O dia amanheceu e os meninos foram acordados com o ecoar de uma sineta dentro do dormitório. O senhor Helius iniciara o dia esbravejando a rotina.

─ Levantem-se molenga! Arrumem suas camas e vamos à sala de estudo.

Os meninos se apressaram em levantar. Anglyus observara que Mahum continuava deitado. Estava tremendo de frio, deveria estar com febre. O senhor Helius aproximou-se e pediu que o sentinela o leveasse para a enfermaria.

Mahum fora acordado e agarrado pela cintura e colocado em pé. O menino cambaleiou e com o corpo apoiado ao sentinela fora levado para a enfermaria.

Os outros já estavam prontos, camas arrumadas e se ajeitaram como puderam. Os meninos andavam descalços e todos usavam o mesmo modelo e cor de roupa com a fita vermelha ao redor da cintura.

Em fila e sempre olhando para o chão acompanharam o senhor Helius até a sala de estudos.

Lá se encontraram com meninos que já estavam na casa há algum tempo. Estava também o senhor Pronyus um homem velho com barbas brancas, olhos muito azuis, pele tão clara que dava para ver suas veias. Estava com uma beca preta com um cordão vermelho em volta da cintura.

Em suas mãos uma longa varra dourada, parecia de metal. Com a varra, apontada para os meninos que acabara de chegar, e com muita autoridade dirige aos meninos.

─ Sentem-se nos bancos desocupados!

As mesas eram compridas e com bancos nas laterais. Sentavam-se seis alunos em cada banco de frente para o outro. Ao chegarem a mesa perceberam alguns meninos copiando algo. A sala tinha uma mesa enorme com muitos livros grossos, finos, grandes, pequenos, enfim, cadernos espalhados sobre a mesa e um jarro de cerâmica e um copo.

O senhor Pronyus aos poucos ia tomando algo que estava dentro da jarra, e cada vez mais eufórico ficava durante a aula.

Ao fundo da sala um enorme quadro negro mal conservado e com pequenas rachaduras. Ao lado do quadro o apagador e uma caixa de giz. Não havia nenhuma figura, mapas, ou trabalhos presos na parede da sala de aula.

Era muito aterrorizador quando o senhor Pronyus chamava o nome de um aluno. Sua voz era rouca e alta, tinha boa pronuncia, mas amedrontava com o seu modo autoritário de falar.

Havia uns cem alunos na sala. Todos muito bem comportados e estudiosos.

De repente o senhor Pronyus apontou a varra em direção a Clerius. Percebeu-se um clima de pavor.

─ Vamos falar sobre álgebra. O que é álgebra?

Clerius continuava com a cabeça baixa e não respondeu a pergunta do senhor Pronyus.

Anglyus ficou paralisado, nem conseguia imaginar o que poderia acontecer ao seu colega. O menino continuou imóvel. O senhor Pronyus perguntara novamente, agora com mais voracidade na voz e se aproximando da mesa bateu a vara com força na frente do menino.

─ Seu molenga! Responda-me, quando eu perguntar!

E novamente batendo a vara na mesa, e aos berros volta a perguntar

─ O que é álgebra?

O senhor Pronyus arregalara os olhos que pareciam esbugalhar, sua cólera era tanta que ele gaguejava ao falar. Sua voz trêmula e rouca parecia desaparecer às vezes. Clerius não se moveu, mas levantou a cabeça quase que sem entender o que estava acontecendo e virou se para o lado. Olhou para Anglyus e depois para o senhor Pronyus e escreveu algo num pedaço de papel com letras tão miúdas que para ler o senhor Pronyus fora obrigado a colocar os óculos que estavam sobre a mesa.

A fúria de senhor Pronyus fora desaparecendo lentamente sob o olhar fixo de Clerius que esboçou até um leve sorriso. Irritado ainda, mais sem esbravejar ordenou ao sentinela.

─ Chame o senhor Helius imediatamente!

O senhor Helius foi chamado às pressas para sala de aula e todos ouviram atentamente o senhor Pronyus dizer pausadamente.

─ Eu não quero mais este menino nesta sala, ele não vai servir para nada. O meu propósito é ensinar estes meninos e o Clerius é surdo e mudo, por isso leve-o daqui.

─ Faça o que deve ser feito.

Clerius parecia não entender o que estava acontecendo.

O senhor Helius esbravejou e irritado chamou o sentinela, que sempre estava a postos e pediu que levasse o menino a sua sala, e cochichou-lhe no ouvido. O sentinela entrou na sala e pegou Clerius pelo braço e levou-o dali.

Os meninos na sala ficaram atônitos, e só agora Anglyus compreendeu o porquê de Clerius não ter nenhum tipo de reação a qualquer insulto, barulho. Clerius simplesmente acompanhou os demais meninos, como se os imitasse, por isso a dificuldade do senhor Helius perceber a sua dificuldade.

Clerius fazia isso como ninguém, não era fácil perceber sua surdez e sua mudez, porque na casa não há barulho, não se pode falar, chorar ou cochichar. Somos mudos e surdos – pensa Anglyus.

Clerius é levado aos berros pelo sentinela e acompanhado pelo senhor Helius.

O senhor Pronyus voltou para frente do quadro negro e continuou a falar de álgebra como se nada tivesse acontecido.

Sobre a mesa tínha um caderno, um livro e lápis e borracha. Neste dia a sala foi dividida em vários grupos cada um com três alunos. O senhor Pronyus dizia que era uma aula para que os mais inteligentes ensinassem os mais “burros”. Havia em cada mesa dois chapéus com orelhas de burro. O senhor Pronyus era quem determinava o mais e o menos inteligente. Dirigindo-se a cada grupo ele encaixava o chapéu na cabeça dos alunos.

Ao lado de Anglyus estava Drayus e Julyus, estes meninos já estavam na casa há muito tempo. Anglyus percebeu que eles se comunicavam entre si, enquanto o senhor Pronyus ia se dirigindo a cada mesa, sem que o senhor Pronyus percebesse.

Drayus elaborou um código de comunicação entre eles, uma piscada rápida significava que algo estava correto, era permitido. O levantar disfarçado do dedo polegar significava que o seu tutor ou sentinela não estava por perto, tremer as pernas levemente significa que o sentinela esta distraído ou dormindo.

Anglyus já havia percebido que os meninos se agrupavam criando seus próprios códigos para se comunicarem. Mas a dúvida era em que momento eles combinavam os códigos?

Ficou feliz porque já havia entendido algumas formas de se comunicar. Acharia um jeito de seu grupo se entender – pensou.

A aula seguiu sem problemas, muito texto copiados do livro, muito exercício do quadro negro fazia o tempo passar mais rápido. Anglyus estava com o chapéu de burro, mas nunca teve problemas na escola, sempre fora um excelente aluno.

O raio de sol que entrava pela fresta da janela já estava desaparecendo quando os sentinelas entraram na sala para levá-los ao refeitório. A refeição era uma vez por dia, portanto teria que acostumar a enganar o estômago para que não sentisse tanta fome.

Ao sair da sala de aula Anglyus viu quando Drayus e alguns meninos tocaram um no dedo do outro, quase que imperceptível. No refeitório Anglyus agora observara pequenos gestos e mímicas dos meninos mais antigos. Percebera que, antes que o sentinela colocasse a sopa no prato, Drayus trocara de lugar com Julyus na mesa. Drayus sentou no final da mesa é o ultimo menino no banco. A mesa ficava próxima a porta que Anglyus vira no dia anterior onde entraram os tutores. Num instante havia uma discreta movimentação e Drayus desaparecera. Anglyus ficou impressionado com a rapidez do menino. Enquanto os sentinelas retornaram para pegar mais sopas o menino desapareceu. Como ele faz isso? Aonde vai? Antes que Anglyus pudesse terminar sua sopa Daryus já estava de volta a seu lugar. Onde ele foi? O que foi buscar ou olhar?

A sineta soa e os meninos voltaram para seus quartos. Anglyus voltara pensativo. Era hábil, observador, criativo e inteligente. Seus amigos e familiares o admiravam por isso. E se lembrara de sua mãe sempre o elogiando.

"Ninguém engana esse menino."

Mas como Daryus conseguira enganá-lo e ser tão rápido nos seus atos?

No quarto, percebeu que duas camas estavam vazias. Por onde andariam seus amigos? O que aconteceu com eles? Estarão mortos? Foram devolvidos as suas famílias? Era melhor dormir, antes que o senhor Helius voltasse com sermões e insultos.