Átila precisava de ar. O silêncio carregado da fazenda e os olhares vigilantes de Maurício estavam sufocando-o. Ele cavalgou até a vila vizinha sob o pretexto de comprar novas ferraduras e um conjunto de grosas para o ferreiro da propriedade, mas a verdade era que ele queria se perder entre pessoas que não conhecessem o peso do seu sobrenome.

​A vila estava movimentada. O cheiro de couro, pão assado e fumo de corda preenchia as ruas estreitas de pedra.


​Átila saía da loja de ferragens, carregando uma sacola pesada de couro com as peças de metal, quando a viu. Isadora estava parada diante de uma pequena banca de armarinho, contando moedas de cobre com uma expressão de frustração. Ela segurava um novelo de lã cinza, áspera e barata.

​Ele hesitou, mas a curiosidade e o sentimento de culpa o empurraram para frente.

​— A lã da Fazenda Nóbrega é melhor do que essa — disse Átila, parando a poucos passos dela. — É mais macia e dura o dobro do tempo.

​Isadora se sobressaltou, guardando as moedas rapidamente em um saquinho de pano remendado. Ao reconhecê-lo, seus olhos voltaram a ser duas pedras de carvão gelado.

​— Eu não pedi sua consultoria têxtil, Martinez — rebateu ela, a voz baixa para não atrair a atenção dos aldeões. — E eu não compro nada que venha das suas terras. Prefiro vestir sacos de batata a usar qualquer coisa que tenha o selo da sua família.

​— Eu só estava tentando ser útil — Átila suspirou, sentindo o peso da sacola de ferragens em seu ombro. — Não precisa transformar cada frase em uma declaração de guerra.

​— A guerra já foi declarada há muito tempo, Átila. Você só foi avisado agora porque vive em uma redoma de vidro — Isadora devolveu o novelo para a banca e começou a caminhar.

​Átila a seguiu por alguns metros. — Meu pai me contou sobre a Encruzilhada. Sobre o que aconteceu com o seu avô. Eu... eu não sabia.

​Isadora parou bruscamente e se virou para ele. O mercado ao redor parecia ter sumido.

— E agora que sabe, o que muda? Vai me devolver a casa? Vai limpar as mãos do seu tio do sangue da miséria da minha família? Ou vai apenas me oferecer um café e dizer que "sente muito" enquanto volta para o seu castelo para dormir em lençóis de seda?

​— Eu não posso mudar o passado, Isadora. Eu sequer era nascido!

​— Mas você desfruta dele todos os dias! — ela deu um passo à frente, e Átila percebeu o quanto ela parecia exausta sob a fachada de fúria. — Cada vez que você cavalga por aqueles campos, você está pisando no que deveria ser meu. Cada ferradura que você compra com esse ouro aí na sua mão foi paga com a herança que nos foi negada. Não tente ser meu amigo para aliviar sua consciência. Eu não sou seu confessionário.

​O Gesto de Átila

​Átila sentiu um nó na garganta. Ele olhou para a banca de lã. — O inverno deste ano vai ser rigoroso. A neve já começou a cair na Capital e logo chegará aqui. Aquela lã cinza que você ia comprar não vai aquecer ninguém.

​— O frio é um velho conhecido meu, Martinez. Eu me viro — ela disse, dando as costas a ele de forma definitiva.

​Átila não a seguiu desta vez. Em vez disso, ele voltou à banca de armarinho.

— Quero três rolos da melhor lã de ovelha que você tiver. E um conjunto de agulhas de osso — ele disse ao vendedor, entregando uma moeda de prata que valia dez vezes o que Isadora tentava contar.

​O Retorno à Fazenda

​Ao chegar em casa, Átila encontrou Maurício na varanda, limpando sua espingarda de caça.

​— Demorou na vila — observou o tio, sem tirar os olhos da arma. — Encontrou algo interessante por lá?

​— Apenas poeira e verdades amargas, tio — Átila passou direto, entrando na casa.

​Ele subiu para o quarto e olhou para o embrulho de lã de alta qualidade que comprara. Ele não sabia como entregaria aquilo sem que Isadora o jogasse na sua cara, mas uma coisa ele sabia: ele não conseguia mais olhar para o luxo de sua vida sem ver a sombra da escassez dela.

​Longe dali, na Encruzilhada, Isadora tentava acender uma lareira com lenha úmida, soprando as brasas com os olhos ardendo pela fumaça e pela raiva. Ela odiava os Martinez, mas, pela primeira vez, percebeu que Átila não tinha o mesmo olhar de desprezo que Maurício ou Heitor. Ele tinha olhar de dúvida. E para Isadora, a dúvida era mais perigosa que o ódio