O HERDEIRO DO OUTONO livro 3 Martinez
18 O Novo Reinado
A mesa de jantar do castelo Martinez nunca esteve tão farta, nem tão barulhenta. O cheiro de assado com ervas e o brilho dos cristais contrastavam com o passado recente de dor. Na cabeceira, Átila observava a cena com um sorriso de satisfação, enquanto mantinha a mão de Isadora firmemente entrelaçada na sua por baixo da toalha de linho.
Isadora, ainda um pouco pálida, mas com um brilho vibrante nos olhos, usava um vestido de seda azul que Jasmine fizera questão de escolher.
Átila levantou-se, batendo levemente com a faca em sua taça de cristal. O som límpido fez todos se calarem: Heitor, Maurício, Jasmine, Elena e o Sr. Valente.
— Antes de servirem a sobremesa, eu tenho um comunicado a fazer — começou Átila, olhando seriamente para o pai e para o sogro. — Esta casa tem quartos demais para o pouco amor que costumava morar aqui. Por isso, a partir de hoje, não existe mais "divisa". A Encruzilhada e a Fazenda Nóbrega são uma única terra sob um único nome.
Ele fez uma pausa, olhando para o Sr. Valente.
— E como não quero minha esposa preocupada com goteiras ou falta de lenha, o senhor, Sr. Valente, se muda para cá amanhã. O castelo agora é a casa de todos nós. Luxo, comida quente e segurança. Ninguém mais passa necessidade enquanto eu for o herdeiro deste lugar.
Heitor Martinez, que um mês antes teria explodido de raiva, apenas suspirou e tomou um gole de vinho. Ele olhou para o filho com um respeito novo.
— É... parece que o "moleque" cresceu e virou o dono da voz — comentou Heitor, olhando para Maurício. — O que você acha, irmão?
Maurício soltou uma risada ruidosa, batendo na mesa.
— Acho que demorou! Eu já estava cansado de ver o Valente com aquela cara de quem chupou limão do outro lado da cerca. Venha logo para cá, homem! Pelo menos assim teremos alguém novo para perder no baralho comigo.
Paz e Ironia
O Sr. Valente, pela primeira vez em décadas, deu um sorriso largo e sincero.
— Sabe, Maurício... eu aceito. Mas só porque a comida da Açucena é infinitamente melhor que a minha — ele olhou para Átila e Isadora com ternura. — Finalmente as coisas estão organizadas como deveriam. O sangue está unido, e a paz... bem, a paz tem um gosto excelente.
— Só não se acostume com o meu vinho mais caro, Valente! — brincou Heitor, arrancando risadas de todos, inclusive de Jasmine, que apertou a mão do marido com aprovação.
O Brinde ao Futuro
Isadora puxou Átila para que ele se sentasse e sussurrou no ouvido dele, alto o suficiente para os outros ouvirem:
— Você ouviu, não é? Agora que meu pai mora aqui, você não terá mais desculpas para escapar dos jantares em família para "conferir as cercas".
— As cercas agora são imaginárias, minha rainha — Átila respondeu, beijando a mão dela diante de todos, sem se importar com o protocolo. — E se eu escapar, será apenas para te levar até a nossa cachoeira. Mas desta vez, sem cavalgar no gelo.
— Espero que sim — Isadora riu, encostando a cabeça no ombro dele. — Porque da próxima vez que eu tiver que te resgatar, vou cobrar juros por cada minuto no frio!
O jantar seguiu entre risos e planos para a primavera. O ódio fora enterrado tão fundo que nem as raízes mais antigas poderiam alcançá-lo. Naquela noite, o castelo Martinez deixou de ser uma fortaleza de orgulho para se tornar o lar de uma família que, finalmente, aprendeu que a maior riqueza não se mede em terras, mas no brilho de um olhar apaixonado e na paz de uma mesa compartilhada.
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