Notas iniciais
Gente, fala a verdade, vocês não estão com saudade da Jessica?

Eu e Chris passamos boa parte da manhã explorando o campus, ainda não o conhecíamos muito bem e já que tínhamos tempo livre, por que não? Conversamos bastante, mas ainda sim tive a impressão de que Chris Mead era bastante enigmático.

Depois de toda a manhã, acredito que eu e Chris conhecemos uma parte da faculdade, mas como eu tinha marcado, voltamos para almoçar com meus amigos.

— Está pronto para os olhares que Will vai te dar? — perguntei.

— Estava me preparando pra isso desde que o conheci hoje.

— Depois que ele parar com essa besteira você vai perceber que ele é um garoto incrível.

— Imagino. — disse fazendo uma careta.

— Eu vou ao banheiro, você me espera?

— Claro.

Demorei poucos minutos no banheiro, ajeitei o cabelo e fiquei me encarando por um tempo. Eu estava diferente, na verdade eu me sentia diferente. Não eram somente as roupas mais estilosas ou o rímel que era meu mais novo item de extrema necessidade, acho que era a confiança, sorri pra mim mesma.

Da porta eu podia ouvir uma gargalhada contagiante e percebi que Chris tinha companhia. Uma garota morena de cabelos castanhos e olhos acinzentados conversava animadamente com ele.

— Ah, Jessica, essa é a Chloe Reeve. Ela está na nossa turma de Literatura. — o sorriso dela alargou.

— Prazer, Jessica. Eu também te vi na fila mais cedo.

— Prazer.

— Então, Chris estava me contando que vocês iam almoçar agora...

— Pois é, nós íamos encontrar uns amigos meus.

— Posso ir junto? — sorri.

— Claro. — pode parecer esquisito eu aceitar a companhia de uma garota que eu acabei de conhecer, mas Chloe passava tanto confiança...

Meus amigos estavam me esperando em frente ao restaurante que tínhamos visto no mapa semanas antes e acenaram quando me viram. Chelsea e Derek estavam se beijando de um jeito apaixonado me fazendo sorrir.

— E aí, gente? — falei sorrindo.

— Amiga nova? — perguntou Will.

— Pois é. Gente, essa é a Chloe Reeve. Ela também é da minha turma de Literatura.

— Você faz amigos com muita facilidade. — falou Trina do jeito dela.

— Josh Lodge. — obviamente sendo o primeiro. Seu sorriso encantador e seu jeito de olhar dentro dos olhos fez Chloe ficar sem jeito.

— Prazer.

Rapidamente um a um foram se apresentando, Will encarou Chris meio em dúvida. Não sabia se precisava ou não deixar mais uma vez claro que eu era sua namorada.

— Vamos comer? — perguntei.

— Claro, estou morrendo de fome. — confessou Chelsea.

— Você está sempre morrendo de fome. — falou Josh entrando primeiro.

— Vocês são irmãos? — perguntou Chloe.

— Gêmeos. Mais eu sou o mais velho.

— Por dois minutos. — falou Chelsea revirando os olhos, como se já estivesse cansada desse argumento.

— Então, a ruiva namora com o menino que tem cara de bonzinho, a Jessica namora com os olhos lindos e o ruivo namora com a loirinha? — perguntou Chloe e Trina fingiu que ia vomitar.

— Eu, com certeza, não namoro a Trina. — falou Josh.

— Mas de resto está certo. — falei.

— Então meio que vocês gostam de namorar entre si. — falou ela. Não respondemos de imediato, acho que assim como eu, ninguém tinha pensado nisso.

— Não foi algo planejado, só... aconteceu. Convivência, acho. — falou Will.

— Namorar com alguém que já é seu amigo é mais fácil. — falou Chris.

— Com certeza. — falou Derek.

Sentamos em uma mesa no canto iluminado por um lustre, o restaurante era bonito e moderno, parecia criado para ser frequentado por jovens, talvez fosse.

Depois de fazer os pedidos, percebi os olhos de Josh encarando Chloe com curiosidade sem ela perceber (ou pelo menos, fingia não perceber). Já tinha visto ele fazendo isso antes, ele estava analisando, decorando os detalhes para conquistá-la depois. Josh era muito bom nisso.

— Então, Chloe, você é de onde? — perguntou Chelsea.

— Toronto.

— No Canadá? — perguntou Josh.

— Sim.

— E por que Nova York? — perguntei.

— Ah, eu sempre amei Nova York. Acho que tem todo um charme a mais, as luzes, os sonhos, os filmes...

— Eu também amo Nova York. — falei com sorriso sonhador.

— E vocês são da onde? — perguntou Chloe.

— Eu sou de Nova Jersey. — falei dando de ombros.

— Eu e meu irmão somos daqui mesmo, Manhattan. — falou Chelsea.

— Eu também. — falou Will.

— Eu sou de Miami. — falou Derek.

— E eu sou de Washington. — falou Trina.

— Eu também. — falou Chris.

— Lugares diferentes, mas todos dos Estados Unidos.

— Ah, mas o Canadá é quase Estados Unidos. — falou Josh, ela sorriu.

— Não fala isso para um canadense.

— Isso é alguma ofensa? — perguntou Trina.

— Na verdade, os canadenses não gostam de ser comparados com os americanos. Não somos tão arrogantes. — nós rimos junto com ela, embora todos nós soubéssemos disso.

A maioria de nós comeu em silêncio, embora Josh e Chloe tenham entrado em uma conversa animada, mas privada. Will começou a acariciar meu cabelo me fazendo sorrir, Derek e Chelsea também estavam ocupados em seu próprio mundo, o que obrigava Trina e Chris a se encararem. Quando Will me forçou a olhá-lo, parei de prestar atenção no que estava acontecendo ao meu redor.

— Então, como foi a sua manhã? — perguntou ele em um tom que não usava com frequência.

— Sabe que não precisa sentir ciúmes, né? Chris está interessado demais na Trina para você se preocupar. — ele pareceu surpreso.

— Na Trina? — eu ri.

— Você não repara em nada mesmo. Eles já se conheciam antes, eles têm uma história. Não percebeu? — ele deu de ombros.

— Na verdade não, mas fico feliz que ele se interesse por alguém além de você. — revirei os olhos.

— Até que é bem fofo você achar que eu sou bonita o suficiente para atrair a atenção de todos os garotos do mundo.

— Mas você é. Só não sabe disso.

— Oh, é por isso que eu namoro com você. — Will deu "aquele" sorriso, que me faz perder o fôlego.

— Eu queria tanto não ter aula agora pra te levar daqui e sabe... fazermos algo mais interessante. — tive que rir.

— Acho que eu ia gostar.

— Só você dizer e eu não vou pra aula. — dei um leve soco no seu ombro.

— Sabe que eu não faria isso, até porque é minha primeira aula e eu não quero perder.

— Nem por...

— Nem por isso. Até porque... — abaixei meu tom de voz. — Podemos fazer isso em qualquer momento.

— Podemos? — sua voz era quase um sussurro.

— Ah, com certeza podemos. — ele sorriu e deu uma piscadela.

— Mal posso esperar.

— Hora de ir, crianças. — falou Trina.

— Não tenho aula agora. — falou Chelsea.

— Bom pra você, eu tenho. A gente se vê. — respondeu ela levantando, mas Chris levantou também.

— Posso conversar com você? — perguntou ele.

— Não. — falou saindo do restaurante calmamente. Todos nós fizemos silêncio na mesa, mas para nossa surpresa Chris estava rindo.

— O que foi isso? — perguntou Derek.

— Trina sendo Trina. Se eu fosse você deixava pra lá. — falou Josh.

— Com certeza não vou fazer isso. Adoro desafios e ainda vou alcançar meu objetivo. — respondeu Chris sentando de volta na mesa.

— Boa sorte com isso. Trina pode ser... — Chelsea deixou a frase no ar.

— Difícil? — sugeri.

— Difícil não chega nem perto. — retrucou Josh.

— Eu sei disso, conheço ela. — Chris ainda sorria.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Chelsea sem conseguir se conter, mas Chris apenas piscou.

— Bom, acho que temos aula agora. — falou Chloe.

— Temos mesmo. Encontro você depois? — perguntei pra Will.

— Mal posso esperar. — seu sorriso demonstrava ansiedade.

— Acho que alguém vai ter uma noite agitada. — falou Josh com seu melhor sorriso sacana.

— Ah, espero que sim. — falei arrancando risos de todos.

— Eu realmente não precisava saber disso. — falou Chelsea.

— O que foi, maninha? Você não faz esse tipo de coisa? Eu sinto muito mesmo, Derek. Não foi a mim que ela puxou. — ela apenas revirou os olhos e Derek sorriu meio sem jeito.

— Vamos? — perguntou Chris levantando.

— Vamos. — dei um beijo rápido em Will e saí seguida por Chloe.

Caminhamos alguns minutos em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Pela cara da Chloe, ela pensava no Josh. Sinceramente, é muito difícil resistir ao charme dele. Já Chris sorria de um jeito meio bobo, o que é estranho porque Trina não parece ser o tipo de pessoa que causa esse efeito nas pessoas.

— Há quanto tempo você namora o garoto dos olhos lindos? — perguntou Chloe e eu sorri um tanto sonhadora.

— Eu namoro com o Will há um ano. — me surpreendi com a resposta. Já fazia um ano que eu e Will era "nós".

— Um ano, é? Vocês parecem felizes. — comentou ela.

— Com certeza são, moram na mesma casa. — falou Chris.

— Vocês moram juntos? — perguntou ela com uma certa animação.

— Sim, mas não do jeito que está pensando. É que nossos pais estão noivos. — falei e ela arregalou os olhos.

— Como assim? Vocês são... — eu ri.

— Não, não somos irmãos de sangue. A minha mãe começou a namorar o pai dele, aí nos conhecemos e acabamos nos apaixonando. Agora nossos pais estão noivos. Então meio que seremos meio — irmãos e namorados.

— Nossa.

— Eu sei, é complicado.

— Entendo porque isso aconteceu. Ele é tão... — Chloe não terminou a frase, mas eu sorri.

— Lindo? Charmoso? Sim, ele é.

— Não acho ele isso tudo. — falou Chris e eu revirei os olhos.

— Não precisa ficar assim você também é bonitinho. — falei, mas bonitinho não era exatamente verdade.

— Bonitinho? Com certeza não, você é um gato Chris. — falou Chloe e ele deu de ombros.

— Muito obrigado. Você também é uma gata, Chloe. — tive que rir diante desses elogios inesperados.

— Agora que descobrimos que somos todos lindos, podemos entrar na sala? — perguntei apontando a última sala do corredor.

— Prontos pra faculdade, queridos? — perguntou Chloe.

— Com certeza. — falou Chris.

— Acho que sim. — falei meio sem jeito.

— Vamos lá.

>>o

— E o que vocês acharam? — perguntou Chloe fingindo que não estava animada.

— Podia ser pior. — falou Chris soltando um bocejo.

— Até que eu gostei. Foi um dia produtivo. — comentei.

— E cansativo. Sem dúvida eu prefiro estudar de manhã. — falou Chris.

— De qualquer maneira, amanhã tem mais e eu mal posso esperar. — falou Chloe. Sinceramente, eu tinha sérias suspeitas de que ela era ligada na bateria.

— Tanto faz, só desacelera tá? — falou meu querido amigo mal humorado.

— Só eu vou sair do campus, né? — eles assentiram.

— A gente se vê amanhã? — perguntou Chloe.

— Claro, vejo os dois amanhã. — falei.

Cada um seguiu um rumo diferente. Estava quase escurecendo em Nova York e eu estava orgulhosa do meu primeiro dia. Tive aulas incríveis e eu estava esperançosa com a faculdade.

— Oh, Jessie... — chamou alguém atrás de mim, era o Josh.

— Ei, e aí?

— Está indo pra casa?

— Estou e você?

— Também. Quer carona? — perguntou com um sorriso.

— Com certeza, é sempre bom economizar dinheiro do táxi.

— E o seu namorado, cadê?

— Ele me disse que já estava em casa. E a sua irmã? — perguntei e ele deu de ombros.

— Faz muito tempo que eu parei de acompanhar os passos da minha irmã.

O carro de Josh cheirava a novo e era irritantemente limpo, não combinava muito com o estilo do dono. Parecia ser de um modelo novo, mas eu não tinha certeza.

— Jessie, posso te perguntar uma coisa?

— Claro.

— Acha que eu tenho uma chance com a sua amiga Chloe? — soltei uma risada.

— Com certeza sim. Por mais surpreendente que possa parecer ela te achou interessante. — ele fingiu que tinha ficado ofendido.

— Eu sou uma pessoa interessante, Jessica Lowe.

— Na verdade você é basicamente gato. O que não significa que é interessante, só que é... muito bonito. — ele riu e logo depois piscou pra mim.

— Tem coisas que eu não posso negar.

— Você já se apaixonou, Josh? — ele se mexeu desconfortável no banco.

— Já, uma vez.

— E como foi?

— Terrível.

— Por isso que você é assim?

— Mais ou menos. — seu tom de voz escondia uma história muito maior, mas não insisti.

— Quem sabe um dia você encontre alguém de novo? — ele deu de ombros.

— Quem sabe?

Ficamos um tempo em silêncio, eu não consegui evitar e acabei analisando o Josh. Seu cabelo ruivo era cortado de um jeito livre, parecia constantemente bagunçado (um charme sem precedentes), seus olhos verdes pareciam faiscar com um brilho diferente que não eu tinha conseguido identificar, ele tinha um corpo incrível devido a suas várias horas dedicadas a academia. Josh tinha uma postura elegante e séria que quase não se dava pra perceber por causa de todas as piadas.

— Jessica você está me encarando a alguns minutos. Eu até gosto de ser admirado, mas eu estou dirigindo e isso me atrapalha um pouco. — pisquei os olhos algumas vezes e voltei a olhar pra frente.

— Desculpe, eu estava distraída.

— Tudo bem, é muito fácil se perder diante de tudo isso. — revirei os olhos apenas. — O seu amigo Chris está mesmo interessado na Trina?

— Hum... — a pergunta me pegou de surpresa. — Acho que sim.

— Sem querer ser chato, mas Trina é uma pessoa difícil de se conquistar.

— Vocês já tiveram alguma coisa? — ele sorriu.

— Defina: alguma coisa.

— Ah, você sabe... qualquer coisa.

— Se está falando de sexo a resposta é sim. — arregalei os olhos com a surpresa.

— Sério?

— Por que a surpresa? Nunca tinha imaginado essa possibilidade?

— Ah sei lá, vocês não tem nada a ver.

— Não precisa "ter a ver" pra fazer sexo, Jessica. Ela é uma gata e eu sou incrível, ponto final.

— Não concordo. — ele se virou pra me encarar rapidamente.

— Não concorda com o que? Com o fato de eu ser incrível?

— Não, com a parte do sexo.

— O que acha, então?

— Sexo é uma coisa séria. É um momento íntimo, é uma coisa que só se deveria fazer com que se importasse de verdade.

— Sua opinião.

— Eu tenho uma filosofia. — ele deu um sorriso à la Josh.

— Estou louco pra ouvir.

— Se eu ficasse grávida, se isso acontecesse, eu teria vergonha de contar pro meu filho quem era seu pai? Eu teria coragem de contar que ele foi uma noite de diversão com um desconhecido? Se a resposta for sim pra primeira e não pra segunda, sem chance. — Josh ficou um tempo em silêncio. Apenas continuou dirigindo e olhando fixamente pra frente, depois de alguns minutos ele deu de ombros.

— É uma filosofia interessante. — sorri.

— Por que tanto tempo pra me responder?

— Estava pensando sobre ela. E bom, não tenho com o que me preocupar, não posso ficar "grávido". — revirei os olhos.

— Mas pode ser pai. Você teria coragem de abandonar uma garota grávida? — ele parecia ter prendido a respiração. Seus olhos ficaram quase desfocados. Será que... — Josh, você...

— Não pergunta.

— Mas você não sabe o que eu ia perguntar.

— Eu sei exatamente o que você ia perguntar.

— Então por que não me responde?

— Porque isso foi a muito tempo, Jessica. — suas palavras zuniram no carro. Eu não sabia o que dizer, então só fiquei quieta.

Josh parecia outra pessoa, parecia ter envelhecido alguns minutos por causa dessa pergunta. Eu nunca poderia imaginar isso, embora ele parecesse meio irresponsável, não achei que ele tivesse mesmo coragem.

Ele estacionou o carro em frente ao meu apartamento, quer dizer, ao loft do Richard. Minha casa por consequência. Josh ficou um tempo me encarando, meio sem jeito.

— Josh, eu... — eu queria falar alguma coisa, só não sabia o quê.

— Eu tinha 17 anos, era um garoto. A menina tinha 16, não tínhamos idade pra ter uma criança. Então eu fugi, eu não precisava sair da escola, não precisava fazer nada. Apenas, conviver comigo mesmo. Ela se mudou pra Austrália e alguns meses depois eu soube que perdeu o bebê.

— Ah, Josh...

— Não, foi melhor assim. A questão é que até hoje eu tenho vergonha por ter fugido, vergonha de ter deixado ela sozinha. Filho, Jessie. Eu poderia ser pai hoje e eu nem saberia. Alguém estaria por aí carregando o meu DNA e eu nem reconheceria.

— Mas não aconteceu, Josh. Não aconteceu.

— Porque eu tive sorte. — ficamos um tempo em silêncio, eu achei que seus olhos estavam com lágrimas, mas eles apenas brilhavam. — Não conta isso pra ninguém, tá?

— Ninguém sabe disso?

— Só o Will. Ele foi o único que eu contei e insistia todos os dias para que eu falasse com a tal menina.

— E os seus pais?

— Ninguém sabe, nem eles, nem a Chelsea.

— Por que me contou, então? — ele deu de ombros.

— Ainda não sei, exatamente. Mas confio em você. — sorri e beijei a sua bochecha.

— Obrigada pela carona. E pode deixar, eu guardo seu segredo. — ele sorriu.

— Eu sei.

Notas finais
E aí?