O HERDEIRO DO OUTONO livro 3 Martinez
12 O Resgate sob o Rugido do Céu
A chuva começou a cair em gotas grossas, misturando-se ao suor e ao sangue que escorria pelo rosto de Átila enquanto ele atravessava a divisa da Encruzilhada a galope. O trovão parecia rugir junto com seu coração.
Ao longe, a silhueta da mansão dos Valente surgiu sob os clarões dos raios. Isadora estava na varanda, o vestido batendo contra as pernas devido ao vento, os olhos arregalados ao ver o cavaleiro emergir da escuridão.
Átila freou o cavalo bruscamente, fazendo a lama saltar. Ele saltou da sela antes mesmo do animal parar completamente. Isadora correu ao seu encontro, soltando um grito de horror ao ver o estado do marido.
— Átila! O que eles fizeram com você? — Ela segurou o rosto dele, as mãos tremendo. — Meu pai... o seu pai...
— Não importa mais, Isadora — Átila disse, ofegante, puxando-a para um abraço desesperado que cheirava a chuva e ferro. — Eu contei tudo. Eu disse que você é minha esposa. Eu disse o que aconteceu na cachoeira. O mundo deles ruiu, mas o nosso está apenas começando.
O Conflito de Almas
Isadora recuou um passo, aterrorizada. — Você disse a eles? Átila, meu pai vai me matar! Ele nunca vai aceitar que eu pertença a um Martinez!
— Ele não tem mais escolha! — Átila segurou os ombros dela com firmeza, os olhos brilhando com uma intensidade quase febril. — Ele me bateu, me amaldiçoou, e meu pai me ameaçou com o chicote. Mas ninguém vai encostar a mão em você. Pegue o que for essencial. Nós vamos embora agora.
— Para onde? Não temos nada! — Isadora chorava, a chuva encharcando seus cabelos negros.
— Temos o papel do Padre e o sangue nas minhas veias. Se não houver lugar para nós nas fazendas, construiremos um reino na floresta se for preciso. Mas eu não te deixo aqui nem mais um segundo.
A Fuga Desesperada
Nesse momento, o som de outra carruagem se aproximou. Era Maurício, que viera atrás do sobrinho, não para impedi-lo, mas para garantir que ele não cometesse uma loucura fatal.
— Átila! — Maurício gritou de cima da carruagem, a água escorrendo pelo seu chapéu de couro. — Saia daí! O pai dela está vindo com os capangas da vila! Ele quer sangue!
— Eu não saio sem ela, tio! — Átila gritou de volta, puxando Isadora para perto.
Isadora olhou para a casa onde cresceu em amargura e depois para o homem que sangrava por ela. Ela entrou na mansão, voltou segundos depois com um pequeno embrulho e a manta de lã que Átila lhe dera.
— Eu vou com você — ela disse, a voz agora firme, o medo sendo substituído por uma revolta heróica. — Se o preço de ser sua é o ódio do mundo, eu pagarei com gosto.
O Gesto de Maurício
Maurício jogou uma bolsa de moedas de ouro para o sobrinho e apontou para o norte.
— Vão para o chalé de caça que eu construí perto das montanhas. Ninguém vai encontrá-los lá até que os ânimos se acalmem. — Maurício olhou para Isadora e, pela primeira vez, fez uma reverência respeitosa. — Cuide dele, menina. Ele é o único Martinez que ainda tem alma.
Átila ajudou Isadora a subir no cavalo, montando logo atrás dela. Ele olhou para o tio, um aceno mudo de gratidão, e partiu para a escuridão da floresta.
Enquanto galopavam, o Sr. Valente e Heitor chegavam à Encruzilhada, encontrando apenas o rastro da lama e o vazio da varanda. O herdeiro do outono e a rainha dos espinhos haviam desaparecido na tempestade, deixando para trás dois pais destruídos pelo próprio ódio e uma história que acabara de se tornar uma lenda de sangue e desejo.
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