O HERDEIRO DO OUTONO livro 3 Martinez
1 O Horizonte de Átila
O sol de maio era suave, mas Átila Martinez sentia o sangue ferver. Ele estava no alto de uma colina, montado em seu cavalo negro, observando a movimentação nas terras da Encruzilhada. Carruagens luxuosas, mas desgastadas pelo tempo, cruzavam o portão que antes estava acorrentado.
— Quem são eles, pai? — perguntou Átila, sem desviar os olhos da propriedade vizinha, enquanto Heitor se aproximava com seu próprio cavalo.
— Os Valente — respondeu Heitor, o semblante sério. — Uma linhagem antiga que caiu em desgraça na Capital. Parece que vieram buscar refúgio no interior. Seu tio Maurício não está nada feliz; ele se lembra do que o patriarca deles tentou fazer com os Nóbrega há muitos anos.
Átila apertou as rédeas. Ele não se importava com velhas disputas de terra. O que prendeu sua atenção foi uma figura feminina que desceu da última carruagem. Ela usava um vestido verde-escuro e não olhava para a casa, mas para a floresta que dividia as duas propriedades. Ela parecia... deslocada.
O Primeiro Encontro
Naquela tarde, ignorando os avisos de cautela do tio Maurício, Átila cavalgou até o riacho que servia de fronteira. Ele parou para deixar o cavalo beber água quando a viu.
Isadora estava sentada em uma pedra, com os pés na água fria. Ela não parecia uma dama da Capital; seus olhos eram profundos e carregavam uma melancolia que Átila reconheceu imediatamente — era a mesma sombra que ele vira nos olhos do tio Maurício durante anos.
— Estas águas pertencem à minha família — disse Átila, tentando soar autoritário, mas sua voz falhou levemente diante do olhar intenso da moça.
Isadora levantou-se devagar, secando os pés na grama. Ela o encarou de cima a baixo.
— As águas correm, senhor. Elas não pertencem a ninguém. Mas se o seu sobrenome for Martinez, entendo por que acha que é dono do mundo. Meu pai me avisou sobre a sua arrogância.
— E o meu pai me avisou sobre o perigo dos Valente — rebateu Átila, aproximando-se com o cavalo. — O que uma moça da cidade faz no meio do mato, sozinha?
— Fugindo de pessoas como você — ela respondeu, pegando suas botas e começando a caminhar de volta para a floresta. — Não se preocupe, herdeiro do outono. Eu não pretendo ficar aqui tempo suficiente para roubar o seu precioso riacho.
Átila observou-a desaparecer entre as árvores. Ela era diferente de todas as moças da vila que suspiravam por ele. Isadora tinha um espinho na voz e um mistério no olhar.
O Jantar na Fazenda Nóbrega
À noite, a família estava reunida. Maurício, Elena e o pequeno filho deles, Leo (agora com 5 anos), estavam à mesa com Heitor, Jasmine e Átila.
— Os Valente chegaram — anunciou Heitor.
Maurício parou o talher no ar, o olhar endurecendo.
— Eles são trapaceiros, Heitor. O velho Valente tentou enganar José anos atrás. Fiquem longe deles. Especialmente você, Átila.
Átila olhou para o prato, sentindo o bracelete de couro em seu pulso.
— Eu a vi hoje no riacho, tio Mau-mau. A filha dele.
Elena olhou para o sobrinho com um sorriso perspicaz.
— E o que achou dela, Átila?
— Ela é... insolente — ele respondeu, mas o rubor em suas bochechas não passou despercebido por Jasmine. — Me chamou de herdeiro arrogante.
Maurício soltou uma risada curta, olhando para Elena.
— Parece que a história gosta de se repetir, não é? Outra ruiva atrevida cruzando o caminho de um Martinez?
— Ela não é ruiva, tio — Átila corrigiu rapidamente. — Ela tem cabelos negros como a noite. E olhos que parecem saber de coisas que eu ainda não descobri.
Elena tocou a mão de Maurício por cima da mesa.
— Deixe o menino, Maurício. Talvez os Valente não tragam apenas problemas. Talvez tragam a lição que o Átila tanto queria aprender sobre o amor.
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