O Garoto, os Amigos, a Faculdade
18 Capítulo 18
Notas iniciais
>>o Ponto de vista: William
Eu chorei, chorei mesmo. Deixei as lágrimas virem e não me importei de secá-las. Eu estava triste e queria chorar, então foi o que eu fiz. Fiquei encarando a minha foto com a Jessica na mesa de cabeceira. Tudo o que eu queria era sair do quarto e ficar ali ao mesmo tempo.
Em toda a minha vida meu quarto tinha sido o meu refúgio emocional para tudo, até quando a minha mãe morreu, eu passei dias trancado nesse mesmo quarto. Só que agora tudo o que eu queria era sair dali e fugir das lembranças. A primeira vez que a Jessica disse que era apaixonada por mim, tinha sido naquele sofá de frente para a parede de vidro. A primeira vez que fizemos sexo tinha sido nessa cama. Cada canto do meu quarto tinha as lembranças dela e eu só queria desaparecer. Com uma raiva e desespero joguei o porta retrato na parede e milhões de pedaços de vidro voaram para todo lado. Continuei chorando e deixei as lágrimas caírem.
Por mais que eu odiasse admitir eu precisava do Josh, afinal a culpa não era dele, nem minha, nem dela. A culpa não era de ninguém. O que aconteceu entre a Jessica e o Josh só fez com que o inevitável acontecesse mais rápido. Por isso contrariando meu bom senso, liguei para o Josh.
— Will?
— Oi, Josh.
— Oi, cara. — sua voz transbordava alívio.
— A gente precisa conversar.
— Sim, eu sei. Quando você...— ele ficou um tempo em silêncio. — Will, você está chorando?— dei de ombros, depois lembrei que ele não podia ver.
— Talvez.
— Ah, cara. Eu sinto muito.
— A culpa não é sua. Mesmo. Eu e a Jessica não somos mais um casal.
— Will, eu sinto muito mesmo. Eu... Chego aí em 15 minutos.
— Sabe onde fica a chave. — desliguei aliviado.
Eu sabia que a Jessica estava no quarto dela, tinha ouvido a porta bater e depois ouvi o barulho da água. Podia imaginá-la enchendo a banheira para desestressar a mente. Nem sempre funcionava.
Não sabia exatamente quanto tempo tinha passado até que Josh estava na minha frente com uma cara preocupada. Seu nariz estava com um curativo, talvez meu soco tenha sido mais forte do que eu imaginei.
— E aí? — perguntou ele.
— Eu terminei com ela, cara. Eu terminei o namoro. — Josh sentou do meu lado e ficou um tempo em silêncio.
— Eu sinto muito. Sinto muito por tudo, por ter beijado ela, por ter feito vocês brigarem. Sinto muito por estar apaixonado por ela. Eu só... eu sinto muito mesmo.
— Eu sei, a culpa não é sua. Sei que você gosta dela e eu entendo, ela é uma garota incrível. Sei que você não beijou ela por mal também. Só não me arrependo do soco. — ele deu de ombros.
— Foi um soco bem dado. Quebrou meu nariz.
— Também não me arrependo disso. — Josh deu um sorriso fraco e suspirou.
— Quer conversar? — dei de ombros, mas no fim acabei contando.
Contei a nossa conversa da forma mais sucinta possível, sinceramente, não queria ficar revivendo aquilo na minha mente, embora eu não conseguisse evitar. No fim, Josh apenas assentiu.
— Você a ama.
— Sim, a amo.
— Um tempo atrás, a Jessica veio conversar comigo sobre isso. — fiquei totalmente atento.
— Como assim?
— No dia que aconteceu aquela história toda com você, ela e a lingerie ela tinha conversado comigo mais cedo. Ela me perguntou se eu achava que você a amava. — arregalei os olhos.
— E o que você disse?
— Eu disse que achava que sim, mas que só você podia responder isso. — fechei os olhos.
— Eu queria ter estado lá pra ela, queria poder ter tido essa conversa com ela antes.
— Ei, cara, para de se culpar. Isso não ajuda nada, vai por mim.
— Sinto muito por gostar dela. — falei e ele deu de ombros.
— A culpa não é sua, acontece. Talvez eu só tenha me apaixonado por ela, porque não podia tê-la.
— Talvez.
Ficamos um tempo em silêncio olhando para o nada, cada um divagando sobre os seus próprios problemas. Do nada, Josh levanta e estica bem o corpo.
— Vamos, levanta.
— Pra quê?
— Nós vamos sair. — revirei os olhos.
— Não quero sair.
— Claro que não quer. Vem, vou te levar pra beber.
— Não, Josh, eu quero ficar aqui e sofrer em silêncio.
— Não, você não quer. Garotas sofrem em silêncio, garotos bebem.
— Josh, sinceramente eu...
— Cala a boca e levanta. Não vamos sair para ir atrás de garotas. Não estou no clima pra isso e muito menos, você. Só vamos beber e esquecer que nossa vida está uma merda. — respirei fundo.
— Tudo bem, mas você paga.
— É o mínimo que eu posso fazer.
>>o
Acordei com uma ressaca horrível, pelo menos assim eu esquecia o quão mal eu estava. Eu e Josh passamos a maior parte da madrugada bebendo e falando mal do amor. Levantei para tomar um banho e ir pra faculdade. Eu tinha que seguir com a minha vida e esperar que um dia a Jessica acordasse e descobrisse que me amava, era o mínimo que eu podia fazer.
Assim que saí do meu quarto percebi que a porta do quarto da Jessica estava aberta. Em uma ironia infeliz, hoje saíamos de casa no mesmo horário. Respirei fundo e desci as escadas. Ellie e meu pai conversavam em voz baixa, mas meu coração parou por um momento quando eu vi a Jessie.
Seu cabelo estava preso em um coque e ela estava usando o óculos de leitura, suas roupas eram simples, parecia muito a garota que eu conheci. Aquela garota que não usava maquiagem, que era apaixonada pelo vizinho e tinha um riso fácil, mas ela não estava sorrindo. Jessica encarava o café com uma seriedade triste e eu podia ver seus olhos brilhando, o que significava que ela tinha acabado de chorar. Seu rosto estava um pouco inchado e vermelho, e foi aí que eu decidi que ia me trancar no quarto até ela sair. Eu não podia vê-la assim, eu não ia conseguir.
— Will? — infelizmente meu pai me viu.
— Bom dia. — falei me arrastando em direção a mesa.
Sentei do lado da Jessie em silêncio, ela não olhou pra mim, mas senti que seu corpo ficou tenso e sua respiração um pouco controlada demais. Obviamente meu pai e Ellie perceberam que tinha alguma coisa errada, e eu estava torcendo para que não perguntassem nada, mas eu não tive tanta sorte.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou meu pai.
— Como assim? — respondi com outra pergunta pra ver se ele desistia, mas não desistiu.
— Essa tensão palpável que está na mesa. Quero saber o que está acontecendo. — dei de ombros.
— Ah, bom... eu... é... — eu não sabia como dizer isso, então a Jessica decidiu por mim.
— Eu e o William não somos mais um casal. — a voz dela era um sussurro, e a ouvir me chamando de William doeu. Ele nunca me chamou assim, nunca. E dessa vez tinha tanto significado que não soube como agir.
Silêncio na mesa. Ninguém respirava, Ellie apertou os lábios e respirou fundo. Meu pai simplesmente me encarou sem dizer nada, sem esboçar reação.
— Eu... é... e agora? — a pergunta de Ellie pairou na mesa como uma nuvem. E agora? Essa é a pergunta de um milhão de dólares.
— Agora? Acho que... bom, acho que agora somos irmãos.
E só nessa hora que Jessica olhou pra mim. Seus olhos estavam cheios d'água e ela me olhava como se tivesse levado um tapa, confusa e com dor. Rapidamente ela levantou e pegou a bolsa.
— Vou... é... vou pegar um táxi. — ela estava nitidamente tentando não chorar e eu não conseguia mais olhar pra ela. Encarei a xícara a minha frente enquanto Jessie saía de casa.
— Will? — a voz de Ellie era gentil e suave, como a de uma mãe deveria ser.
— Oi. — levantei a cabeça para ver seus olhos.
— Eu sinto muito. — dei de ombros.
— Eu também.
— O que aconteceu? — meu pai estava com a voz um tanto controlada. Ele nunca soube lidar com esse tipo de coisa.
— Várias coisas aconteceram.
— Foi você que terminou com ela? — perguntou Ellie e eu assenti sem conseguir responder. Fui eu. Eu que coloquei aquele olhar no rosto da Jessie. Eu.
Para minha surpresa, Ellie sentou do meu lado e me abraçou com força. Coloquei a cabeça no seu ombro e quando percebi estava chorando. Chorando porque eu não queria ter terminado com a Jessie, chorando porque eu já tinha esquecido como era ter uma mãe. Seu abraço era gentil e ela fazia carinho no meu cabelo enquanto falava que tudo ia ficar bem.
Meio sem jeito, me afastei depois de um tempo. Meu pai me olhava surpreso e com uma pitada de curiosidade. Levantei da mesa e peguei a chave do carro. Eu queria tanto acreditar que a Ellie tinha razão, tudo ia ficar bem.
>>o Ponto de vista: Jessica
Eu só chorava, era a única coisa que eu conseguia fazer. Achei que depois de um tempo, eu não teria mais água no corpo, mas eu parecia uma fonte inesgotável de lágrimas.
Assim que entrei no táxi, achei que deveria contar pra Charlie como tinha sido a conversa. Ela tinha dirigido até Nova York, merecia saber o que tinha acontecido.
— Jessie?
— Oi, Charlie. — minha voz estava um pouco engasgada e eu ouvi seu suspiro.
— Você está chorando?
— Desde ontem. A única coisa que eu tenho conseguido fazer é chorar.
— Me conta sobre a conversa.— e eu contei. Eu queria esquecer tudo o que a gente tinha falado, mas eu não conseguia. Eu lembrava palavra por palavra.
— E no fim, eu dormi de tanto chorar.
— Nossa, amiga, eu sinto tanto.
— A culpa é minha, Charlie. Se eu tivesse...
— Tivesse o quê? Dito que o amava? Sinceramente, Jessica, você não podia mentir sobre uma coisa dessas.
— Eu não queria mentir. Mas eu... eu sinto que a culpa é minha.
— Sua? Claro que não. A culpa não é de ninguém. Você não pode escolher quem amar, Jessie. Ninguém pode. Não é assim que funciona.
— Ele me ama, Charlie. Sabe quantas garotas do mundo queriam ser amadas por alguém como o Will? Milhões! E eu tenho esse privilégio e deixei escorregar pelos meus dedos.
— Amiga, presta atenção no que eu vou te dizer. Tudo acontece por um motivo, eu tenho certeza disso. O que você e o Will passaram foi lindo. Ele fez você viver, Jessie. Agora o que você pode fazer é se curar pra ele. Busque a satisfação em você e depois vai atrás do amor dele.
— Se eu chegar tarde demais?
— Aí, querida, você supera. A gente não ama só uma vez, vê o caso da sua mãe e Richard. Você vai achar outra pessoa pra amar.
— Eu não quero outra pessoa. Eu quero o Will.
— Claro que quer, quem não ia querer? Ele terminou com você para que você possa se amar e depois amá-lo, faça isso. E faça de todo o coração. Lembre-se que se ele te ama, não vai desistir tão fácil.
— Ele já desistiu, Charlie.
— Claro que não, querida. Ele deixou você ir. E é exatamente isso que as pessoas fazem quando amam.— respirei fundo.
— Eu vou aprender a me amar por mim e por ele.
— Muito bem. Faça primeiro por você, depois vê o que acontece.
— Combinado. Eu te amo, Charlie. — eu podia quase vê-la sorrindo.
— Eu também te amo, Jessie.
>>o
— Você sabe que está com uma cara horrível? — falou Chris e eu dei de ombros.
— É o mínimo já que o Will terminou comigo. — falei sem emoção nenhuma. Chris e Chloe se entreolharam.
— Eu sinto muito, Jessie. — falou Chloe.
— Eu não quis... — começou Chris.
— Não, deixa pra lá. Vou me concentrar na faculdade dessa vez, fazer nossos trabalhos e tentar esquecer isso.
— Tem certeza que não quer um tempo? — perguntou Chloe.
— Estou cansada de dar um tempo. Eu quero fazer alguma coisa. Como eu não posso mudar a cabeça do Will, vou pelo menos fazer algo na faculdade.
— Você está certa. Vamos seguir em frente. — falou ela com um sorriso, mas Chris me olhava com uma seriedade impressionante.
— Se você quiser conversar ou precisar de algo, pode me falar.
— Obrigada, de verdade.
Fechei os olhos e me concentrei no que tinha que fazer, encostei a cabeça na parede e esperei. Eu queria que todos os meus pensamentos me dessem um tempo para respirar, mas mesmo assim eu só conseguia pensar na mesma cena: Will me beijando pela última vez.
— Jessica. — eu reconhecia aquela voz, mas eu não queria abrir os olhos. — Jessie, por favor.
— Vai embora, tá? — eu queria ficar sozinha com meus pensamentos. A presença de Chloe e Chris não me atrapalhavam, mas o Josh sim.
— Não, não vou. Quero conversar com você, Jessie.
— Mas eu não quero falar com você, Josh.
— Jessie, por favor. — sua voz me fez abrir os olhos. Ela estava triste, extremamente abalada como se tivesse acontecido algo com ele.
— Jessie, se você não quiser... — começou Chris, sorri.
— Não, tudo bem. Temos mesmo que conversar. — falei. Chloe e Chris se entreolharam e levantaram.
— Jessie, qualquer coisa só chamar. — falou Chloe.
Assim que eles saíram, Josh sentou ao meu lado e ficou encarando o gramado sem dizer nada por um tempo. Eu não queria admitir, mas a presença dele me acalmava.
— Como você está? — ele perguntou ainda olhando pra frente.
— Destruída.
— Eu sinto muito.
— A culpa não é sua.
— Ainda sim, eu sinto muito.
— Obrigada.
Mais uma vez ficamos em silêncio, eu queria falar alguma coisa, mas não sabia o que dizer. Nada que eu pudesse dizer me faria sentir melhor, nem o ajudaria de alguma forma.
— Eu falei com o Will ontem. — isso chamou a minha atenção. Olhei pra ele com uma cara surpresa, mas seu rosto estava impassível.
— Quando?
— Ele me chamou ontem a noite, disse que queria conversar. Quando eu cheguei você estava no quarto.
— Vocês conversaram?
— Sim, conversamos e depois saímos pra beber. — levantei uma sobrancelha.
— Beber?
— Exato. Ele estava péssimo, eu estava péssimo, então fomos beber para esquecer o quão merda estava nossa vida.
— Will está péssimo porque terminou comigo. Até compreensível, mas por que você está péssimo? — ele deu de ombros e virou para me olhar.
— Porque eu quase arruinei a minha amizade com o Will por causa de uma garota que estava me usando como segunda opção para ouvir o que queria de mim.
Fiquei atordoada, como se tivesse levado um tapa, fiquei sem ação. Eu simplesmente não sabia o que dizer. Sua voz estava tão fria que me assustou.
— Quem te disse isso?
— O Will. Depois que ele bebeu um pouco, começou a contar as coisas.
— O que ele te falou? — perguntei meio receosa, ele pressionou os lábios e começou a falar devagar.
— Eu sei que eu supri uma falta que o Will não tinha tempo de fazer. Sei que você não sabe se gosta de mim ou gosta da atenção que eu te dou.
— Eu sinto muito. — falei e ele deu de ombros.
— Pelo o quê? Por quebrar meu coração de novo? E de novo? E de novo? — mordi o lábio sem saber o que fazer. Pelo incrível que pareça, sua voz não estava amargurada. Era como se ele tivesse se acostumado com isso.
— Josh... — eu não sabia o que dizer.
— Tudo bem, Jessica. Meu coração é seu, então creio que você pode quebrá-lo se quiser. — ele levantou do banco, beijou o topo da minha cabeça e saiu.
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