O HERDEIRO DO OUTONO livro 3 Martinez
9 O Nó de Sangue e Altar
O segredo agora tinha o peso de um sacramento. Átila sabia que a fúria dos Valente e dos Martinez não tardaria a explodir, e ele precisava que Isadora estivesse protegida não apenas pelo seu braço, mas pela lei de Deus e dos homens.
Ao amanhecer, eles cavalgaram em silêncio até a pequena paróquia da vila, as roupas ainda com o cheiro da cachoeira e os olhos carregando a intensidade da noite anterior.
O Padre Julião estava varrendo a entrada da igreja quando os viu chegar. O rosto de Átila estava pálido, mas decidido; o de Isadora, uma mistura de medo e devoção.
— Padre — Átila começou, descendo do cavalo e ajudando Isadora. — Precisamos que o senhor nos case. Agora.
O velho padre ajustou os óculos, olhando de um para o outro. — Átila Martinez... Isadora Valente? Vocês sabem o que estão pedindo? Suas famílias estão em pé de guerra! Isso não é um casamento, é um motim!
— É a única verdade que nos resta, Padre — Isadora deu um passo à frente, a voz firme. — Nós já pertencemos um ao outro diante do céu. Só queremos que a terra também saiba.
O Altar de Penumbra
Dentro da igreja vazia, iluminada apenas por algumas velas de cera de abelha, o ritual começou às pressas. Não havia flores, nem convidados, nem músicas. Apenas o som do vento batendo nas janelas de madeira.
— Átila Martinez — disse o Padre, com a voz grave — você aceita Isadora como sua esposa, para honrá-la e protegê-la, na fartura e na escassez, até que a morte os separe?
Átila segurou as mãos de Isadora. As mãos dela ainda estavam frias, mas o olhar estava em chamas.
— Eu aceito. Eu a aceito como minha vida, como minha redenção e como a única dona do meu destino. Eu juro que nunca mais ela passará frio ou fome enquanto meu coração bater.
O Padre voltou-se para a jovem. — Isadora Valente, você aceita Átila...?
— Aceito — ela interrompeu, as lágrimas finalmente correndo. — Eu aceito o homem que me salvou da amargura. Eu aceito o nome dele para curar o meu, e entrego a ele tudo o que sou.
— Então, pelo poder a mim conferido, eu os declaro marido e mulher. O que Deus uniu, homem nenhum ouse separar. Podem se beijar.
O beijo foi curto, selado com o gosto de sal das lágrimas e a urgência do perigo. O Padre Julião assinou o documento com as mãos trêmulas.
— Vão agora — sussurrou o clérigo. — Que Deus os proteja, porque quando Heitor e o Sr. Valente souberem disso, nem as paredes desta igreja serão seguras.
O Regresso sob Vigilância
Eles saíram da igreja como estranhos para o mundo, mas como um só corpo. Ao se aproximarem da divisa das propriedades, Átila parou o cavalo.
— Você precisa voltar para sua casa, por enquanto — Átila disse, segurando o rosto dela. — Se sumirmos agora, eles desconfiarão. Eu vou contar ao meu pai hoje à noite.
— Átila... — Isadora segurou o pulso dele, onde o bracelete dos Martinez brilhava. — Ele vai te deserdar. Meu pai vai me trancar.
— Deixe que tirem tudo, Isadora. Eles não podem tirar o que aconteceu na cachoeira, e não podem apagar a assinatura do Padre. Você agora é uma Martinez. Você é minha.
Isadora sorriu, um sorriso que carregava o peso de mil segredos. — E você é o meu Valente. Vá. Antes que eu perca a coragem e fuja com você para além das montanhas.
Átila a viu entrar na mansão em ruínas antes de galopar de volta para o castelo. No pátio, Heitor o esperava, e desta vez, ele não estava sozinho. Maurício e o Sr. Valente estavam lá, discutindo sobre um marco de fronteira que havia sido movido.
Átila sentiu o papel do casamento queimando no bolso de sua camisa. O herdeiro do outono agora era um homem casado, e a tempestade que estava para desabar sobre a Fazenda Nóbrega faria a geada parecer um dia de sol.
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