O HERDEIRO DO OUTONO livro 3 Martinez
5 O Despertar sob o Peso da Dívida
O tempo na Fazenda Nóbrega parecia ter congelado junto com a geada daquela manhã fatídica. O castelo Martinez, outrora cheio de vida, mergulhou em um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo som das bacias de água sendo trocadas e pela respiração pesada de Átila, que lutava contra uma pneumonia impiedosa.
Heitor, o homem que sempre teve todas as respostas, definhava a cada dia. A dívida de honra pesava em seus ombros mais do que qualquer saca de trigo.
dias de inconsciência de Átila foram um inferno particular para Heitor. Ele passava horas parado à porta do quarto, sem coragem de entrar, ouvindo Jasmine sussurrar orações e Elena aplicar ervas medicinais que aprendera com Açucena.
Na Encruzilhada, Isadora subia todos os dias ao riacho, olhando para o casarão ao longe. Ela odiava os Martinez, mas o rosto pálido de Átila em seus braços não saía de sua mente. Seu pai, o Sr. Valente, bufava: "Deixe que o gelo termine o que a justiça não fez", mas ela permanecia ali, esperando um sinal de fumaça ou um movimento que indicasse vida.
O Retorno à Consciência
Na tarde do vigésimo nono dia, o milagre aconteceu. Átila abriu os olhos devagar. A luz do quarto o cegava, e sua garganta parecia cheia de areia.
— Átila? — a voz de Jasmine quebrou em um soluço. — Meu filho?
— Mãe... — ele sussurrou, a voz quase inaudível.
Elena correu para o corredor e gritou: — Ele acordou! Heitor, Maurício! Ele acordou!
Heitor entrou no quarto tropeçando nos próprios pés. Ele parecia ter envelhecido dez anos em um mês. O orgulho que antes o sustentava estava estilhaçado.
— Meu filho... me perdoe — Heitor caiu de joelhos ao lado da cama, segurando a mão fraca de Átila. — Eu nunca deveria ter deixado você sair... eu...
Átila olhou ao redor, confuso. As memórias voltavam em flashes: a queda, o frio mortal, e depois... um rosto. — A garota... — ele tossiu, sentindo o peito doer. — Isadora... foi ela, não foi?
O silêncio caiu sobre o quarto. Heitor sentiu o golpe.
— Sim, meu sobrinho — Maurício disse, aproximando-se da cama com um olhar severo para o irmão. — Foi ela. Ela te carregou no gelo enquanto seu pai e eu estávamos cegos pelo nosso próprio passado.
A Revolta e a Verdade
Átila olhou para o pai. — Você a agradeceu?
Heitor baixou a cabeça. — Eu... eu não tive a chance. Houve uma discussão.
— Ele a expulsou de casa como se ela fosse um cão sarnento, Átila — Jasmine disparou, a voz gelada, sem olhar para o marido. — No dia em que ela trouxe o corpo do filho dele de volta, ele a insultou.
Átila tentou se levantar, mas a fraqueza o impediu. Seus olhos brilharam com uma fúria que assustou Heitor.
— Ela salvou a minha vida, pai! Ela, que não tem o que comer porque o nosso nome tirou tudo dela! E você a tratou com ódio?
— Eu estava desesperado, Átila! Eu achei que era uma armadilha! — Heitor tentou se justificar, mas as palavras soavam vazias.
— Não é desespero, pai. É dívida. — Átila respirou fundo, fechando os olhos. — Cada dia que eu passei apagado, eu sentia o frio. E eu sentia as mãos dela me segurando. Você me ensinou que um Martinez sempre paga suas dívidas. Como você pretende pagar por essa? Com mais cercas e processos?
Heitor não respondeu. Ele saiu do quarto com o rosto entre as mãos. No corredor, ele encontrou Maurício.
— O que eu faço, Maurício? O garoto me odeia. Minha esposa mal fala comigo. E eu devo a vida do meu herdeiro ao homem que eu mais desprezo.
— Você não deve ao Valente, Heitor. Você deve àquela menina — Maurício respondeu, limpando uma lágrima rara. — E o preço para quitar essa dívida é algo que você nunca quis dar: o seu orgulho. Se você quiser recuperar o respeito do seu filho, vai ter que cruzar aquela divisa e baixar a cabeça.
O Olhar para a Encruzilhada
Horas depois, Átila conseguiu se sentar. Elena estava ao seu lado, servindo um caldo quente.
— Ela veio aqui, Elena? Alguma vez? — Átila perguntou.
— Não. Mas os criados dizem que viram o vulto dela no riacho todos os dias ao entardecer — Elena sorriu triste. — Ela é orgulhosa demais para pedir notícias, Átila. Mas ela estava esperando por você.
Átila olhou pela janela em direção às terras da Encruzilhada. Ele ainda não sentia amor, sentia algo mais profundo: um vínculo de sobrevivência. Ele sabia que o inverno estava apenas começando, e que a dívida dos Martinez com Isadora Valente estava prestes a mudar o destino de todos naquela fazenda.
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