Heitor Martinez estava em silêncio. A fúria que antes transbordava agora dera lugar a uma observação melancólica. Ele via o filho sair todos os dias, as mãos sujas de cal e terra, ajudando a reconstruir o que as gerações passadas haviam deixado ruir. Heitor percebia que não era apenas o telhado dos Valente que Átila estava consertando, mas algo muito mais profundo.

​Enquanto isso, na Encruzilhada, a vida pulsava de um jeito novo.


​O jardim da mansão dos Valente ainda era simples, mas já não era mais um campo de abandono. Átila passara a tarde ajudando a plantar mudas de inverno e a podar as roseiras que Isadora tanto amava, mas que haviam morrido sob o descaso.

​O sol já havia se posto, e uma lua crescente prateada começava a iluminar o rosto de Isadora. Ela estava sentada em um banco de madeira que Átila havia consertado naquela mesma semana.

​— Por que você faz isso, Átila? — ela perguntou, quebrando o silêncio da noite. — Meu pai diz que é culpa. Meu bom senso diz que é estratégia. Mas você continua voltando.

​Átila sentou-se ao lado dela, o cansaço pesando nos ombros, mas o espírito leve.

— No começo, talvez tenha sido culpa. Mas agora... eu venho porque aqui eu me sinto real. No castelo, eu sou o "herdeiro". Aqui, eu sou apenas o Átila que carrega baldes e que tenta fazer você sorrir sem sucesso.

​Isadora soltou uma risada baixa, olhando para as mãos dele, que agora tinham cicatrizes do trabalho duro.

— Você é um péssimo estrategista, Martinez. Se quisesse me ganhar, deveria ter trazido joias, não sementes de abóbora.

​— Joias são fáceis — ele respondeu, virando-se para ela. — Sementes exigem que a gente acredite no futuro. E eu quero acreditar no que pode crescer aqui.

​Isadora parou de rir. O olhar de Átila estava fixo no dela, e o ar entre eles mudou. Não havia mais o peso da dívida, nem o fantasma do avô golpista ou do pai amargurado. Havia apenas dois jovens que haviam segurado a vida um do outro no meio da geada.

​— Eu odiei o seu nome por dezesseis anos — ela sussurrou, a voz falhando. — Mas eu não consigo odiar o jeito que você me olha.

​— Então pare de tentar — ele disse, a voz rouca.

​Átila aproximou-se devagar, dando a ela todo o tempo do mundo para recuar. Mas Isadora não se moveu. Quando os lábios se tocaram, foi como se uma barreira invisível, construída com anos de ressentimento, desmoronasse de uma só vez.

​O beijo começou tímido, mas logo se tornou intenso. Era um beijo que carregava a urgência daquela noite no gelo, a fúria das discussões e a doçura da esperança. Era um sentimento que nenhum dos dois sabia nomear — algo que ia além da amizade e muito além da simples gratidão. Isadora entrelaçou os dedos nos cabelos dele, e Átila a puxou para perto, como se precisasse confirmar que ela era real, que ambos estavam vivos e que o mundo lá fora, com suas guerras de família, não importava mais.

​Eles se afastaram ofegantes, as testas encostadas, o hálito formando pequenas nuvens no ar frio da noite.

​— Isso vai complicar tudo — Isadora disse, com um sorriso triste.

​— Deixe complicar — Átila respondeu, beijando a ponta do nariz dela. — Pela primeira vez na vida, eu sinto que estou exatamente onde deveria estar.

​Longe dali, do alto da sacada do castelo, Heitor observava as luzes da Encruzilhada. Ele não sabia do beijo, mas sentia que o filho que retornaria naquela noite não seria mais o mesmo que ele tentara moldar. O outono estava terminando, e uma nova estação — de fogo e mudanças — estava prestes a começar.