O pátio da Fazenda Nóbrega parecia um caldeirão prestes a explodir. O Sr. Valente gritava, apontando para o marco de pedra deslocado, enquanto Heitor revidava com a voz carregada de desprezo. Maurício, com a mão no cabo da faca, apenas observava, esperando o momento em que as palavras se tornariam aço.

​Átila desmontou. O suor frio escorria por suas têmporas, mas o papel no seu bolso parecia pulsar contra o peito.


​— Parem com isso! — Átila gritou, colocando-se entre o pai e o vizinho. — Uma cerca não vale essa humilhação!

​— Saia da frente, Átila! — Heitor rugiu. — Esse homem está tentando roubar o que é nosso por direito, de novo!

​— Roubar? — O Sr. Valente cuspiu no chão. — Eu vim retomar o que sua linhagem de ratos me tirou! E leve sua cria daqui, Martinez, antes que eu faça o que você não teve coragem de fazer: ensinar a ele o lugar de um ladrão!

​Átila sentiu o sangue subir. A tentativa de remédio morreu ali. Ele olhou para o pai, depois para o homem que agora era seu sogro, e a verdade saltou de sua boca como um trovão.

​— Não há mais "meu" ou "seu"! — Átila bradou, a voz ecoando por todo o pátio. — Parem de lutar por terra morta! Eu e Isadora nos casamos hoje de manhã. Diante de Deus e do Padre Julião, as famílias Martinez e Valente agora são uma só!

​O silêncio que se seguiu foi aterrador. O vento parou. Heitor ficou paralisado, a pele tornando-se cinzenta. Mas o Sr. Valente não hesitou.

​O Ataque

​— O QUÊ? — O Sr. Valente soltou um urro de animal ferido. — Você tocou na minha filha? Você infectou o sangue dela com a sua podridão?

​Antes que Átila pudesse reagir, o Sr. Valente avançou. O primeiro soco atingiu o rosto de Átila com uma força brutal, jogando-o no chão. O homem partiu para cima dele, desferindo golpes cegos de fúria e nojo.

​— Seu maldito! — gritava o Valente, socando o jovem que nem tentava revidar. — Você a usou! Usou a gratidão dela para desonrar a minha casa! Eu prefiro vê-la morta a vê-la carregando o seu sobrenome!

​Heitor, em vez de defender o filho, deu um passo atrás, os olhos injetados de ódio.

— Você fez o quê, Átila? — Heitor perguntou, a voz baixa e vibrante de uma raiva assassina. — Você se deitou com a filha do meu inimigo e deu a ela o direito à nossa herança? Você não é meu filho... você é um traidor! Eu deveria te matar aqui mesmo, com as minhas próprias mãos!

​A Revolta Final

​Átila limpou o sangue da boca, levantando-se com dificuldade enquanto Maurício finalmente intervinha, segurando o Sr. Valente pelo colarinho. Átila encarou os dois homens com um desprezo que superava o deles.

​— Podem me bater! — Átila gritou, encarando o pai e o sogro. — Podem se matar por essas cercas! Mas a verdade é que enquanto vocês se odiavam, eu e Isadora nos amamos na cachoeira como nenhum de vocês jamais teve coragem de amar! Eu conheço cada curva do corpo da mulher que vocês chamam de "moeda de troca"! Eu a fiz minha em todos os sentidos que existem!

​O Sr. Valente tentou se soltar de Maurício, espumando de raiva. — Eu vou matá-lo! Eu vou arrancar o coração dele!

​— Mate-me então! — desafiou Átila, abrindo os braços. — Mas saiba que cada vez que você olhar para Isadora, verá a mulher que gemeu o meu nome. E você, pai... cada vez que olhar para estas terras, saberá que o único herdeiro que elas terão terá o sangue dos Valente correndo nas veias! Nós unimos o que vocês tentaram destruir, e nem o seu ódio, nem a sua violência podem anular o que o altar e a carne selaram!

​Jasmine e Elena apareceram na sacada, atraídas pelos gritos, e o que viram foi um cenário de guerra. Heitor tremia, a mão buscando o cabo do chicote na cintura, enquanto o Sr. Valente chorava de ódio.

​Átila deu as costas a todos eles. — Eu vou buscar a minha esposa. E quem tentar nos impedir, que esteja pronto para carregar o peso de um crime, porque de pecado... a nossa alma já está cheia e em paz.

​A atmosfera na Fazenda Nóbrega nunca mais seria a mesma. O herdeiro do outono acabara de incendiar o próprio legado.