O Hóspede.
6 Volta às Aulas.
Notas iniciais
O H Ó S P E D E
Acordei com o som estridente do despertador de meu celular, tateei pela mesinha ao lado de minha cama até achá-lo e desliguei. Levantei-me na cama ainda sonolenta e abri a porta do quarto e saí. Entrei no banheiro e fiz a minha higiene pessoal e tomei um banho. Saí minutos depois do banheiro só de toalha, mas não sem antes checar o lado de fora para ver se não havia ninguém, pois não era só eu e papai em casa, agora nós tínhamos um novo morador.
Entrei rapidamente em meu quarto e comecei a me vestir. Um jeans claro, uma blusa de seda rosa-bebê de alcinhas da Banana Republic que havia comprado numa liquidação no shopping, e minhas sapatilhas estampadas. Arrumei meus cabelos volumosos e optei por uma trança de lado. Coloquei meus brincos de pedrinhas cor-de-rosa de pino, e um pouco de gloss de tuti-fruti nos lábios.
Meu celular começou a tocar, e não precisou eu olhar o nome que aparecia no display para saber que era Vee. Ela era a única pessoa que me ligava àquela hora.
— Oi?
— Olá, baby. Vai querer carona para escola?
— Claro. Esqueceu que eu ainda não tenho um carro? – minha voz soou como se fosse óbvio, e fechei o zíper da mochila.
— Tudo bem, estarei aí em dez minutos.
Ela desligou, e saí do quarto com a mochila na mão, a jogando no sofá da sala. Sentia o cheiro de café e panquecas quentinhas, aguçando a minha fome. Entrei na cozinha encontrando meu pai em frente ao fogão terminando as últimas remessas de panquecas e a mesa estava posta. Papai olhou para trás quando percebeu minha presença.
— Bom dia, querida.
— Bom dia. – murmurei.
Sentei-me a mesa me servindo com as panquecas e entornando um pouco de calda caramelada em cima, sem contar no suco de uva.
Papai levou às outras remessas de panquecas a mesa e sentou-se na cadeira da ponta começando a se servir.
— Ansiosa para o primeiro dia?
O olhei entediada dando um gole de meu suco de uva.
— Quer que eu seja sincera?
— Não. Pela sua cara já sei a resposta. – ele ergueu as sobrancelhas.
Ficamos em silêncio por alguns minutos até eu dar por falta de alguém. Só o tinha visto ontem à tarde antes de ele sair. A noite ele havia saído, e provavelmente deveria ter chegado tarde e agora deveria estar no seu quarto dormindo. Papai ainda fala que ele é um cara responsável. Não sei de onde. Poxa, hoje é o primeiro dia na escola, e ele iria perder? Pois até agora ele não havia dado as caras.
— O seu hóspede não vai vir tomar café antes de ir para escola não? – perguntei cínica.
Papai deu um gole de seu café forte e me olhou.
— Patch não voltou para casa.
Levantei a sobrancelha em tom debochado como se dissesse: está aí o cara certinho que você tanto fala e acoberta. Papai parece que entendeu o que meu olhar dizia, pois começou se justificar:
— Patch é emancipado, ele faz o que bem entender com a sua vida. Ele é jovem e deve saber o que faz.
Não consegui controlar o meu sorriso sarcástico.
— Se fosse comigo acho que o tratamento seria diferente. – ataquei. – Principalmente se eu saísse domingo à noite, véspera de dia de aula.
— Acontece que você é minha filha. Uma coisa não tem nada haver com a outra.
Fiquei calada, não adiantava discutir. Tudo tem uma justificativa do que Patch fazia. Papai parecia que estava cego por aquele cara. Bom, eu não posso negar que ele é lindo de morrer, mas eu sentia que havia alguma coisa de errado com ele. Será que papai não percebia isso ou era só eu? Ou será que não havia nada de errado com ele e era eu que estava ficando paranoica?
O barulho da buzina do Neon soou lá em baixo. Vee estava me esperando. Levantei-me da cadeira terminando de beber o resto do suco.
— Já estou indo.
— Boa aula.
— Obrigada.
Dei um beijo em sua bochecha e saí da cozinha, indo até a sala pegando minha mochila e saindo de casa. Lá embaixo, encontrei o Neon estacionado em frente ao restaurante. Abri a porta do carro e me sentei no banco do carona.
— Bom dia, flor do dia. – cumprimentou Vee mais animada que o normal. Normalmente ela sempre reclama de ir à escola.
Coloquei o cinto e Vee fez a baliza, pegando a estrada em direção à escola. Ela estava arrumada como sempre com seu jeans rasgado, uma blusa branca e a jaqueta de couro amarelo-creme. Seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo alto, sua pele estava vermelha por causa do sol que ela pegara ontem.
— Qual é o motivo dessa alegria? – perguntei.
Ela suspirou cansada.
— Finalmente terei um pouco de paz. Meus pais vão me deixar maluca.
— Dá um desconto, foram dois meses sem te ver. Eles querem matar as saudades.
Vee bufou.
— É, mais tudo que é de mais ofende, né? – ela me olhou de lado. – Eles me enchem o saco.
Apenas revirei os olhos e olhei para a janela ao lado, vendo as casas e mercenárias passarem pelo vidro do carro. O céu estava azul, mas ainda via algumas pontas de nuvem que se aproximavam. O clima aqui em Coldwater muda de uma hora para outra. E aquelas pontinhas nuvens que se aproximavam estava indicando que o tempo mudaria. Droga. Maldita hora que coloquei essa blusa e não peguei o casaco.
— Me conta, amore, animada para o primeiro dia? – Vee perguntou depois de dois minutos quieta.
— Não, e você?
— Óbvio né? – ela me olhou de lado. – Que não.
Revirei os olhos.
— E o seu hóspede bonitão?
— O que tem ele? – respondi sua pergunta com outra pergunta.
— Ele vai mesmo estudar na nossa escola?
— Eu não sei.
Vee me olhou com uma cara incrédula.
— Você ainda não sabe nada sobre ele?
— E eu devia saber?
— Claro, né. Poxa Nora, você está morando com um cara que pelas descrições é um cara super gostoso e você nem para fingir interessada você faz. Cara, eu estou pensando seriamente se você é lésbica.
— Só por que eu não dei em cima do cara eu sou lésbica? – perguntei, não acreditando o quanto Vee era uma safada.
— Claro. Por que isso não acontece comigo? Por que um cara tudo de bom não se hospeda na minha casa? Por que meu Deus? Por que o senhor não me dar essa proeza?
— Vee, para de drama.
— Amiga, até hoje eu não conheci esse cara. – continuou ela. — Você desceu antes que eu subisse para sua casa.
— Mesmo que você subisse você ainda não iria vê-lo, por que ele não dormiu em casa.
— Uau. Você sabe por que ele não dormiu em casa?
— E eu vou lá saber. – dei de ombro. – E dá para nós mudarmos de assunto? Pois esse já deu.
— Tudo bem.
Ficamos conversando assuntos banais, o como ela havia amanhecido com a pele ardida por causa do sol. Alguns minutos depois Vee estacionou o Neon e saímos, começando a caminhar colégio à dentro. Logo quando entramos demos de cara com os populares, jogadores do time de basebol com seus casacos do time e as líderes de torcida, os cdfs, os nerds, as vadias, os drogados sem futuro, os da equipe de xadrez, os do clube de teatro e entre outros...
De repente um braço pesado pousar em meus ombros quando a voz de Scott soou, fazendo-nos olhar para ele que havia se enfiado entre mim e Vee:
— Não precisam ficar mais choramingando pelos cantos que o papai Scott está na área. – sua voz estava animada e havia um sorriso idiota nos lábios.
Vee o empurrou bruscamente, fazendo-o cambalear para trás e retirar seu braço de seu ombro.
— Seu imbecil, não me toca. – ralhou ela passando a mão levemente em seu ombro.
— É de cera agora? – ele franziu o cenho. – Tenho doença não.
— Ela está ardida do sol que pegou ontem. – expliquei.
— Ah. – ele a olhou de cima a baixou e depois sorriu debochado. – Vee, você está parecida com uma lagosta.
Prendi o riso e Vee ficou mais vermelha que o costume e começou a estapear Scott que tentava se proteger com os braços.
— Você é um babaca, Scott Saunders. Porque você não faz um favor para a humanidade e não se mata?
— Calma! Se eu me matar tenho certeza que você entraria em depressão. – ele piscou para ela que bufou em resposta.
— Dá para vocês dois pararem? – disse eu percebendo que nós estávamos nos tornando o centro das atenções.
— Para mim já chega! – disse Vee. – Vou embora que é o melhor que eu faço.
Vee saiu batendo o pé me deixando sozinha com o senhor zoeira.
— Deve estar de TPM.
Olhei para Scott que estava com um sorriso vadio nos lábios.
— Você começa, né?
— Eu não fiz nada. – disse ele se fazendo de inocente. Apenas revirei os olhos, começando a caminhar em direção à sala de aula. – Que aula você tem agora?
— Inglês.
— Cara, como eu sou sortudo. – disse ele passando seu braço pesado cheio de músculo pelo meu ombro novamente. – Eu tenho o prazer em sentar ao seu lado.
Olhei para ele me desvencilhando de seu braço.
— Se você pensa que vai passar de ano nas minhas costas, você está muito enganado. – fui logo cortando o seu barato.
— Que isso, Grey – ele abriu os braços -, somos amigos.
— Não é que somos amigos que tenho que trabalhar por dois.
Ele riu.
Entramos na sala de Inglês e aquele vadio sentou-se ao meu lado.
❊ ❊ ❊
As aulas foram todas chatas. Os dois primeiros tempos de Inglês e mais dois de história, dei graças a Deus quando o sinal do intervalo soou. Saí da sala e me encontrei com Vee nos armários.
— Você não sabe o que aconteceu. – disse ela assim que me aproximei.
— O que aconteceu? – perguntei abrindo meu armário e jogando as minhas coisas lá dentro.
— O concelho do Ezine convocou uma reunião depois das aulas para novos integrantes. – ela se encostou nos armários e me fitou. – Vou ficar a tarde toda presa aqui na escola.
A fitei interessada. Vee fazia parte do grupo do jornal da escola, o Ezine. Então se ela iria ficar na escola depois da aula como eu voltaria para casa? Ela era a minha carona, desde que ela ganhou o carro ano passado depois que tirou sua carteira.
— E minha carona?
— Vai ter que ir a pé. – disse ela.
Fiz uma careta. Maldita hora que não peguei o carro de papai emprestado. Droga.
— Olha pelo lado bom – ela começou -, andar faz bem.
Dei de ombro e comecei a andar em direção ao refeitório.
— Olha quem fala, a pessoa mais sedentária que eu conheço.
Entramos no refeitório, pegamos nossos lanches e sentamos numa mesa nos fundos. Começamos a falar assuntos banais, tipo: como as roupas das líderes de torcidas eram tão curtas que se abaixassem poderiam ver coisas que não deviam. Avistamos Mercie junto de seu grupinho de líderes com suas bandejas nas mãos com quase nada para comer. Essas garotas vivem só comendo mato. Acho que se eu fosse só viver comendo isso eu já estava morta. Eu prefiro um bom Xburguer com tudo que tem direito, batatas fritas e Coca-Cola. Comida que enche a barriga de verdade. Vee me chama de triturador ambulante e morria de raiva de mim, pois eu comia tanto e não engordava. Dizia que eu alimentava um verme enorme que consumia tudo que eu colocava para dentro. Mas vamos deixar quieto.
— Mercie está mais vagaba do que ano passado. Olha aquela saia? Acho que estou vendo o útero dela.
Vee dizia enquanto comia sua pera. Olhei para o lado vendo Mercie se sentando a mesa dos jogadores. Revirei os olhos voltando minha atenção ao meu sanduíche.
— Qual é o dia que ele não é uma vagaba?
— Bom, nenhum, mas hoje ela bateu o recorde.
— Hm.
— Ai meu Deus! Ai meu Deus! Me belisca se eu não estou sonhado?
— O que foi, Vee, pirou?
— Olha que cara gostoso que está vindo em nossa direção? Mas disfarça, pois ele está se aproximando com Scott.
Meus olhos seguiram disfarçadamente para o lado onde os de Vee olhavam e meu coração deu um salto. Patch vinha em nossa direção junto de Scott. Ele estava totalmente de preto, começando com as botas de motoqueiro até a sua jaqueta de couro. A única coisa que diferenciava o look era um boné azul-desbotado de basebol com a aba virada para trás. Ele parecia àqueles sujeitos motoqueiros com cara de mau. Estava lindo e terrivelmente sexy. Vi algumas meninas o olhando e cochichando umas com as outras enquanto davam risadinhas. Completamente devem está comentando sobre como ele era lindo.
Senti minhas mãos soarem e as sequei na minha calça, rapidinho e disfarçadamente. Eles pararam em nosso lado e percebi que estava prendendo a respiração. O meu olhar encontrou os de Patch e senti meu coração acelerar mais. O canto de sua boca ergueu-se para cima, o que fez minha respiração falhar. A voz de Scott sobrepôs sobre o clima que havia surgido entre mim e o moreno a minha frente:
— E aí meninas, este é o...
— Patch. – terminei sua frase sem desviar meu olhar do dele.
Scott franziu o cenho e Vee me olhou assustada e depois arregalou os olhos.
— Vocês se conhecem? – perguntou Scott olhando de mim para Patch coçando sua testa com o dedo indicador.
— Estou morando na casa dela. — foi Patch quem respondeu com um sorriso de satisfação no rosto enquanto eu o olhava atônita, tentando controlar o impulso de meus batimentos cardíacos. – Olá, Nora.
— Inferna sortuda. — pude escutar Vee murmurar ao meu lado.
Não precisou nem olhar para a cara dela para ver que ela quase babava por Patch. Os dois garotos sentaram-se a mesa. Scott de frente para Vee, e Patch de frente para mim.
— Cara, quem diria que a garota gostosa que você estava falando onde estava morando era a Grey – Scott riu olhando a minha cara que praticamente estava vermelha pelo seu comentário idiota e desnecessário. — Que mundo pequeno, não?
— Tem razão, esse mundo é muito pequeno. – disse Patch sem desviar seu olhar de mim.
Sentia o clima pesar de repente em nossa mesa. Senti os olhos de Patch passarem pelo meu corpo, parando tempo demais em meu busto. Minha blusa de seda com as alças finas era decotada, mostrava um pouco o meu busto. Senti-me exposta aquele olhar predador.
— Prazer, sou Vee Sky. – ela ergueu sua mão para Patch que desviou sua atenção de mim e olhou para ela. – Melhor amiga de Nora e desse aí.
Ela apontou com a cabeça para Scott que revirou os olhos. Patch aceitou seu aperto de mão.
— Prazer, Vee.
A loira serelepe abriu um sorriso de satisfação.
— Então, como vocês se conheceram? – Vee se referia à amizade de Patch e Scott.
— Conheci Patch ontem no fliperama do Boo. – explicou Scott. – O cara é fera na sinuca.
— Nossa! – disse Vee. – Que coincidência, Nora ama sinuca.
— O quê? – quase me engasguei com a minha saliva, depois que escutei a barbaridade que Vee havia acabado de dizer.
— Gosta? – perguntou Patch com sua atenção voltada para mim.
— Gosta? – perguntou Scott nos olhando desconfiado.
— Claro que ela gosta. – ela olhou para mim com um olhar que dizia: concorda comigo, pois eu sei o que estou fazendo.
E devolvi o olhar que dizia: Sua cachorra, eu vou te matar.
— Legal – começou Patch me olhando com um sorriso debochado. – Não sabia que você gostava de sinuca.
— Nem eu. – murmurei com uma vontade enorme de matar Vee.
— O que disse? – ele perguntou.
— Nada. – disse Vee me dando um chute no meu pé.
— Nora, você gosta de sinuca? – Scott perguntou com uma cara confusa.
Antes que pudesse abrir minha boca, Vee tomou minha palavra falando por mim:
— Claro que ela gosta, ela só não sabe jogar, mas ela ama sinuca.
Dei um chute no pé de Vee e ela me olhou com uma cara cínica.
— Bom, já que você gosta de sinuca, nós poderíamos marcar um dia desses para irmos ao Boo. – disse Patch e olhei para ele o pegando me fitando com aqueles olhos tão escuros quanto um mar de trevas. – Eu vou adorar ensiná-la, Nora.
— Não, eu dispenso...
Vee me interrompeu:
— Vai ser legal. Nós podíamos marcar para este final de semana. Nós quatro, que tal?
— Por mim tudo bem. – disse Patch.
— Por mim também. – comentou Scott que ainda me olhava desconfiado.
— Só está faltando você, Nora. – disse Patch.
Olhei para os três que me olhavam, esperando uma confirmação minha.
— Eu acho que não é uma boa ideia...
— Para, Nora – disse Vee e olhou para Patch. -, não ligue para ela não, ela vai sim.
— Essa eu pago para ver. – disse Scott que agora continha um sorriso debochado no rosto. Ele sabia mais do que ninguém que odeio sinuca. E eu sabia que ele estava se divertindo com a minha desgraça.
O que eu podia fazer para sair dessa? Patch ainda mantinha um sorriso satisfatório no rosto.
Droga.
Vee eu ainda iria te matar, sua loira aguada.
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