Notas iniciais
Olá, meus lindos leitores de Cherry, como vão? Bom, mais um capítulo novinho e espero que gostem. Boa Leitura.

O H Ó S P E D E

Acordei com o som irritante de meu celular. Tateei ainda de olhos fechados a mesinha ao lado da cama até encontrá-lo, levando ao ouvido.

Ai, amiga, que tédio. – reclamou Vee, assim que atendi. — Não tenho nada para fazer. Acho que era melhor eu ter ficado em Roma. – eu não disse nada, estava quase voltando a dormir. – Nora, você me escutando?

— Hum. — murmurei deitada de barriga para baixo enquanto o celular estava sob meu ouvido, sem apoio.

— Eu não acredito que a senhorita esteja dormindo? – seu tom soou incrédulo. – Garota, ainda são só cinco e meia da tarde.

Abri os olhos lentamente e me espreguicei na cama, agora segurando o celular para não cair.

— Vee, eu estou cansada. Você devia fazer o mesmo antes de ficar reclamando. – minha voz soou embargada de sono.

Você está é doente de sono. Ânimo. Só nos restam algumas horas antes das voltas às aulas. Temos que fazer alguma coisa para fecharmos nossas férias com chave-de-ouro.

Sentei-me na cama e cocei os olhos.

— Você não vai me deixar dormir, né?

Claro que não.

— Tudo bem, estou acordada, satisfeita?

Tem alguma ideia aonde possamos ir? Cinema? Shopping? Me ajuda. Eu quero sair de casa.

Suspirei.

— Vee, você chegou hoje depois de dois meses longe de seus pais. Eu não sei os seus pais, mas o meu pai não vai me deixar sair hoje. Ainda nem conversamos direito.

Vee bufou do outro lado.

É por isso que eu preciso sair. Os meus pais toda hora vem ao meu quarto falando o quanto sentiu minha falta. Isso está me sufocando. Eles estão com SPC.

— Que droga é SPC? — perguntei agora já desperta.

Levantei-me e me olhei no espelho vendo meu rosto marcado pelos lençóis e meu cabelo uma juba. Apoiei o celular entre o ouvido e o ombro e o prendi num coque frouxo.

Síndrome de Pais Carente. Juro. Estou enlouquecendo.

— Vai ter que aguentar a carência dos seus pais, pois não vou sair hoje.

Saí do quarto descalça e caminhei até a cozinha. Lembrei-me do novo hóspede.

— Você não sabe da maior. – comentei, abrindo a geladeira e pegando uma garrafa d'agua.

O quê?

— Meu pai está hospedando alguém aqui em casa. — despejei a água no copo que tirei do armário. – Quer dizer... não exatamente um hóspede e sim o mais novo inquilino.

Caramba. É homem ou mulher?

— Homem.

Nossa! Diga que é bonito. Diga que não é um velho babão. Quarentão até que se salva. Mas diga que é bonito.

Bebi o líquido lembrando-me da fisionomia de Patch. Fechei os olhos enquanto a imagem dele no banheiro só de cueca invadia minha mente. Era impossível controlar o meu coração idiota que começou a acelerar, mas ignorei. Lembrei-me da sensação estranha que sentia quando ele estava perto. E quando eu o toquei, ele ficou em choque. Parecia que meu toque o queimava.

— Ei. Terra chamando Nora.

— Ahn? — saí dos devaneios. — O que você disse?

— Caramba, você está no mundo da lua? Me fale como é esse cara que está na sua casa.

Coloquei o copo na pia e me apoiei no balcão.

— Bom — comecei -, ele é muito bonito e parece que é da nossa idade, eu acho.

Nossa! – exclamou Vee, admirada. — Nome, nome, nome.

— Patch.

Quê? – disse ela confusa. — Patch? Que droga de nome é esse?

— Acho que é uma espécie de apelido. – apoiei o peso do meu corpo na minha perna direita.

— Claro que deve ser apelido. Quem em sã consciência colocaria o nome do filho de Patch?

— Não sei. Existe doido para tudo.

Fiquei curiosa para conhecer esse Patch. Acho que vou aí.

— Esquece. Ele está trabalhando a essa hora. Papai deu um emprego a ele no restaurante.

Uau. Agora você me surpreendeu.

Mordi o canto de minha boca.

— Imagina eu quando soube disso.

— Me conta, como seu pai conheceu essa gostosura? — perguntou Vee toda entusiasmada.

Contei tudo para ela, a parte do assalto, o quanto eu achava absurdo meu pai colocar um estranho dentro de casa. Ele podia ser algum psicopata, um maníaco ou um maluco. Sei lá. Só sei que eu não gostava daquela história toda, principalmente as sensações estranhas que sentia, eram fortes e me deixavam assustada.

Ai, Nora, você é toda paranoica. O seu pai só foi gentil só isso. – disse Vee. — Você devia relaxar um pouco, sabia?

— Vee, é sério. Tem alguma coisa de errado com ele.

— Sabe qual é o seu problema? Você precisa dar uns pegas nesse tal de Patch. – eu não podia acreditar no que eu ouvia. – Sério. Você nunca pegou ninguém, deve ser por isso que você é tão amarga.

— Eu não sou amarga. – disse, incrédula. — E muito menos vou ficar me oferecendo para um cara que eu nem conheço.

— Tudo bem, não está aqui quem falou.

Ficamos um bom tempo no telefone, jogando conversa fora. Depois que Vee desligou, comecei a preparar o jantar, por que a última coisa que eu queria era ver meu pai cansado na beira do fogão preparando o jantar depois de trabalhar tanto. Fiz bife à milanesa, arroz com cenoura e purê de batata. As 21hrs e 30min papai entrou em casa e caminhou até a cozinha, me encontrando arrumando a mesa. Ele me deu um beijo nos meus cabelos e abriu a geladeira.

— O cheiro está ótimo. — ele se virou para mim. — Por que não deixou que eu preparasse o jantar?

— Você está cansado, é o mínimo que eu podia fazer. — sorri de lado.

Ele suspirou.

— O movimento hoje foi grande, trabalhamos muito. – e deu um gole em sua água. — Ainda bem que amanhã é domingo e não abriremos.

— E depois segunda. — fiz careta lembrando-me das aulas.

— Mas teve dois meses de férias, é justo. — ele levou o copo para pia. — Vou tomar um banho para a gente comer.

— E o seu inquilino? Não vai jantar também? — meu tom saiu irônico. Tinha dado falta dele, ou ele podia estar em seu quarto.

Papai se virou quando estava na porta.

— Patch saiu, volta tarde. O que fez à tarde?

— Dormi.

— Então é por isso que não o viu saindo.

Eu não disse nada, e papai foi para o seu quarto. A lembrança quando eu toquei o seu braço me invadiu. O jeito que ele me olhou assustado, parecia vulnerável. O que tinha sido aquilo? Mordi meu lábio. Isso é loucura. Não tem nada ver, Nora, você está vendo coisas. Balancei minha cabeça, afastando aqueles pensamentos malucos e abri a geladeira pegando um suco de manga de caixinha o colocando em cima da mesa.

Papai voltou minutos depois já de banho tomado e logo jantamos. Contei como tinha sido a minha temporada em Roma, e que tinha amado viajem. Ele dissera que o movimento no restaurante havia aumentado muito nas férias e que tinha sentido muito a minha falta. E com isso o jantar se passou.

Fui para o meu quarto, mexi um pouco no computador, e falei com Scott pelo facebook. Scott era meu melhor amigo assim como Vee. Ele era um conquistador barato, mas era legal. Vee gostava dele, aliás, ela era caidinha por ele, mas não dava o braço a torcer, pôs o mesmo era um galinha e ela não queria ser mais uma de sua lista. Por isso tenta ser sua amiga, mas eu sei que ela sofre caladinha.

Scott:

Fala aí Grey.

Volta e nem fala com os amigos, é isso aí.

Revirei os olhos.

Nora:

Desculpa seu exagerado. Mas, eu tinha muitas coisas para fazer.

Scott:

Fala como foi na Europa?

Aprontou muito?

Pegou muito?

Deixou de ser azeda?

Cara, qual é o problema desse povo? Eu não sou azeda. Só sou um pouco na minha, não sou dessas garotas que ficam se jogando quando vê um par de calças.

Nora:

Há, Há, muito engraçado.

Mas, respondendo sua pergunta eu adorei. E foi muito bom por que você não estava lá.

Scott:

Magoou agora L

Nora:

Você começou.

Scott:

Vamos nos encontrar amanhã? Eu você e Vee, estou com saudades daquela doida.

Sorri.

Nora:

Sim, e aproveitamos e vamos aquela doceira. Você paga a conta.

Scott:

Eu estou vendo aqui na minha agenda que não vai dar, desculpe.

Sorri incrédula, não estava acreditado.

Nora:

Deixa de ser mão de vaca.

Scott:

Vou sair, fui...

Scott saiu, fiquei ainda mexendo algum tempo, mas depois fui dormir.

Sonhei que estava no cemitério de Coldwater, andava entre as lápides, o tempo estava gelado e a noite estava sombria. O nevoeiro estava denso, transformando aquele cenário em um típico cenário de filme de terror. Meu coração batia rápido, sentia o vento gelado bater contra os meus braços nus. Olhei minhas roupas, estava com um vestido de tecido fino de alças finas que batiam abaixo do joelho. Era totalmente branco e simples. Eu continuava caminhando, não sabia para onde, mas eu caminhava seguindo sempre em frente.

Sentia que meu corpo estava em transe, era como se eu não o controlasse, como se eu fosse um fantoche de mim mesma. Senti uma presença atrás de mim e parei, mas não ousei olhar para trás, apenas olhei minhas mãos geladas.

A pessoa se aproximou de mim. Fechei os olhos, sentindo aquela sensação sinistra tomando conta de mim. Meu corpo tremeu quando a sua voz cálida soprava em meus ouvidos causando arrepios em meu corpo.

— Chegou a hora de você me dar àquilo que me pertence.

Arfei, nostálgica, sentia que conhecia aquela voz, mas eu não sabia de onde. Minha mente estava nublada, como um pano que cobria meu raciocinou lógico. Não conseguia pensar direito. Tremi, sentindo o corpo da pessoa — um homem para falar a verdade — encostar-se ao meu.

Forcei para que a minha voz saísse, mas ela saiu num sussurro arrastado:

— Eu não sei o que você está falando.

Fechei os olhos novamente quando sua voz soprou em meus ouvidos:

— Claro que sabe. Você está com ela nesse momento.

Não tinha a mínima ideia do que ele falava. Eu estava atordoada, começava a me desesperar. Eu tinha que sair dali o mais rápido possível, antes que alguma coisa de ruim acontecesse comigo. Tinha que forçar as minhas pernas travadas a reagirem e sair correndo dali. Eu precisava me afastar daquele cara.

Como se ele percebesse a minha intenção, ele levou as duas mãos ao meu ombro, me virando para sua frente. Olhei para as botas pretas sujas de lama, sua calça comprida que estava perigosamente abaixo dos quadris por dentro das botas. Não usava camisa, seu peito estava nu, era forte, muito forte. Levantei meus olhos por seu pescoço e fitei seu rosto. Levei um susto. Não conseguia enxergar seu rosto. Estava sem nada, como se alguma fumaça empatasse a minha visão.

— Você não precisa ter medo, será tão rápido que você não perceberá.

Ele aproximou seu rosto do meu e meus olhos embaçaram com o nevoeiro em seu rosto fazendo o fecharem. Senti o toque suave de seus lábios nos meus, macios, mas sedutores. Em seguida uma pontada em meu estômago me pegou desprevenida. Desprendi de sua boca e olhei para minha barriga, encontrando minha mão sob um objeto pontudo que atravessava meu corpo, e o sangue escorrendo por minhas mãos.

Forcei meu olhar para cima, sentindo a minha respiração falhar e meu corpo desfalecer. Olhei mais uma vez para aquele rosto coberto pela nevoa.

— P-Por quê? – sussurrei.

— Por que a sua vida, me pertence.

Senti meus olhos desfocarem e meu corpo caindo, e caindo e caindo...

— NÃOO!

Sentei-me na cama, ofegante. Meu corpo estava soado, meu coração batia acelerado enquanto passava a mão pela minha testa, tentando me acalmar. Liguei o abajur clareando o quarto. Fechei os olhos.

Foi um sonho. Apenas um sonho. Mas um sonho não muito comum, pois eu já havia sonhado várias vezes com isto. Não podia acreditar que aquele pesadelo me assombraria novamente.

Ainda trêmula levantei da cama, peguei meu celular vendo as horas. 3hrs24min. Saí do quarto deixando a porta aberta, iluminado o corredor. Caminhei pela casa chegando na sala onde a porta da frente se abria e Patch entrava por ela. Passei direto indo para a cozinha. Liguei a luz, enchi um copo de água e bebi. Sentia que meu corpo trêmulo.

Patch entrou na cozinha, estava bem vestido e cheirava cigarro misturado com seu perfume, impregnando o local todo. Pelo jeito é daqueles que adoram farar.

Ele olhou para mim e arqueou a sobrancelhas.

— Parece tensa. Aconteceu alguma coisa?

Coloquei o copo na pia tentando soar normal e me virei. Ele estava do outro lado da mesa.

— Não. – respondi. — Aonde você estava?

— Jogando sinuca.

— Um jogador?

— É, um hobbie, bem legal. – o canto de sua boca se curvou num sorriso pretencioso.

— Cada um com suas manias. – de a volta à mesa para sair dali, mas fui impedida por sua mão em meu braço.

Seu toque me causou um formigamento, um arrepio. Olhei para seu rosto, ele fitava sua mão em meu braço, sua respiração saía por sua boca entreaberta. Mas, logo seu olhar voltou-se para mim. Seus olhos estavam tão negos que mal distinguia as pupilas.

— Hoje mais cedo, eu fui meio grosseiro com você, saindo daquele jeito de casa. Desculpe, eu estava com pressa para voltar ao trabalho.

Eu o olhava atentamente, tentando ver alguma coisa de diferente, mas o seu rosto estava completamente inexpressível.

— Você ficou estranho, parecia atordoado quando eu segurei o seu braço.

— Foi impressão sua.

Balancei a cabeça, pressionando os meus lábios. Eu não estava com cabeça para questioná-lo, ainda estava atordoada com aquele pesadelo. Por isso resolvi encerrar aquele assunto por hoje.

— Tudo bem. Talvez seja só minha impressão mesmo.

Ele olhava o meu rosto atentamente, enquanto a sua mão ainda segurava o meu braço.

— Você poderia me soltar? – vi que ele tinha saído de uma espécie de transe interno. Ele olhou para sua mão em meu braço e o largou lentamente, mas puxei o braço para mim, acabando com aquele processo. – Boa Noite.

Saí praticamente correndo da cozinha e me tranquei no meu quarto. Seja lá o que tenha acontecido na cozinha, foi estranho. Mas, seu toque era quente e mesmo as sensações estranhas que o rodeavam, eu gostei quando ele me tocou.

Encostei-me na porta.

Talvez eu esteja ficando louca, mas... balancei a cabeça. Eu acho que estou ficando louca.

Notas finais
O que acharam? Bom até semana que vem. Beijos ^^