O conflito entre o dever da herança e o peso da consciência atingiu o ponto de ruptura. Na manhã seguinte, Átila não conseguia mais suportar o peso do teto da Fazenda Nóbrega sobre sua cabeça.


​Átila invadiu o escritório de Heitor, onde o pai revisava os mapas de demarcação de terras. O jovem bateu com a mão sobre a mesa, fazendo a tinta respingar.

​— Devolva, pai. Devolva a Encruzilhada aos Valente e limpe o nome do meu avô! — a voz de Átila tremia de indignação.

​Heitor levantou-se lentamente, os olhos severos. — Você enlouqueceu? Aquela terra é o pulmão desta fazenda. Eu não vou desfazer o trabalho de uma vida por causa de um surto de culpa juvenil.

​— Trabalho? Você chama um golpe de mestre de trabalho? — Átila gritou, recuando. — Eu não quero essa herança maldita! Eu não quero ser dono de algo que foi tirado de pessoas que agora passam fome ao nosso lado!

​— Você é um Martinez! — rugiu Heitor, perdendo a paciência. — Aprenda a honrar quem veio antes de você ou saia desta sala agora!

​— Com prazer! — Átila deu as costas, saiu em disparada e montou em seu cavalo.

​Ele cavalgou cego pela raiva, entrando pelas trilhas fechadas da mata. O animal, assustado com o comando brusco e o chão úmido, tropeçou em uma raiz exposta. Átila foi arremessado, sua cabeça atingindo uma pedra antes de seu corpo rolar para uma vala coberta de folhas secas. A escuridão o tragou antes que ele pudesse sentir a primeira geada da noite.

​O Resgate na Alvorada

​A manhã surgiu com uma camada branca e mortal cobrindo a vegetação. Isadora, que saíra cedo para buscar lenha seca, viu o vulto negro do cavalo de Átila pastando sozinho. Seguindo os rastros, ela o encontrou na vala. Ele estava pálido, com a respiração fraca e o corpo rígido pelo frio.

​— Átila! Acorda, seu idiota! — ela gritou, sacudindo-o. Sem resposta, ela teve que usar toda a sua força para arrastá-lo até o cavalo, conseguindo, após muito esforço, colocá-lo sobre a sela e guiá-lo até a casa grande.

​Ao chegar no pátio, o grito de Jasmine ecoou por toda a fazenda.

​— Meu filho! Meu Deus, Átila! — Jasmine e Elena correram, desesperadas, ajudando Isadora a descê-lo.

​— Ele caiu na mata... passou a noite na geada — disse Isadora, a voz falha, os lábios roxos de frio e as mãos feridas pelo esforço.

​Enquanto Elena e Jasmine levavam Átila para dentro, socorrendo-o com cobertores e caldos quentes, Heitor e Maurício chegaram a galope, avisados pelos criados.

​O Confronto

​Heitor entrou no salão como um furacão, mas ao ver a filha do inimigo ali, sua preocupação se transformou em veneno.

​— O que você fez com ele? — Heitor avançou sobre Isadora, que recuou até a parede. — Vocês armaram isso? Atraíram meu filho para uma armadilha nas terras de vocês?

​Isadora, apesar de ter apenas 16 anos e estar exausta, ergueu o queixo. O ódio que ela sentia por aquele homem, alimentado pelas histórias de seu pai, explodiu.

​— Eu o encontrei morrendo de frio enquanto o senhor dormia no seu conforto! — ela cuspiu as palavras. — Se dependesse do seu "cuidado", ele seria um cadáver agora. Eu o trouxe de volta porque não sou uma assassina, ao contrário da sua família, que mata as pessoas lentamente tirando tudo o que elas têm!

​— Saia daqui, sua insolente! — gritou Heitor, apontando para a porta. — Suma das minhas terras antes que eu me esqueça de que você é uma criança!

​Isadora deu um passo à frente, sem medo. — Suas terras? Cada palmo deste chão tem o gosto do roubo. Eu odeio o senhor, Sr. Martinez. Odeio cada fibra do seu ser. Fique com seu filho e com seu ouro maldito.

​Ela saiu correndo, desaparecendo na neblina matinal. Heitor virou-se para entrar no quarto, mas foi barrado por Jasmine. A doçura habitual dela desaparecera; havia apenas uma fúria materna devastadora em seus olhos.

​— Como você teve coragem? — Jasmine gritou, a voz embargada.

​— Jasmine, ela é uma Valente, eles querem nos destruir...

​— ELA TROUXE O SEU FILHO DE VOLTA! — Jasmine deu um passo para frente, fazendo Heitor recuar. — Enquanto você discutia com ele e o deixava sair naquela fúria, aquela menina, que você despreza, salvou a vida do Átila! Se meu filho sobreviver a essa pneumonia, será por causa dela, e não por causa do seu orgulho estúpido! Vá para o escritório, Heitor. Não chegue perto dele e não chegue perto de mim até que aprenda o que significa gratidão!

​Heitor ficou parado no corredor, atordoado, ouvindo os soluços de Elena lá dentro enquanto ela cuidava de Átila. Pela primeira vez em anos, o silêncio da fazenda não era de paz, mas de uma revolta que prometia mudar tudo.