O HERDEIRO DO OUTONO livro 3 Martinez
19 Epílogo: A Flor da Encruzilhada
O tempo, que antes fora um carrasco de mágoas e geadas, tornou-se o jardineiro da Fazenda Nóbrega. Dois anos haviam se passado desde a noite na montanha, e a primavera que agora florescia era a mais vibrante que a região já vira.
O castelo Martinez não era mais um monumento à arrogância. Suas janelas estavam sempre abertas, e o som de risadas substituíra o eco dos gritos de comando.
No jardim central, sob o grande carvalho onde as sombras do passado foram finalmente enterradas, uma grande mesa de café fora montada. Heitor e o Sr. Valente estavam sentados lado a lado, não mais discutindo mapas, mas debruçados sobre um tabuleiro de xadrez, trocando provocações amistosas.
— Você moveu esse bispo errado, Valente. Está tentando me dar um golpe como seu avô tentou? — brincou Heitor, rindo.
— Ora, Heitor, aceite que minha estratégia é superior! E pare de reclamar, ou vou pedir para a Isadora proibir você de segurar a pequena — rebateu o Sr. Valente, com um brilho de felicidade nos olhos.
O Centro do Mundo
Átila caminhava pelo gramado, carregando nos braços o motivo de toda aquela paz: uma menina de olhos negros e curiosos, envolta em uma manta bordada com as insígnias das duas famílias.
— Veja, pequena Aurora — sussurrou Átila, beijando a testa da filha. — Tudo o que seus olhos alcançam é o seu lar. E ninguém nunca vai te dizer que um lado é melhor que o outro.
Isadora aproximou-se, radiante. A cicatriz em seu ventre ainda existia, mas era apenas um lembrete de que a vida venceu. Ela abraçou Átila pela cintura, encostando a cabeça em seu ombro.
— Ela tem o seu gênio, Átila — disse Isadora, rindo enquanto a bebê tentava puxar o cordão de ouro do pai. — Mal sabe o trabalho que nos deu para que ela pudesse nascer em um mundo tão calmo.
— Ela é uma Martinez-Valente — Átila respondeu, olhando para a esposa com o mesmo fogo nos olhos daquela tarde na cachoeira. — Ela nasceu para mandar em todos nós. Veja só... ela já calou até o seu pai e o meu.
Uma Grande Família
Jasmine e Elena aproximaram-se com bandejas de doces, sorrindo ao ver a cena. Maurício, encostado em uma pilastra com seu charuto, observava tudo com a satisfação de quem sabia que sua intervenção salvara o futuro.
— Átila! — gritou Maurício. — Traga a herdeira para cá! O Valente está ganhando do seu pai e eu preciso de uma distração para roubar uma peça dele!
— Nem pense nisso, Maurício! — gritou Heitor, sem tirar os olhos do tabuleiro. — Eu estou vendo tudo!
Isadora pegou a filha no colo e olhou para Átila.
— Você mudou tudo, sabia?
— Nós mudamos, Isadora. — Ele segurou o rosto dela, ignorando os gritos e risadas ao redor. — Você me ensinou que a terra só tem valor se houver alguém por quem valha a pena sangrar. E eu sangraria tudo de novo, mil vezes, só para estar aqui agora.
Sob o sol quente da tarde, as vozes se misturavam em uma sinfonia de reconciliação. Não havia mais cercas, não havia mais marcos de pedra. Havia apenas o amor que floresceu no outono, sobreviveu ao inverno e agora brilhava, eterno e absoluto, no sorriso da pequena Aurora e no abraço de seus pais.
FIM
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