O Guardião dos Meninos da Sombra
2 Os meninos começam uma nova estória.
O senhor Clomaus, era um homem magérrimo, dava para ver sua anatomia esquelética sob as roupas quase que transparentes. Tinha a barba por fazer chegando até o pescoço, os óculos muito grossos com a armação escura o que dava um certo ar severo. Ao sorrir o senhor Clomaus exibe uma arcada dentária muito branca e com os dois dentes caninos dourados, o que chamou a atenção de todos os meninos. Sua voz era mansa e suave. Parecia ser um homem pequeno, mas tinha um olhar frio e assustador. Era uma pessoa de muita autoridade no lugar. A vontade de Elyc era perguntar por que estavam naquela casa? Por que foram retirados de seus familiares daquela maneira tão abrupta?
Seus pensamentos foram interrompidos pelos berros de senhor Helius que voltara com a boca suja e mastigando algo.
─ Quais deles ficarão sob minha guarda, Senhor Clomaus? – pergunta Helius como se tivesse ódio de estar naquele lugar.
O senhor Clomaus o interrompe:
─ Não se apresse, eu não terminei a conversa com os meninos.
E continua:
─ Volte mais tarde Helius. Terá tempo de escolher seus pupilos.
O senhor Helius decide então permanecer na sala até que seja autorizado escolher os meninos e senta-se numa poltrona grande próxima a mesa do senhor Clomaus.
Enquanto ouvem as normas, obrigações e direitos que deverão cumprir naquela casa, com aqueles homens estranhos e aparentemente diferentes daqueles que conheciam, os meninos se entreolhavam como se quisessem conhecer uns aos outros. Puderam discretamente ver as características físicas, cor de cabelo, roupas que estavam usando.
Nesse momento um dos meninos chamou a atenção de Elyc, um menino que estava com os olhos fixos no chão e não olhava para ninguém na sala. Usava um casaco grosso, cinza com botões dourados, um laço com tecido acetinado envolvia seu pescoço magro, por baixo do casaco podia ver uma camisa de cetim azul com botoaduras douradas. Suas roupas aparentavam serem novas, bem cuidadas, apesar da sujeira devido a poeira e a chuva, a lama e o sol que enfrentaram na caminhada até chegar a casa. Ele parecia impecável. Elyc observa que era o único menino que usava sapatos confortáveis, meias grossas e coloridas. O menino parece amedrontado e muito deprimido.
Elyc é interrompido quando o senhor Clomaus, dirigi-se a ele dizendo:
─ Você será conhecido como Anglyus.
E foi dizendo a cada um seus nomes fictícios. Os nomes eram escritos num livro grosso, velho, amarelado e enorme que estava sobre a mesa. Elyc não sentiu nem o tempo passar, mas já estava cansado, sonolento e faminto quando o senhor Clomaus terminou de registrar o último nome.
O senhor Helius que dormiu e roncou o tempo todo, acordou com o senhor Clomaus chamando-o para começar escolher os meninos que estariam sob sua tutela. Elyc tremeu ao ouvir chamar o seu nome, Anglyus. Sob sua tutela ficariam dez meninos: Anglyus, Mahum, Theys, Clerius, Gashun, Brunius, Fluius, Gaudien, Laurien e Guidien. Os meninos foram alinhados em fila indiana e seguiram o senhor Helius que a frente resmungava algumas palavras que os meninos não conseguiram entender.
Os outros também foram encaminhados para os tutores que teriam o mesmo trabalho que o senhor Helius.
Ouviram-se choros e gemidos dos meninos ao serem entregues aos seus tutores. Não podiam conhecer os outros tutores, mas imaginava-se que seriam como o senhor Helius.
Os meninos saíram da sala e seguiram por um corredor imenso, escuro, sujo e mal cheiroso. Subiram alguns andares de escada e chegaram a um quarto grande com dez camas. Elyc observou as disposições das camas que tinham a cabeceira de madeira envelhecida, os colchões muito finos e fedidos, um trapo cobria os colchões e não tinha travesseiro. O senhor Helius entrega a eles um cobertor muito fino, velho e com a aparência de que nunca tinha sido lavado. Em cada cama o senhor Helius colocou uma prancheta com os nomes dos meninos. No canto do quarto uma poltrona velha e rasgada parecia aguardar o traseiro pesado do senhor Helius. Era ali que ele chamava os meninos para determinar, resmungar, punir e ordenar. O velho parecia estar sempre cansado e mal humorado.
Parados em fila no corredor do quarto os meninos aguardavam silenciosamente a ordem do senhor Helius.
Ele então, senta-se na poltrona e se ajeita como se estivesse mal acomodado, coloca os braços sobre as pernas e começa chamar um a um dos meninos para receber um papel e colocar na sua prancheta presa na cama.
Anglyus que é o nome fictício de Elyc é o primeiro, e portanto a partir de agora será conhecido como tal.
Anglyus recebe as orientações e ouve atentamente as palavras do senhor Helius:
─ Deverá deitar-se às 8h, não poderá levantar da cama após o toque de recolher. As desobediências e indisciplina serão lavradas na prancheta por mim todos os dias. Não poderão conversar, ficar de olhos abertos ou chorar. Todos serão vigiados por um sentinela, homem de minha inteira confiança, durante a noite.
Anglyus resolve perguntar:
─ E se eu precisar ir ao banheiro?
O senhor Helius dá uma enorme gargalhada que assusta os outros meninos.
─ Não poderão sair do quarto, e se molhar o colchão serão punidos.
Anglyus, volta para seu lugar e o senhor Helius chama o próximo menino.
Nesse momento Anglyus percebe que Theys é o menino bem trajado que lhe chamou a atenção horas atrás na sala de recepção.
Theys continua olhando para o chão, como se não quisesse enfrentar a situação em que se encontrava. O senhor Helius, elogia a disciplina do menino.
─ Este é um bom menino. Aprendam com ele, é disciplinado, obediente e não é curioso.
Anglyus percebe um leve sorriso no rosto de Theys e percebe que ele gostou das palavras do senhor Helius.
Todos os meninos são chamados e retornam aos seus lugares em silêncio. No quarto os meninos se entreolham e sentem arrepios porque, aquele ambiente parece um tumulo frio, assustador e silencioso. Silencio quebrado apenas pela voz irritada do senhor Helius que continua dando as orientações.
─ Todos deverão estar em pé ao lado das suas camas em silencio e estáticos, ao se levantar pela manhã.
O senhor Helius continua esbravejando.
─ Banho apenas as segundas feiras, refeições será servida no pavilhão uma vez por dia, deverão lavar suas roupas uma vez por semana as quintas feiras na lavanderia e três dias na semana — terça feira, quarta feira e sexta feira — terão aulas de oratória, matemática e leitura. A biblioteca só poderá ser visitada com a ordem dos seus tutores mestres. Não poderão andar pela casa. Estarão sob a vigilância de vários sentinelas que observarão seus comportamentos e entregará a mim os infratores. Agora vão dormir e não desobedeçam as ordens.
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