O jantar, que deveria ser um gesto de vizinhança, transformou-se em um tribunal de sombras. A porcelana fina e o vinho caro da mesa dos Martinez pareciam um insulto diante da postura rígida e amargurada do Sr. Valente.

​Átila estava sentado à ponta, observando a tensão elétrica entre seu pai, seu tio e o convidado. Isadora mantinha os olhos fixos no prato, a mandíbula cerrada, exalando um desprezo que Átila ainda não conseguia decifrar.


​— Uma bela propriedade, Heitor — começou o Sr. Valente, a voz carregada de uma ironia que cortava o ar. — É fascinante como a terra floresce quando se tem o peso do sistema jurídico a seu favor.

​Maurício largou o talher com um estalo seco sobre a mesa.

— A terra floresce quando se trabalha nela, Valente. Algo que sua família parece ter desaprendido há algumas gerações.

​— Trabalhar na terra dos outros é fácil quando se apaga o nome do verdadeiro dono do contrato — rebateu o vizinho, os olhos faiscando de ódio.

​Átila sentiu o desconforto subir pela espinha. Ele olhava de um para o outro, perdido em uma guerra de palavras que parecia ter começado décadas antes de ele nascer.

​— Pai, do que ele está falando? — Átila interveio, a voz quebrando o silêncio pesado. — Por que estamos discutindo contratos antigos em um jantar de boas-vindas?

​O Sr. Valente soltou uma risada amarga, olhando diretamente para o jovem.

— "Boas-vindas"? Rapaz, você é realmente a face da ignorância protegida. Você caminha por esses campos como se fossem o seu direito divino, mas não sabe que seu avô e o meu pai travaram uma batalha de sangue e papel por cada palmo deste chão.

​A Ruptura

​— Já chega! — Heitor levantou-se, a voz autoritária ecoando pelo salão. — Nós não convidamos vocês aqui para insultar a memória de quem construiu este lugar.

​— Construiu ou roubou? — gritou o Sr. Valente, também se levantando. — Seu avô usou a influência na Capital para invalidar o documento que garantia a Encruzilhada à minha família. Ele nos empurrou para a miséria com uma canetada! Vocês são herdeiros de um golpe, e seu filho agora desfruta do fruto dessa trapaça!

​Isadora levantou-se logo em seguida. Ela não disse uma palavra, mas o olhar que lançou a Átila foi de uma frieza cortante, como se ele fosse o próprio carrasco de sua linhagem.

​— Vamos embora, Isadora — ordenou o pai. — Não há nada aqui além de comida paga com o dinheiro do que nos foi tirado.

​Eles saíram bruscamente. O som da porta batendo e das rodas da carruagem contra o cascalho deixou um silêncio sufocante para trás.

​O Acerto de Contas com a Verdade

​Átila ficou parado, sentindo o mundo girar. Ele olhou para Maurício, esperando uma negação, mas o tio apenas acendeu um charuto, com o olhar perdido na fumaça. Voltou-se para o pai.

​— Pai... me diga que ele mentiu. Me diga que nós não somos ladrões.

​Heitor suspirou profundamente, parecendo envelhecer anos em segundos. Ele fez um sinal para que o filho o seguisse até a varanda, longe dos ouvidos de Elena e Jasmine.

​— O mundo não é feito de preto e branco, Átila — começou Heitor, olhando para a escuridão do pomar. — Houve uma disputa jurídica pesada. O documento dos Valente era confuso e o avô deles era um viciado em jogo. Nosso pai, para salvar a fazenda de ser vendida em pedaços para pagar as dívidas deles, usou todos os recursos e influências que tinha para ganhar a causa.

​— Então nós usamos a nossa influência para esmagá-los? — Átila sentiu o estômago embrulhar.

​— Nós garantimos o nosso futuro, Átila. Se não tivéssemos feito aquilo, hoje não existiria Fazenda Nóbrega nem castelo Martinez. Mas sim... o resultado foi a ruína total da família deles. O que o Valente disse tem um fundo de verdade amarga. Nós vencemos, mas o preço foi o destino daquela família.

​Átila olhou para as próprias mãos, as mãos de um herdeiro. Pela primeira vez, a terra sob seus pés não parecia sólida, mas feita de segredos e mágoas que ele nunca pediu para carregar.