O Garoto Feito de Sol e Terra
45 Capítulo 45 — Preso Entre Dois Caminhos
No outro dia, na escola, Eduardo sentiu os olhares sobre si antes mesmo de chegar direito à sala. O burburinho já estava espalhado pelos corredores, e ele percebeu que o assunto do dia era ele... e Kayla.
— Aí vem o cara do momento. — Tiago surgiu ao seu lado, batendo de leve em seu ombro. — Castilho, finalmente tomou vergonha na cara, hein?
Eduardo forçou um sorriso, ajustando a mochila nas costas.
— Nem vem, Tiago.
— Nem vem? Mano, você pediu a Kayla em namoro na frente de todo mundo, e agora quer passar despercebido? Esquece.
Eduardo soltou um suspiro e olhou ao redor. Algumas pessoas cochichavam enquanto olhavam em sua direção, outras vinham diretamente dar parabéns, como se aquilo fosse algum grande feito.
— Não sabia que isso ia virar um evento. — murmurou, tentando ignorar os olhares.
Tiago riu.
— Óbvio que virou! Você e a Kayla eram o casal mais esperado do colégio. Agora todo mundo tá falando disso.
E era verdade.
Nos corredores, ouviu gente comentando sobre como finalmente o Castilho e a Albuquerque estavam juntos. Como era óbvio que isso ia acontecer. Como Kayla parecia radiante naquele dia.
Eduardo sorriu para algumas pessoas, acenou para outras, mas por dentro sentia algo apertando seu peito.
Ele sabia que aquilo era esperado.
Mas uma parte dele sentia como se estivesse se afundando cada vez mais.
E, mais do que isso...
Ele sentia que estava traindo alguém que nem sabia que estava sendo traído.
◄☼►
Eduardo tentava se concentrar em seguir pelo corredor, fingindo que não sentia o peso dos olhares, das expectativas, da comemoração de algo que não parecia realmente seu.
E então, como se o mundo estivesse conspirando para prendê-lo ainda mais naquele papel, ouviu alguém chamá-lo.
— Bom dia, namorado.
A voz de Kayla.
Eduardo olhou para frente e a viu caminhando em sua direção, um sorriso iluminado nos lábios. Ela parecia radiante, como todo mundo vinha dizendo. Seu cabelo estava impecável, os olhos brilhavam de empolgação, e havia algo no jeito que se movia, como se estivesse completamente confortável naquela nova posição de namorada oficial.
Ela parou na frente dele sem hesitar e segurou seu rosto entre as mãos antes de dar um beijo rápido em sua boca, sem se importar com os olhares ao redor.
As pessoas que estavam por perto soltaram exclamações animadas, e Tiago assobiou.
— Aí sim, hein! — ele provocou, rindo.
Eduardo tentou sorrir, tentou retribuir o beijo de forma convincente, tentou se encaixar no que esperavam dele.
— Dormiu bem? — Kayla perguntou, passando um braço pelo dele como se já tivessem feito aquilo mil vezes.
Ele assentiu.
— Dormi, sim.
Mentira.
A noite tinha sido um caos.
Tinha rolado na cama por horas, sentindo o peso esmagador da decisão impulsiva que havia tomado. Tinha lido as mensagens de Kayla, respondido com entusiasmo falso, e então, por um breve momento de insanidade, quase mandado uma mensagem para Leo.
Mas não mandou.
Porque sabia que qualquer coisa que dissesse para Leo agora soaria errada.
Para não soar rude, ele volta a pergunta para Kayla:
— E você?
— Dormi muito bem — Ela sorriu, puxando-o para andar com ela. — Pronto para mais um dia de aula?
Eduardo apenas murmurou um "claro" antes de seguir ao seu lado.
E, com cada passo que dava pelo corredor, com cada olhar que sentia sobre si, a sensação de que estava se afundando ainda mais só crescia.
◄☼►
Na saída da escola, Eduardo caminhava ao lado de Kayla. Ela segurava sua mão de forma natural, como se aquilo já fosse rotina, e falava animadamente sobre algo que uma das meninas do grupo dela tinha comentado mais cedo. Eduardo tentava prestar atenção, mas sua mente estava distante.
O dia inteiro tinha sido assim, ele sendo arrastado por aquela nova realidade, tentando se encaixar no papel que todo mundo já tinha decidido para ele.
E então, seu celular vibrou no bolso.
Eduardo pegou o aparelho sem muita pressa, mas assim que viu o nome na tela, seu peito apertou. Leo.
Leo: sumiu pq?
Leo: foi abduzido e esqueceram de me avisar?
Eduardo parou de andar por um segundo, sentindo o estômago revirar.
Ele não tinha respondido Leo na noite anterior e nem pela manhã. Nem uma mensagem, nem um áudio. Nada.
E agora, ali, ao lado de Kayla, com a mão dela segurando a sua e o peso de tudo o que tinha acontecido ainda afundando em sua consciência, Eduardo sentiu a culpa crescer.
— Tudo certo? — Kayla perguntou ao perceber que ele havia parado.
Eduardo piscou algumas vezes e forçou um sorriso, guardando o celular no bolso antes de responder.
— Sim, era só uma mensagem aleatória.
Kayla assentiu e continuou andando, sem desconfiar de nada.
Mas Eduardo sabia que mais cedo ou mais tarde, teria que responder Leo.
E ele não fazia ideia do que dizer.
◄☼►
Eduardo passou o caminho inteiro de volta para casa com a mensagem de Leo queimando na tela do celular.
Kayla falava sobre a festa, sobre como a escola inteira parecia empolgada com o namoro deles, sobre o final de semana que queria planejar. Eduardo assentia nos momentos certos, solta um "aham" aqui e ali, mas a verdade era que sua mente estava em outro lugar.
Ou melhor, em outra pessoa.
Quando finalmente chegou em casa, jogou a mochila no canto do quarto e se sentou na cama, soltando um longo suspiro. Pegou o celular, desbloqueou a tela e encarou a conversa aberta.
Leo não tinha mandado mais nada além daquelas mensagens.
Talvez estivesse ocupado. Ou talvez estivesse apenas esperando.
Eduardo mordeu o lábio, sentindo o peso esmagador da culpa no peito. Ele sabia que precisava responder, mas tudo parecia errado.
Ele nunca demorava tanto para falar com Leo. Nunca ignorava as mensagens dele assim.
Então, respirou fundo antes de finalmente digitar.
Eduardo: foi mal, fiquei na correria ontem e hj tbm
Ele encarou a mensagem por alguns segundos antes de enviar. Era uma desculpa fraca, mas ele não sabia o que dizer além daquilo.
A resposta de Leo veio rápido, como se estivesse esperando.
Leo: correria de q?
Eduardo fechou os olhos, passando a mão pelo rosto. Podia inventar qualquer coisa. Dizer que estava cansado, que a família o encheu de tarefas, que estava cheio de trabalho na escola. Pensando em algo relacionado a isso, digitou:
Eduardo: mó correria com uns lances da escola, cê sabe como é
A resposta veio rápido.
Leo: cê estudando? isso sim é novidade
Eduardo riu baixo, aliviado.
Eduardo: um dia tinha que acontecer né
Leo: sei lá, acho q prefiro acreditar que cê foi abduzido e um clone nerd assumiu seu lugar
Eduardo: clone nerd ainda sou eu, otário
Leo: então vamo testar… quanto é 17 x 8?
Eduardo revirou os olhos, mesmo sabendo que Leo não podia ver.
Eduardo: vai se ferrar
Leo: ERROUUUUU
Eduardo soltou um riso fraco, balançando a cabeça.
Eduardo: cê tem muito tempo livre, ein?
Leo: eu? nunca! só gosto de testar seus limites de burrice
Era isso. A leveza de sempre, a provocação, a familiaridade que fazia Eduardo se sentir em casa. Era a primeira vez no dia inteiro que ele sentia que podia respirar.
Ele digitou uma resposta, mas apagou. Queria dizer alguma coisa mais direta, que mostrasse que sentia falta de Leo, mas não sabia como sem parecer estranho.
Eduardo ficou olhando para a tela. Tinha Leo ali, do outro lado, esperando por ele. Era só continuar conversando.
Eduardo: tá fazendo oq?
A resposta veio quase instantânea.
Leo: pq essa curiosidade toda?
Eduardo revirou os olhos.
Eduardo: só responde, caramba
Leo: nossa, q grosso. eu aqui te dando atenção e c me tratando assim? q triste
Leo: mas já q perguntou… tô aqui na rede, pensando na vida… ou dormindo de olho aberto, ainda n decidi
Eduardo riu baixo, balançando a cabeça.
Eduardo: mas é vagabundo msm
Leo: trabalhador rural, me respeita
Eduardo hesitou por um segundo, mas acabou digitando antes que pudesse pensar demais:
Eduardo: sei lá, só queria ver vc
Dessa vez, Leo demorou um pouco mais para responder.
Leo: eita, tá carente??
Eduardo bufou.
Eduardo: esquece então
Leo: ah lá, se magoou rapidinho kkkkkkk
Leo: relaxa, pode vir aqui a qlqr hora
Eduardo soltou um suspiro aliviado, mas não deixou transparecer na mensagem.
Eduardo: eu vou
Leo: nossa, q honra... o príncipe resolveu então sair da torre?
Eduardo revirou os olhos, mas não conseguiu segurar um riso baixo.
Eduardo: vou te levar empadinha. me respeita.
Leo: aaa se trouxer mesmo, talvez eu até finja q gosto da sua presença
Eduardo: cê não presta msm
Leo: kkkkkkkkkkkk
Eduardo soltou um suspiro, balançando a cabeça, ainda rindo fraco. A leveza da conversa, a forma como Leo fazia tudo parecer simples, tirava parte do peso que ele vinha carregando nos ombros.
Mas o alívio durou pouco.
O celular vibrou de novo.
Dessa vez, era Kayla.
O sorriso sumiu na mesma hora.
Eduardo hesitou por um instante antes de olhar a tela.
Kayla: tava assistindo aquela série q te falei ontem e um dos personagens me lembrou mto vc kkkk
Kayla: todo marrento por fora, mas no fundo um coraçãozinho mole
Eduardo ficou encarando a mensagem por alguns segundos, sentindo um peso diferente no peito. Não era que Kayla tivesse dito algo errado, na verdade, era exatamente o tipo de coisa que ele esperaria dela. Mas depois de falar com Leo, depois de sentir por um breve momento que ainda era ele mesmo, a mensagem bateu de um jeito estranho.
Ele deveria achar aquilo fofo. Deveria responder com alguma brincadeira, entrar na conversa, reforçar a ideia que Kayla tinha dele.
Mas tudo o que conseguiu foi soltar um suspiro.
Eduardo: eita
Eduardo: q série? nem lembro qual era
A resposta veio rápido.
Kayla: aquela lá q te falei hoje
Kayla: q vc disse q talvez assistisse, mas provavelmente ia enrolar pra sempre kk
Kayla: mas ó, c é igualzinho ao protagonista. todo na defensiva, mas no fundo faria qualquer coisa por quem gosta
Eduardo mordeu o lábio, sentindo um aperto no peito.
Ele sabia que Kayla estava apenas tentando ser carinhosa. Mas o problema era exatamente esse: ela achava que conhecia ele.
E talvez conhecesse. Pelo menos o Eduardo que ele deixava todo mundo ver.
Mas não todo ele. Não da forma que Leo conhecia.
Eduardo: kkkkkkk
Eduardo: quem sabe um dia eu assista
Foi só isso que conseguiu responder.
Kayla logo mandou um emoji revirando os olhos seguido de um coração, e Eduardo forçou um sorriso fraco, jogando o celular ao lado.
O alívio que tinha sentido minutos antes agora parecia distante. E a sensação de que estava dividindo sua vida em duas realidades completamente diferentes só crescia.
O celular ficou ao lado dele na cama, a tela ainda acesa antes de apagar. Eduardo passou a mão pelo rosto, soltando um longo suspiro.
Se antes ele sentia que estava andando em cima de uma corda bamba, agora parecia que a corda estava se afinando cada vez mais.
Ele fechou os olhos, tentando afastar os pensamentos, mas não conseguiu.
Era sufocante.
De um lado, Kayla, com seu carinho, sua doçura, sua forma natural de encaixá-lo na vida dela sem perceber que algo estava fora do lugar. Ela via Eduardo como ele deveria ser.
Do outro, Leo, com suas provocações, sua presença inevitável, seu jeito de vê-lo por completo, sem as máscaras que Eduardo usava com o resto do mundo.
E ele estava preso entre os dois.
Um som de notificação fez seus olhos se abrirem novamente.
Por um segundo, sentiu um frio na barriga, achando que poderia ser Leo de novo. Mas quando olhou para a tela, percebeu que era Tiago.
Tiago: mano, já viu q tão postando vídeo do seu pedido de namoro no insta?
Eduardo franziu a testa.
Eduardo: q?
Antes mesmo que Tiago respondesse, outro aviso apareceu. Kayla tinha marcado ele em um vídeo.
Eduardo abriu o link, e o vídeo começou a rodar.
Era a gravação do momento em que ele subia no palco da festa e pedia Kayla em namoro.
O salão inteiro vibrava, as pessoas gritavam e assobiavam, e Kayla subia para beijá-lo como se aquele fosse o momento mais romântico do mundo.
Nos comentários, só elogios.
"Lindos demais!"
"Esse casal é tudo!"
"Eduardo e Kayla sempre foram o casal perfeito, era questão de tempo."
"A coragem do Castilho, hein? Fez bonito!"
Eduardo passou os olhos pelas palavras, sentindo um nó apertado na garganta.
Não era sobre estar namorando Kayla.
Não era sobre o vídeo.
Era sobre o fato de que agora estava selado.
Agora não era mais só sobre um pedido impulsivo. Agora todo mundo realmente via Eduardo como namorado de Kayla. Agora era oficial.
Eduardo largou o celular de lado de novo, passando as mãos pelo rosto.
O nó no peito só apertava mais. Ele soltou um suspiro pesado.
Por um instante, o pânico cresceu no peito. E se Leo visse aquilo? E se alguém enviasse o vídeo para ele?
Mas então, quase imediatamente, veio o alívio.
Leo não tinha Instagram.
Ele nunca foi muito de redes sociais. Não sabia direito mexer em nada além do básico e, mesmo assim, sem muita paciência. O máximo que fazia era tirar fotos, gravar vídeos aleatórios e falar com Eduardo e os amigos pelo WhatsApp.
Era assim que Leo preferia. E, naquele momento, Eduardo agradecia por isso.
Porque se Leo visse aquele vídeo…
Ele fechou os olhos e balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento. Ainda assim, algo dentro dele continuava inquieto, porque, no fundo, Eduardo sabia que não dava para esconder a verdade para sempre.
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