O Herói do Mundo Ninja
4 Decisões
Notas iniciais
— O que você disse?! — Tsunade levantou-se num sobressalto no meio do relatório e dirigiu ao patrulheiro um olhar urgente. — Alguém espionando a Sakura?
O Chuunin assentiu, mantendo a postura firme diante da mesa da Hokage. Chamava-se Kenji Uranane. Era um dos patrulheiros destacados para a ronda noturna do Distrito Central desde o reforço dos protocolos de segurança do Exame Jounin Unificado. Apesar de jovem, não era o tipo de ninja que se assustava com facilidade. Ainda assim, havia algo em sua expressão que denunciava desconforto.
— Sim, Hokage-sama — confirmou. — Ouvi um barulho forte de vidro se estilhaçando e fui verificar. Não demorei mais do que cinco minutos para identificar o prédio. Mas, quando cheguei ao local, tudo já havia terminado. A própria Sakura-san estava na varanda do apartamento, esperando a chegada de qualquer patrulheiro para relatar o ocorrido.
— E como ela estava, Kenji-kun? — perguntou Shizune, igualmente preocupada.
O patrulheiro virou-se para a assistente da Hokage, dirigindo-lhe um sorriso tranquilizador.
— Ela estava bem, Shizune-san — respondeu Kenji. — A Sakura-san é bem forte. Parecia mais irritada do que assustada.
Por um instante, Tsunade pareceu respirar melhor. Sakura estar bem era o bastante para impedir que seu sangue fervesse de imediato. Mas não bastava para afastar a gravidade do que acabara de ouvir. Não em uma semana como aquela. Não depois da reunião com os outros Kage. Não depois dos relatórios enviados por Oonoki.
A Quinta Hokage voltou a se sentar devagar.
— Encontrou algum vestígio desse espião no local?
Kenji negou com a cabeça.
— Infelizmente, não, Hokage-sama. O espião se evadiu no momento em que Sakura-san percebeu sua presença na varanda do apartamento. Ela chegou a persegui-lo, porém o sujeito desapareceu sem deixar nem um rastro sequer.
Tsunade estreitou os olhos.
— E a assinatura de chakra?
— Nem mesmo isso, Hokage-sama — acrescentou o patrulheiro. — Assim que identifiquei o prédio, fiz uma varredura padrão no perímetro, mas não senti nada de anormal. Qualquer resíduo de chakra do espião desapareceu junto com ele.
Shizune e Tsunade trocaram olhares tensos. As duas mulheres pensavam a mesma coisa. Quem quer que fosse esse espião, era, sem dúvidas, um ninja extremamente habilidoso. Habilidoso o bastante para se aproximar de Sakura Haruno sorrateiramente, escapar dela após ser percebido e não deixar uma mísera centelha de chakra para trás.
Tsunade tinha um mau pressentimento.
— Você contatou a Divisão Sensorial para uma varredura especializada? — perguntou a Hokage.
— Sim, Hokage-sama — respondeu Kenji. — Como determina o protocolo, contatei a Divisão Sensorial assim que deixei o local do incidente.
— O que eles disseram?
O patrulheiro respirou fundo antes de responder. O desconforto em seu rosto se acentuava.
— Disseram que a barreira de detecção não registrou nenhuma assinatura de chakra desconhecida desde a final do último Exame Chuunin. — Kenji viu Tsunade comprimir os lábios enquanto escutava seu relatório. A grande final entre Naruto Uzumaki e Sasuke Uchiha ocorrera há quase quinze dias. — Também procurei o chefe da Divisão de Segurança Pública, e ele confirmou a informação da Divisão Sensorial — continuou Kenji. — Masaru-san disse que nenhuma das equipes responsáveis pela guarda dos portões identificou qualquer entrada suspeita nas últimas duas semanas.
Shizune estremeceu na mesma hora.
— Mas então... isso significa que o espião consegue mascarar a própria assinatura de chakra para entrar e sair da vila quando quiser. Ou pior... ele permaneceu na vila todo esse tempo sem ser detectado!
— Há outra possibilidade — Tsunade acrescentou seriamente. — O espião pode ser alguém de dentro da vila.
Aquela frase caiu sobre o gabinete como uma pedra.
Kenji permaneceu imóvel. Shizune baixou os olhos por um instante, inquieta. Nenhum dos dois precisou dizer em voz alta o que a hipótese de Tsunade significava. Do lado de fora, a Folha começava mais uma manhã aparentemente comum. Mas, dentro daquela sala, a possibilidade de haver um traidor na vila tornava o silêncio cada vez mais pesado.
Tsunade juntou as mãos diante do rosto e apoiou o queixo sobre os dedos entrelaçados.
— Kenji — chamou a Hokage.
— Sim, Hokage-sama.
— Vá agora até o Distrito Inuzuka. Diga a Tsume que solicito Kiba, Hana e mais um de seus melhores rastreadores.
— Conte comigo, Hokage-sama. — O Chuunin inclinou-se prontamente.
— E seja discreto — acrescentou Tsunade. — Não quero boatos circulando pela vila. Estamos perto demais do exame para permitir que metade da população comece a imaginar invasores em cada telhado.
— Entendido. — Kenji curvou-se mais uma vez e deixou o gabinete em passos rápidos.
Assim que a porta se fechou, Tsunade virou-se para Shizune.
— O relatório oficial ficará restrito ao meu gabinete e aos chefes das divisões de Inteligência, Sensorial e Segurança Pública — ordenou a Quinta Hokage. — Nenhuma outra cópia deverá circular sem minha autorização expressa. Depois, peça à Divisão Sensorial um relatório completo das últimas duas semanas. Quero os dados brutos da barreira. Oscilações, interferências, anomalias, qualquer coisa fora do padrão. Mesmo que eles jurem que não houve ruptura, quero ver tudo.
— Sim, senhora — a assistente respondeu, já organizando tudo em sua mente.
— E Shizune — Tsunade fez uma breve pausa —, por ora, vamos trabalhar com a possibilidade de este incidente estar relacionado com a Kigan no Kai. Coloque todos os arquivos com sigilo nível quatro.
— Acha que o espião está associado à Kigan no Kai? — indagou Shizune, incerta. — Digo, se for esse o caso, senhora, então temos um traidor no meio de nós.
Tsunade não respondeu de imediato.
— Ainda é cedo para afirmar — disse a Hokage, por fim. — Mas, depois do que o velho Oonoki nos enviou ontem, não podemos tratar nada como coincidência. As circunstâncias não nos permitem pensar assim.
Shizune assentiu, compreendendo.
— E quanto à Sakura? A senhora deseja falar com ela?
— Não será preciso chamá-la. Sakura virá aqui, mais cedo ou mais tarde. — Tsunade deu uma risada seca. — Só espero que ela venha sozinha.
Shizune esboçou um tímido sorriso, compreendendo tudo.
— Acha que o Naruto-kun já ficou sabendo?
— Por Deus, espero que não — respondeu Tsunade. — Isso só me daria mais dor de cabeça.
— Não se preocupe, senhora — disse Shizune, sorrindo. — Sendo companheira de time do Naruto-kun, a Sakura não contaria nada a ele. Não quando ele está se preparando para o Exame Jounin Unificado.
— Estou mais preocupada com o Naruto descobrir algo por conta própria do que com a Sakura dizendo a ele alguma coisa — observou a Hokage, encolhendo os ombros.
Foi quando um pensamento lhe ocorreu. Tsunade virou-se para o lado. Shizune já preparava os primeiros ofícios para enviar aos chefes de divisão.
— Traga-me Sasuke Uchiha.
A mão de Shizune parou sobre o teclado.
— Isso tem a ver com o pedido de ontem, Tsunade-sama?
— Sim.
Shizune não gostava da ideia.
— Senhora, os conselheiros não vão aprovar sua decisão.
“E não vão mesmo”, pensou Tsunade, respirando fundo. A própria Hokage reconhecia que estava jogando um jogo arriscado. E isso ficou ainda mais evidente quando, ao virar-se para o lado, encontrou o olhar apreensivo de Shizune sobre si. Por um momento, Tsunade sentiu-se grata por tê-la ao seu lado ao longo de todos aqueles anos. Mais do que sua mais fiel discípula e assistente pessoal, Shizune, com toda a sua cautela, competência e pragmatismo, funcionava como um freio para os excessos de Tsunade. Em outras circunstâncias, menos urgentes, Tsunade teria dado o braço a torcer e seguido o conselho de sua assistente.
Mas não em casos como aquele. Em situações como aquela, o instinto de Tsunade havia se mostrado mais certeiro do que a racionalidade de Shizune.
E as duas sabiam disso. Pois Tsunade deu a ordem, e Shizune não questionou.
— Mande chamá-lo imediatamente. Quero falar com ele primeiro — disse Tsunade, convicta. — Depois, informe aos conselheiros, aos chefes de divisão, aos líderes de clã e aos capitães da ANBU que estou convocando uma reunião extraordinária para o fim do dia.
— Sim, senhora.
Tsunade se levantou e virou-se para a janela que dava para o centro da vila. A Hokage ficou parada, observando o movimento. Em algum lugar lá embaixo, entre milhares de aldeões, estava o espião.
E cedo ou tarde Tsunade iria pegá-lo.
***
Naruto Uzumaki nunca imaginou que algum dia sentiria falta de estudar.
Até poucos dias atrás, se questionado sobre o assunto, diria com certeza que uma manhã sem livros, pergaminhos e questionários intermináveis era um presente dos céus. E não seria nenhum exagero. Afinal de contas, era sábado! Qualquer pessoa sensata aproveitaria essa oportunidade para descansar e dormir mais um pouco, ainda mais depois de tantos dias seguidos de dedicação intensa.
Ainda assim, enquanto caminhava pelas ruas tranquilas do Distrito Nara, Naruto percebeu que não estava nem um pouco satisfeito com aquela folga inesperada. “Devo estar ficando louco”, pensou consigo.
“Não, Naruto, você não está louco”, a voz suave de Matatabi ecoou em sua mente. “A questão não é essa. Você não vê?”
Naruto piscou duas vezes.
“Hum? Do que está falando?”, perguntou ele à Besta de Duas Caudas.
Dentro do plano psíquico compartilhado pelas Bestas com Caudas, Kurama revirou os olhos, entediado.
“Esquece, Matatabi. O Naruto é um completo idiota”, resmungou o Nove Caudas. E todas as demais Bestas com Caudas riram.
“Ei, seu raposo rabugento! Qual é o seu problema?”, protestou Naruto, virando-se mentalmente para Kurama e apontando-lhe o dedo.
A Raposa de Nove Caudas olhou-o de cima para baixo.
“Para começar, por que estamos aqui, Naruto?”, questionou Kurama, com sua voz grave ressoando nos pensamentos do Jinchuuriki. “O que está te incomodando?”
Naruto engoliu em seco e seguiu seu caminho pelas ruas do Distrito Nara. Embora não ousasse admitir aquilo em voz alta, sabia exatamente o que o incomodava. Assim como as Bestas com Caudas também sabiam.
O motivo, evidentemente, não eram os estudos.
Era Hinata.
Naquela manhã, ela não pudera recebê-lo em casa como de costume. Hinata tinha um compromisso importante com o próprio clã e, por isso, os dois precisariam retomar os estudos apenas no dia seguinte. Naruto respondera que não havia problema e que aproveitaria o tempo livre para revisar sozinho o que haviam estudado durante a semana. Na ocasião, chegara até mesmo a sorrir — um sorriso que aprendera com Sai —, tentando demonstrar a Hinata que aquilo não iria incomodá-lo.
Mas bastou deixar o Distrito Hyuuga para Naruto sentir-se um completo idiota. O jeito como Hinata o observou, antes de se despedirem, ainda estava gravado em sua memória; e Naruto estava certo de que nenhum sorriso falso era capaz de enganar aqueles olhos.
Tudo piorou quando Naruto voltou para casa. Ele realmente tentou — e como tentou! — revisar, mas sua mente estava bem distante. Estava em Hinata; e saber que não poderia vê-la naquela manhã fez todo o resto perder a importância.
Foi por isso que Naruto decidiu consultar um especialista. Ou pelo menos alguém que fosse mais experiente do que ele nesses assuntos. A primeira pessoa em quem ele pensou foi Ino. Com certeza, era a pessoa mais indicada para falar dessas coisas; mas Naruto logo desistiu da ideia por ela ser uma garota — e ele, não. A segunda pessoa seria Sai, seu companheiro de equipe e o namorado de Ino. Porém, ele estava fora da vila, em missão, e não iria voltar tão cedo. Além disso... era, bem, o Sai. Até algum tempo, a situação era completamente inversa: era Sai quem tinha dificuldades para compreender as próprias emoções e interagir com as pessoas. Naruto se perguntara por que havia cogitado falar com alguém assim para começo de conversa. “Eu devo estar muito desesperado”, pensara.
A terceira pessoa com quem cogitou conversar foi Kakashi-sensei, mas tão logo Naruto pensou esse nome, se lembrou do tipo de literatura que seu professor consumia. E isso foi determinante para descartá-lo. A quarta pessoa foi Sakura, porém Naruto entendeu por bem não a envolver nisso. Primeiro, porque Sakura também era uma garota, assim como Ino; segundo, porque, embora fosse a pessoa mais próxima dele, não era a mais indicada para conselhos amorosos; e terceiro, porque, de certa forma, Sakura ainda fazia parte da confusão que Naruto tentava resolver.
Por fim, sobrava seu amigo Shikamaru.
O Distrito Nara era muito diferente das áreas mais movimentadas da Folha. Embora não tivesse a elegância imponente do Distrito Hyuuga, era um lugar bastante acolhedor. As casas eram mais afastadas umas das outras, cercadas por árvores altas e vastas extensões de vegetação cuidadosamente preservada. O ar parecia mais fresco ali, e o silêncio só era interrompido ocasionalmente pelo canto dos pássaros ou pelo som distante dos cervos nas áreas protegidas do clã.
Naruto já havia visitado o distrito outras vezes, mas nunca se demorara o bastante para prestar atenção na tranquilidade do lugar. “Talvez fosse por isso que Shikamaru gostasse tanto de ficar deitado observando as nuvens”, pensou Naruto com um sorriso.
Após pedir orientação a um dos membros do clã, chegou à residência principal dos Nara. Uma mulher mais velha o conduziu até uma construção anexa à casa, onde funcionava o escritório do líder do clã.
Naruto parou diante da porta fechada.
Por alguns instantes, hesitou. Não porque tivesse medo de conversar com Shikamaru, até porque, em vários aspectos, ele era provavelmente seu melhor amigo — até mais do que Sasuke. Mas sim porque aquilo, de certa forma, era um tanto diferente. Apesar de terem a mesma idade, Shikamaru Nara agora era um líder de clã e uma pessoa importante dentro da política interna da Folha.
Naruto se endireitou e bateu à porta três vezes.
— Entre — respondeu a voz já cansada de Shikamaru.
Ainda eram aproximadamente dez horas da manhã. Mas algumas coisas nunca mudavam.
Naruto sorriu consigo mesmo. E abriu a porta.
O escritório era pequeno, porém organizado. Duas estantes ocupavam uma das paredes, repletas de pergaminhos, livros e caixas de arquivos. Um mapa detalhado do País do Fogo estava aberto sobre uma mesa lateral, coberto por pequenas anotações. Perto da janela havia um tabuleiro de shougi, com as peças dispostas como se uma partida tivesse sido interrompida e pudesse ser retomada a qualquer momento.
Shikamaru estava sentado atrás de uma mesa de madeira escura. Havia vários documentos espalhados diante dele, além de um envelope aberto, marcado com o selo oficial do gabinete da Hokage.
O jovem Nara ergueu os olhos assim que Naruto entrou.
— Hã? Naruto?
— E aí, Shikamaru?
— Ora, vamos, entre — convidou Shikamaru, indicando uma das cadeiras vazias em frente a sua mesa. — O que faz aqui?
— Vim falar com você — disse Naruto ainda de pé, sorrindo animado.
Shikamaru olhou para os documentos sobre a mesa e depois novamente para Naruto.
— Isso costuma significar problemas.
— Ei! — protestou Naruto. — Não fiz nada de errado dessa vez. Eu só... bom, eu preciso da sua ajuda com uma coisa.
Shikamaru encostou-se na cadeira e observou o amigo com mais atenção. Naruto estava inquieto, mais do que de costume. Mas sua voz não demonstrava urgência e tampouco carregava a expressão de quem acabara de se envolver em alguma confusão. Ele permanecia parado perto da porta, mexendo os dedos dentro dos bolsos e desviando o olhar.
Shikamaru conhecia Naruto o bastante para reconhecer seus sinais de nervosismo. Restava agora descobrir o que deixava o ninja mais poderoso do mundo daquela maneira. E aquilo, sim, era trabalho de um amigo.
— Sente-se — disse.
Naruto obedeceu e ocupou a cadeira diante da mesa. Seus olhos recaíram sobre o envelope oficial.
— Isso veio da Vovó Tsunade?
Shikamaru acompanhou seu olhar.
— Veio sim — confirmou sem muito entusiasmo. — Chegou agora pela manhã.
— É uma missão?
— Uma convocação — explicou Shikamaru.
— Para quê?
— Uma daquelas reuniões chatas no fim do dia. — Shikamaru espreguiçou-se. — Esse Exame Jounin Unificado nem começou e já está sendo um saco.
Naruto inclinou-se sobre a mesa.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— O ofício não diz.
— Sei... — Naruto olhou-o devagar. — Mas você acha que aconteceu.
Shikamaru soltou um suspiro. Era exatamente por aquilo que Tsunade evitava informar Naruto antes de ter todas as respostas. Bastava que ele percebesse um pequeno detalhe fora do lugar para começar a fuçar tudo por conta própria.
— Se a Hokage quisesse sua presença, teria enviado uma convocação para você também — respondeu ele da forma mais pragmática possível. — Portanto, não faça nada problemático, Naruto.
— Eu nem fiz nada! — defendeu-se Naruto.
— É. Continue assim.
Naruto franziu a testa, insatisfeito, mas acabou se recostando na cadeira. Foi então que olhou com mais atenção para o ambiente. Meses atrás, aquele fora o escritório de Shikaku Nara e tudo ali ainda parecia carregar a presença dele. Agora, após assumir como décimo sexto líder do clã Nara, Shikamaru ocupava a cadeira do pai. A responsabilidade parecia natural para alguém com as aptidões de Shikamaru Nara, embora Naruto soubesse que nada era tão simples.
Por um instante, os olhos de Shikamaru também se desviaram para o tabuleiro junto à janela.
Nenhum dos dois disse nada. Sentado atrás da mesa que pertencera ao pai por tantos anos, Shikamaru parecia ainda mais jovem. Herdara cedo demais a liderança do clã, as responsabilidades e a posição solitária de quem agora precisava decidir por todos sem ter mais Shikaku a quem recorrer. Naruto conhecia bem aqueles sentimentos. Embora luto e solidão não fossem a mesma coisa, frequentemente andavam juntos. A solidão acompanhara Naruto desde a infância, nascida da ausência dos pais. Mais tarde, com a morte de Jiraiya, ele aprendera também o peso do luto: a dor de perder alguém que estivera ao seu lado e fora, à própria maneira, uma figura paterna.
E, ao ver Shikamaru sentado na cadeira que, não fosse a guerra, ainda deveria pertencer a Shikaku por muitos anos, Naruto reconheceu naquele escritório um vazio diferente do seu — mas ainda assim familiar.
— Então? — perguntou Shikamaru, voltando a encará-lo. — Por que veio até aqui?
Naruto endireitou-se na cadeira.
— Preciso de um conselho — disse, devagar.
— Estou ouvindo.
Naruto respirou fundo. Era por isso que ele estava ali, para fazer uma pergunta simples a um amigo.
— É sobre uma garota.
Shikamaru permaneceu em silêncio.
— Entendo.
— O quê? — surpreendeu-se Naruto. — Só isso?
— O que esperava que eu dissesse?
— Eu sei lá! Qualquer coisa!
— Estamos falando de você e uma garota — disse Shikamaru, esboçando um meio sorriso. — Isso já é mais problemático do que eu imaginava.
Naruto ouviu as Bestas com Caudas gargalharem dentro do plano psíquico.
— Shikamaru, por favor! — implorou Naruto, inclinando-se para frente. — Você precisa me ajudar.
— E por que eu?
— Porque você é esperto... e tem namorada.
Shikamaru fechou os olhos, pensando em Temari, e apertou a ponte do nariz.
— Essa é a sua justificativa?
— É uma ótima justificativa.
— Não, não é.
— Claro que é! — respondeu Naruto. — Você até conseguiu fazer uma mulher gostar de você.
Shikamaru abriu os olhos.
— Afinal de contas, você veio aqui pedir minha ajuda ou me insultar?
— Desculpa! Desculpa! — Naruto gesticulou repetidas vezes, porém agora com um sorriso constrangido.
Shikamaru suspirou e voltou a recostar-se na cadeira. Naruto raramente procurava alguém para falar sobre o que sentia. Na maioria das vezes, ou ele anunciava suas emoções para o mundo inteiro ou tentava resolver as coisas sozinho, sem pensar direito. Por isso, mesmo que romance não fosse sua especialidade, Shikamaru jamais conseguiria virar as costas para um amigo como Naruto Uzumaki.
— Muito bem — disse Shikamaru. — Quem é ela?
Naruto olhou para ele, desconfiado.
— Você não sabe?
— Tenho uma suspeita. Quero ouvir de você.
As bochechas de Naruto coraram.
— É a Hinata.
Um sorriso satisfeito surgiu nos lábios de Shikamaru. Ele assentiu como se tivesse acabado de confirmar o resultado de um cálculo simples.
— Como eu imaginava.
— Era tão óbvio assim? — Naruto franziu a testa.
— Ora, Naruto... você passa quase todas as manhãs estudando com ela. Fala dela sempre que alguém pergunta sobre o exame. E está aqui justamente no único dia em que ela não pôde encontrá-lo.
Naruto arregalou os olhos.
— Como sabe que ela não pôde me encontrar hoje?
— É simples. Se Hinata estivesse disponível, você estaria estudando com ela em vez de me procurar.
— Ah.
Naruto permaneceu em silêncio, tentando organizar os próprios pensamentos. Shikamaru o observava atentamente, mas, ao perceber que Naruto não conseguiria falar por conta própria, levantou-se e foi até o tabuleiro de shougi.
— Venha — convidou Shikamaru. — Vamos jogar.
— Você vai me dar uma surra — disse Naruto, contrariado. — Eu não sei jogar isso direito.
Shikamaru apenas ignorou o protesto e começou a reorganizar as peças. Naruto observou em silêncio. Quando o líder do clã Nara pôs a última peça no devido lugar, voltou-se para o visitante, que, com um suspiro derrotado, levantou-se e foi até o tabuleiro de shougi.
Assim que Naruto se sentou à sua frente, o jovem Nara deu início à partida.
— Você estava falando da Hinata — lembrou-o Shikamaru.
— Eu não sei direito quando isso aconteceu — começou Naruto, movendo uma peça. — Quer dizer, eu sempre soube que a Hinata era importante. Ela esteve do meu lado várias vezes, acreditou em mim quando um monte de gente não acreditava. E na guerra, ela...
Naruto parou.
A lembrança de Neji, do campo de batalha e da mão de Hinata segurando a sua atravessou sua mente. Não era uma lembrança simples; dor e calor se misturavam e Naruto não conseguia lidar com aquilo direito.
— Eu sei de tudo isso, sabe, Shikamaru — prosseguiu Naruto, enquanto jogava. — Só que agora parece diferente.
— Diferente como?
— Eu penso nela o tempo todo.
Shikamaru parecia nem um pouco surpreso.
— Quando a gente está estudando, eu tento prestar atenção nas explicações, mas aí ela chega mais perto, ou sorri, ou começa a mexer no cabelo... — Naruto coçou a própria nuca, sentindo o rosto aquecer. — E eu esqueço o que estava fazendo.
— Pelo jeito, a Hinata tem tido muito trabalho com você nessa sua preparação — comentou Shikamaru, fazendo um lance no tabuleiro.
— Eu dou o meu melhor! — protestou Naruto, respondendo à jogada de Shikamaru. — Mas você entende o que quero dizer, não é? Eu gosto de conversar com a Hinata. Gosto de ouvir o que ela pensa. E quando acontece alguma coisa boa, eu já penso em contar para ela.
— E quando acontece algo ruim?
— Também — respondeu Naruto.
A expressão de Shikamaru perdeu parte do tédio habitual.
— Naruto... você sabe o que está havendo — afirmou. — Então qual é a sua dúvida?
— Sakura-chan.
Shikamaru ergueu o rosto. O nome de Sakura não saiu dos lábios de Naruto com o mesmo entusiasmo de outros tempos. Saiu baixo, quase acompanhado de culpa.
— O que tem ela?
— Eu gostava dela — disse Naruto, hesitante.
— Gostava.
Naruto demorou, mas percebeu a ênfase de Shikamaru. E quando percebeu, seus olhos se iluminaram.
— É! Eu gostava da Sakura-chan.
Durante anos, aquilo parecera uma das poucas certezas que possuía. Ele gostava de Sakura, tentaria conquistá-la à sua maneira; e um dia ela finalmente o enxergaria não apenas como um amigo, mas como ele a enxergava.
Porém, quando Sakura havia recusado seu convite depois do Exame Chuunin, Naruto sentira-se decepcionado. Ainda assim, a decepção por mais uma recusa passara tão rápido quanto viera. E depois, o que havia sobrado não era raiva, tristeza ou desejo de insistir — embora ele ainda quisesse estar com Sakura para confirmar, de uma vez por todas, o que sentia... e o que deixara de sentir.
Mas não foi necessário. Com o tempo, os pensamentos de Naruto em relação à Sakura passaram a vir sempre associados a carinho, admiração e lealdade, não paixão. Sakura Haruno era, sem sombra de dúvidas, uma das pessoas mais importantes de sua vida. Naruto queria vê-la feliz, queria protegê-la e estaria ao seu lado sempre que ela precisasse. Mas já não desejava que Sakura o amasse da maneira com a qual um dia ele sonhara.
E isso se tornava mais claro a cada momento que Naruto passava com Hinata Hyuuga.
— Acho que eu finalmente entendi, Shikamaru — disse Naruto. — Eu ainda amo a Sakura-chan. Só que não do jeito que eu pensava.
Shikamaru assentiu devagar.
— Ela é sua companheira de equipe.
— É quase minha irmã — acrescentou Naruto. — Uma irmã assustadora que pode quebrar todos os meus ossos. — Naruto soltou uma breve risada, mas logo tornou a ficar sério. — Ainda assim...
— O que foi, Naruto?
— Será que isso faz de mim uma pessoa ruim? — perguntou o Uzumaki.
Shikamaru piscou duas vezes.
— O quê? O que quer dizer?
— Eu passei tanto tempo dizendo que gostava da Sakura-chan, e agora estou sentindo algo pela Hinata.
Shikamaru finalmente compreendeu. Para alguém como Naruto, que passara boa parte da infância sem conhecer o mínimo de afeto, lidar com os próprios sentimentos era algo difícil, mesmo com o passar dos anos. E isso só mostrava o quão especial era Naruto Uzumaki: alguém que, com todas as dificuldades para entender a si próprio, era capaz de compreender os outros melhor do que qualquer um.
Shikamaru sorriu compassivo.
— Escuta. Não há nada de errado em perceber que seus sentimentos mudaram. Seria pior continuar correndo atrás da Sakura só porque fez isso durante tantos anos, mesmo sabendo que já não é isso o que você quer.
Naruto ficou pensativo.
— Eu não sei dizer quando exatamente meus sentimentos mudaram.
— Desde que você entenda que eles mudaram, quando isso aconteceu realmente importa? — questionou Shikamaru, fazendo outra jogada.
— É só que... — Naruto olhava para sua situação no tabuleiro e já via o fim chegando. — Eu fiquei tanto tempo preso na Sakura-chan, e agora vejo que era um sentimento bobo, sem futuro... Tenho medo de que com a Hinata seja a mesma coisa.
Shikamaru pousou um olhar firme no amigo.
— Naruto, o que você sente pela Hinata?
— Eu... — Naruto levantou o rosto e engoliu em seco. Shikamaru o encarava com seriedade, como se não aceitasse qualquer resposta que não fosse verdadeira. — Eu gosto muito dela, Shikamaru. Mais do que como amiga. Muito mais.
Shikamaru assentiu.
— E acha que isso é um sentimento bobo? Ou sem futuro?
Naruto franziu a testa. “Onde ele quer chegar?”, perguntou-se.
— Não.
— Bom — disse Shikamaru. — E quanto à Sakura? Era real?
Naruto abriu a boca para responder, porém Shikamaru ergueu a mão e pediu que ele o escutasse.
— Você tem medo de que esteja enganado em relação à Hinata também — disse Shikamaru, olhando dentro dos olhos azuis-safira de Naruto. — Mas você acabou de admitir que gostava mesmo da Sakura. O que sentia por ela antes era tão verdadeiro quanto o que sente agora. A diferença é que o seu amor pela Sakura mudou. Só isso.
Naruto abaixou a cabeça.
— E se o que eu sinto pela Hinata mudar também? — perguntou Naruto, inseguro.
— Se mudar, mudou — respondeu Shikamaru, movendo uma peça no tabuleiro e finalizando a partida —, mas não se preocupe. Sentimentos assim não mudam com facilidade. Nem de uma hora para outra. Não dá para saber o que será de vocês dois daqui para frente, é verdade. Mas isso não faz do que você sente pela Hinata agora algo menos verdadeiro.
Naruto assentiu. Seu amigo estava certo, para variar.
— Obrigado, Shikamaru — agradeceu, sorrindo. — E agora, o que eu faço?
— Converse com a Hinata.
Naruto piscou.
— Só isso? — estranhou.
— Só. O que mais você esperava?
— Para começar, onde falar com ela — enumerou Naruto —, o que dizer, quando... você sabe. Me diz: como foi na sua vez com a Temari?
Foi a vez de Shikamaru estremecer. Ele se lembrava muito bem, inclusive, do sopapo que Temari lhe havia dado no rosto apenas porque estava tão nervosa. Para a sorte de Naruto, Hinata não era esse tipo de garota.
— Só convide-a para sair, está bem? — disse Shikamaru.
— Um encontro, você diz? — Naruto franziu a testa.
— É, um encontro — orientou Shikamaru. — Um jantar, uma caminhada. Qualquer coisa que não envolva estudar para o exame. Ela precisa entender que é algo diferente.
Naruto deu uma leve risada. Shikamaru falava com seu típico ar desinteressado, mas, surpreendentemente, mostrara-se um verdadeiro especialistano assunto. No fim das contas, Naruto havia acertado em cheio ao ir procurá-lo. E imaginar Hinata sentada diante dele no Ichiraku, depois caminhando juntos pela vila, sem livros entre eles, sem questões para resolver e sem Hiashi-sama ou Hanabi-chan a observá-los, fez o coração de Naruto acelerar um pouco.
— E o que eu digo? — perguntou Naruto, sorrindo abobado.
— Que tal “Hinata, quer sair comigo”? — sugeriu Shikamaru.
— Assim, do nada?!
Shikamaru bocejou.
— Normalmente, convites funcionam melhor quando a outra pessoa entende que está sendo convidada.
— Certo, certo, e depois? — insistiu Naruto, impaciente.
Shikamaru encolheu os ombros. “Esse cara... que problemático”, pensou, suspirando. Em seguida, levantou o rosto para um Naruto que o observava com atenção inquieta.
— Escute, Naruto — disse Shikamaru. — Você não precisa de um manual de instruções, apenas aja naturalmente. Convide a Hinata para passar algum tempo com você a sós. Depois, preste atenção nela e diga a verdade quando perceber a melhor hora de falar o que sente.
Naruto respirou fundo.
— Entendi.
— Ótimo! — exclamou Shikamaru, levantando-se. — Terminamos por aq—
— Shikamaru, só mais uma pergunta. — “O que é dessa vez?”, pensou Shikamaru, virando-se novamente para Naruto. — O que você acha de eu levá-la ao Ichiraku?
O líder do clã Nara inclinou a cabeça.
— Sinceramente? Não seria a minha escolha para um primeiro encontro — disse Shikamaru. — Que tal perguntar aonde ela gostaria de ir?
Naruto ficou imóvel. A ideia de perguntar o que Hinata queria parecia tão óbvia que ele se sentiu um pouco envergonhado por não ter pensado nisso antes.
— É. Tem razão.
— Avise-me se tudo der certo — pediu Shikamaru, dirigindo-se de volta à sua mesa. — Se a Hinata aceitar, você vai precisar escolher uma boa roupa. E como não confio no seu guarda-roupa, talvez precisemos fazer compras.
Naruto soltou uma risada.
— Shikamaru, você é o melhor. Vai me ajudar com isso também?
— Eu? Não — disse Shikamaru, sentando-se à mesa. — Mas conheço alguém bem mais capaz do que eu quando o assunto é moda.
O sorriso de Naruto desapareceu na mesma hora.
— Não me diga que é a—
— Isso aí — Shikamaru confirmou os temores de Naruto. — Tenho certeza de que ela encontrará um tempo para te ajudar com isso. Agora, se me der licença...
Naruto caminhou até a porta enquanto Shikamaru se voltava para o ofício enviado pelo gabinete da Hokage.
— Shikamaru — chamou Naruto perto da porta.
— O que foi?
O jovem líder Nara ergueu os olhos do documento. Naruto sorria, mas não era o sorriso espalhafatoso de sempre. Era um sorriso pequeno e sincero.
— Obrigado — disse o Uzumaki ao amigo. — Shikaku-san ficaria orgulhoso. Tenho certeza.
Shikamaru permaneceu quieto. Seus olhos recaíram brevemente sobre o tabuleiro de shougi perto da janela.
— Espero que sim.
Naruto inclinou a cabeça numa despedida silenciosa e deixou o escritório. Do lado de fora, o sol já se encontrava mais alto. A brisa suave atravessava as árvores do Distrito Nara, levando consigo o cheiro de vegetação.
Naruto respirou fundo.
Ainda estava nervoso. Provavelmente ficaria ainda mais quando estivesse diante de Hinata. Talvez até se esquecesse do que dizer, se atrapalhasse com as palavras e falasse alguma idiotice. Mas, pela primeira vez, sabia o que deveria ser feito.
— É isso! — exclamou convicto. — Eu vou chamar Hinata Hyuuga para sair.
Dentro do escritório, Shikamaru escutou a voz alta e empolgada de Naruto desaparecer junto com seus passos pelo caminho. Depois, olhou para a porta fechada e balançou a cabeça.
— Que problemático...
Ainda assim, havia um leve sorriso em seu rosto.
Um sorriso que durou pouco. Quando seus olhos se voltaram ao ofício da Quinta Hokage, a expressão de Shikamaru Nara tornou-se séria novamente. Uma reunião extraordinária com toda a cúpula da Folha não era convocada por qualquer motivo.
E, fosse qual fosse o problema, ele descobriria ao fim daquele dia.
***
Hinata Hyuuga conhecia todos os rostos reunidos naquela sala. Conhecia-os desde a infância, embora raramente tivesse trocado mais do que cumprimentos formais com alguns deles. Eram homens e mulheres que haviam servido ao clã durante décadas, aconselhado seu pai e acompanhado, bem de perto, seu progresso como a primogênita de Hiashi Hyuuga e herdeira da Casa Principal.
Até o momento em que Hinata precisou enfrentar sua irmã Hanabi. Depois disso, já não tinham qualquer interesse em seu progresso.
Mas, ironicamente, todos estavam ali naquela manhã por causa dela.
Hinata permaneceu imóvel diante da entrada fechada por alguns instantes. Respirou fundo, tentando conter a tensão que se acumulava em seu peito. Havia seguido todas as instruções do pai. Seu longo cabelo escuro estava recém-lavado, cuidadosamente penteado e solto pelas costas. Para a ocasião, escolhera apresentar-se em um quimono branco de mangas longas, bordado com discretos ramos de lavanda junto à barra e preso à cintura por um obi lilás. Aos olhos de qualquer observador, Hinata transmitia exatamente a sobriedade e a dignidade esperadas da primogênita da Casa Principal.
Somente os dedos, unidos sob as mangas, denunciavam o esforço que ela fazia para controlar o nervosismo. Foi depois de sentir que a respiração havia se estabilizado que Hinata abriu a porta.
O salão reservado às reuniões do Pequeno Conselho era amplo, solene e rigorosamente simétrico. Vigas de madeira escura sustentavam o teto elevado, enquanto painéis de shouji filtravam a luz da manhã e a espalhavam em faixas pálidas sobre o tatame impecável. O ambiente exalava riqueza e requinte, mas nenhuma ostentação desnecessária. Era como se cada objeto naquele salão ocupasse seu lugar determinado. O brasão do clã Hyuuga preenchia quase toda a parede principal. Almofadas estavam dispostas em semicírculo sobre o tatame, respeitando a posição de cada conselheiro dentro da hierarquia.
O senhor seu pai encontrava-se no centro, na posição destinada ao líder do clã. À direita de Hiashi estava Sema Hyuuga, o líder do Pequeno Conselho. O ancião mantinha a coluna perfeitamente ereta, as mãos pousadas sobre os joelhos e uma expressão tão imóvel quanto a de uma estátua. Os cabelos brancos estavam presos atrás da cabeça, e as rugas profundas em seu rosto não diminuíam nem um pouco a intensidade de seu olhar.
Do lado oposto, à esquerda de Hiashi, estava Hanabi. A atual herdeira vestia um elegante quimono alaranjado com uma fita vermelha na cintura. Hanabi mantinha-se em uma postura tão disciplinada quanto todos os presentes. Ainda assim, Hinata reconheceu imediatamente a tensão nos ombros da irmã caçula.
As duas irmãs trocaram um olhar e, por um instante, o rigor do salão desapareceu. Hinata enxergou apenas sua irmãzinha, e alguma coisa nos olhos de Hanabi pareceu lhe pedir que não tivesse medo.
Hinata respondeu com um sorriso quase imperceptível.
Então, caminhou até o centro do salão e ajoelhou-se diante do líder do clã e dos anciões.
— Hinata Hyuuga apresenta-se diante do Pequeno Conselho — declarou, curvando-se respeitosamente.
— Erga-se, Hinata-sama — ordenou Sema. Hinata assentiu e voltou à posição anterior.
O ancião a observou por alguns segundos antes de prosseguir.
— Hiashi-sama comunicou formalmente a este conselho sua intenção de restituir à primogênita a condição de herdeira e sucessora do clã Hyuuga. — Nenhum dos conselheiros reagiu. Todos conheciam a decisão. — Contudo, Hanabi-sama permanece, até este momento, como a herdeira reconhecida — continuou Sema. — Uma alteração dessa magnitude não pode ser tratada como uma simples decisão familiar. Diz respeito à estabilidade da Casa Principal, à relação desta com a Casa Secundária e ao futuro de todo o nosso clã.
Hinata manteve os olhos voltados para o líder do conselho.
— Compreendo, Sema-dono.
— O Pequeno Conselho fará perguntas — esclareceu Sema. — Esperamos que Hinata-sama responda com absoluta sinceridade.
— Assim farei.
Sema inclinou levemente a cabeça.
— Então comecemos pelo passado.
O silêncio se tornou mais pesado dentro do salão. Todos os olhos já estavam postos sobre Hinata, que fazia o possível para não demonstrar nenhum sinal de fraqueza.
— Hinata-sama, quando a senhora ainda era só uma criança, Hiashi-sama a destituiu da posição de herdeira de nosso clã, trocando-a por sua irmã, Hanabi-sama, que na época tinha apenas quatro anos de idade — disse Sema, olhando fixamente para Hinata. — Hoje, a pedido de vosso pai, o Pequeno Conselho foi reunido para rever aquela decisão. A senhora julga que Hiashi-sama cometeu um erro ao destituí-la no passado?
A primeira pergunta já continha uma armadilha. Se Hinata criticasse a antiga decisão, desafiaria publicamente o julgamento do pai. Se a considerasse correta, reconheceria diante de todo o Pequeno Conselho que fora indigna da posição.
Hinata sentiu as mãos se enrijecerem sobre o colo. Controlou a respiração antes de responder.
— Não considero que meu pai tenha errado ao avaliar quem eu era naquela época — disse. — Hanabi estava mais preparada do que eu, possuía maior confiança e demonstrava melhor desempenho nos treinamentos. Em suma, os olhos de meu pai não se enganaram: minha irmã, embora mais nova, estava mais apta a cumprir as expectativas da Casa Principal.
Hanabi desviou os olhos para o rosto rígido do pai. Hiashi olhava para Hinata, porém seu olhar estava distante — no passado, e no dia em que rejeitara a própria filha.
— Então admite que Hanabi-sama é superior — observou um dos conselheiros.
Hinata voltou-se respeitosamente para ele.
— Admito que Hanabi era mais preparada naquele momento. Não considero que reconhecer as qualidades de minha irmã diminua as minhas.
O homem apertou os lábios, mas nada respondeu.
— A decisão tomada no passado baseou-se nas pessoas que éramos naquele período — disse Hinata, voltando-se para Sema. — A decisão que meu pai propõe agora deve considerar quem nos tornamos.
Sema não demonstrou satisfação nem desagrado.
— E quem Hinata-sama se tornou?
Hinata hesitou por um segundo. A pergunta era simples, mas o mesmo não poderia ser dito da resposta que ela exigia.
Durante muito tempo, Hinata havia permitido que outras pessoas lhe dissessem quem ela era. Fraca. Hesitante. Inadequada. Gentil demais para liderar. Incapaz de superar a própria irmã. Uma decepção. Tudo isso não apenas moldara a forma como Hinata enxergara a si mesma, como também se refletia em suas ações. Mas tudo mudou quando ela conheceu Naruto Uzumaki e passou a observá-lo.
Contudo, o Pequeno Conselho não estava interessado em Naruto e sim nela. Era chegado o momento de Hinata Hyuuga mostrar-lhes o quanto havia crescido.
— Eu ainda possuo limitações — respondeu. — Ainda sinto medo e ainda hesito diante de algumas decisões. Mas já não permito ser dominada pelo medo.
Alguns conselheiros trocaram olhares discretos.
— A vida como kunoichi me ensinou muitas coisas — prosseguiu Hinata. — Aprendi que coragem não significa ausência de medo. Significa continuar mesmo quando ele existe. Aprendi também que lutar e proteger alguém nem sempre exige força superior. Às vezes, exige apenas que sejamos os primeiros a permanecer de pé.
Hiashi observava a filha em silêncio.
— Aprendi, ainda, que não sou refém das circunstâncias nem do destino que me é imputado; sou capaz de fazer escolhas e mudar minha realidade — Hinata continuou. — Foi o que fiz e continuarei a fazer. Jamais desistirei nem voltarei atrás na minha palavra. Este é o Caminho Ninja que decidi trilhar.
— Palavras adequadas, Hinata-sama — comentou Fumiko Hyuuga, uma anciã sentada próxima a Sema. — Entretanto, o líder de um clã precisa fazer mais do que permanecer de pé ou jamais desistir. Precisa tomar decisões que podem causar sofrimento aos próprios parentes. É sabido que Hinata-sama sempre demonstrou excessiva compaixão. O que fará quando vossa bondade entrar em conflito com a necessidade do clã Hyuuga?
Hinata voltou-se para a anciã.
— Buscarei a sabedoria e a justiça. Somente após compreender todas as consequências de minhas ações, decidirei o que deve ser feito.
— Isso não responde à pergunta — acusou a conselheira.
— Então responderei de outra forma, Fumiko-sama — disse Hinata, mantendo o tom respeitoso. — Compaixão não impede que uma decisão difícil seja tomada, se necessário. Apenas impede que o sofrimento causado por minhas escolhas seja visto como algo sem importância.
Fumiko estreitou os olhos.
— E se a hesitação colocar este clã em perigo?
— Então deverei agir apesar da hesitação — disse Hinata. — E responderei pelas consequências de meus atos.
Sema ergueu uma das mãos, encerrando aquela linha de perguntas.
— Falemos de suas capacidades.
Hinata sabia que aquele momento chegaria cedo ou tarde. Foi mais cedo.
— Hinata-sama lutou na Quarta Grande Guerra Ninja, depois foi promovida a Jounin, após um embate memorável contra a discípula da Quinta Hokage. Não somente isso: a senhora demonstrou evolução considerável em nosso Taijutsu do Punho Suave — pontuou Sema. — Ainda assim, diferentemente de Neji Hyuuga, a senhora não dominou o Hakkeshou Kaiten.
— Isso é verdade, Sema-dono. Ao contrário do Neji-niisan, eu não sou um talento geracional — reconheceu Hinata.
— Há um agravante: seu falecido primo pertencia à Casa Secundária, o que o impedia de ter acesso direto a essa técnica — observou Sema. — Sendo a senhora herdeira da Casa Principal e alguém que não dominou todo o nosso repertório técnico, como pretende liderar e proteger este clã?
Aquelas palavras percorreram o salão como um golpe silencioso.
— Eu protegerei nosso clã com minha força. E, no que depender de mim, dominarei o Kaiten.
Hanabi voltou os olhos para a irmã. Hiashi permaneceu em silêncio.
— A senhora fala com empolgação juvenil, Hinata-sama — declarou outro conselheiro, chamado Tadayoshi. — Devo lembrá-la de que o Kaiten não é apenas uma técnica defensiva. É um símbolo do domínio absoluto do fluxo de chakra pelos tenketsu. Durante gerações, o Hakkeshou Kaiten foi considerado uma das maiores expressões do poder da Casa Principal.
— Eu sei, Tadayoshi-sama.
— E mesmo assim, sem sequer dominá-lo, apresenta-se diante de nós como candidata à sucessão.
Hinata sentiu o coração acelerar.
— Apresento-me diante deste conselho com tudo o que sou. — Não tentou esconder a limitação. Hinata sabia que fazê-lo seria inútil, além de indigno. — Isso inclui minhas capacidades e também as técnicas que ainda preciso aprender.
— Uma intenção não é uma qualificação — disse Fumiko.
— Não, senhora — concordou Hinata —, mas reconhecer uma limitação é o primeiro passo para superá-la. Seria mais grave de minha parte buscar a liderança ocultando do conselho minhas falhas.
Noboru Hyuuga, o líder da ala moderada do Pequeno Conselho, assentiu.
— A senhora é tão jovem e, ainda assim, demonstra grande sabedoria, Hinata-sama — aprovou o conselheiro. — E talentosa também. É de meu conhecimento que desenvolveu duas técnicas por conta própria.
Hinata sorriu.
— Sim, Noboru-sama — disse ela. — Shugohakke Rokujuuyon Shou e Juuho Soushiken. Ambas foram fruto de meu trabalho duro e perseverança.
— E, com uma delas, a senhora defendeu Naruto Uzumaki do líder da Akatsuki — acrescentou Noboru.
A lembrança daquele momento voltou à mente de Hinata, quando estivera face a face com Pain. Ela não tremeu, mesmo diante do Rinnegan. Mesmo diante da morte que parecia certa.
Agora, tal como fora naquele dia, Hinata via o medo começar a desvanecer.
Sema percebeu isso.
— Hinata-sama acredita que poderá dominar o Kaiten tão bem quanto Neji e vosso pai? — perguntou o líder do Pequeno Conselho.
— Sim, Sema-dono.
— Com base em que a senhora diz isso?
Hinata aprumou o peito.
— Com base em meu Caminho Ninja, que não me permite voltar atrás na minha palavra, Sema-dono. Eu disse que dominarei o Hakkeshou Kaiten, e o farei.
O silêncio que se seguiu não era de aprovação, ao menos não totalmente. Parte do Pequeno Conselho, principalmente aquela composta pela ala mais moderada dos anciões, aprovou a resposta de Hinata. A outra parte, composta majoritariamente pela ala mais fundamentalista, apenas estreitou os olhos. Mas todos sabiam que, com aquela resposta, Hinata Hyuuga não lhes permitia uma contestação imediata.
Sema mudou de assunto.
— Caso seja reconhecida como herdeira, Hinata-sama deverá trabalhar diretamente com este conselho. Está disposta a seguir suas orientações? — perguntou.
— Estou disposta a ouvi-las.
Uma das sobrancelhas do ancião se elevou.
— Não foi o que perguntei — disse Sema.
Hinata sentiu o peso de todos os olhos sobre ela mais uma vez. Mas estava pronta para isso.
— O Pequeno Conselho existe para auxiliar o líder e preservar a experiência acumulada pelo clã — respondeu com tranquilidade. — Suas orientações devem ser consideradas com seriedade. Entretanto, a responsabilidade final pelas decisões pertence ao líder.
— Então pretende contrariar o conselho sempre que considerar conveniente? — questionou Sema, observando cada detalhe na postura de Hinata.
— Pretendo assumir a responsabilidade por cada decisão que tomar, conforme eu havia dito anteriormente — disse Hinata em tom respeitoso, porém olhando dentro dos olhos de Sema. — Inclusive, nos casos em que minhas decisões não coincidirem com a opinião deste douto conselho.
O ar dentro do salão pareceu ficar mais frio de repente.
Hanabi permaneceu em silêncio, observando a sabatina da irmã. A tensão, antes visível em seu rosto, cedeu lugar a um sentimento de orgulho. “É isso aí, Nee-sama!”, pensou, enquanto um sorriso escapulia de seus lábios.
Sema juntou as mãos diante do corpo.
— Passemos, então, a uma questão diretamente relacionada à autoridade da Casa Principal.
Hinata soube imediatamente do que Sema Hyuuga falaria.
— Caso venha a suceder Hiashi-sama, receberá autoridade sobre todos os membros da Casa Secundária e sobre a aplicação do selo que protege o Byakugan. Qual é sua posição sobre o Kago no Tori no Juin? — perguntou ele.
Por um segundo, houve apenas silêncio. O olhar de Hinata passou rapidamente pelo rosto de cada integrante do Pequeno Conselho. Todos ali pertenciam à Casa Principal. Todos haviam crescido dentro de um sistema que considerava o selo não apenas necessário, mas indispensável à sobrevivência do clã. E não somente isso. O uso do Kago no Tori no Juin, o Selo Amaldiçoado do Pássaro Engaiolado, lhes garantia uma posição bastante confortável dentro da estrutura de poder do clã Hyuuga.
Antes de responder à pergunta, Hinata olhou discretamente para o pai e percebeu que ele a observava também. Hiashi, que já conhecia as convicções de sua filha mais velha, manteve-se em silêncio.
Hinata respirou fundo.
— O Byakugan precisa ser protegido para que não caia em mãos erradas — começou. — Compreendo por que essa necessidade levou nossos antepassados a desenvolver o selo.
Alguns dos anciões pareceram relaxar.
— Mas não considero justo que a proteção de nossa Kekkei Genkai conceda à Casa Principal poder sobre a dor, o corpo e a vida dos membros da Casa Secundária — completou Hinata Hyuuga. E bastou ela terminar de falar para que a tensão retornasse.
Uma das anciãs da ala fundamentalista, Chisato Hyuuga, rapidamente estreitou os olhos, desconfortável.
— Hinata-sama pretende abolir o selo?
A pergunta da anciã pairou no centro do salão.
Hinata sentiu os dedos enrijecerem outra vez sobre o tecido de seu quimono. Aquele provavelmente era o tema mais espinhoso de toda a sabatina. Mas, ainda que não, certamente era o que mais lhe poderia causar problemas futuros. Hinata já sabia que sua resposta não seria bem recebida pelos anciões. E também sabia que não poderia suavizá-la apenas para agradar ao Pequeno Conselho.
— Pretendo abolir sua aplicação.
Um murmúrio contido percorreu o semicírculo. Uma reação que Hinata já esperava.
— Está dizendo que nenhuma outra criança da Casa Secundária receberia a marca? — perguntou novamente Chisato.
— Sim.
— Mesmo sem possuir outro meio de proteger nossa Kekkei Genkai?
Hinata sustentou o olhar da mulher.
— Sim.
Alguns conselheiros já não escondiam a indignação. Sema, por sua vez, permanecia imóvel, avaliando Hinata cuidadosamente.
— E o que faria com os selos já aplicados? — questionou um dos anciões.
— Não tentaria removê-los enquanto não descobrisse um método seguro e eficaz — respondeu Hinata. — Sabemos que o Kago no Tori no Juin afeta desde o nervo óptico da vítima até as células cerebrais. Qualquer tentativa de retirá-lo agora poderia causar danos irreversíveis ou até matar seus portadores. E eu não quero colocar em risco as pessoas que desejo libertar.
Um dos anciões chamado Godo Hyuuga inclinou-se para frente, mantendo o olhar fixo sobre Hinata.
— Diga-nos, Hinata-sama, o que pretende fazer exatamente.
Hinata assentiu.
— Os selos já presentes continuariam intactos enquanto não fosse possível neutralizá-los com segurança. Mas a Casa Principal deixaria de utilizá-los como instrumento de punição, e mais ninguém seria marcado.
Godo soltou uma risada curta.
— Então Hinata-sama retiraria da Casa Principal o meio pelo qual garantimos que a Casa Secundária cumpra suas obrigações.
— Se alguém só cumpre uma obrigação porque outra pessoa pode torturá-lo ou matá-lo, isso não é lealdade.
O rosto do conselheiro endureceu na mesma hora.
— É disciplina.
— É medo, Godo-sama.
O murmúrio que percorreu o salão não fez Hinata recuar.
— Durante gerações, esse medo ao qual a senhora se refere preservou a ordem entre as Casas — insistiu Godo.
— Durante gerações, ele também fez crianças crescerem acreditando que suas vidas pertenciam a outras pessoas.
A lembrança de Neji ainda pequeno atravessou a mente de Hinata. Antes de perder o pai, ele a tratava com carinho e cuidado; era quase seu irmão mais velho. Mas depois, sem que Hinata sequer compreendesse o motivo direito, o afeto do primo se transformara em desprezo. Um desprezo que demorou anos até finalmente se dissipar.
— O selo não fere apenas quem o carrega — continuou Hinata. — Fere também as pessoas ao redor. Pais, filhos, irmãos. Todos aqueles que precisam conviver com a certeza de que alguém da Casa Principal pode decidir como devem viver... e quando devem morrer.
Sema ajeitou-se sobre a almofada, sem permitir que qualquer emoção atravessasse seu rosto.
— Meu filho Kioto entregou a própria vida pela Casa Principal durante a Terceira Grande Guerra Ninja — disse. — O sacrifício dele salvou Hiashi-sama, assim como fez seu tio Hizashi. E, muitos anos depois, seu primo também se sacrificou para salvá-la, Hinata-sama.
Hinata conhecia vagamente a história. O segundo filho do conselheiro Sema fora amigo do senhor seu pai. Dizia-se que Kioto Hyuuga havia sido um shinobi excepcional e até mais habilidoso do que o próprio Hiashi na juventude. Porém, da mesma forma que Hizashi, Kioto havia nascido em um momento inoportuno e fora integrado à Casa Secundária. E foi na Terceira Grande Guerra Ninja, quando batalhões da Névoa os cercaram, que Kioto segurou sozinho a retaguarda, permitindo que Hiashi e os outros membros da Casa Principal escapassem da emboscada.
Hinata sentiu a garganta apertar.
— Bravura, sacrifício, dever... são essas palavras que temos repetido para nós mesmos apenas para continuar aceitando mais mortes.
Os olhos fundos de Chisato Hyuuga se estreitaram ligeiramente.
— Hinata-sama insinua que o selo amaldiçoado não protege o Byakugan?
— Sim, Chisato-sama. Essa proteção é cruel e arbitrária.
— Arbitrária? — repetiu a anciã, escandalizada.
Hinata assentiu.
— A Casa Secundária é marcada por toda a vida, porém o mesmo não ocorre com aqueles que nascem na Casa Principal. Isso significa que o Byakugan ainda pode ser roubado.
— Refere-se àquele ninja da Névoa que possuía o Byakugan implantado em um dos olhos, Ao — disse Chisato com sorriso seco. — Mas pessoas como aquele homem apenas provam o quão cobiçada é nossa Kekkei Genkai. Por isso, não podemos abrir mão do Kago no Tori no Juin.
Outro conselheiro falou rapidamente:
— Concordo! Deveríamos estar pensando em meios para ampliar a proteção de nosso Doujutsu, não a extinguir.
Hinata virou-se para o homem.
— Estaríamos dispostos a nos selar também? — questionou ela, mas o ancião não respondeu. Hinata prosseguiu. — Nós marcamos pessoas de acordo com a Casa em que nasceram, mesmo sabendo que alguns sequer despertarão o Byakugan um dia.
— A Casa Principal não poderia governar se estivesse submetida às mesmas restrições que a Casa Secundária — declarou Tadayoshi, como se aquilo fosse óbvio.
— De fato, Tadayoshi-sama — disse Hinata. — Por isso mesmo, concluo que proteger os segredos do Byakugan nunca foi a finalidade do selo amaldiçoado. — Virou-se para Sema. — Sempre foi sobre controle.
Nenhum dos conselheiros respondeu de imediato. Enquanto isso, Sema Hyuuga olhava fixamente para Hinata, mantendo sua expressão impassível.
— Sem o selo, como Hinata-sama pretende proteger nossa Kekkei Genkai? — questionou ele, após algum tempo.
— Somos capazes de proteger uns aos outros, Sema-dono — respondeu Hinata, convicta. — O clã Hyuuga é reconhecido como o mais forte da Vila Oculta da Folha. Se nossa única forma de proteger o Byakugan é marcar crianças e ensiná-las como devem viver e morrer, então não somos dignos de nossa reputação.
As palavras de Hinata ecoaram pelo salão, provocando nos membros do Pequeno Conselho reações mistas. Hiashi via aquilo e sentia-se satisfeito. Aos poucos, a filha começava a ganhar o respeito e o apoio de parte dos anciões.
— Foi uma bela resposta, Hinata-sama — observou a conselheira Chisato. — Agora, e se esse caminho nos levar a uma crise diplomática? A senhora deve se lembrar que, quando criança, um shinobi enviado como embaixador pela Vila Oculta da Nuvem tentou sequestrá-la para obter o Byakugan. Se não tivesse sido por Hiashi-sama, a senhora teria sido levada. Mas, com a morte de seu agente, a Nuvem nos exigiu um preço muito alto. Sabe muito bem a que me refiro.
O ambiente tornou-se mais pesado. Sim, Hinata sabia exatamente a que Chisato Hyuuga se referia.
— Por muito pouco a Vila Oculta da Nuvem não começou uma guerra contra a Folha — continuou a anciã. — Foi o selo amaldiçoado que impediu a situação de sair do controle. O Byakugan foi salvo, assim como a vida de vosso pai naquela terrível noite.
Hinata apertou as mãos sobre o colo.
— Meu pai não foi salvo por causa do selo... foi salvo porque meu tio precisou morrer.
Um silêncio mórbido caiu sobre a sala.
Para Hiashi, as palavras da filha fizeram retornar a vergonha e a impotência que sentira naquela noite. Observou Hinata de cabeça baixa, com os lábios comprimidos e as mãos apertando discretamente o tecido do quimono. Hinata havia herdado muito da mãe: a mesma maneira serena de falar, os mesmos gestos contidos, a mesma determinação silenciosa. Reconhecer a esposa na filha era doloroso e, ao mesmo tempo, reconfortante. Não afastava de Hiashi a culpa e a vergonha que sentia, mas lhe oferecia algum alento. E, tal como Himori, Hinata poderia até hesitar e sofrer diante das objeções do Pequeno Conselho. Mas jamais se curvaria a elas.
A voz de Chisato Hyuuga quebrou o silêncio:
— Hizashi cumpriu seu dever como membro da Casa Secundária. E o fez por vontade própria.
— É verdade. — Hinata encarou a conselheira. — Mas ele se entregou porque o sistema sob o qual meu tio nasceu ainda faz da morte a única escolha verdadeiramente livre para alguém da Casa Secundária.
— Como ousa minimizar o sacrifício de Hizashi? — Chisato Hyuuga apontou acusatoriamente para Hinata. — Seu tio foi um herói que salvou a vida do irmão, protegeu nossa Kekkei Genkai e a estabilidade deste clã, e ainda evitou que entrássemos em guerra contra a Nuvem!
Pela primeira vez naquela reunião, Hinata Hyuuga sentia raiva. Mas conteve-se. Não queria desonrar o pai, descontrolando-se perante o Pequeno Conselho.
— Uma morte heroica... — Hinata alternava o olhar entre Chisato e Sema. — É tudo o que podemos oferecer aos nossos irmãos da Casa Secundária?
— Às vezes, decisões difíceis precisam ser tomadas — retrucou Sema com ar indiferente. — Esse é o fardo da liderança, Hinata-sama. Se não compreende isso, não pode liderar este clã.
Hinata respirou devagar.
— Talvez tenha razão nisso, Sema-dono — disse ela com um olhar brando, porém firme, ao líder do Pequeno Conselho. — Eu vejo as vidas de todos neste clã como iguais, independentemente da Casa ou da posição hierárquica. É por isso que não me considero apta a liderar o clã Hyuuga, se isso significa sacrificar pessoas como meu tio Hizashi e Neji-niisan para manter minha posição.
Alguns anciões se entreolharam, murmurando entre si. O próprio Sema parecia surpreso com a disposição de Hinata de colocar a própria sucessão em segundo plano. Ele olhou de relance para Hiashi, que assistia a tudo em silêncio.
— Hinata-sama está... desistindo de reassumir seu lugar como herdeira? — Sema perguntou.
Hinata balançou a cabeça.
— Não me entenda errado, Sema-dono. Eu não recusaria a honra e o reconhecimento que meu pai me concedeu. Mas não posso liderar este clã sob essas regras. Por isso, mudarei a estrutura engessada do clã Hyuuga e o conduzirei por esse novo caminho. Esse é o compromisso que assumi diante do conselho.
Godo ficou horrorizado.
— Mudar o clã?! Hinata-sama pretende acabar com a estrutura e a ordem que nos mantêm de pé há gerações. Isso é um ultraje!
— Um delírio — concordou Chisato. — Puro idealismo juvenil.
— Mas o que há conosco? — questionou Noboru, irritado. — A proposta de Hinata-sama é tão temerária assim?
Antes que mais vozes se levantassem, Sema ergueu a mão, silenciando a todos.
— O que Hinata-sama teria feito em nosso lugar? — perguntou ele. — Se não estivesse disposta a entregar vosso pai nem vosso tio, arriscaria deflagrar uma guerra entre a Folha e a Nuvem?
Hinata via a armadilha por trás daquelas palavras. Qualquer resposta simples poderia fazê-la parecer ingênua ou irresponsável.
— Sema-dono, entendo que todos os recursos diplomáticos disponíveis deveriam ter sido utilizados para provar nossa boa-fé e que meu pai agiu apenas para impedir o sequestro de uma criança dentro de sua própria residência — respondeu Hinata, devagar. — O apoio do Hokage e do Senhor Feudal seriam imprescindíveis nesse caso.
— O Terceiro Hokage estava presente quando este conselho se reuniu — lembrou-lhe Sema —, mas a diplomacia do Senhor Terceiro de nada serviu, pois a Nuvem agia de má-fé desde o princípio.
Aquilo era inquestionável. Por mais que Hinata se lembrasse de Hiruzen Sarutobi como um homem bondoso e gentil, ela também reconhecia o quanto a gestão dele havia sido conturbada. Muitos problemas poderiam ter sido evitados se o Terceiro Hokage tivesse agido com mais firmeza e com o rigor necessário. E talvez esse fosse o temor de alguns do Pequeno Conselho em relação à Hinata — que, com seu coração compassivo, ela representasse no clã aquilo que Hiruzen Sarutobi havia sido para a Vila Oculta da Folha.
— Se a diplomacia falhasse, então seríamos os primeiros a nos preparar para defender o clã e a vila — disse Hinata.
Sema estreitou os olhos.
— Então, a senhora iria provocar uma guerra.
— A crise não foi provocada porque meu pai meu protegeu, mas sim porque, como o senhor mesmo disse, Sema-dono, a Nuvem agia de má-fé — respondeu Hinata. — E, se o Raikage não estivesse aberto ao diálogo, nos restaria apenas nos defender.
— Hinata-sama fala da guerra com assustadora naturalidade — comentou Sema, com um sorriso cínico. — Porém, quantas outras vidas foram salvas porque Hizashi escolheu morrer no lugar do irmão?
— Muitas — reconheceu Hinata, sem fugir da pergunta. — Mas, naquela ocasião, escolhemos rapidamente quem morreria para que a vila não enfrentasse uma retaliação estrangeira. Uma retaliação que não sabíamos se realmente viria.
Muitos conselheiros se entreolharam.
— Acha mesmo que o Raikage não estava disposto à guerra, Hinata-sama? — ironizou Sema.
Hinata olhou dentro dos olhos do ancião.
— Talvez estivesse, talvez não. Nunca saberemos se havia outra saída, Sema-dono, porque não lutamos o bastante para encontrá-la.
Sema acompanhou em silêncio os murmúrios que percorriam o conselho. Hinata conquistara não apenas a atenção, mas também a aprovação de alguns dos presentes. Aquilo não surpreendia um homem com sua experiência política. Da perspectiva de Sema Hyuuga, seria até tolice achar que esta nova Hinata fracassaria logo nas primeiras perguntas do conselho. A primogênita de Hiashi Hyuuga não era mais a criança fraca que um dia fora rejeitada pelo próprio pai. E, desde aquela época, a garota vinha conquistando seus méritos, até que se colocou novamente em condições de reivindicar o lugar que um dia fora dela por direito.
Hinata Hyuuga definitivamente havia se tornado um problema.
Com isso em mente, Sema conduziu o debate ao ponto mais caro principalmente para os conselheiros mais fundamentalistas: a autoridade da Casa Principal e os privilégios que estariam em risco caso Hinata viesse a herdar a liderança do pai.
— Hinata-sama compreende que sua posição poderia levar os membros da Casa Secundária a questionar todas as obrigações que lhes foram impostas? — perguntou ele.
Hinata percebeu a estratégia de Sema, mas decidiu ignorar.
— Compreendo, Sema-dono.
— E, mesmo assim, pretende enfraquecer a autoridade da Casa Principal sobre a Casa Secundária? É essa a mudança que está disposta a fazer?
— Sim — respondeu, percorrendo com o olhar os rostos dos conselheiros. — Eu não quero que os membros da Casa Secundária obedeçam porque sabem que podemos torturá-los. Quero que reconheçam na pessoa do líder alguém digno de ser seguido.
De seu assento, Hiashi Hyuuga observava a filha com ar de aprovação.
— De fato, Hinata-sama deseja governar um clã muito diferente daquele que pretende herdar — comentou Sema. — Veremos até onde está disposta a levar suas convicções.
Antes que Sema inaugurasse o próximo tópico, o conselheiro Godo pediu a palavra, que foi prontamente concedida pelo líder do Pequeno Conselho. Godo, então, olhou diretamente para Hinata. O rosto do conselheiro trazia um sorriso fino e perverso.
— Hinata-sama tem bastante consideração para com a Casa Secundária — disse em tom malicioso. — Isso tem a ver com a proximidade que existia entre a senhora e Neji Hyuuga?
— Em que isso é pertinente, Godo-sama? — perguntou Hinata.
— Gostaria que deixasse claro para este conselho o quanto a senhora e seu primo eram próximos — pediu o conselheiro. — E se, durante todo o período em que Neji frequentou as dependências da Casa Principal, tinham planos para o futuro.
Hinata sentiu o sangue abandonar-lhe o rosto. Ao mesmo tempo, Hanabi levantou-se num sobressalto, furiosa.
— Seu velho caquético! Eu juro que vou—
— Hanabi, sente-se — ordenou o pai, com a voz firme, porém não além do necessário.
Sem acreditar, Hanabi virou-se para o pai, que não a olhava de volta. Hiashi Hyuuga tinha os olhos fechados e a expressão dura como pedra. Hanabi cerrou os dentes, mas obedeceu.
Então, Hiashi falou novamente:
— Godo, como ousa desonrar minha filha na minha presença? — questionou o líder do clã Hyuuga, abrindo os olhos com as veias saltando ao redor de suas têmporas. Quando Hiashi ativou seu Byakugan, seu chakra se manifestou como uma onda invisível que percorreu todo o salão. — Retire essa insinuação. Agora.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O rosto do ancião empalideceu. Por um breve instante, Hinata quis baixar os olhos e permitir que o pai lidasse com aquela situação tão inconveniente e constrangedora para ela. Mas aquilo, provavelmente, era o que seus opositores no Pequeno Conselho já esperavam: que ela se escondesse atrás da autoridade do pai. E Hinata não queria passar a impressão de que ainda precisava ser protegida.
— Pai — ela chamou. — Eu responderei.
Hiashi voltou-se para a filha, surpreso.
— Hinata, você não—
— Por favor, pai. O líder do clã não deve se incomodar com algo assim.
A fúria ainda estava presente no olhar de Hiashi, mas o Byakugan havia sido desativado. Hinata agradeceu em silêncio, então tornou a encarar o conselheiro.
— Neji-niisan era meu primo e eu o amava como minha família. Portanto, não aceitarei que a memória dele seja desonrada aqui — disse ela a todo o Pequeno Conselho, com a voz serena e firme.
Sema ergueu a mão.
— A resposta de Hinata-sama foi clara — declarou. — Não voltaremos a esse assunto.
Hiashi ainda fuzilava Godo com o olhar.
— Prossiga, Sema-dono — ordenou.
— Como desejar, Hiashi-sama. — O ancião esperou o silêncio se restabelecer. — Se me permite, gostaria de indagar Hinata-sama sobre Naruto Uzumaki.
O olhar de Hiashi endureceu novamente.
— Pois meça suas palavras. Se minha filha for desonrada novamente, não aceitarei qualquer desculpa.
O ancião aceitou os termos. Então, voltou-se para Hinata e viu uma tensão diferente percorrer-lhe o corpo.
— Hinata-sama... — Sema escolhia as palavras com cuidado. — Essas convicções de liberdade, destino e mudança surgiram antes ou depois de sua aproximação com Naruto Uzumaki?
Hinata demorou um pouco mais para responder.
— Naruto-kun não formulou minhas opiniões sobre o selo amaldiçoado, Sema-dono.
— Entendo. Mas ele exerceu algum tipo de influência sobre a senhora. Estou certo? — perguntou o ancião.
Hinata não poderia negar. Era exatamente com isso que Sema Hyuuga estava contando.
— É verdade, Sema-dono. Naruto-kun me ensinou muito — disse ela. — Mas ele não moldou minha forma de pensar. Digo isso porque, durante muito tempo, não fui mais do que uma observadora distante do Naruto-kun.
A conselheira Fumiko Hyuuga pediu a palavra.
— Vejo que Naruto Uzumaki é alguém de grande importância para a senhora, Hinata-sama — disse a anciã de forma gentil. — Acredito que alguns membros deste conselho estejam preocupados com a possibilidade de essa proximidade interferir em seu julgamento das questões internas do clã.
Tadayoshi concordou.
— Sim. E, se me permite um exemplo prático, todos em nosso clã já sabem que Naruto Uzumaki vai diariamente à mansão principal apenas para vê-la, Hinata-sama.
— Sob minha supervisão — pontuou Hiashi imediatamente.
Hanabi percebeu o rosto da irmã mais velha começando a corar e precisou abafar uma risadinha.
— Nós estudamos juntos — explicou Hinata, após alguns segundos. — Naruto-kun me pediu ajuda para se preparar para o Exame Jounin Unificado. Decidi ajudá-lo porque... somos amigos.
Sema arqueou a sobrancelha.
— São amigos — repetiu. — Apenas isso?
O coração de Hinata acelerou. Já Hiashi lançou a Sema Hyuuga um olhar de advertência.
— Se está perguntando sobre meus sentimentos, Sema-dono, receio que não sejam tema para esta sabatina — respondeu a própria Hinata. — Mas posso lhes garantir que minhas responsabilidades não têm sido prejudicadas pelo tempo que reservo para ajudar o Naruto-kun em sua preparação.
— Sema-dono — chamou o conselheiro Noboru —, não há nada que desabone a conduta de Hinata-sama perante este conselho; e o mesmo pode ser dito sobre Naruto Uzumaki. O que o líder do Pequeno Conselho busca exatamente?
Sema não respondeu. Apenas fechou os olhos, pensativo. Ele não encontrara o deslize que procurava; e não poderia mais insistir com Hinata. Não quando Hiashi Hyuuga já o advertira com o olhar.
— Não havendo mais perguntas — disse, após algum tempo —, declaro encerrada esta sessão.
— Ótimo. Qual é o veredicto do Pequeno Conselho? — questionou Hiashi.
Sema demorou seu olhar sobre Hinata.
— Hinata-sama foi avaliada por este conselho, demonstrando forte convicção e maior maturidade do que possuía no passado — declarou ele. — Contudo, palavras não podem, por si só, desfazer uma sucessão já reconhecida perante todo o clã.
A tensão nos olhos de Hiashi retornou. Contudo, Sema Hyuuga sempre tivera um ás guardado na manga e usava-o naquele exato momento.
— Hiashi-sama pretende substituir Hanabi-sama, uma herdeira preparada durante anos, por uma candidata que admite não dominar técnicas essenciais da Casa Principal — continuou Sema — e que, conforme suas próprias palavras, pretende alterar os fundamentos políticos dos Hyuuga.
Hinata e o pai mantinham-se imóveis. Já Hanabi mal conseguia se conter de irritação. Para a garota, o fato de Sema Hyuuga usar o Hakkeshou Kaiten como argumento para desqualificar Hinata era simplesmente ridículo. Mais do que isso: era desonesto. Hanabi, assim como sua irmã mais velha, também não havia dominado o Kaiten; e isso já era de conhecimento dos anciões.
— Portanto, uma mudança dessa magnitude precisa ser legitimada diante de todos os membros do clã — prosseguiu Sema —, tanto da Casa Principal quanto da Casa Secundária.
Hiashi não gostou daquilo.
— O que está propondo, Sema-dono?
— Uma cerimônia pública de combate entre Hanabi-sama e Hinata-sama, a atual herdeira contra sua concorrente. O resultado permitirá que todos reconheçam qual delas é a sucessora mais qualificada... — Sema fez uma pausa e olhou na direção de Hinata — e qual delas é o galho fraco do ramo principal.
O duelo proposto por Sema foi aprovado pela ampla maioria do Pequeno Conselho. E, quando o resultado veio, o salão inteiro pareceu desaparecer ao redor de Hinata.
Por um instante, ela voltou a ser uma criança. Viu o pátio de treinamento, o olhar severo do pai, que acompanhava tudo. Viu também Hanabi, muito menor e mais jovem. Hinata se lembrava de tudo nos menores detalhes: da ordem do pai para que lutassem, da oportunidade de definir a luta que, por compaixão e medo de ferir a própria irmã, deixara passar, e do golpe de Hanabi que a atingira logo na sequência e a tirara de combate. Depois, vieram a vergonha e a humilhação pública.
Enquanto os conselheiros formalizavam a decisão aprovada, Hinata e Hanabi procuraram instintivamente apoio no olhar uma da outra. Hanabi também parecia em choque. Para ela, tudo havia piorado desde que fora obrigada a assumir a posição que, em seu entendimento, jamais deixara de pertencer à sua irmã.
Para Hanabi Hyuuga, Hinata sempre fora muito mais do que uma irmã mais velha. Com o vazio deixado pela mãe, que falecera durante o parto, a irmã passara a ocupar, ao menos em parte, aquele espaço em seu coração. Hanabi se lembrava de Hinata segurando-lhe a mão, contando-lhe histórias antes de dormir e rindo ao seu lado nas inúmeras vezes em que haviam se divertido juntas. E, mesmo depois de ter sido humilhada perante todo o clã por não corresponder às expectativas do pai, Hinata não permitiu que aquela derrota se transformasse em ressentimento e as afastasse. Mas foi por pouco — por muito pouco — que a decisão de outros não destruiu o que havia de mais bonito entre elas.
Agora, o Pequeno Conselho pretendia obrigá-las a viver tudo outra vez.
— Isso não é necessário — declarou Hanabi, com a voz tensa e quase irreconhecível. — Hinata-neesama tem mais qualidades do que eu, e provou isso hoje.
Sema voltou-se para ela.
— A necessidade da prova não é determinada pelo desejo das candidatas, Hanabi-sama. Eu lamento.
Hanabi cerrou os punhos.
— Eu não quero ter que lutar contra minha irmã — disse a garota, que logo em seguida procurou apoio junto ao líder do clã. — Pai, por favor...
Sema, porém, insistiu.
— O Pequeno Conselho considera essa prova indispensável, Hiashi-sama. Se Hinata-sama pretende substituir a atual herdeira, deverá demonstrar perante todo o clã que possui força para fazê-lo.
Hiashi fechou os olhos. E, durante um silêncio que pareceu durar horas, Hinata sentia o coração apertar dentro do peito. Ela também não queria aquela luta, muito menos que sua tentativa de recuperar a posição de herdeira causasse prejuízo a Hanabi. Como alguém que já estivera do outro lado, Hinata sabia as consequências de ser vista como um fracasso.
Ainda assim, ela conhecia o pai.
Se Hiashi recusasse a prova, o Pequeno Conselho utilizaria a recusa para questionar sua decisão. Diriam que ele protegia Hinata. Que não confiava nas capacidades da própria filha.
Quando Hiashi abriu os olhos, tinha uma decisão.
— Aceito a necessidade de uma prova pública — declarou o pai.
Hinata sentiu o ar lhe faltar. Já Hanabi abaixou a cabeça, dirigindo um olhar assustado para a irmã. Em contrapartida, uma satisfação discreta surgiu nos rostos de alguns conselheiros, inclusive no de Sema.
— Então preparemos—
— Mas Hinata não enfrentará Hanabi. — A interrupção de Hiashi fez Sema se retesar sobre a almofada.
Sema piscou duas vezes.
— Hiashi-sama?
— Minha filha não precisa provar que é superior à própria irmã — disse Hiashi ao conselheiro. — Eu a vi enfrentar Sakura Haruno de igual para igual no último Exame Jounin. Exigir agora que Hinata demonstre sua força contra Hanabi não revelaria nada que eu já não saiba.
Hiashi, então, voltou-se para a filha mais velha.
— Hinata Hyuuga, se pretende tornar-se minha sucessora, deve provar que é capaz de enfrentar aquele que atualmente lidera este clã.
Todos os conselheiros pareciam atônitos. Até mesmo Sema fora pego de surpresa.
— Hiashi-sama, essa não foi a prova proposta e aprovada pelo conselho.
— Foi exigida uma demonstração pública de que Hinata é digna de reassumir seu lugar de direito — respondeu Hiashi secamente. — Eu a concedi. A cerimônia de combate será realizada diante das duas Casas. E Hinata lutará contra mim.
Sema comprimiu os lábios.
— Derrotá-la apenas demonstrará sua superioridade, Hiashi-sama. E se, porventura, Hinata-sama vencer... — “as consequências seriam desastrosas”, Sema não se atreveu a dizer o resto.
Hiashi Hyuuga se levantou, e todos os presentes se curvaram na mesma hora.
— Esta é minha decisão. Se não há mais objeções, a reunião está encerrada.
Um após o outro, os anciãos deixaram o salão do Pequeno Conselho. Quando o último deles saiu pela porta, Hiashi voltou os olhos para as filhas.
— Levantem-se, Hinata, Hanabi.
Hanabi prontamente obedeceu, com um semblante que misturava leveza e preocupação. Por um lado, sentia-se aliviada de não ser forçada a lutar com a irmã; por outro, a alternativa não era menos assustadora.
Já Hinata tinha a expressão vazia.
— Hinata-neesama, você está bem? — Hanabi perguntou, imaginando o que se passava na cabeça da irmã.
Hinata não respondeu. Seus pensamentos pareciam dispersos. Naquele momento, ela só conseguia vislumbrar o rosto imponente do pai.
O homem que precisaria enfrentar.
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