O Garoto Feito de Sol e Terra
34 Capítulo 34 — Reparação Silenciosa
Eduardo não conseguia tirar a culpa do peito. Desde a noite anterior, aquela sensação incômoda estava ali, apertando sua respiração toda vez que ele pensava em Leo.
Ele precisava ver Leo. Precisava estar perto dele. Precisava sentir que tudo ainda estava bem. Foi assim que, depois da aula, foi direto para a padaria e comprou empadinhas. As favoritas de Leo.
Pegou a bicicleta e seguiu o caminho já tão familiar até a fazenda. O vento morno batia contra seu rosto, e, por um instante, tentou afastar qualquer pensamento ruim. Só queria chegar lá e sentir a leveza de novo.
Não tinha hora para voltar.
Quando estava perto, mandou mensagem para a mãe.
Eduardo: mãe, vou dormir na fazenda hoje
A resposta veio em segundos.
Helena: Eduardo, pelo amor de Deus, você não mora nessa fazenda!
Ele suspirou.
Eduardo: só hj, mãe
Helena demorou um pouco para responder.
Helena: Só hoje. Quero você aqui amanhã.
Eduardo suspirou, guardou o celular no bolso e voltou a focar na estrada.
Quando chegou à fazenda, mal teve tempo de respirar antes de ser recebido com festa.
— Duduuu! — Mariana e Sofia correram até ele, os rostos iluminados de felicidade.
— Você sumiu! — Mariana cruzou os braços, tentando parecer brava.
— Eu tô aqui agora, não tô? — Eduardo riu, bagunçando os cabelos delas.
— Você perdeu a cocada de ontem. — Gustavo apareceu na varanda, sorrindo.
Eduardo abriu um sorriso de canto.
— Ah, não me lembrem disso. Já soube que tava bem boa.
Foi quando Leo apareceu, descendo os degraus da varanda com as mãos nos bolsos e um olhar já desconfiado. Olhou para a sacola que Eduardo tinha nas mãos.
— Tá trazendo o quê aí?
Eduardo ergueu a sacola.
— Empadinhas.
Os olhos de Leo brilharam na hora.
— Cê tá brincando.
— Sei que você gosta.
Leo pegou a sacola com a pressa de quem não queria correr o risco de perder nada. Mas, antes de abrir, estreitou os olhos para Eduardo.
— Peraí, tenho uma coisa pra te entregar.
Ele entrou na casa e voltou poucos segundos depois, com um pequeno embrulho nas mãos.
— Aqui.
Eduardo pegou e desdobrou o papel. Dentro, estava um pedaço de cocada.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a voz de Mariana cortou o momento.
— Ei, ainda tinha cocada???
Eduardo riu.
Leo cruzou os braços, um sorriso travesso nos lábios, e ergueu o queixo.
— Prova.
Eduardo piscou.
— O quê?
— A cocada. Pra você ver que é boa mesmo — Leo arqueou as sobrancelhas.
Antes que Eduardo pudesse pensar em qualquer desculpa, Rita, que assistia à cena da cozinha, soltou uma risada.
— Vai, Eduardo, senão ele não vai te deixar em paz.
Eduardo suspirou, mas no fundo estava se segurando para não rir.
Pegou o pedaço da cocada e colocou na boca. O sabor doce e cremoso se espalhou na língua, o toque de coco queimado trazendo um gosto caseiro inconfundível. Ele fechou os olhos por um segundo, absorvendo a textura perfeita.
E então, declarou com convicção:
— Meu Deus, isso é bom demais!
Leo riu, satisfeito.
— Eu te disse!
Rita revirou os olhos, divertida.
Mariana, que ainda olhava com indignação para o pedaço de cocada desaparecendo na boca de Eduardo, cruzou os braços.
— Injusto.
Leo bagunçou os cabelos dela, rindo.
— A vida é, maninha.
Eduardo limpou os farelos dos lábios, ainda saboreando o doce, e olhou para Leo.
— Tem mais?
— Ah, pronto! — Leo jogou as mãos para cima.
Rita riu de novo, balançando a cabeça.
— Se sobrou alguma coisa, agora é que não sobra mais.
◄☼►
A fazenda sempre tinha um jeito de trazer Eduardo de volta para si.
Naquela tarde, ele e Leo passaram o tempo como sempre faziam, jogados em algum canto da varanda, brincando e se provocando. Mas, em algum momento, Leo estreitou os olhos, analisando Eduardo como quem sabia que algo estava diferente.
— Que foi, riquinho? Tá meio esquisito.
Eduardo abriu um sorriso automático.
— Nada, ué.
— Sei... — Leo apoiou um cotovelo na perna, encarando ele com curiosidade.
O coração de Eduardo deu um salto rápido. Mas ele não vacilou.
Eduardo não hesitou. Se deixasse aquele clima no ar por mais tempo, Leo poderia insistir e ele não queria correr o risco.
Então, com um sorriso malandro, deu um leve empurrão no ombro de Leo.
— Sabe o que eu acho?
Leo franziu a testa, desconfiado.
— O quê?
Eduardo inclinou-se um pouco, como se fosse contar um segredo importante, e então soltou:
— Acho que você tá me encarando assim porque não consegue ficar muito tempo sem me admirar.
Leo revirou os olhos na hora, bufando.
— Ah, pronto. Lá vem ele se achando de novo.
Eduardo deu de ombros, se fazendo de desentendido.
— Mas eu tô errado?
— Tá, e muito.
— Aham.
— Tô falando sério, Castilho.
— Claro que tá. — Eduardo cruzou os braços e lançou um olhar desafiador. — Se eu abrir sua galeria agora, aposto que tem mais foto minha do que dos seus cavalos.
Leo arregalou os olhos por um segundo e depois deu um tapa na perna de Eduardo, como se ele estivesse o acusando de um crime.
— É claro que não, seu idiota!
Eduardo caiu na risada, enquanto Leo tentava formular um insulto decente. E então Leo finalmente diz:
— Você não presta, sabia?
Eduardo continuou rindo.
A tensão desapareceu no mesmo instante. O assunto de antes se perdeu entre provocações, e Leo logo entrou no jogo, rebatendo cada palavra de Eduardo com sua típica teimosia.
Funcionou.
Leo esqueceu.
E Eduardo… continuou fingindo que nada estava acontecendo.
◄☼►
Mais tarde, Leo mostrou todas as novas fotos e vídeos que tinha feito na fazenda.
Eles estavam sentados na varanda, o vento fresco da tarde trazendo o cheiro da terra úmida. Leo girava o celular na mão, rolando a galeria com orgulho, escolhendo as melhores imagens para mostrar.
— Olha isso aqui. — Ele virou a tela para Eduardo, exibindo uma foto do campo banhado pelo sol dourado.
Eduardo pegou o celular com curiosidade, rolando as imagens. As cores estavam vivas, a luz capturada de um jeito perfeito. Leo realmente tinha talento para aquilo.
Mas então, enquanto passava as fotos, algo chamou sua atenção.
Havia muitas fotos dele.
Eduardo piscou, surpreso, deslizando o dedo devagar pela tela. Eram imagens suas que ele nem fazia ideia que Leo tinha tirado; dele rindo despreocupado, distraído mexendo no cabelo, andando pela fazenda sem notar que estava sendo observado.
Antes que Eduardo pudesse comentar, Leo puxou o celular de volta, rápido, quase derrubando o aparelho no processo.
— Nem vem. — resmungou, desviando o olhar.
Eduardo arqueou uma sobrancelha, já abrindo um sorriso malicioso.
— Ué, por que tão nervoso, fazendeiro?
— Porque você é um idiota, só isso.
Eduardo mordeu a língua para não rir.
— Que isso, Leo… não sabia que eu era sua musa inspiradora.
Leo estreitou os olhos, claramente arrependido de ter mostrado qualquer coisa.
— Vai se ferrar, Castilho.
— Não, não, agora eu quero saber. Você tava montando um portfólio de "Eduardo no meu habitat natural" e não me contou?
Leo passou a mão no rosto, exasperado.
— Eu realmente te odeio.
— Se quiser, posso posar pra você. — Ele fez uma pose dramática. — Eduardo e o entardecer. Eduardo e as empadinhas. Eduardo e o chapéu do Mickey no campo...
Leo levantou o dedo do meio.
— Vai se ferrar, riquinho.
Eduardo riu alto, mas logo se ajeitou, adotando um tom mais sério.
— Tô brincando. Mas… quero ver as outras fotos que você tira da fazenda. De verdade. Deixa eu ver.
Leo ficou em silêncio por um segundo, então soltou um suspiro curto e voltou a destravar o celular.
— Tá, olha essa aqui. — Ele virou a tela para Eduardo, mostrando uma foto do céu alaranjado refletido na grama.
Eduardo piscou, surpreso.
— Cara… isso tá muito foda.
— E esse vídeo aqui. — Leo clicou em outro arquivo, e um vídeo começou a rodar. Era do cavalo correndo pelo campo, com o pôr do sol atrás. A forma como a câmera tremia levemente, acompanhando os passos do animal, fazia tudo parecer uma cena de filme.
Eduardo soltou um assobio baixo.
— Você tem talento. De verdade.
Leo deu um sorriso de canto, tentando disfarçar a satisfação.
— É o celular que é bom.
— Para de besteira. — Eduardo pegou o aparelho da mão dele, rolando pelas fotos. Os ângulos eram incríveis. Leo tinha um olhar afiado, sabia capturar os momentos de um jeito único.
Por um instante, Eduardo sentiu algo no peito.
Um orgulho silencioso.
Mas, ao mesmo tempo, um pensamento inquieto e bom passou pela mente de Eduardo.
Leo fotografava tudo que achava bonito, o céu pintado pelo pôr do sol, os cavalos correndo pelo campo, as sombras das árvores na terra avermelhada. Pequenos recortes da fazenda que pareciam ganhar um novo significado através do olhar dele.
E, no meio disso tudo, Eduardo também estava lá.
Não era apenas uma ou outra foto. Eram várias. Imagens capturadas em momentos que ele nem havia percebido, expressões naturais que Leo escolheu guardar.
Leo percebeu que Eduardo estava demorando mais do que o normal olhando as fotos, e aquilo o deixou inquieto. Ele coçou a nuca, desviando o olhar, como se quisesse disfarçar o incômodo.
— Tá bom, riquinho, já viu demais. — disse, puxando o celular de volta, sem encarar Eduardo diretamente.
Eduardo abriu um sorriso enviesado, ainda digerindo tudo.
— Que foi? Tá com vergonha agora?
— Cala a boca. — Leo bufou, guardando o celular no bolso. — Vamos entrar, já tá esfriando.
Eduardo arqueou a sobrancelha, se divertindo com o jeito repentino de Leo querer mudar de assunto, mas não discutiu.
Afinal, ele também não sabia o que mais poderia dizer.
◄☼►
À noite, a família toda se juntou para assistir a um filme que passava na TV aberta.
O sofá da sala estava lotado, Rita já tinha brigado umas três vezes com Mariana e Sofia por derrubarem pipoca no chão, e Gustavo jogava um travesseiro de um lado para o outro para tentar se ajeitar.
Eduardo se acomodou entre Leo e Mariana, pegando um punhado de pipoca enquanto o filme começava.
Era uma comédia qualquer, dessas que faziam todo mundo rir sem esforço.
Leo ria alto nas cenas mais idiotas, Mariana e Sofia se jogavam uma na outra de tanto rir, e Rita apenas balançava a cabeça, suspirando como quem já estava acostumada com aquela bagunça.
E Eduardo?
Eduardo apenas observava.
Ele ria junto, claro. Mas, por dentro, sentia algo que não conseguia colocar em palavras.
Talvez fosse a leveza.
Talvez fosse o jeito como, ali, no meio daquela confusão gostosa, ele se sentia parte de algo maior.
Parte daquilo. Parte de Leo.
E, por algumas horas, foi fácil esquecer do peso no peito.
◄☼►
Na hora de dormir, Eduardo e Leo ainda riam baixinho no quarto, relembrando as melhores cenas do filme e as palhaçadas de Mariana e Sofia.
— Você viu a cara da sua mãe quando a Mari quase virou o balde de pipoca no sofá? — Eduardo sussurrou, rindo.
— Mano, eu achei que ela fosse infartar. — Leo respondeu, enterrando o rosto no travesseiro para não rir alto demais.
O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca que vinha da janela. O vento quente da noite balançava as cortinas e preenchia o silêncio entre uma risada e outra.
E então, o riso foi diminuindo.
Os olhares se encontraram no breu do quarto.
E foi natural.
Os lábios se tocaram como se fossem atraídos um pelo outro. No começo, foi um beijo calmo, exploratório, mas logo ficou mais intenso, mais faminto. As mãos deslizaram pelos corpos sem pressa, descobrindo o caminho já tão conhecido.
O calor cresceu rápido.
Eduardo sentiu o corpo ser empurrado de leve contra o colchão, as mãos de Leo segurando sua cintura, firmes. A respiração de ambos já estava entrecortada quando Leo se afastou um pouco, apenas o suficiente para sussurrar:
— E se hoje... a gente fizer diferente?
A pergunta veio baixa, rouca, carregada de um significado que Eduardo entendeu na hora.
Seu coração disparou, um arrepio subindo por sua espinha.
Engoliu seco e assentiu.
Leo o observou por um momento, os olhos analisando cada mínimo detalhe de sua expressão, como se quisesse ter certeza de que estava tudo bem. E então, sem mais palavras, voltou a beijá-lo.
Mas, dessa vez, havia algo diferente ali.
O beijo não era apenas urgente, havia uma nova camada de descoberta, uma entrega hesitante, mas irresistível. Eduardo sentiu quando as mãos de Leo começaram a tocá-lo de um jeito novo, mais cuidadoso, explorando cada curva do seu corpo com uma mistura de receio e desejo.
Os dedos deslizaram por sua pele, mapeando território desconhecido, até que, aos poucos, tudo levou ao momento inevitável.
Eduardo estava deitado de costas no colchão, o corpo quente e a mente um caos de antecipação e nervosismo. Seus dedos se fechavam nos lençóis, como se buscassem algum tipo de âncora para aquela nova sensação.
Leo estava sobre ele, apoiado nos antebraços, os olhos fixos em seu rosto, atento a cada mínima reação. O corpo de Eduardo estava exposto a ele de um jeito que nunca esteve antes, vulnerável, entregue.
Quando Leo se posicionou entre suas pernas e começou a adentrar, Eduardo prendeu a respiração na hora.
A pressão inicial o fez estremecer. Era uma sensação estranha, um aperto que percorria seu corpo, difícil de ignorar. Seu peito subiu e desceu rápido, o ar escapando em pequenos sopros enquanto tentava relaxar, mas seus músculos estavam tensos, hesitantes diante do desconhecido.
Leo percebeu na hora que Eduardo estava tenso. Seus músculos estavam rígidos sob suas mãos, a respiração entrecortada, e o aperto inicial fez seu corpo se contrair instintivamente.
Sem dizer nada, Leo deslizou uma das mãos pelo peito de Eduardo até alcançar seu membro, envolvendo-o com um toque firme e cuidadoso. Seus dedos se moveram lentamente, massageando, tentando distraí-lo do desconforto, trazendo uma outra sensação para equilibrar aquela nova experiência.
Eduardo arfou, os olhos semicerrados enquanto sentia o prazer se misturar à estranheza do momento. Cada movimento de Leo era carregado de um cuidado que Eduardo nunca imaginou precisar.
Leo não forçou nada. Foi paciente, esperando, permitindo que Eduardo se ajustasse.
E, aos poucos, o aperto começou a ceder.
Eduardo sentiu o desconforto se transformar, lentamente dando espaço para algo diferente. Seus dedos apertaram o lençol, os lábios entreabrindo-se em um suspiro baixo. Seu corpo, antes rígido, começou a relaxar sob os toques habilidosos de Leo.
Leo já estava totalmente dentro dele, o encaixe finalmente completo, os corpos alinhados em um calor avassalador. A respiração de Eduardo saiu entrecortada, os dedos agarrando o lençol enquanto tentava se acostumar à nova sensação.
Leo queria se mover. Queria sentir mais, aprofundar-se naquele momento como nunca antes, mas se forçou a ir devagar.
A primeira movimentação foi hesitante, cuidadosa. O calor ao redor de si o fazia morder o lábio, prendendo um gemido, e sua respiração ficou pesada no mesmo instante. Eduardo estremeceu sob ele, o desconforto inicial ainda presente, mas, junto dele, algo mais começava a surgir.
Leo inclinou-se um pouco mais, distribuindo beijos pela clavícula de Eduardo, como se cada toque fosse uma promessa silenciosa de que tomaria todo o cuidado do mundo.
— Se doer, me fala… — sua voz saiu rouca, um pouco arrastada pela vontade crescente de se mover mais.
Eduardo abriu os olhos e encontrou os dele. Havia algo diferente ali. Algo que não era apenas desejo, não era só o calor do momento.
Ele não queria que Leo parasse.
Queria sentir tudo.
— Vai logo — murmurou, a voz carregada de algo que Leo reconheceu na hora.
E então, ele obedeceu.
Seus movimentos ganharam um ritmo, os corpos finalmente encontrando um encaixe, um compasso próprio. O desconforto foi diminuindo aos poucos, dissolvendo-se na nova sensação que começava a surgir. Eduardo agarrou os lençóis por reflexo, os olhos fechados, sentindo tudo de um jeito que nunca havia sentido antes.
A cada investida, a respiração de ambos se misturava, os gemidos se tornando baixos no quarto escuro. O calor, o toque, a forma como Leo segurava suas pernas, como se estivesse descobrindo um território novo, algo precioso, inexplorado.
E então, quando o prazer finalmente tomou conta, Eduardo soube.
Soube que estava se entregando completamente.
Soube que não havia mais volta.
Ele pertencia a Leo tanto quanto Leo pertencia a ele.
Era diferente para os dois. Uma entrega em outro sentido. Um desejo que se manifestava de um jeito novo, tão intenso quanto antes, mas de uma forma completamente diferente.
Os movimentos se tornaram mais fluidos, as respirações se misturavam no escuro do quarto.
Leo se perdeu na sensação, no calor, no jeito que Eduardo se entregava a ele sem reservas.
E Eduardo?
Eduardo se deixou levar. Se deixou sentir.
E, naquela noite, descobriram juntos um novo lado um do outro.
◄☼►
Eduardo, sem conseguir controlar, gemeu alto no momento em que atingiu o ápice, o corpo tremendo sob Leo, o peito subindo e descendo em respirações descompassadas. Mas Leo ainda se movia dentro dele, ainda perdido na sensação, o calor, o aperto, o prazer crescente.
Os dois estavam tão consumidos pelo momento que nem perceberam o som que tinham feito.
Até que uma voz fina soou do lado de fora da porta:
— Parem de brigar!
O choque foi instantâneo.
Leo congelou. Eduardo arregalou os olhos. O quarto ficou em um silêncio absoluto.
Ouviram passos se afastando pelo corredor.
— Não. Não, não, não. — Eduardo sussurrou, cobrindo o rosto com as mãos.
Leo ainda estava parado, ainda dentro dele, ainda processando o que tinha acabado de acontecer. Então, num gesto automático, desabou sobre Eduardo, rindo baixinho contra seu ombro.
— A Mari… achou que a gente tava brigando…
Eduardo gemeu, dessa vez de desespero.
— Leo, pelo amor de Deus.
Mas ele mesmo já estava rindo, o rosto queimando de vergonha.
Leo saiu de cima dele, finalmente se afastando, e caiu de costas na cama, ainda rindo baixo.
— Se alguém mais ouviu, a gente tá ferrado. — Eduardo disse, exasperado.
Leo jogou o travesseiro no rosto dele.
Os dois continuaram rindo, nervosos, suados, completamente exaustos. E, enquanto tentavam recuperar o fôlego, sabiam que aquela noite ficaria marcada para sempre.
◄☼►
Na manhã seguinte, Eduardo acordou sentindo o corpo pesado, a mente nublada por um turbilhão de pensamentos que ele ainda não sabia como organizar. O calor do quarto, o cheiro da madeira e o colchão levemente afundado sob seu corpo eram sinais de que ainda estava ali, na fazenda, no quarto de Leo. Mas havia algo diferente. Algo irreversível.
Ele piscou algumas vezes, ajustando os olhos à claridade que entrava pela janela. Ainda sentia os resquícios da noite anterior na pele, o toque de Leo, a forma como se entregou, como foi tomado por ele. A lembrança o fez fechar os olhos por um instante, o estômago revirando num misto de sensações.
O lado da cama onde Leo dormia estava vazio. O quarto parecia mais frio sem a presença dele. Tentou se mover, sentindo um leve incômodo nos músculos, e suspirou, encarando o teto.
Ele não sabia o que sentir.
A porta do quarto se abriu e Leo apareceu, os cabelos ainda um pouco bagunçados, vestindo apenas a calça de moletom. Trazia a escova de dentes na boca, mastigando o creme dental enquanto entrava no quarto.
Quando viu Eduardo ainda estirado na cama, Leo arqueou uma sobrancelha, tirando a escova da boca e apontando para ele com um sorriso de canto.
— E aí, riquinho? Não consegue nem levantar da cama?
Eduardo revirou os olhos, pegando o travesseiro ao lado e jogando sem cerimônia na direção dele.
— Cala a boca, seu idiota.
Leo riu, desviando com facilidade, a diversão evidente no olhar.
— Tô só perguntando. Tá parecendo que foi atropelado.
Eduardo se sentou devagar na cama, sentindo o corpo reclamar levemente do esforço.
— Eu tô ótimo.
— Aham. — Leo sorriu de lado, mordendo a escova de dentes e se encostando no batente da porta. — Então levanta.
Eduardo bufou, mas não se moveu imediatamente.
Leo continuou observando, os olhos atentos como se tentassem ler algo nas expressões dele.
— E aí? Tá arrependido? — perguntou, de repente, o tom mais leve do que a pergunta sugeria.
Eduardo olhou para ele, surpreso com a pergunta direta.
E essa era a questão.
Ele não estava arrependido. Mas também não sabia como processar tudo que sentia.
A noite anterior havia sido intensa de um jeito que ele não esperava. Se entregar para Leo dessa forma foi algo que mexeu com ele, que o marcou de uma forma estranhamente positiva. E agora que o momento tinha passado, restavam apenas as memórias pulsando em seu corpo e a incerteza do que aquilo significava.
Eduardo abriu a boca para responder, mas hesitou.
Leo percebeu.
E, para sua surpresa, ele não insistiu.
Apenas deu um meio sorriso e voltou para o banheiro, murmurando um:
— Vai se arrumar logo. Vamos descer pra tomar café da manhã.
E Eduardo ficou ali, respirando fundo, tentando entender o que estava acontecendo dentro de si.
◄☼►
Na mesa do café da manhã, o cheiro de pão caseiro e café fresco se misturava ao som das meninas conversando sem parar. Rita servia mais leite para Sofia, enquanto Gustavo lia alguma coisa no celular, aparentemente alheio à algazarra ao redor. Eduardo tentava parecer natural, mas a lembrança da noite passada ainda queimava em sua pele, e a presença de Leo ao seu lado só tornava tudo mais intenso.
Leo, por outro lado, parecia completamente à vontade. Pegou um pedaço de bolo, passou manteiga em um pão e, de vez em quando, cutucava Eduardo de propósito, um sorriso discreto no canto da boca, como se estivesse se divertindo com a situação.
Mariana, que até então estava ocupada derramando mel no prato de forma exagerada, resolveu soltar um comentário completamente despretensioso.
— Ah, e vocês dois parem de brigar! Ontem à noite estavam brigando. — disse, como se estivesse falando do tempo.
Eduardo, que estava tomando um gole de café, engasgou na hora. Leo, que estava mastigando, quase cuspiu o pão. Os dois congelaram no mesmo instante.
— O quê? — A voz de Rita veio rápida, em tom de alerta.
— Brigando? — Gustavo ergueu os olhos do celular, parecendo interessado pela primeira vez na conversa.
Mariana balançou as pernas debaixo da mesa e continuou, inocente como só uma criança poderia ser.
— É! Ontem à noite, Leo bateu no Dudu! — Ela franziu a testa, como se tentasse lembrar dos detalhes. — O Dudu gritou bem alto, tipo "aaah!", acho que porque Leo deu uns tapas nele, e depois ficou tudo quieto.
Eduardo arregalou os olhos, o coração disparando como se tivesse sido pego em flagrante. Leo ficou branco por meio segundo, antes de pigarrear e forçar uma risada nervosa.
— Ah… isso. — Leo coçou a nuca, desviando o olhar. — Foi só uma brincadeira, coisa besta.
Eduardo concordou rápido demais.
— Isso! A gente só tava brincando. Leo exagerou e eu acabei gritando. Só isso.
Rita franziu a testa, desconfiada.
— Brincando? De bater um no outro?
— É, ué. — Leo deu de ombros, tentando parecer casual. — A gente tava zoando um ao outro, e eu… sei lá, bati nele de leve, nada demais.
Mariana inclinou a cabeça, confusa.
— Mas foi forte, porque ele gritou muito alto!
Eduardo desejou desaparecer.
— Eu só me assustei! — disse, rindo nervoso. — Foi mais susto do que dor.
Gustavo olhou de um para o outro, estreitando os olhos.
— Vocês são esquisitos. — Resmungou, voltando para o celular.
Rita suspirou, mas pareceu deixar pra lá.
— Da próxima vez, segurem as brincadeiras de vocês. Essa casa não é um ringue.
— Sim, senhora. — Leo respondeu rápido, enfiando mais um pedaço de bolo na boca para evitar continuar falando.
Eduardo abaixou a cabeça, mordendo o pão para ocupar a boca e não correr o risco de soltar uma risada nervosa.
Mariana deu de ombros e voltou a comer como se nada tivesse acontecido, enquanto Leo e Eduardo se entreolharam discretamente.
Na mente de Eduardo, só passava um pensamento:
Eles quase foram pegos.
◄☼►
Eduardo logo foi embora. Chegando em casa, jogou a mochila em um canto do quarto e se jogou na cama, exausto, mas com a mente ainda presa nos acontecimentos do dia. Pegou o celular e, assim que desbloqueou a tela, viu a notificação de uma nova mensagem de Leo.
Leo: mano, foi muito engraçado hj de manhã kkkkkkkkk
Leo: a mari falando q eu tinha te batido pqp
Leo: quase cuspi o pão
Eduardo riu baixo, balançando a cabeça. Ainda podia ver a expressão de Mariana falando aquilo com toda a inocência do mundo, sem ideia da situação que quase os colocou em apuros.
Eduardo: mano, EU quase morri engasgado
Eduardo: vc viu a cara da sua mãe???
Leo: pior q vi kkkkkkkkk
Leo: mas acho q ela acreditou na desculpa
Eduardo: sei não... ela ficou desconfiada
Houve uma pausa antes de Leo responder.
Leo: tbm né, quem mandou vc gritar daquele jeito? Kkkkkk
Eduardo: foi mais forte q eu né, não consegui controlar
Leo: ah, eu percebi bem kkkkkk
Eduardo: cala a boca
Leo: mas foda-se, o importante é q foi bom demais
Eduardo sentiu o rosto esquentar, mordendo o lábio. Sim, tinha sido. E o fato de Leo falar assim, com essa naturalidade, só deixava tudo ainda mais real. Ele não sabia explicar, mas algo ali o deixava inquieto.
Eduardo: bom demais msm
Leo deixou um emoji debochado, e Eduardo revirou os olhos, mas ainda sorrindo.
Por mais que a manhã tivesse sido um momento de tensão, agora, conversando com Leo, parecia apenas mais uma história absurda para guardar. E, no fundo, Eduardo sabia que era isso que gostava neles.
Eles sempre davam um jeito de transformar tudo em algo que valia a pena lembrar.
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