Notas iniciais
Estou escrevendo um livro de mitologia, e gostaria de saber a opinião de vocês sobre essa história.

Trovões e Raios ecoavam pelos os céus da Grécia, como se fossem tambores furiosos, o vento gélido derrubava qualquer coisa em seu caminho; Árvores, templos, casas, tudo caia diante a irá de Zeus, o rei dos deuses. As nuvens deixavam o céu numa coloração negra como o ébano, como se o mundo todo tivesse sido jogado nas eternas trevas do Tártaro. A única fonte de iluminação eram os próprios raios, que, durante as suas majestosas quedas, mostravam o caminho a seguir.
Aquela horrível tempestade não assustava Pã, afinal, ele era um deus, e os deuses não temiam a morte. O que o assustava era a sombra negra que planava sobre o Olimpo, algo grande estava prestes á ameaçar o reino dos deuses, e aquilo era visível ate dos confins mais distantes do mundo. O deus selvagem não tinha ideia o que podia ameaçar o Olimpo. Os deuses sobreviveram aos terríveis titãs, aos gigantes e, ate mesmo, ao poderoso Tifão. Aquele gigante ainda o causava pesadelos. Mas, sempre tinha um suicida querendo tomar o trono de Zeus e terminar igual os outros, jogados no poço sem fim do Tártaro, e Pã não teria duvida do resultado.
Outro raio cruzou os céus e atingiu uma árvore na floresta que ele estava. Odiava aqueles raios, sempre destruíam as pobres árvores, criavam incêndios imensos no seu território, matavam animais indefesos. Um dia desses, tinha que reclamar com Zeus sobre isso. Mais um raio caiu, desta vez, atingiu uma cidade ali perto e Pã nem se incomodou. Os humanos sempre destruíam o mundo selvagem, o reino que Pã protege, ele não se importa se um raio destrói as suas cidades podres. O deus selvagem suspirou, imaginando como era bom a Terra na época, antes do Prometeu dar o fogo aos mortais. A destruição do meio ambiente era culpa daquele titã maldito.
Pã continuou a sua jornada pela floresta, estava andando fazia dias pela Grécia com um único objetivo em mente, descobrir o mistério por traz do desaparecimento de Selene, a titânide da lua. Fazia um mês que a titânide tinha sumido, possivelmente, durante as suas viagens noturnas, e todo o Olimpo saiu em sua procura. Hecate usava as suas misteriosas magias, Hermes e Íris percorriam os quatro cantos do mundo, Apolo tentava contatar o Oraculo de Delfos e Hercules viajava nos cantos mais escuros do Mundo dos Mortos. Nada, nem Zeus, que vê tudo, consegue encontrar a amante. Aquilo era preocupante, nenhum deus desaparece sem deixar rastros, a ultima vez que isso aconteceu foi durante a guerra contra os gigantes, quando Hera foi raptada.

Que os céus estejam com a gente. – pensou Pã, caminhando com dificuldade, por causa dos seus cascos na terra molhada. – Que nenhum mal faça o Olimpo tremer.

Outro raio tirou Pã de seus pensamentos, e ele deu um pulo assustado, este raio foi mais forte do que os outros, isso significa que o rei dos deuses estava ficando mais irritado, o raio caiu perto de Pã. Perto demais. Um mortal teria ficado surdo com o barulho estrondoso dos relâmpagos, mas Pã é um deus, é mais resistente do que um humano comum. O vento tinha ficado mais forte, mais um pouco e seria um tufão, agora era capaz de arrancar enormes troncos de árvores em instantes, aves eram derrubadas no ar, animais fugiam apressados para suas tocas. A floresta inteira tremia. A cada raio que caia do céu, um animal ou uma árvore morria, e dores de cabeça constantes abalavam o deus selvagens.

Tenho que me concentrar. – pensou Pã. – Sinto o cheiro de Selene por perto.

O deus selvagem estava sentido o cheiro de Selene há dias, e todas as suas pistas diziam que a titã lunar esta naquela sombria floresta, ou, tinha sido ali que ela tinha desaparecido. Agora, acreditava, que devia ter chamado outro deus ou semideus para ajudá-lo, se aparecesse algum inimigo...

Coragem! Você é um deus, filho de Hermes. – ele começou a pensa para si mesmo – Você já ficou frente á frente com Tifão. Nada ira de acontecer.

Ele não era o melhor aliado do Olimpo. Não era tão rápido como o pai, tão corajoso como Hércules, nem tão assustador como Deimos. E nem era o neto preferido do senhor Zeus. Pensando bem, metade da Grécia era descendente do deus dos trovões, então Pã nem ligava. As únicas pessoas do Olimpo que o reconhecem, era os tios Dionísio e Ártemis, que tem fortes ligações com a vida selvagem.

Pã suspirou, e com os seus cascos de bode, continuou em frente, adentrando naquela floresta cheia de trevas.

(***)

No decimo dia de viagem, Pã se perguntou se não tinha entrando em outro plano no Universo, aquela floresta parecia não ter fim. As vezes, ele se deparava com algumas pessoas ou vilarejos, mas evitava ser encontrado. A ultima coisa que precisa, é de uma horda de bonecos de barro atrás dele.
Continuando, aquela floresta não parecia ter fim, parecia uma parte da Terra isolada que as grandes potências gregas ainda não alcançou. Mas, aquela floresta tinha algo de estranho, uma espécie de poder que estava suprimindo o poder de Selene. E a única coisa que o deus selvagem tinha para se defender, era uma flauta, e não era o instrumento mais eficiente numa batalha. Outra coisa que Pã tinha para se defender era os seus próprios cascos, que era capaz de derrubar uma árvore.

– Não sou tão indefeso assim! – disse em voz alta, desafiando qualquer inimigo por perto, com uma pontada de coragem

Ele parou e olhou para a floresta ao redor, esperando alguma coisa pular em cima dele, mas nada aconteceu. Decidiu continuar em frente, a energia de Selene ficava mais forte a cada minuto. Mesmo assim, ele não sentia a presença física dela, só a sua energia, o que era muito estranho vinda de uma titã de segunda geração.
Um leve vento passou entre as árvores, era um vento gélido e leve, capaz de congelar ate o seu Icor. O sangue divino dos imortais. O senhor dos sátiros sentiu uma presença se aproximando com velocidade – como se fosse o próprio vento – o ser que se aproximava derrubava árvores em seu caminho, arrastava animais de seus ninhos.
Pã pegou a sua flauta de bambu e colocou na boca, preparado para uma batalha. Um pequeno tufão se formou na sua frente, poeira e folhas voaram naquele grande funil. Pedras e alguns fios de cabelo do deus silvestre começam a flutuar. Uma fonte de energia massiva veio do centro do tufão. A energia que um deus transmitia. – Olá, Pã, meu menino bode preferido. – a voz que saiu do centro do mini tufão era uma mistura de humor com gentileza. Também parecia um assobio agudo. Vários assobios. A voz de um deus dos ventos.

– Zéfiro, o vento do oeste. – Pã reconheceu aquela voz do Olimpo, e não estava animado para isso. Abaixou o flauta da boca – O que faz aqui?

O mini tufão se desfez, um deus estava parado no lugar dele. Um deus de longos cabelos ruivos desorganizados, pele pálida um pouco envelhecida, barba ruiva e olhos dourados como mel. A expressão do rosto do deus do vento era mistura de humor maligno – capaz de ver alguém morrer na sua frente e achar isso divertido. Zéfiro usava um enorme manto branco e uma espada de ferro pressa nas suas costas. – O que ouve, filho de Hermes? Não esta animado por me ver?

– Não é nada disso. – Pã odiava que lembravam que ele é filho de Hermes, parecia que ele não tinha identidade. Não podia mostrar o nervosismo na frente de Zéfiro, um deus dos ventos tinha o temperamento mudável...como o vento. – Só pensava que os deuses dos ventos estavam protegendo o Monte Olimpo. O que faz aqui?

– A situação mudou, Pã. – o rosto de Zéfiro ficou sério de repente. Seu rosto, cheio de humor maligno, agora estava fechado. – O Senhor Zeus mandou que todos os deuses retornassem ao Olimpo para uma conferência. – Zéfiro olhou para a floresta ao redor, como se algum mortal ousasse escutar a conversa. – Algo horrível aconteceu, meu caro.

Uma sensação horrível abalou o filho de Hermes, ele sentiu um frio passar pela a espinha, o icor – o sangue dos imortais – pareceu congelar por instantes. Será que é isso que os mortais chamam de medo? – O que aconteceu?

– A filha de Zeus com Têmis, Dice, a deusa da justiça. – a voz do outro deus estava carregada de frieza. – Foi encontrada morta.

Pã quase deixou a flecha cair no chão de surpresa e indignação. Aquilo só podia ser uma brincadeira, imortais não morrem. Ou morrem? O deus não queria descobrir. – Explique isso direito, Vento do Oeste! – a voz do Pã soou com autoridade, acho que Zéfiro não gostou disso. – Digo..

– Calma, Pã, não vou criar um tornado por causa disso. – por breves segundos, um sorriso sarcástico atravessou o rosto do deus dos ventos do oeste, mas a expressão dela ficou seria novamente. – Dice partiu para o Egito, para procurar Selene, ela ficou dias sem entrar em contato com o Olimpo. – o deus do vento narrava tudo com tranquilidade. Como se deuses saíssem morrendo por aí. – O rei dos céus mandou Eros e Apolo para procurar por ela, e...eles encontraram ela caída no deserto, fria e morta.

O deus silvestre tentou se segurar numa árvore, ele foi para trás e tropeçou num tronco de árvore, quase caiu no chão. Como é possível? Uma deusa não morria... Pã tentou pensar e ligar tudo aquilo. O desaparecimento de Selene, a enorme massa de trevas indo na direção do Olimpo, Dice morta. Algo grande esta acontecendo, agora não tinha dúvidas.
Pã encostou numa árvore e olhou para o céu. Agora o reino de Zeus estava negro e tempestuoso, trovões estourando como terremotos aéreos. Mas não caia nenhum raio ou pingo d'água das nuvens escuras. O vento sobrava com menos violência, como se tudo tivesse em luto pela a deusa caída.
O deus escorregou as costas nas árvores, deixando as costas molhadas. Os chifres de carneiro em sua cabeça pareceu pesar em sua cabeça. Isso acontecia quando ele sentia algo de estranho nos lugares.

– Melhor irmos, Pã, o seu avô não é paciente.

– Não. – o deus Pã estava decidido o que fazer, ele sentia algo pulsando no centro daquela floresta. – Temos que alcançar o centro da floresta. A energia de Selena está vindo lá de dentro. – o deus dos ventos do oeste olhou para a sombria floresta. – Sei que você sente...venha comigo!

O deus Zéfiro suspirou, sua expressão foi de seriedade para algo parecido com preguiça. – Se você insiste! - O Vento do Oeste ajudou Pã a se erguer. – Que Zeus nos abençoe!

Juntos, adentraram ainda mais na enorme vastidão da floresta. O pior erro de Pã!

(***)

Aquela floresta vez despertar uma sensação que um deus não é acostumado a sentir. Medo. Os poderosos deuses olimpianos e seus aliados não pudiam sentir medo por alguma coisa, somos imortais, afinal. Ou éramos, ate um mês atrás. Brotava suor da testa do filho de Hermes, eram gotas de água frias, o coração dele batia mais rápido. Sua mente estava latejante. O tio Hades adoraria esse lugar. Aquele pensamento vez Pã tremer. Balançou a cabeça, tentando se livrar daqueles próprios pensamentos.
A mente de Zéfiro parecia não estar sofrendo com aquele lugar. Ele era, literalmente, um cabeça de vento. A cada passo que o Vento do Oeste tava, era como se, flutuasse no próprio ar – Que, no fato, ele era capaz de fazer – o deus sorria para as árvores, como se aquele lugar fosse um circo enorme. Isso incomodava Pã, profundamente, Zéfiro não estava ligando para nada.
Só para piorar, a energia de Selene estava ficando mais forte, mas a presença dela não era visível. O pior que a energia de Dice se juntou com a energia de Selene. Agora as duas fluíam juntas, como se as duas tivessem se tornado uma divindade só. Uma divindade sem forma, que fosse só energia pura e transitória. Capaz de vagar pela aquela floresta livre e solta – algo parecido com um deus primordial, que é um ser onipresente e onipotente.

– Já aconteceu isso. – Zéfiro quebrou o silêncio. – Um deus sendo morto, aconteceu uma vez.

Pã tremeu, a voz de Zéfiro era um sussurro gélido e obscuro, ele olhou para o deus do vento. – Isso foi há éons atrás. O Universo ainda se formava.

Zéfiro riu, o deus silvestre não gostou daquela risada, saiu maligna – maligna demais para o gosto de Pã -, antes que o deus silvestre falasse algo, o Vento do Oeste continuou. – Um deus ser morto não é algo tão difícil assim, afinal de contas. Acredite em mim, garoto bode!

– E como sabe tanto do assunto, Vento do Oeste? – Pã perguntou, erguendo sua flauta, em vez de responder, o Vento do Oeste continuou o caminho e só parou alguns centímetros na frente.

Zéfiro ergueu a mão esquerda para a sua espada nas costas, e com um rápido movimento, corta as árvores na frente dele, todas as árvores são cortadas bem no meio do tronco, e são lançadas para longe com a força do vento. Uma forte dor de cabeça atinge Pã, ele sentia as dores das pobres árvores. Ele arregala os olhos, depois de passar a surpresa, os dois deuses estavam diante de um verdadeiro paraíso.
Uma enorme ametista alaranjada, do tamanho de um castelo, se erguia no centro da floresta, centenas de ametistas menores, do tamanho de humanos, cercavam a maior. Flores e raízes cresciam ao redor dos cristais – que iluminavam todo o centro da floresta. Os cristais de ametistas irradiam puro poder, um enorme poder divino.

O poder poder de Selene e Dice. – Pã percebeu perplexo, aqueles cristais estavam contendo o poder divino das duas deuses. Mesmo assim, o deus silvestre admirava aquele lugar. O ar estava puro, o lago no lado é cristalino e as árvores estavam verdes. Pã disse – Como?


– É o recomeço, filho de Hermes, um novo mundo será construído depois da queda dos olimpianos. – disse Zéfiro, com um dom de voz frio. O Vento do Oeste olha para ele. – Este mundo esta podre! O rei Zeus não consegue manter a ordem.

Os cristais brilham. No maior das ametistas, uma forma se revelou. Parecia uma gosma, feita de sombras, se modificando lentamente. Formando um corpo.
Pã deu um passo para trás, aquela gosma dentro da ametista transmitia ódio e raiva.

– Não tema, Filho de Hermes. – o Vento do Oeste falou lentamente, sua voz era uma mistura de divertimento com suavidade. Os olhos do deus ficou cinzento e os seus músculos se contraíam. – Todos que são contra os Olimpianos serão aceitos na nova ordem. – Zéfiro tira a sua espada da bainha. – Quer substituir o seu pai, Pã? Ou quer terminar como Dice e Selene?

Substituir Hermes. – a oferta parecia tentadora, ser um deus do conselho. Mostrar que podia ser poderoso. Mas, Pã não era um traidor, ele ia lutar no lado dos deuses.

O deus silvestre aproxima a flauta da boca. Mesmo não sendo um deus guerreiro, ele é capaz de lutar contra um dos quatro Ventos e sua canção foi capaz de salvar o Olimpo do terrível Tifão. Nada resiste a forte música do deus dos sátiros. – Não sei o que esta acontecendo direito. Mas, se você é um inimigo do Olimpo, minha missão é detê-lo.

O Vento do Oeste, Zéfiro, sorriu de maneira sarcástica, possivelmente, imaginando uma luta entre os dois. E se divertindo com o resultado. Outro arrepio passou pela espinha de Pã.

– Não sou seu inimigo, deus dos sátiros. – Os cabelos ruivos de Zéfiro se balançaram com o vento, ele aponta para trás de Pã. – Diga ola para Selene e Dice, no inferno.

Antes que Pã entendesse o que aquelas palavras significavam. Uma enorme dor estourou nas suas costas, seu icor de coloração dourada se espalhou pelo chão. O deus silvestre olha para a barriga, e vê uma espada feita de ametista atravessada no seu corpo.
O deus silvestre tenta falar, mas cospe sangue invés de palavras, ele cai no chão. Sua força se esvaia com velocidade, sentia todo o seu poder sendo arrancado. Pã olhou para traz e vê um deus moreno e musculoso, com cabelos cinzentos o observando. E Zéfiro no lado desde deus.

– Tio..! – o deus silvestre engasgou no próprio sangue, um sangue dourado. O seu icor vazando do seu corpo.
Pã fecha os seus olhos, e deve a sensação de cair nas eternas trevas. A última coisa que o deus ouviu foi;

– Vida longa, aos deuses. – os dois deuses falaram em uníssono, e depois, Pã, não sentiu mais nada.