A mesa de jantar do castelo Martinez nunca esteve tão farta, nem tão barulhenta. O cheiro de assado com ervas e o brilho dos cristais contrastavam com o passado recente de dor. Na cabeceira, Átila observava a cena com um sorriso de satisfação, enquanto mantinha a mão de Isadora firmemente entrelaçada na sua por baixo da toalha de linho.

​Isadora, ainda um pouco pálida, mas com um brilho vibrante nos olhos, usava um vestido de seda azul que Jasmine fizera questão de escolher.


​Átila levantou-se, batendo levemente com a faca em sua taça de cristal. O som límpido fez todos se calarem: Heitor, Maurício, Jasmine, Elena e o Sr. Valente.

​— Antes de servirem a sobremesa, eu tenho um comunicado a fazer — começou Átila, olhando seriamente para o pai e para o sogro. — Esta casa tem quartos demais para o pouco amor que costumava morar aqui. Por isso, a partir de hoje, não existe mais "divisa". A Encruzilhada e a Fazenda Nóbrega são uma única terra sob um único nome.

​Ele fez uma pausa, olhando para o Sr. Valente.

— E como não quero minha esposa preocupada com goteiras ou falta de lenha, o senhor, Sr. Valente, se muda para cá amanhã. O castelo agora é a casa de todos nós. Luxo, comida quente e segurança. Ninguém mais passa necessidade enquanto eu for o herdeiro deste lugar.

​Heitor Martinez, que um mês antes teria explodido de raiva, apenas suspirou e tomou um gole de vinho. Ele olhou para o filho com um respeito novo.

— É... parece que o "moleque" cresceu e virou o dono da voz — comentou Heitor, olhando para Maurício. — O que você acha, irmão?

​Maurício soltou uma risada ruidosa, batendo na mesa.

— Acho que demorou! Eu já estava cansado de ver o Valente com aquela cara de quem chupou limão do outro lado da cerca. Venha logo para cá, homem! Pelo menos assim teremos alguém novo para perder no baralho comigo.

​Paz e Ironia

​O Sr. Valente, pela primeira vez em décadas, deu um sorriso largo e sincero.

— Sabe, Maurício... eu aceito. Mas só porque a comida da Açucena é infinitamente melhor que a minha — ele olhou para Átila e Isadora com ternura. — Finalmente as coisas estão organizadas como deveriam. O sangue está unido, e a paz... bem, a paz tem um gosto excelente.

​— Só não se acostume com o meu vinho mais caro, Valente! — brincou Heitor, arrancando risadas de todos, inclusive de Jasmine, que apertou a mão do marido com aprovação.

​O Brinde ao Futuro

​Isadora puxou Átila para que ele se sentasse e sussurrou no ouvido dele, alto o suficiente para os outros ouvirem:

— Você ouviu, não é? Agora que meu pai mora aqui, você não terá mais desculpas para escapar dos jantares em família para "conferir as cercas".

​— As cercas agora são imaginárias, minha rainha — Átila respondeu, beijando a mão dela diante de todos, sem se importar com o protocolo. — E se eu escapar, será apenas para te levar até a nossa cachoeira. Mas desta vez, sem cavalgar no gelo.

​— Espero que sim — Isadora riu, encostando a cabeça no ombro dele. — Porque da próxima vez que eu tiver que te resgatar, vou cobrar juros por cada minuto no frio!

​O jantar seguiu entre risos e planos para a primavera. O ódio fora enterrado tão fundo que nem as raízes mais antigas poderiam alcançá-lo. Naquela noite, o castelo Martinez deixou de ser uma fortaleza de orgulho para se tornar o lar de uma família que, finalmente, aprendeu que a maior riqueza não se mede em terras, mas no brilho de um olhar apaixonado e na paz de uma mesa compartilhada.