​O sol de maio era suave, mas Átila Martinez sentia o sangue ferver. Ele estava no alto de uma colina, montado em seu cavalo negro, observando a movimentação nas terras da Encruzilhada. Carruagens luxuosas, mas desgastadas pelo tempo, cruzavam o portão que antes estava acorrentado.

​— Quem são eles, pai? — perguntou Átila, sem desviar os olhos da propriedade vizinha, enquanto Heitor se aproximava com seu próprio cavalo.

​— Os Valente — respondeu Heitor, o semblante sério. — Uma linhagem antiga que caiu em desgraça na Capital. Parece que vieram buscar refúgio no interior. Seu tio Maurício não está nada feliz; ele se lembra do que o patriarca deles tentou fazer com os Nóbrega há muitos anos.

​Átila apertou as rédeas. Ele não se importava com velhas disputas de terra. O que prendeu sua atenção foi uma figura feminina que desceu da última carruagem. Ela usava um vestido verde-escuro e não olhava para a casa, mas para a floresta que dividia as duas propriedades. Ela parecia... deslocada.

​O Primeiro Encontro

​Naquela tarde, ignorando os avisos de cautela do tio Maurício, Átila cavalgou até o riacho que servia de fronteira. Ele parou para deixar o cavalo beber água quando a viu.

​Isadora estava sentada em uma pedra, com os pés na água fria. Ela não parecia uma dama da Capital; seus olhos eram profundos e carregavam uma melancolia que Átila reconheceu imediatamente — era a mesma sombra que ele vira nos olhos do tio Maurício durante anos.

​— Estas águas pertencem à minha família — disse Átila, tentando soar autoritário, mas sua voz falhou levemente diante do olhar intenso da moça.

​Isadora levantou-se devagar, secando os pés na grama. Ela o encarou de cima a baixo.

— As águas correm, senhor. Elas não pertencem a ninguém. Mas se o seu sobrenome for Martinez, entendo por que acha que é dono do mundo. Meu pai me avisou sobre a sua arrogância.

​— E o meu pai me avisou sobre o perigo dos Valente — rebateu Átila, aproximando-se com o cavalo. — O que uma moça da cidade faz no meio do mato, sozinha?

​— Fugindo de pessoas como você — ela respondeu, pegando suas botas e começando a caminhar de volta para a floresta. — Não se preocupe, herdeiro do outono. Eu não pretendo ficar aqui tempo suficiente para roubar o seu precioso riacho.

​Átila observou-a desaparecer entre as árvores. Ela era diferente de todas as moças da vila que suspiravam por ele. Isadora tinha um espinho na voz e um mistério no olhar.

​O Jantar na Fazenda Nóbrega

​À noite, a família estava reunida. Maurício, Elena e o pequeno filho deles, Leo (agora com 5 anos), estavam à mesa com Heitor, Jasmine e Átila.

​— Os Valente chegaram — anunciou Heitor.

​Maurício parou o talher no ar, o olhar endurecendo.

— Eles são trapaceiros, Heitor. O velho Valente tentou enganar José anos atrás. Fiquem longe deles. Especialmente você, Átila.

​Átila olhou para o prato, sentindo o bracelete de couro em seu pulso.

— Eu a vi hoje no riacho, tio Mau-mau. A filha dele.

​Elena olhou para o sobrinho com um sorriso perspicaz.

— E o que achou dela, Átila?

​— Ela é... insolente — ele respondeu, mas o rubor em suas bochechas não passou despercebido por Jasmine. — Me chamou de herdeiro arrogante.

​Maurício soltou uma risada curta, olhando para Elena.

— Parece que a história gosta de se repetir, não é? Outra ruiva atrevida cruzando o caminho de um Martinez?

​— Ela não é ruiva, tio — Átila corrigiu rapidamente. — Ela tem cabelos negros como a noite. E olhos que parecem saber de coisas que eu ainda não descobri.

​Elena tocou a mão de Maurício por cima da mesa.

— Deixe o menino, Maurício. Talvez os Valente não tragam apenas problemas. Talvez tragam a lição que o Átila tanto queria aprender sobre o amor.