O Guardião dos Meninos da Sombra

5 O segredo ainda não revelado


Notas iniciais
Vou postar só nas Segundas agora :)

Anglyus percebera que durante algumas horas o sentinela passava revista no quarto, e quando tinha certeza que os meninos estavam dormindo ia embora e só retornava ao amanhecer.

Sua cabeça estava doendo de tanto pensar sobre aquele dia. Algumas atitudes dos sentinelas poderiam ajudá-lo a esclarecer suas dúvidas. Anglyus fingiu dormir, e ao perceber que o sentinela fora embora, desceu sorrateiramente da cama e arrastando-se pelo chão como uma serpente, chega a porta e pela fresta pôde ver o corredor. Ia desistir de ficar ali, quando um vulto escuro passou pela parede. Anglyus não via ninguém. Em seguida outras sombras passaram rapidamente e sumiram. Anglyus abriu a porta vagarosamente e saiu no corredor. O seu coração parecia sair pela boca, sua respiração ofegante quase o sufocara, suas pernas estavam bambas, mas seguiu até uma porta que ficava ao lado do dormitório.

Ao passar pela porta percebeu que a mesma abriu vagarosamente. Anglyus ficou paralisado, tentou correr e não conseguiu. Assustou-se quando uma mão firme pegou no seu braço arrastando-o para dentro do quarto. Anglyus sentiu suas forças se esvaírem, mas foi se recuperando ao ouvir um som quase rouco e abafado chamando o seu nome.

─ Anglyus, Anglyus, acorda!

Anglyus abriu os olhos e se deparou com alguns rostos sobre o seu. Haviam alguns meninos no quarto e todos com roupas pretas e capuz. O menino queria saber o que estavam fazendo e como conseguiram as roupas? Um dos meninos, chamado Kleimus, disse lhe que não era hora de perguntas e nem de respostas, mas que ele voltasse para o seu quarto que brevemente teria as perguntas respondidas.

Anglyus, ainda confuso foi levado para o seu quarto em companhia de um dos meninos mascarados, porém, não conseguiu dormir. Aquela noite foi muito especial, e ele tinha tanta coisa para descobrir sobre aquele lugar.

No dia seguinte, era quinta feira, dia de lavar as roupas, o mais importante era o uniforme que receberam assim que chegaram na casa. Quinta feira, era dia de lavar as roupas! O sentinela havia entregue um kit com duas túnicas e duas calças compridas, um casaco com a calça e meias de lã, para usar quando fizesse frio e, todos com um cinto de tecido vermelho que obrigatoriamente deveriam usar amarrado na cintura. Todos foram à lavanderia e ao adentrar o lugar já estavam alguns meninos. Anglyus chegou com os meninos do quarto e esperou desocupar um tanque velho, quebrado e com lodo para lavar sua roupa. Procurou por sabão e não achou, perguntou para o menino ao lado onde conseguira uma barra de sabão?- e o menino respondeu que teria que comprá-lo. Os sentinelas vendiam produtos de utilidade para os meninos como sabonete, bucha, sabão.

Anglyus ficou surpreso, e tentou obter mais informações.

─ Como conseguiram dinheiro para compras, se os tutores não nos permitiram trazer dinheiro de casa?

Maykus um garoto franzino e triste, mas considerados pelos amigos como língua solta, responde:

─ Para comprar os produtos fizemos favorzinhos aos sentinelas, e assim eles conseguiram os materiais que precisamos.

A conversa foi interrompida por um sentinela que se aproximou de Maykus, e com um olhar repreendedor falou baixo no ouvido do menino.

─ Se pegar você conversando com os novatos o entregarei a seu tutor, entendeu?

E outro sentinela agarrou-o pela blusa.

─ Fique em silencio, senão terá que fazer outro favorzinho para mim. O último favor que me fez não foi bem realizado.

Maykus ficou em silencio e abaixou a cabeça, parecia envergonhado e com medo do sentinela.

Anglyus ficou mais preocupado, e não conseguia entender o que seriam estes favores que os meninos faziam aos sentinelas para obter os materiais e certas regalias na casa sem que os tutores soubessem?

Anglyus ficou sem entender a conversa que teve, e junto com outros meninos terminara de lavar suas roupas e seguira para a sala de estudos. O senhor Pronyus estava a postos em frente ao quadro negro com sua varra comprida de marmelo em punho.

─ Hoje é dia de música!

O senhor Pronyus havia anotado no quadro todas as notas musicais e ao lado da mesa estava um piano, parecia velho e gasto pelo tempo. Anglyus adorava música, quando vivia com sua mãe, uma preceptora, mulher muito bonita, gentil, elegante e amável ia à sua casa duas vezes por semana lhe ensinar música. Na sua casa havia um lindo piano de cauda, que fora herança de sua avó materna. Tinha muita habilidade com música. Sabia tocar Mozart, Chopin e outras obras mais contemporâneas. Estava ansioso para mostrar suas habilidades musicais.

O senhor Pronyus iniciou a aula cantando as notas musicais dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, e repetidas vezes cantaram as notas acompanhados pelo som do piano.

De repente, um silencio na sala, parecia que o senhor Pronyus estava analisando um a um dos meninos. Olhando fixamente para um dos meninos, chamou Daryus à frente do piano e pediu que ele tocasse as notas. Anglyus percebeu que Daryus ficou com o rosto rubro e de cabeça baixa levantou-se vagarosamente e foi até o piano. Todos perceberam que suas mãos estavam trêmulas. Daryus colocou as mãos nas teclas do piano e ao soar a primeira nota esticou as mãos para o senhor Pronyus, pois já sabia o que ia acontecer. O senhor Pronyus pegou a palmatória que estava sobre a mesa e bateu muitas vezes em suas mãos. Daryus não chorou e nem demonstrou nenhum sentimento de dor. Voltou para a carteira com as mãos dentro do bolso da túnica, sentou-se e olhou fixamente para o caderno sobre a mesa.

O senhor Pronyus continuou a aula e desta vez chamou Anglyus para tocar as notas musicais no piano. Anglyus ficou a frente do piano e quando o senhor Pronyus autorizou tocou “Eroica” 3ª sinfonia de Beethoven. O senhor Pronyus ficou encantado com a habilidade do menino e repetiu várias vezes que ele seria testado para participar do coral “A casa dos meninos”. Daryus olhou para Anglyus fixamente e fez um sinal para Thiery que olhou para Anglyus como se quisesse dizer algo. Anglyus sentiu-se intimidado com os olhares dos meninos e não entendeu o porquê da situação. Voltou para sua cadeira confuso com medo do que poderia lhe acontecer.

O senhor Pronyus fez algumas anotações no caderno de Anglyus e pede que o procure no dia seguinte na sua sala ao lado do refeitório. Anglyus sentiu-se orgulhoso e ao mesmo tempo temeroso com a reação dos colegas.