não conseguir mais esconder seus sentimentos. O rapaz, como de costume, pareceu demorar uma eternidade para entender aquilo que estava bem diante dele desde o primeiro episódio.

Sakura bufou.

— Anda logo... — murmurou, sem perceber que segurava a xícara com as duas mãos.

Era ridículo. Completamente ridículo. Mas lá estava ela, quase às duas horas da manhã, torcendo para que dois personagens fictícios finalmente parassem de fugir um do outro. Quando o rapaz da série ergueu a mão para tocar o rosto da garota, Sakura sentiu um sorriso fugaz surgir em seus lábios. Era divertido acompanhar aquele romance bobinho que, apesar das circunstâncias, estava destinado a se concretizar antes do fim da história. Na vida real, amar alguém durante tanto tempo, quando o amor já não parecia encontrar base alguma para se apoiar, poderia ser bem doloroso às vezes.

Por um instante, Sakura pensou em Sasuke.

Ele finalmente havia voltado, depois de tanto tempo que ela havia esperado. Mas Sakura já não conseguia olhar para Sasuke da mesma forma. Ela havia crescido. Era uma mulher agora, não uma adolescente apaixonada. Por mais que estivesse feliz por revê-lo, estar perto de Sasuke, ou mesmo pensar sobre ele, também lhe trazia sensações amargas. Sakura não conseguia simplesmente esquecer aquele momento — Sasuke erguendo as mãos contra ela para matá-la, o rosto dele sujo de sangue, e os olhos tão afiados quanto espadas.

Sakura baixou os olhos para a xícara. Na televisão, a música continuava tocando.

— Idiota... — sussurrou, sem saber exatamente se falava com o protagonista do dorama, com Sasuke ou consigo mesma.

Foi quando a cortina se moveu.

Sakura imediatamente ergueu o rosto. O apartamento continuava tão silencioso quanto antes, exceto pela televisão ligada. Sakura fez uma rápida varredura com os olhos, sem saber exatamente o que procurar. Mas aquela sensação havia voltado e Sakura Haruno sentiu todo o corpo responder. Se antes era um incômodo difuso, agora as suspeitas se confirmavam.

Alguém a observava.

Sakura ficou imóvel, esperando calma e atentamente. Na mão, apenas a colher com a qual devorara seu anmitsu.

— Quem está aí? Vamos, apareça. — Na tela, o casal finalmente se beijou. Porém a atenção de Sakura estava em outra coisa.

A cortina perto da sacada tornou a se mover. E, desta vez, Sakura viu a silhueta.

Num movimento rápido, infundiu chakra na colher e a arremessou, como uma lâmina improvisada, contra a sacada. A porta de vidro estourou em uma chuva de estilhaços e, no segundo seguinte, Sakura já estava do lado de fora, com o punho preparado. Ela varreu a sacada, os telhados próximos e a rua abaixo com os olhos, depois correu pela fachada do prédio até o topo para ter uma visão mais ampla. Mas não encontrou ninguém. As ruas abaixo estavam completamente vazias. Os telhados vizinhos, também.

— Droga! — praguejou.

Depois de alguns minutos, Sakura decidiu voltar para seu apartamento. O barulho certamente acordara alguns vizinhos, e não demoraria para que alguma patrulha aparecesse ali. De volta à sacada, Sakura arrancou a colher que ficara cravada na parede e atravessou a porta de vidro estilhaçada.

Então desabou no sofá, pensando mil coisas.

Agora tinha certeza de que, desde sua saída do hospital, vinha sendo observada por alguém; e quem quer que fosse, desaparecera sem deixar o menor vestígio.

Quase como um fantasma.

Notas finais
Obrigado por acompanhar até aqui. Até o próximo capítulo! o/