O castelo Martinez, que antes ecoava gritos de autoridade e orgulho, tornou-se uma tumba de silêncio e cheiro de ervas medicinais. O corredor do segundo andar era agora o território de Átila; ele não comia, não tomava banho e não saía da porta do quarto onde Isadora lutava contra as sombras.


​Três dias se passaram. Dentro do quarto, Elena e Açucena trabalhavam sem descanso, trocando bandagens que insistiam em ficar vermelhas. Heitor Martinez caminhava pelo salão lá embaixo, o som de suas botas no mármore parecendo batidas de um relógio fúnebre.

​O Sr. Valente estava sentado em um canto da sala, as mãos trêmulas segurando um terço que ele não usava há anos. A rivalidade que alimentou suas vidas por décadas agora parecia uma piada de mau gosto diante da possibilidade de um caixão branco.

​O Confronto de Sombras

​Heitor parou diante de Valente. O olhar de superioridade do Martinez havia sumido.

— Eu ofereci ouro para o médico da Capital vir em um cavalo de corrida — disse Heitor, a voz rouca. — Ele deve chegar ao amanhecer.

​Valente levantou os olhos, marejados de uma mágoa profunda. — Seu ouro não fecha o buraco que a minha espada fez na minha própria filha, Heitor. Nós fomos monstros. O seu orgulho e a minha amargura afiaram aquela lâmina.

​— Eu só queria proteger o que era nosso... — Heitor tentou dizer, mas a frase morreu em sua garganta ao ver Átila descendo as escadas.

​Átila parecia um fantasma. A barba por fazer, as roupas sujas de sangue seco e os olhos fundos. Ele caminhou até o centro do salão e olhou para os dois patriarcas com um desprezo que os fez encolher.

​— Se ela morrer — Átila disse, sua voz soando como o estalar de gelo — eu vou queimar este castelo. Eu vou destruir cada cerca, cada marco de pedra e cada contrato que vocês tanto amam. Vou transformar a Fazenda Nóbrega e a Encruzilhada em cinzas, para que não reste nada pelo que vocês possam lutar.

​— Átila, meu filho... — Heitor começou, estendendo a mão.

​— Não me chame de filho! — Átila rugiu, e o som ecoou até o teto alto. — O pai que eu conhecia morreu naquela montanha. Agora, eu sou apenas o marido de uma mulher que preferiu a morte a viver no mundo que vocês criaram.

​O Primeiro Sinal de Vida

​Nesse momento, um grito agudo de Jasmine veio do andar de cima. Átila disparou escada acima, seguido por Heitor e Valente, que pararam à porta, sem ousar entrar.

​Isadora estava pálida, os cabelos espalhados pelo travesseiro de seda, mas seus olhos estavam entreabertos. Ela delirava, a febre queimando sua pele.

​— Átila... — ela sussurrou, a mão buscando o vazio.

​Átila caiu de joelhos ao lado da cama, segurando a mão dela com uma força desesperada. — Eu estou aqui. Eu estou aqui, minha vida. Não me deixe. Por favor, não me deixe.

​— O gelo... está com frio... — ela murmurava, as lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos.

​Jasmine olhou para o marido na porta e apontou para o fogo na lareira. — Ela precisa de calor, Heitor! Não o calor dessas pedras, mas o calor de uma família que não se odeia! Se vocês têm algum pingo de decência, rezem. Rezem para que ela nos perdoe, porque se Deus for justo, nenhum de nós sairá ileso disso.

​A Vigília

​Pela primeira vez em gerações, um Martinez e um Valente passaram a noite no mesmo cômodo sem se matarem. Heitor e o Sr. Valente ficaram sentados no chão do corredor, encostados na parede oposta à porta, enquanto Átila permanecia imóvel ao lado de Isadora.

​A tempestade lá fora finalmente deu lugar a uma madrugada gélida e estrelada. Quando o primeiro raio de sol tocou a janela do quarto, a respiração de Isadora pareceu se estabilizar. O médico da Capital chegou, o som das carruagens anunciando uma última esperança.

​A guerra ainda não tinha acabado, mas o sacrifício de Isadora havia feito o impossível: silenciado as armas. O destino dela agora estava nas mãos da medicina e da vontade de viver de uma jovem que preferiu sangrar a odiar.