O HERDEIRO DO OUTONO livro 3 Martinez
6 A Restituição
A recuperação de Átila foi lenta, mas a determinação em seus olhos crescia a cada dia. Assim que conseguiu firmar os pés no chão sem tontear, ele não pediu permissão. Ele agiu.
A cozinha do castelo Martinez parecia um campo de batalha organizado. Átila, sob o olhar surpreso de Açucena e o silêncio cúmplice de Elena, ordenava que cestos e mais cestos fossem cheios.
— Carnes defumadas, queijos, os melhores legumes e sacas de farinha — Átila dizia, enquanto os criados carregavam a carruagem. — E peguem aqueles cobertores de lã de carneiro e as cortinas de veludo que estavam guardadas no depósito norte.
— Átila, seu pai vai notar a falta de tudo isso — Elena sussurrou, embora estivesse ajudando a esconder um pote de geleia real em uma das cestas.
— Que note. Ele valoriza o ouro; eu valorizo a vida que me foi devolvida — respondeu o jovem, subindo na boleia da carruagem e partindo em direção à Encruzilhada.
O Portão da Redenção
A mansão dos Valente parecia ainda mais triste sob a luz cinzenta da tarde. Átila bateu na porta pesada de madeira descascada. Quem atendeu foi o Sr. Valente, com o olhar cansado e as roupas gastas.
— O que quer aqui, Martinez? Veio zombar da nossa ruína de perto? — o homem sibilou.
Átila tirou o chapéu e inclinou a cabeça em um gesto de respeito que o Sr. Valente não recebia há décadas.
— Não, senhor. Eu vim pedir perdão. Em nome do meu sobrenome e do meu pai. Mas, acima de tudo, vim agradecer. Eu deveria estar morto, e sua filha me trouxe de volta. Minha vida vale mais do que qualquer disputa de terras.
O Sr. Valente hesitou, o ódio lutando contra o espanto. Isadora apareceu atrás do pai. Ao ver Átila de pé, pálido mas vivo, ela esqueceu a armadura de orgulho. Ela correu e o abraçou com uma força que quase o fez perder o equilíbrio. Foi um abraço de alívio, de quem segurou a morte pelas mãos e finalmente a viu partir.
— Você é um idiota por ter saído naquela noite — ela sussurrou contra o ombro dele, a voz embargada.
— E você é o motivo de eu estar aqui para ouvir isso — Átila respondeu, afastando-se para mostrar a carruagem. — Trouxe mantimentos, roupas e dois dos nossos melhores homens para consertar o telhado e as janelas. Não é um pagamento, Isadora. É apenas o começo do que é justo.
A tarde foi de uma alegria estranha e barulhenta naquela casa fria. Pela primeira vez em anos, houve cheiro de carne assada e o som de martelos trabalhando.
O Retorno e o Trovão
Ao cair da noite, Átila retornou ao castelo. O clima, porém, era de tempestade. Heitor o esperava no pátio, com os braços cruzados e o rosto vermelho de fúria. Maurício estava ao fundo, observando a cena com os braços cruzados.
— Onde estão as provisões do depósito, Átila? E os homens que deveriam estar no celeiro? — Heitor gritou assim que o filho desceu do cavalo.
— Estão onde deveriam estar desde o início, pai. Na Encruzilhada — Átila respondeu com uma calma que irritou Heitor ainda mais.
— VOCÊ ROUBOU A SUA PRÓPRIA CASA? — Heitor avançou, a voz ecoando pelas paredes de pedra. — Levou nossa prataria, nossa comida e nossas lãs para aquele... aquele homem que nos odeia?
— Eu não roubei nada! — Átila rebateu, encarando o pai de igual para igual. — Eu usei a minha parte da herança para salvar pessoas que estão passando fome por causa da nossa ganância! Você se sente insultado pelos móveis que saíram daqui? Eu me sinto insultado pelo fato de Isadora ter mãos calejadas de carregar água no gelo enquanto você discute sobre qual vinho vamos abrir no jantar!
— Você é um moleque insolente! Eu trabalho para manter esse luxo, para manter o seu nome! — Heitor apontou o dedo para o peito do filho.
— Pois o meu nome hoje dorme mais tranquilo — Átila deu um passo à frente, sem recuar. — O senhor pode gritar, pode me castigar, ou pode tirar o meu título. Mas enquanto eu respirar, os Valente não passarão mais necessidade enquanto houver fartura na nossa mesa. A dívida de sangue está paga, pai. Agora falta a de dignidade.
Átila passou pelo pai, deixando Heitor trêmulo de raiva e sem palavras. Maurício aproximou-se do irmão e colocou a mão em seu ombro, mas o olhar de Maurício era de aprovação para o sobrinho.
— Ele é mais Martinez do que nós dois juntos, Heitor — Maurício disse baixinho. — Ele entendeu que um castelo não vale nada se estiver cercado de injustiça.
Heitor olhou para as mãos, sentindo-se pequeno diante da estatura moral do filho. A guerra entre as famílias ainda não acabara, mas a autoridade de Heitor sobre a consciência de Átila estava morta.
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