O Guardião dos Meninos da Sombra
3 Enfim, o sono dos anjos!
Naquela noite poucos meninos conseguiram dormir tranqüilamente. O remexer dos cobertores indicava os meninos virando e se revirando nas camas.
No dia seguinte os meninos limparam o quarto, arrumaram suas camas e fizeram atividades físicas, já estavam esgotados e sonolentos, quando o senhor Helius ordenou que todos seguissem o corredor até o final, pois ali estaria a porta do banheiro.
Os meninos ficaram animados e até suspiraram aliviados. Enfim tomariam um banho, pois nem lembravam mais da cor da água. Seguiram em fila e ao abrir a porta, depararam-se com um homem alto, magro e corpo curvado. Aparentando uns 80 anos e com a voz quase se apagando. Era o senhor Nyus que cuidava do banho dos meninos e da limpeza do lugar.
O senhor Nyus ordenara que todos se despissem. Anglyus foi o primeiro, pois já percebera que as ordens tinham que ser obedecidas com muito rigor, sem demora, sem reclamar. Os outros meninos ainda tímidos foram se despindo aos poucos deixando as roupas próximas da porta em uma banheira imensa que ficava ao lado da pia. O banheiro era muito comprido e estreito. Os box não tinham portas, os vasos sanitários sem tampa e muito sujos.
O senhor Nyus explicara que não era necessário portas já que os meninos precisavam deixar a timidez e a vergonha de se mostrar diante dos outros. Anglyus, olhou para dois box abertos com um chuveiros e suspirou aliviado.
─ Nossa que beleza, vamos tomar banho. Nesse momento era tudo o que ele e os demais queriam.
Sob a ordem do senhor Nyus, Anglyus entrou para o banho e para sua surpresa mais quatro meninos entraram com ele.
O box era muito pequeno e todos se espremeram para disputar o fio frio da água que caía. Anglyus percebera que não seria um banho agradável, todos disputando um pouco da água gelada. Era necessário ser rápidos, pois os outros meninos também teriam que banhar e a água era racionada para todos.
Anglyus então compreendera que era preciso dividir a pouca água que escorria pelo chuveiro. Lavou-se com os respingos da água que caia nos corpos dos colegas que ficavam embaixo do fio de água que corria. Mal tinha lavado seu corpo o senhor Nyus ordenara que todos saíssem para que os outros pudessem banhar. O senhor Nyus entregara a cada dois meninos um trapo com o qual deveriam se enxugar. Depois este mesmo trapo seria repassado ao outro grupo de cinco meninos. Assim que os meninos terminaram o banho, o senhor Nyus entregou-lhes um calção e um blusão de mangas longas, que transpassava na frente e era amarrado com uma fita vermelha na cintura.
No banheiro não havia espelho, nem pentes, nem sabonetes ou buchas. Os meninos passaram as mãos nos cabelos como que penteando com os dedos e ajeitando o melhor que pudesse. Assim que os meninos estavam prontos o senhor Nyus entregou a cada um uma vassoura de palha pesada e suja, as palhas já destruídas pelo uso pareciam estar podres.
Os meninos receberam a ordem para limpar o banheiro e num varal de corda estendido de um lado a outro deveriam estender os trapos com os quais se enxugaram.
Anglyus viu quando Gashum não estava conseguindo levantar a pesada e enorme vassoura. Era um menino franzino e parecia estar doente. Aproximou-se e ficou de costas para Gashum, protegendo-o dos olhares do senhor Nyus. Para Anglyus era fácil, pois percebera que o senhor Nyus tinha muita dificuldade de locomoção e mal conseguia enxergar, mesmo usando aqueles grossos óculos. Assim, Gashum pode disfarçar e fingir que estava varrendo o banheiro. Anglyus segurou Gashum pelo braço ao perceber que o menino estava quase desmaiando de fome e cansaço. Tentou estimulá-lo a continuar porque sabia que algo de ruim poderia acontecer com Gashum. Lembrara-se do menino que não sabia o nome, mas que sumira por uma pequena porta ao chegar a casa. Sentia-se como protetor de Gashum, sabia que o menino precisava de ajuda, e por isso com seu braço entrelaçados ao de Gashum terminou a limpeza.
O senhor Nyus ordenara que todos os meninos colocassem as vassouras empilhadas numa espécie de pia e saíssem em fila para o refeitório. Nesse momento Gashum suspirou fundo como se quisesse pedir pressa para comer algo.
Os meninos desceram as escadas em que Anglyus pode contar 30 degraus até chegar à porta do refeitório.
Param diante de uma porta imensa e larga. O trinco foi aberto uma luz invadiu o corredor. Os meninos puderam ver que no salão haviam mesas enormes, compridas com muitos bancos ao seu redor. Puderam perceber que ali já estavam muitos meninos. Anglyus olhou-os como se quisesse reconhecer e localizar naquela sala o menino desaparecido no dia anterior. Os meninos seguiram para uma mesa com outros eu lá estavam sentados. Na mesa já se encontrava um copo de cerâmica e prato com colheres de plástico.
As mesas eram escuras, manchadas e com pequenas rachaduras. Os meninos que se encontravam ali, tinham idades entre 8 e 14 anos. Havia mais de 200 meninos. O salão imenso parecia que sumia na imensidão. As janelas eram pequenas e lá no alto e um fio de luz descia sobre as mesas. De repente entram no salão, vários sentinelas, alguns Anglyus já os reconheciam, ja´que o acompanharam na caminhada até a casa. Traziam nas bandejas enormes uma vasilha, os sentinelas depositavam as pressas nos pratos dos meninos, a sopa de legumes que eram produzidos no próprio quintal da casa, em seguida outro sentinela colocava água nos copos de cerâmica.
Os meninos comiam quase que como animais famintos, tal era a fome.
Anglyus pode ver o senhor Helius, o senhor Clomaus e senhor Nyus se dirigirem a outra porta fechando-a vagarosamente. Anglyus ficou observando quanto tempo eles ficariam ali dentro, mas antes que pudesse ver, os sentinelas soaram uma sineta com som agudo e ensurdecedor. Era o aviso para que todos se dirigissem a seus quartos.
Os meninos vêem um homem enorme com barba até o peito, cabelos compridos, braços fortes que chega ao centro da sala.
─ Todos em fila sem conversa, olhando sempre para o chão.
Um a um dirigia-se ao sentinela da confiança do tutor. Os sentinelas alinhados em fila conduziam a ordem. Os meninos caminharam silenciosamente pelos corredores. Sentiram-se saciados, mas com muito sono. Anglyus e os meninos chegaram junto a suas camas e receberam a ordem para dormir. Deitaram tão cansados que nem ouviram quando o senhor Helius chegara esbravejando algumas palavras e saiu. Estavam dormindo o sono dos anjos.
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