O Garoto Feito de Sol e Terra

43 Capítulo 43 — A Verdade Entre Beijos


No dia seguinte, Eduardo pedalou até a fazenda segurando firme a sacola com as empadinhas. O vento quente da tarde batia contra seu rosto, e seu peito estava inquieto. Ele tentava não pensar demais, não remoer o que tinha feito, mas cada pedalada parecia levar junto o peso da culpa. Talvez, só talvez, ao ver Leo, ao senti-lo de novo, pudesse dissipar aquele nó apertado no peito.

Assim que chegou ao terreiro, nem teve tempo de descer direito da bicicleta antes de sentir algo atingir sua cabeça. Feno. Jogado diretamente contra seu rosto. Ele fechou os olhos e bufou, ouvindo a risada de Leo ecoar pelo espaço aberto.

— Que recepção maravilhosa, filho da mãe — resmungou, sacudindo os fios secos dos cabelos.

Leo estava parado um pouco à frente, os braços cruzados e um sorriso travesso nos lábios.

— Achei que cê precisava se sentir mais parte da fazenda, riquinho.

Eduardo revirou os olhos, estendendo a sacola para ele.

— E eu aqui, todo bonzinho, trazendo empadinhas pra você. Seu ingrato.

Os olhos de Leo brilharam.

— Empadinha? — Sua voz mudou na hora, cheia de interesse. Ele já puxava a sacola das mãos de Eduardo, abrindo para olhar.

— Eu devia fazer você implorar depois desse feno na cara — Eduardo resmungou.

— Ah, claro, imagina, grande sacrifício o seu. — Leo pegou uma empada, já mordendo um pedaço. — Hum... tá boa.

Eduardo riu baixinho, observando a maneira como ele saboreava a comida com gosto. Por um instante, apenas assistiu, deixando que o momento simples e natural entre eles aliviasse um pouco do peso que carregava. Mas não durou muito. A inquietação ainda estava ali.

— Vem comigo — Eduardo disse, de repente.

Leo arqueou a sobrancelha, mastigando.

— Pra onde?

— Celeiro.

Leo piscou, mas não questionou. Apenas deu de ombros e seguiu Eduardo, ainda segurando a empadinha na mão.

Quando entraram no celeiro, Eduardo fechou a porta atrás de si. O cheiro de madeira e feno o cercava, familiar, mas tudo que sentia era a necessidade urgente de tirar aquela angústia do peito. Ele precisava lembrar. Precisava sentir de novo.

Virou-se para Leo e, sem aviso, o puxou pela camisa, colando suas bocas num beijo desesperado.

Leo riu contra seus lábios, surpreso, mas não hesitou em retribuir.

— Eita, calma aí. Tá com pressa?

Eduardo não respondeu. Apenas aprofundou o beijo, segurando firme na nuca dele, como se precisasse desesperadamente daquele contato. Como se fosse a única maneira de confirmar para si mesmo a diferença entre aquilo e tudo que havia feito antes.

Leo retribuiu, sorrindo entre um beijo e outro, até que quebrou o contato só o suficiente para murmurar:

— Tá parecendo que não me vê há meses.

Eduardo prendeu a respiração.

Era exatamente isso.

Era exatamente essa sensação.

Mesmo que não tivesse passado tanto tempo assim, parecia uma eternidade. Tudo o que veio depois do fim de semana na praia tinha sido estranho, deslocado. E agora… agora era como se finalmente estivesse respirando de novo.

Era como se o que ele tivesse feito antes fosse uma ilusão barata perto do que sentia agora.

Leo mordeu o lábio, ainda sorrindo de canto, os olhos fixos nos dele. E Eduardo só pensava em como aquele olhar fazia tudo parecer certo de novo.

— Se eu soubesse que você ia me beijar desse jeito, tinha pedido mais empadinhas.

Eduardo bufou, mas não conseguiu segurar um pequeno sorriso. Ele ainda segurava Leo pela nuca, os dedos entrelaçados nos fios loiros, como se estivesse com medo de soltá-lo.

— Idiota.

Leo riu, a risada leve vibrando entre eles. Mas, conforme o silêncio se alongava, o brilho travesso nos olhos dele foi dando lugar a algo mais suave, mais intenso. Ele deslizou os dedos pelo braço de Eduardo, um toque lento, quase hesitante.

— E aí, Castilho… — sua voz veio mais baixa, carregada de um tom raro de seriedade. — Você pensou na viagem depois que a gente voltou?

Eduardo sentiu o estômago revirar.

Pensar na viagem foi tudo o que ele fez.

Pensou no mar, no vento bagunçando os cabelos de Leo, no som da risada dele misturado às ondas. Pensou nas noites juntos, na maneira como se tocaram, sem medo, sem pressa. Pensou no jeito como Leo parecia pertencer àquele momento, como se aquele fim de semana tivesse sido uma realidade paralela onde tudo fazia sentido.

Pensou tanto que doía.

Então, apenas assentiu.

— Claro que pensei.

Leo estreitou os olhos.

— Isso é tudo que tem pra falar?

Eduardo engoliu em seco.

— Foi… maravilhoso. — A palavra escapou mais sincera do que ele queria.

Leo sorriu, parecendo satisfeito com a resposta.

— Eu sei, né? Eu tava lá.

Eduardo riu baixo, balançando a cabeça.

— Sério, Leo? Nem tinha reparado. Achei que eu tinha passado o fim de semana sozinho.

Leo revirou os olhos, mas o sorriso continuava ali.

— Engraçadinho.

Eduardo deu de ombros, o canto da boca curvado em um sorriso discreto.

— E você? — Eduardo perguntou, com um resquício de nervosismo na voz.

Leo se encostou em uma pilha de feno atrás dele, mordendo o lábio de leve antes de responder.

— Cara, foi o melhor presente que você já me deu. De verdade. — Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos. — Eu nunca tinha sentido nada assim antes. Nunca tive um momento que pareceu tão… certo.

Eduardo prendeu a respiração.

Era isso.

Era exatamente isso.

Eduardo ficou em silêncio por um segundo a mais do que deveria.

— Eu também nunca senti nada assim antes.

Leo sorriu, quase tímido, e se aproximou novamente, colando seus lábios nos de Eduardo em um beijo lento, tranquilo.

E, por um instante, Eduardo se permitiu esquecer de tudo.