O Garoto Feito de Sol e Terra
35 Capítulo 35 — O Que Você Está Esperando, Castilho?
O intervalo estava como sempre: barulhento, cheio de alunos espalhados pelo pátio, grupos conversando, alguns jogando bola, outros apenas matando tempo até a próxima aula. Eduardo estava sentado na mureta perto da cantina, comendo um lanche e mexendo no celular, quando Tiago se jogou ao lado dele com um olhar analítico.
— Beleza, Castilho, agora eu quero saber — ele começou, pegando um pedaço do lanche de Eduardo sem cerimônia. — O que diabos você tá esperando?
Eduardo franziu a testa, confuso.
— O quê?
Tiago mordeu o lanche e falou de boca cheia:
— A Kayla, cara! Ela tá ali, dando sopa pra você, e você só… sei lá. Tá dando mole demais.
Eduardo revirou os olhos, desviando o olhar. Ele sabia exatamente onde essa conversa ia dar, e já não estava com paciência.
— Chega, Tiago.
— Chega, nada. — Tiago apontou com a cabeça para onde Kayla estava, do outro lado do pátio, rindo de alguma coisa com um grupo de amigas. — Ela basicamente jogou na sua cara que gosta de você, e você tá aí, todo lerdão.
Eduardo suspirou, fingindo estar concentrado no celular e respondeu:
— Cara…
— Cara? — Tiago exclamou, incrédulo. — Mano, qualquer outro no seu lugar já teria aproveitado! Mas você? Você faz o quê? Segura a mão dela e depois sai andando como se tivesse feito um favor.
Eduardo riu fraco, mas não respondeu.
Tiago estreitou os olhos.
— Espera. Você… não quer?
A pergunta fez Eduardo travar por um segundo. Ele sabia que Tiago não ia parar enquanto não arrancasse alguma resposta.
— Não é isso… — murmurou.
— Então é o quê? — Tiago insistiu. — Porque, cara, sinceramente, se fosse comigo, eu já teria resolvido isso há muito tempo.
Eduardo não soube o que responder. Ele sabia que Tiago esperava uma justificativa simples, algo como "tô esperando o momento certo" ou "não quero estragar a amizade". Mas nada disso era verdade.
A verdade era que Kayla era incrível. Inteligente, engraçada, bonita.
Mas não era Leo.
E o problema era exatamente esse.
— Você tem que tomar uma atitude, Castilho. — Tiago continuou, dando um tapa no ombro dele. — Se você gosta dela, faz alguma coisa. Se não gosta, fala logo. Mas ficar nesse meio-termo? Não dá.
Eduardo soltou um suspiro longo e finalmente olhou para Tiago.
— Eu sei.
Tiago ergueu as sobrancelhas, surpreso com a honestidade.
— Então se decide logo, cara.
Eduardo assentiu, mas no fundo sabia que não era tão simples assim.
Porque, independentemente do que decidisse, alguém sairia machucado.
◄☼►
O dia tinha sido longo.
Eduardo queria apenas tomar um banho, se jogar na cama e não pensar em nada. Mas assim que entrou em casa, percebeu que algo estava estranho.
Helena estava na sala, sentada no sofá, com um sorriso leve nos lábios e os olhos atentos demais para alguém que simplesmente esperava o filho voltar da escola.
— Então… — ela começou, cruzando as pernas com elegância. — Parece que meu filho está começando a tomar jeito.
Eduardo franziu a testa.
— Como assim?
Ela sorriu mais largo.
— Me contaram que te viram no shopping outro dia… de mãos dadas com Kayla Albuquerque.
O estômago de Eduardo revirou.
Droga.
Ele sabia que andar de mãos dadas com Kayla em um lugar público poderia gerar fofocas, mas, no momento, não pensou muito nisso. Agora, vendo o olhar satisfeito da mãe, percebeu o peso daquela ação.
— E daí? — tentou disfarçar, jogando a mochila no sofá e indo até a geladeira.
— "E daí?" — Helena repetiu, divertida. — Daí que Kayla é uma ótima menina. Educada, de uma família respeitável. E, pelo que me disseram, estava bem feliz ao seu lado.
Eduardo abriu a geladeira sem realmente procurar nada. Só precisava de um motivo para desviar o olhar.
— As pessoas falam demais.
— Eu acho que não nesse caso. — A voz dela veio mais perto. Quando ele fechou a geladeira, encontrou a mãe encostada no balcão da cozinha, observando-o com curiosidade.
— E então? — Ela inclinou a cabeça. — Isso é sério?
A pergunta soou inocente, mas Eduardo sentiu como um soco no estômago.
Sério.
Porque Kayla era a garota perfeita. Porque ela era tudo que se esperava de um "bom par" para ele.
E porque ninguém nunca aprovaria Leo.
Ele então forçou um sorriso.
— Mãe, você tá exagerando. Foi só um passeio, nada demais.
— Veremos. — Helena sorriu, voltando para a sala. — Mas, se for algo sério, saiba que eu aprovo.
Eduardo ficou ali, parado, sentindo um gosto amargo na boca.
Se a mãe soubesse a verdade, ainda estaria sorrindo desse jeito?
Ele sabia a resposta, e isso tornava tudo ainda mais difícil.
Eduardo ficou ali, parado, ainda sentindo o peso das palavras da mãe.
"Se for algo mais, saiba que eu aprovo."
A frase ecoava na mente dele como uma sentença.
Kayla era a escolha fácil. A escolha certa, pelo menos aos olhos de todo mundo. E agora, com fofocas espalhadas, com pessoas comentando sobre aquele dia no shopping, Eduardo sabia que aquilo poderia crescer rápido demais.
O que mais o incomodava não era sua mãe estar acreditando em algo que não era verdade. Nem mesmo Tiago o pressionando na escola para tomar uma atitude com Kayla.
O que realmente o fazia sentir um nó no peito era a possibilidade de Leo ouvir sobre isso.
Leo não sabia.
E, se soubesse… Eduardo não fazia ideia de como ele reagiria.
Leo confiava nele. Mesmo sem nunca terem definido exatamente o que eram, mesmo sem rótulos, existia uma certeza silenciosa entre eles.
Mas e se essa certeza fosse quebrada?
Eduardo soltou um suspiro, pegando o celular e girando-o entre os dedos, hesitante.
Ele queria mandar mensagem para Leo, queria continuar a conversar como sempre faziam, como se nada tivesse mudado. Mas, pela primeira vez, sentiu medo de que qualquer palavra errada pudesse estragar tudo.
Por enquanto, só podia torcer.
Torcer para que esses boatos não chegassem até Leo.
Porque, se chegassem… talvez as coisas nunca voltariam a ser as mesmas.
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