O pátio da Fazenda Nóbrega transformou-se em um cenário de horror. O silêncio que se seguiu à confissão de Átila não era de paz, mas o vácuo antes do trovão. Heitor Martinez, o homem que sempre se orgulhou de sua linhagem, parecia ter envelhecido décadas em um segundo, enquanto o Sr. Valente, cego pela fúria, tentava se desvencilhar dos braços de Maurício.


​Átila estava de pé, o sangue escorrendo do supercílio cortado pelo soco, manchando a gola da camisa que Isadora havia desabotoado com ternura horas antes. Ele não sentia dor física; a adrenalina e a convicção de seu amor o tornavam intocável.

​— Você é um animal, Átila! — Heitor finalmente rugiu, a voz embargada por uma decepção que beirava a loucura. — Você desonrou esta casa! Você se deitou com a ruína, trouxe o inimigo para dentro da minha cama e agora tem a audácia de falar em amor?

​— O senhor chama de desonra o que eu chamo de vida! — Átila rebateu, encarando o pai com olhos injetados. — O que o senhor queria? Que eu me casasse com uma boneca da Capital para aumentar suas terras? Eu escolhi a mulher que me salvou quando o senhor me deixou para morrer na geada!

​A Fúria do Patriarca

​O Sr. Valente, num surto de força, empurrou Maurício e avançou novamente, mas desta vez Átila o segurou pelos pulsos.

​— Solte-me, seu bastardo! — o velho gritava, a saliva voando de ódio. — Você roubou a pureza da minha filha! Você a marcou com esse sobrenome maldito! Eu vou levá-la para um convento, vou trancá-la onde o sol não bate, mas ela nunca será sua!

​— Ela já é minha! — Átila rugiu de volta, soltando os pulsos do sogro com um empurrão. — O senhor pode trancá-la, pode bater nela, mas cada vez que ela fechar os olhos, será o meu rosto que ela verá. O senhor perdeu, Valente! O ódio de vocês morreu no momento em que o corpo dela se tornou um só com o meu!

​Heitor, num gesto impensado, arrancou o chicote que levava na sela do cavalo. Jasmine soltou um grito de pavor na sacada.

​— Se você cruzar aquele portão para ir atrás dela, Átila... se você ousar trazer aquela garota para este castelo, eu juro por Deus que eu te mato antes que você ponha os pés no altar! — Heitor estalou o chicote no chão, levantando poeira e faíscas.

​— Então comece a bater, pai! — Átila deu um passo à frente, abrindo a camisa e expondo o peito. — Porque eu não vou apenas atravessar aquele portão. Eu vou trazer a minha esposa para o lugar que é dela por direito. E se o senhor quiser me impedir, terá que chicotear o próprio sangue até que não reste nada!

​O Grito de Jasmine

​— CHEGA! — Jasmine desceu as escadas correndo, colocando-se entre o marido e o filho. — Heitor, olhe para o que você está fazendo! Você vai matar o nosso único filho por causa de uma disputa de terras que nem era sua?

​— Ele nos traiu, Jasmine! — Heitor chorava de raiva. — Ele se entregou ao inimigo!

​— O único inimigo aqui é o seu orgulho! — Jasmine virou-se para Átila e segurou seu rosto ensanguentado. — Vá, meu filho. Vá buscar sua esposa. Se o seu pai fechar as portas desta casa, eu mesma abrirei a janela.

​A Partida sob a Tempestade

​Átila não esperou. Ele montou em seu cavalo, o animal relinchando com a tensão do ambiente. Ele olhou para o Sr. Valente, que agora chorava amargamente, caído de joelhos no pátio.

​— Eu vou buscar Isadora. E desta vez, Valente, ela não sairá da minha vista. Nem por um minuto.

​Átila galopou em direção à Encruzilhada. O céu, que antes estava limpo, começou a escurecer com nuvens pesadas de uma tempestade que prometia lavar o sangue e a poeira daquele dia. No horizonte, ele já podia ver a mansão dos Valente, onde Isadora certamente o esperava, sem saber que o mundo que conheciam acabara de ser reduzido a cinzas.

​O herdeiro do outono estava pronto para enfrentar o inferno para buscar sua rainha de espinhos. A guerra total havia sido declarada.