O Garoto Feito de Sol e Terra

44 Capítulo 44 — A Escolha Que Nunca Foi Real


O tempo passou, e as coisas começaram a mudar, ou talvez apenas se intensificar.

Eduardo já não era mais um garoto de doze anos correndo pelo pasto com Leo ou se esgueirando pelos corredores da escola para fugir das aulas chatas. Agora, com quinze anos, tudo parecia mais sério. As expectativas pesavam mais, os olhares dos outros tinham um peso diferente, e a sensação de que precisava tomar decisões definitivas sobre sua vida crescia como uma sombra incômoda.

E havia Kayla.

Não eram oficialmente namorados, mas para todos à volta, pareciam ser. Estavam sempre juntos na escola, trocavam mensagens o tempo todo, e a linha entre o que era amizade e o que esperavam deles se tornava cada vez mais borrada. Eduardo sabia que não teria coragem de romper com aquela situação.

E então veio o grande aniversário de quinze anos de Kayla.

A festa prometia ser um dos eventos do ano. A família Albuquerque havia organizado tudo no salão mais caro da cidade, com decoração sofisticada, música ao vivo e um buffet que deixaria qualquer um impressionado. Kayla estava radiante, contando para todos sobre os preparativos, e fez questão de garantir que Eduardo estivesse ao seu lado na festa.

Mas então, um pedido veio inesperado:

— Você devia chamar o Leo também.

Eduardo travou na mesma hora.

Eles estavam sentados no pátio da escola, Kayla comendo um biscoito enquanto mexia no celular, como se tivesse feito um comentário qualquer.

— O quê? — Eduardo piscou, tentando esconder a tensão que tomou conta do seu corpo.

Kayla revirou os olhos, rindo.

— Ué, chama o Leo. Você fala tanto dele, vive com ele, e eu sei que vocês são muito amigos. Minha família chamou um monte de gente, vai ter bastante espaço.

Eduardo umedeceu os lábios, sentindo um peso estranho na garganta.

A ideia de Leo na festa de Kayla era… totalmente errada.

Não só porque ele teria problemas em se enturmar ou porque não gostaria da festa. Mas porque aquilo tornava tudo mais real. Colocaria os dois mundos de Eduardo no mesmo espaço. De um lado, Kayla, seu suposto futuro, o caminho seguro, a escolha que agradava a todos. Do outro, Leo, aquele que ninguém podia saber.

Era um erro.

— Ah… eu não sei. — Ele coçou a nuca, desviando o olhar. — Leo não curte muito essas coisas, sabe? Festa grande, um monte de gente, ele ia ficar deslocado.

Kayla ergueu uma sobrancelha.

— Tem certeza?

Eduardo assentiu, forçando um sorriso.

— Sim. Ele não gosta muito de festas assim.

Kayla deu de ombros.

— Bom, se você diz…

Ela não insistiu mais no assunto, voltando a falar sobre o vestido que ia usar e os detalhes da decoração.

Mas Eduardo mal ouviu.

Porque sabia que tinha mentido.

Leo provavelmente iria, se ele chamasse. Talvez reclamasse no começo, talvez dissesse que não fazia o estilo dele, mas no fim das contas, se Eduardo pedisse, Leo iria.

Mas Eduardo não podia correr esse risco.

E então, fez o que sempre fazia.

Inventou uma desculpa e seguiu em frente, como se nada estivesse acontecendo.


◄☼►


Naquela noite, enquanto Eduardo terminava de se arrumar para dormir, ouviu uma batida firme na porta do quarto. Antes mesmo de responder, a voz de Frederico ecoou pelo corredor:

— Eduardo, podemos conversar um instante?

Eduardo fechou os olhos por um momento, respirou fundo e se preparou mentalmente antes de responder:

— Pode entrar.

A porta se abriu, e Frederico surgiu, impecável como sempre, com a postura rígida e o olhar avaliador. Helena veio logo atrás, cruzando os braços ao lado do marido. Eduardo soube na hora que aquilo não seria uma conversa qualquer.

— Estávamos conversando sobre você e Kayla. — Frederico começou, sem rodeios. — Estamos muito felizes por ver você ao lado de uma garota como ela.

Helena sorriu de leve.

— Ela vem de uma boa família, tem valores parecidos com os nossos e claramente gosta de você. Não poderíamos estar mais satisfeitos.

Eduardo sentiu um aperto no estômago.

— Ahn… então… — Ele coçou a nuca, hesitante. — A gente não tá namorando.

O silêncio que se seguiu foi quase cômico.

Frederico piscou algumas vezes, processando a informação, antes de ajeitar a postura, atônito.

— Como assim, não estão namorando?

Eduardo deu de ombros, tentando manter um tom casual.

— A gente fica, mas nunca conversamos sobre namoro.

Helena trocou um olhar significativo com Frederico antes de suspirar.

— Eduardo, isso não faz sentido. Ela claramente parece querer algo sério com você. E, francamente, é a melhor escolha que você pode fazer.

Frederico assentiu, a expressão séria.

— Você não pode deixar essa oportunidade escapar. Kayla é uma moça extraordinária, e todos estão vendo vocês como um casal. Não é hora de hesitar.

Eduardo engoliu em seco, sentindo a pressão crescer ao seu redor.

— Eu… não sei.

— Não sabe? — Frederico repetiu, cruzando os braços. — Eduardo, chega de indecisão. Tome uma atitude.

— Seu pai tem razão. — Helena concordou. — Kayla gosta de você, está claro como o dia. Não a faça esperar por algo que deveria ser óbvio.

Eduardo sentiu a respiração pesar. Eles estavam certos. Kayla era tudo o que ele precisava para manter sua vida nos trilhos. Tudo o que o mundo ao seu redor esperava dele.

Mas se sentia como se estivesse sendo encurralado.

Frederico se inclinou levemente para frente, o olhar sério e definitivo.

— Eduardo, se você não fizer algo logo, alguém mais vai fazer. E seria uma pena perder a melhor oportunidade que você tem.

Helena sorriu de leve.

— Pense nisso, querido.

E com isso, os dois se retiraram do quarto, deixando Eduardo parado ali, sentindo o peso de suas palavras esmagando seus ombros.

Ele soltou um suspiro longo, passou as mãos pelo rosto e se jogou na cama.

Tomar uma atitude.

Era isso que todos esperavam dele.

O que o mundo inteiro esperava dele.

Então, por que parecia a pior decisão do mundo?


◄☼►


No dia da festa, o salão estava tomado por luzes vibrantes, música alta e vozes animadas se misturando em um burburinho constante. O evento tinha atingido seu auge: pessoas espalhadas por todos os cantos, garçons circulando com bandejas refinadas, o brilho dos lustres refletindo nos copos e joias.

E no centro de tudo, estava Kayla.

Deslumbrante em seu vestido sofisticado, ela se movia com naturalidade pelo salão, rindo, dançando, conversando com todos como se o mundo girasse ao seu redor. E, de certa forma, naquela noite, girava.

Eduardo, por outro lado, estava num canto mais afastado, segurando um copo com o resto da bebida alcóolica que Kayla havia mostrado a ele mais cedo.

— Experimenta isso — ela disse antes, pegando um dos copos altos que circulavam pelo salão em bandejas prateadas.

Ele hesitou, franzindo a testa.

— Isso tem álcool, né?

Kayla apenas sorriu, erguendo a taça em um brinde silencioso antes de dar um gole.

— Bem pouco. Não vai te matar.

Eduardo não era exatamente fã de bebidas, mas naquela noite, algo dentro dele parecia pedir qualquer coisa que o ajudasse a esquecer. O peso no peito, a sensação de que estava fora do lugar, a inquietação que não passava. Talvez aquilo ajudasse.

Agora, encostado naquela parede mais afastada do burburinho da festa, ele girava o líquido restante no copo, sentindo o calor do álcool se espalhar por seu corpo, mas não o suficiente para silenciar a bagunça na sua cabeça.

Ele a observava de longe, vendo-a circular pelo salão, conversando animadamente com os convidados. Ela era carismática, vibrante, a aniversariante perfeita. Todos pareciam adorá-la.

— Tá aí, moscando por quê, Castilho?

A voz de Tiago interrompeu seus pensamentos. Eduardo virou o rosto e viu o amigo se aproximar com um sorriso malicioso, segurando um copo na mão.

— Hein? — Eduardo murmurou, meio distraído.

Tiago inclinou a cabeça na direção de Kayla, que continuava interagindo com um grupo de amigos.

— Olha lá, mano. Kayla tá linda demais hoje.

Eduardo permaneceu em silêncio, apenas observando.

— E ela tá esperando, né? — Tiago continuou, cutucando o braço de Eduardo. — Tá esperando você tomar vergonha na cara e pedir ela em namoro. Já faz um tempo, né?

Eduardo apertou o copo nas mãos, sentindo um nó na garganta.

— Sei lá, cara…

— "Sei lá" o quê? — Tiago riu, incrédulo. — Tá de brincadeira comigo? Você acha que essa oportunidade vai aparecer de novo? Acha que ela vai esperar pra sempre? A Kayla? Logo ela?

Eduardo desviou o olhar para Kayla.

Ela parecia tão no controle, tão à vontade. Movia-se pelo salão com a confiança de alguém que sabia exatamente quem era e o que queria. Seu riso soava leve, despreocupado, e seu olhar brilhava sob as luzes douradas da festa. Para qualquer um que olhasse, era evidente que ela era a estrela da noite.

E ainda assim, em meio a tantas pessoas, ela parecia sempre voltar os olhos para ele.

Como se esperasse algo.

Como se estivesse certa de que, mais cedo ou mais tarde, Eduardo faria o que todos esperavam. O que ela esperava.

Que ele tomasse alguma decisão.

Eduardo desviou o olhar, incomodado com a pressão nos ombros. Apertou o copo outra vez, o líquido balançando lá dentro, refletindo as luzes da festa. Seu coração batia rápido, como se soubesse o que vinha a seguir — e estivesse tentando impedi-lo.

Ele respirou fundo. E de novo. E mesmo assim, não se sentia pronto.

Mas então ouviu a risada de Kayla do outro lado do salão. Viu o jeito como ela o olhou de novo. A pressão de seus pais, de seus amigos. Tudo aquilo foi se empilhando sobre ele como uma escolha inevitável.

Talvez fosse mais fácil parar de pensar.

Talvez fosse mais fácil simplesmente… fazer.

— Ah, quer saber? — murmurou, quase como se estivesse convencendo a si mesmo. Deixou o copo sobre uma mesa próxima com um gesto automático e começou a andar em direção ao centro da festa, com passos incertos, mas cada vez mais decididos.

Tiago arregalou os olhos.

— Opa! O que você vai fazer?

Mas Eduardo já não o ouvia mais.

A música alta parecia se dissipar conforme ele atravessava a multidão. Cada passo era pesado, mas inevitável. Quando chegou perto de Kayla, o grupo ao redor dela se afastou um pouco ao notar sua aproximação.

Ela virou o rosto e sorriu ao vê-lo.

— Ei! Sumiu, hein?

Eduardo mal processou as palavras dela. Seu coração batia forte. Era agora.

Respirou fundo.

O coração batia alto demais, como se quisesse sair pela garganta. As mãos suavam, e ele não sabia exatamente o que estava fazendo, só que, se pensasse demais, desistiria.

Então, num gesto mais impulsivo do que planejado, subiu no pequeno palco montado para os discursos e pegou o microfone.

A música foi diminuindo aos poucos, como se o mundo percebesse a gravidade do que vinha a seguir. As conversas foram cessando uma a uma, até restar apenas o silêncio… e o peso crescente dos olhares voltados para ele.

Lá no centro do salão, Kayla o encarava com uma expressão confusa, os olhos arregalados, como quem tenta adivinhar se aquilo era uma brincadeira.

Tiago, do outro lado, abriu um sorriso largo, empolgado.

— O que esse idiota tá aprontando? — Samanta murmurou ao lado do namorado, sem conseguir desviar os olhos da cena.

Eduardo limpou a garganta, sentindo um arrepio subir pela espinha.

Seu olhar percorreu brevemente o salão… mas logo voltou para onde realmente importava:

Kayla.

— Kayla Albuquerque… — disse, a voz mais trêmula do que gostaria.

Ela piscou, surpresa, soltando uma risadinha nervosa.

— Oi?

Eduardo hesitou. Só por um segundo. Um segundo em que o silêncio pareceu gritar mais alto do que qualquer música. Mas não havia volta agora. Ele respirou fundo mais uma vez, sustentou o olhar dela e, com a voz firme o suficiente para ser ouvida por todos, perguntou:

— Você quer namorar comigo?

Por um segundo, o salão inteiro ficou em silêncio.

Então, os gritos começaram.

Algumas meninas suspiraram alto, outros garotos assobiaram, e Tiago deu um grito de comemoração no fundo da festa.

Kayla arregalou os olhos, completamente surpresa.

Ela cobriu a boca com as mãos por um instante, absorvendo o que estava acontecendo.

E então, rindo, caminhou até Eduardo, subindo no palco com ele.

— Você é doido! — Ela disse, ainda rindo, mas os olhos brilhavam.

Eduardo forçou um sorriso.

— Isso é um sim?

Kayla não respondeu com palavras. Apenas passou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou, sob os aplausos e gritos de todos ao redor.

Eduardo a segurou pela cintura, correspondendo ao beijo.

Ele deveria estar feliz.

Era isso que todo mundo queria, certo?

Mas enquanto os flashes das câmeras registravam aquele momento e as vozes comemoravam ao redor, uma única coisa passou pela sua mente.

Leo.

E a certeza sufocante de que, se ele soubesse disso, o que eles tinham se quebraria para sempre.


◄☼►


Assim que Eduardo e Kayla desceram do palco, a multidão ao redor ainda estava vibrando com a cena inesperada. Gritos animados, aplausos, algumas pessoas comentando que "já era hora" enquanto Kayla sorria radiante, segurando a mão de Eduardo como se ele fosse a melhor decisão que ela já tomou.

Entre tantos rostos ao redor, um par de olhos avaliativos se destacava, os de Frederico Castilho.

Ele se aproximou com passos firmes, ajeitando o relógio no pulso, enquanto Helena vinha logo atrás, o sorriso estampado no rosto. Quando pararam diante do casal, Eduardo sentiu o peso do olhar do pai sobre ele.

— Finalmente. — Frederico disse, com um meio sorriso de aprovação. — Eu já estava começando a achar que você não ia tomar jeito.

Helena riu, tocando levemente no braço do filho.

— Ele só estava esperando o momento certo, Fred. — Disse, olhando para Eduardo com um orgulho evidente. — Mas, sinceramente, Eduardo… Isso foi incrível. Na frente de todo mundo, sem medo. Estou impressionada.

Kayla sorriu satisfeita.

— Eu também fiquei surpresa. — Ela apertou a mão de Eduardo, olhando para ele com admiração. — Mas foi lindo. Do seu jeitinho atrapalhado, mas lindo.

Eduardo forçou um sorriso, sentindo a pressão de tantas expectativas ao seu redor. O álcool ainda aquecia seu corpo, e o som da festa parecia distante, abafado, enquanto sua mente ainda processava tudo.

Ele olhou para Frederico, que lhe deu um tapinha no ombro.

— Boa escolha, filho. — O homem declarou, como se aquele relacionamento fosse um selo de aprovação que ele esperava dar há muito tempo. — Você e Kayla juntos… Bem, acho que não preciso nem dizer o quanto isso faz sentido.

Eduardo engoliu em seco.

Helena percebeu seu silêncio e inclinou a cabeça, curiosa.

— Tá tudo bem? — perguntou, suavemente.

Eduardo piscou, trazendo-se de volta à festa.

— Sim, claro. — Forçou um sorriso maior. — Tá tudo ótimo.

Kayla o olhava como se ele fosse o centro do universo.

Frederico e Helena estavam orgulhosos.

Todos ali pareciam satisfeitos.

Então, por que, no fundo, Eduardo sentia como se estivesse prestes a desmoronar?


◄☼►


Eduardo chegou em casa sentindo o peso da noite ainda grudado em sua pele. A festa, os aplausos, os sorrisos de aprovação, tudo parecia ecoar na sua cabeça como um filme em looping, enquanto ele jogava o blazer sobre a cadeira do quarto e se jogava na cama, exausto.

Seu celular vibrou quase no mesmo instante. Pegou o aparelho e viu a notificação.


Kayla: essa noite foi perfeita!! ainda n acredito que vc fez isso na frente de todo mundo! <3<3


Eduardo leu a mensagem e soltou um suspiro, passando a mão pelo rosto. Ele deveria se sentir animado, empolgado até. Kayla estava radiante, e tudo ao redor indicava que ele tinha feito a coisa certa. Mas então, deslizou a tela para cima e viu outra mensagem, de algumas horas atrás.

Uma mensagem que ele ainda não tinha lido.


Leo: e aí, riquinho, oq vai fazer hj?


Eduardo sentiu o estômago revirar.

Ele podia imaginar Leo do outro lado da tela, esperando uma resposta que nunca veio. Será que Leo ainda estava acordado? Será que ele soube de alguma coisa?

O celular parecia pesado em suas mãos, a culpa rastejando por seu peito como um nó difícil de engolir. Ele hesitou, os dedos pairando sobre o teclado. Poderia responder. Poderia dizer qualquer coisa. Mas o que exatamente?

Que tinha passado a noite inteira na festa luxuosa da Kayla? Que tinha feito um pedido de namoro diante de toda a escola? Que agora todo mundo sabia, seus pais estavam orgulhosos, e ele estava indo cada vez mais fundo em algo que nem sabia como sair?

A verdade era que Eduardo não queria encarar isso agora. Não queria encarar Leo, mesmo que fosse pelo celular. Então, bloqueou a tela e o largou no criado-mudo, virando-se na cama.

Fingiria que não viu.

Amanhã pensaria nisso.

Amanhã enfrentaria o que quer que fosse.

Mas, por ora… ele só queria esquecer.