O HERDEIRO DO OUTONO livro 3 Martinez
14 O Sacrifício na Montanha
O som dos cascos dos cavalos contra as pedras anunciou a chegada do fim. Átila e Isadora mal tiveram tempo de se vestir quando a porta do chalé foi escancarada pelo impacto da bota de Heitor. Atrás dele, o Sr. Valente trazia uma tocha e o olhar de um homem que já não tinha mais alma.
— Afaste-se dela, Átila! — berrou Heitor, a voz falhando pelo esforço da subida. — Este teatro acaba aqui. Você volta para casa como um prisioneiro, e essa... essa garota será levada para onde nunca mais verá a luz do sol!
— Ela é minha esposa! — Átila rugiu, colocando-se à frente de Isadora, empunhando uma adaga de caça que encontrara na parede. — Só vão tirá-la daqui por cima do meu cadáver!
O Sr. Valente avançou, tentando puxar Isadora pelo braço. — Você não é esposa de ninguém! Você é uma vergonha para o sangue Valente! Prefiro que morra do que carregue o nome dos que nos destruíram!
A discussão escalou para um caos de gritos e empurrões. Heitor ergueu o chicote, e o Sr. Valente desembainhou uma espada curta que trazia à cintura. Átila lutava desesperadamente para afastar os dois homens, enquanto o fogo da lareira lançava sombras monstruosas nas paredes.
O Gesto de Desespero
— PAREM! — O grito de Isadora cortou o ar como um trovão.
Todos congelaram. Num movimento rápido e inesperado, aproveitando o descuido do pai durante a briga, Isadora arrancou a espada das mãos do Sr. Valente. Ela recuou até a parede, segurando a lâmina contra o próprio ventre.
— Isadora, não! — Átila gritou, o coração parando no peito.
— Vocês querem a guerra? — Isadora perguntou, as lágrimas escorrendo por um rosto pálido e decidido. — Vocês querem pedaços de terra e orgulho ferido? Pois tomem o que restou! Se a única forma de parar esse ódio é com sangue, que seja o meu!
— Largue isso, menina! — Heitor ordenou, mas sua voz agora tremia de medo.
— O senhor nunca me quis como nora, Sr. Martinez. E o senhor, pai, nunca me quis feliz. — Ela olhou para Átila com uma doçura devastadora. — Eu te amo, meu herdeiro. Mais que a vida.
Antes que qualquer um pudesse se mover, Isadora cravou a lâmina em si mesma. O som do metal cortando a carne foi seguido por um silêncio absoluto. Ela caiu de joelhos, o sangue tingindo o vestido branco e o tapete que, momentos antes, fora palco de amor.
O Despertar dos Monstros
— NÃOOOOOO! — O urro de Átila rasgou a noite. Ele a amparou nos braços antes que ela atingisse o chão.
Heitor Martinez deixou o chicote cair. Suas mãos tremiam violentamente ao ver o filho coberto pelo sangue da jovem que ele tanto desprezara. O Sr. Valente caiu de joelhos, a tocha apagando-se na neve que entrava pela porta, soltando um gemido de pura agonia. O ódio deles, tão grande e pesado, havia acabado de destruir a única coisa pura que restava.
— O que nós fizemos? — sussurrou Heitor, a voz sumindo. — O que eu fiz com o meu filho?
— SAIA DAQUI! — Átila gritou para o pai, enquanto tentava estancar o ferimento com as próprias mãos. — Se ela morrer, eu juro que nunca mais você verá o meu rosto! SOCORRO! MAURÍCIO!
A Corrida contra a Morte
Maurício, que subira logo atrás, entrou no chalé e tomou as rédeas da situação. — Peguem os cobertores! Heitor, pare de tremer e ajude a carregá-la! Valente, se você quer salvar sua filha, corra na frente e abra os portões!
Isadora foi levada às pressas, envolta em peles e mantos, descendo a montanha sob uma chuva que parecia chorar com eles. Eles não foram para a Encruzilhada em ruínas; foram para o Castelo Martinez, o único lugar com recursos para tentar salvá-la.
O salão principal da Fazenda Nóbrega tornou-se um hospital de guerra. Elena e Jasmine assumiram o controle, expulsando os homens do quarto. Jasmine olhou para Heitor com um desprezo que ele sabia que nunca mais desapareceria.
— Se ela se for, Heitor... você não perderá apenas uma nora. Você perderá sua alma — disse Jasmine, batendo a porta na cara do marido.
No corredor, Átila estava sentado no chão, encostado na parede, coberto de sangue. Heitor tentou se aproximar, mas o olhar do filho era de um estranho. Um estranho que guardava uma espada de gelo no coração. A luta de Isadora para sobreviver começava agora, e com ela, a lenta e dolorosa tentativa de Heitor e Valente de encontrarem o que restava de sua própria humanidade.
Fale com o autor