O Garoto Feito de Sol e Terra
33 Capítulo 33 — Um Pé Em Cada Caminho
Na aula, Eduardo estava jogado na cadeira, o rosto apoiado na palma da mão, esperando o tempo passar. O professor falava algo sobre funções exponenciais, mas sua atenção estava completamente em outro lugar.
O celular vibrou no bolso. Ele puxou discretamente e viu a notificação na tela.
Leo: vem pra cá depois da aula?
Eduardo sorriu, digitando rapidamente:
Eduardo: e desde quando eu não vou?
Leo: só garantindo. tô te esperando então.
Eduardo: oq vc quer comigo, hein?
Leo: um funcionário pra me ajudar na fazenda, ué
Eduardo: ah claro, imagina q eu não sei oq vc quer
Leo: metido
Eduardo ainda sorrindo, digitou um "até mais tarde". Ele sabia exatamente o que poderia acontecer. E, pra ser sincero, queria. Só de pensar nisso, sentiu o estômago revirar com aquela mistura estranha de nervosismo e expectativa.
Mas então, depois da aula, Kayla apareceu.
— Castilho! — Ela surgiu ao lado dele no corredor, segurando dois ingressos na mão e um sorriso de quem já sabia que ia conseguir o que queria. — Você precisa vir ao cinema comigo hoje.
Eduardo franziu a testa.
— Hoje? Não vai dar.
— Vai, sim. — Ela balançou os ingressos na frente dele. — Já comprei os ingressos. Lembrei de você na hora, porque é um filme novo da Disney, e como você virou o fã número um depois da sua viagem…
Eduardo abriu a boca para recusar de novo, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Tiago apareceu do nada e jogou gasolina no fogo.
— Peraí, peraí. — Tiago ergueu as mãos, analisando a cena. — Você tá me dizendo que a Kayla, a herdeira da fortuna Albuquerque, gastou dinheiro num ingresso pra ver um filme com você, e você vai recusar?
Eduardo bufou.
— Não é bem assim...
— É sério que você não vai, Castilho? — Tiago cruzou os braços, se divertindo com a situação.
Kayla revirou os olhos, impaciente.
— Ele vai, sim. Não tem desculpa.
Eduardo hesitou. Ele deveria estar nos braços de Leo daqui a pouco. Mas, ao mesmo tempo, se dissesse um "não" definitivo para Kayla ali, pareceria estranho.
Soltou um suspiro, derrotado.
— Tá bom, tá bom. Eu vou.
Kayla sorriu, satisfeita.
— Ótimo. Vamos!
Quando ela se afastou, Tiago bateu no ombro de Eduardo, rindo.
— Boa sorte, campeão.
Eduardo rolou os olhos e pegou o celular. Precisava avisar Leo.
Eduardo: mano, surgiu uma emergência, não vou conseguir ir hoje
Leo: oq aconteceu?
Eduardo mordeu o lábio. Se dissesse que ia ao cinema com Kayla, sabia que Leo não ia gostar. Então, apenas digitou a primeira coisa que passou pela cabeça.
Eduardo: acidente com um boi solto na cidade
Leo: vc tá zoando né?
Eduardo: óbvio que sim
Leo: vc é um fdp
Eduardo riu. Era mais fácil lidar com Leo bravo do que com Leo sentindo qualquer outra coisa.
◄☼►
No cinema, foi fácil se deixar levar pelo momento.
Kayla sempre soube como tornar qualquer coisa mais animada. Ela ria das partes mais bestas do filme, soltava comentários irônicos no meio das cenas e, em algumas partes, se inclinava na direção dele para sussurrar algo, como se fossem segredos trocados só entre os dois. Eduardo revirava os olhos às vezes, mas, no fundo, gostava daquilo. Kayla fazia tudo parecer mais leve, mais descontraído.
E, por um tempo, ele simplesmente se permitiu aproveitar.
Mas então, percebeu.
Entre risadas e brincadeiras, Kayla tocava no braço dele. No começo, foi um roçar sutil, um deslize leve dos dedos quando ela se inclinava para falar alguma coisa. Depois, o toque ficou mais natural; o ombro dela encostando de leve no dele, os dedos repousando no braço de Eduardo por um segundo a mais do que o necessário.
Não era nada demais. Mas era o suficiente para fazer algo dentro dele acender em alerta.
Ele gostava de Kayla. Sempre gostou. Ela era fácil de gostar. Inteligente, afiada, cheia de vida. Entre todas as garotas que conhecia, Kayla era a única que realmente o fazia rir, que conseguia acompanhá-lo em qualquer conversa, que sabia brincar e provocar no mesmo nível.
E, por um instante, Eduardo se perguntou.
Se as coisas fossem diferentes… ele teria se interessado por ela?
O pensamento passou rápido. Porque ele sabia a resposta.
Não como com Leo.
Nunca como com Leo.
E, sentado ali, no escuro do cinema, Eduardo sentiu um peso diferente no peito. Algo que não tinha nome, mas que apertava seu estômago de um jeito desconfortável.
Era estranho. Estranho estar ali, se divertindo com Kayla, enquanto Leo provavelmente o esperava na fazenda, sem desconfiar de nada.
◄☼►
Ao saírem do cinema, a conversa entre Eduardo e Kayla fluiu naturalmente. O filme tinha sido divertido, e ela, como sempre, tinha os melhores comentários.
— Tá vendo? — Kayla disse, gesticulando com animação. — Eu falei que a Disney ainda sabia fazer um filme bom. Mas, o final foi meio previsível, né?
Eduardo riu, balançando a cabeça.
— Você acha tudo previsível.
— E quase sempre tô certa. — Ela ergueu a sobrancelha, desafiadora. — Aquela cena da revelação do vilão? Eu previ na metade do filme.
— Tá, dessa vez você acertou. — Eduardo admitiu. — Mas ainda assim foi um filme legal.
— Foi. — Kayla sorriu. — Mas a melhor parte foi sua cara de besta no susto daquela cena lá. Quase jogou a pipoca em mim.
Eduardo riu mais alto.
— Não foi tanto assim.
— Foi, sim. Mas tudo bem, eu gosto de te ver desprevenido.
E foi nesse momento que Kayla segurou sua mão.
Foi um gesto simples, natural. Os dedos dela se entrelaçaram aos dele sem hesitação, como se já fizessem isso há tempos. Mas, para Eduardo, veio como um choque. O toque era quente, confortável, mas diferente. Tão diferente.
Ele não achou ruim.
Mas também não sentiu nada nem perto do que sentiria se fosse Leo.
Kayla notou o silêncio, mas não soltou sua mão. Apenas suspirou, mantendo os olhos à frente.
— Eduardo… — começou, e ele soube na mesma hora que ela estava prestes a dizer algo importante.
Ele a encarou, sentindo o peito se apertar com uma leve antecipação.
— Já faz um tempo que eu gosto de você. — Ela revelou, com um tom leve, mas sincero. — Não sei se você já percebeu.
Eduardo piscou, sentindo o peso daquelas palavras caírem sobre ele. Pensou em todas as vezes que Kayla fez questão de estar por perto, nos toques sutis que ele havia notado, mas ignorado. No jeito que ela sempre puxava assunto, no brilho divertido nos olhos dela quando estavam juntos.
Talvez, no fundo, ele soubesse, mas nunca tinha parado para pensar nisso de verdade.
— Eu... — começou, mas as palavras sumiram antes mesmo de tomarem forma.
Kayla sorriu, como se já esperasse essa reação.
— Não precisa dizer nada. Eu só queria falar. E, se você não sente o mesmo, tá tudo bem. Hoje foi divertido de qualquer forma.
Ela disse aquilo de um jeito casual, como se não fosse grande coisa, mas Eduardo sabia que era. Sabia que, para qualquer outra pessoa, esse seria o momento onde tudo mudaria.
Ele a olhou, os olhos fixos nos dela por um momento, como se procurasse uma resposta dentro de si mesmo.
Sentia carinho por Kayla. Gostava de estar com ela.
Mas era diferente. Tão diferente.
Leo veio à sua mente sem esforço, como um instinto.
A forma como o corpo de Leo respondia ao seu. O gosto dos beijos, o toque da pele, a necessidade urgente que existia entre eles. O sentimento que parecia impossível de evitar.
Mas, ainda assim, Eduardo não soltou a mão de Kayla.
Os dedos continuaram entrelaçados, deslizando um contra o outro enquanto caminhavam pelo shopping, a conversa voltando para tópicos mais leves. Kayla falava sobre qualquer coisa, sobre as lojas ao redor, sobre o filme, sobre como algumas pessoas ali pareciam personagens de uma novela.
E Eduardo apenas a acompanhou, mesmo sem saber exatamente o que aquilo significava.
◄☼►
Eduardo acompanhou Kayla até a entrada da casa dela. Aquele fim de tarde estava fresco, e o silêncio da rua tornava tudo ainda mais real. Quando pararam diante do portão, Kayla virou-se para ele com aquele sorriso fácil de sempre.
— Então… vejo você amanhã na escola? — perguntou, ajeitando a alça da mochila no ombro.
Eduardo assentiu, tentando parecer tão natural quanto ela.
— Claro.
Kayla inclinou a cabeça de leve, como se tentasse ler algo nele. Então, deu um meio sorriso e acrescentou:
— Espero que não fique nada estranho entre a gente.
O jeito casual como disse aquilo o fez sentir um alívio imediato. Kayla não parecia ansiosa, nem cheia de expectativas sufocantes. Apenas queria que tudo continuasse leve.
Eduardo sorriu de canto.
— Não vai ficar.
— Bom. — Ela segurou a maçaneta do portão, mas antes de entrar, lançou-lhe um último olhar. — Então tchau, Castilho.
— Tchau, Kayla.
Ela entrou, e Eduardo ficou parado por alguns segundos antes de soltar um suspiro longo e caminhar de volta até a rua. Seus passos eram lentos, e a mente, um turbilhão.
Chegou em casa e foi direto para o quarto, perdido em pensamentos.
Queria compartilhar aquilo com alguém.
A confissão de Kayla parecia grande demais para guardar só para si. Era o tipo de coisa que normalmente contaria para Leo sem pensar duas vezes. Eles compartilhavam tudo; momentos idiotas, provocações, até inseguranças que não ousavam admitir para mais ninguém. Leo era o primeiro nome que surgia na mente de Eduardo quando algo importante acontecia.
Mas isso…
Isso não podia.
Por um instante, ele chegou a desbloquear o celular, os dedos pairando sobre a tela, quase no reflexo automático de abrir a conversa com Leo. Mas então, o pensamento seguinte veio como um golpe seco no estômago.
Se dissesse a verdade, que Kayla tinha dito que gostava dele, que tinha segurado sua mão e olhado para ele de um jeito que pedia algo mais, Leo ficaria devastado.
Leo não diria nada de mais, provavelmente. Fingiria que não ligava, soltaria uma piada para desviar do incômodo, mas Eduardo o conhecia bem demais. Sabia que, por trás da máscara de despreocupação, Leo sentiria aquilo como uma lâmina atravessando seu peito.
E Eduardo não queria ser o responsável por isso.
Mas, ao mesmo tempo, uma parte dele se perguntava… por que esconder?
Não era como se tivesse feito algo errado. Ele não beijou Kayla. Não incentivou nada. Mas, ainda assim, o simples fato de ter deixado que aquilo acontecesse — de ter segurado sua mão e permitido que ela acreditasse, mesmo que por alguns minutos, que poderia haver algo entre eles — o fazia sentir como se estivesse traindo Leo de alguma forma.
E era isso que o sufocava.
Porque não era só sobre Leo.
Era sobre ele também.
Se não significava nada, por que a mão de Kayla ainda parecia quente na sua pele? Por que uma parte dele gostava daquela atenção, daquela possibilidade?
Era estúpido. Era confuso. E Eduardo odiava sentir isso.
Desbloqueou o celular de novo, mas, em vez de abrir a conversa com Leo, foi até Tiago.
Tiago não faria perguntas difíceis. Tiago apenas reagiria como qualquer amigo reagiria, transformando tudo em algo descomplicado.
E era exatamente disso que Eduardo precisava agora.
Eduardo: cara, vc nao vai acreditar no q aconteceu hj
Tiago: oq foi, castilho? ganhou na loteria? pq se sim, ja sabe q eu sou teu melhor amigo e mereço 50%
Eduardo: idiota kkkkk mano, a kayla…
Tiago: opa, oq tem ela?
Eduardo: me chamou p ir no cinema hj dps da aula né, vc viu naquela hora. ai dps q saímos, do nada ela falou q gosta de mim faz um tempo
Tiago: NAAAAO, mentira, cê tá de sacanagem
Eduardo: to falando sério kk
Tiago: finalmente, porra!! eai? vc pegou ela né? pelo amor de deus, castilho
Eduardo: então…
Tiago: não não não me diz q vc NÃO beijou ela
Eduardo: psé...
Tiago: SEU ANIMAL COMO ASSIM VC NÃO BEIJOU? a mina te chama p cinema, te segura pela mão, SE DECLARA, e vc só ficou olhando igual um poste???
Eduardo: kkkkk eu travei mano sei lá, só n fiz nada
Tiago: cê é um caso perdido, castilho tava esperando oq, uma placa escrita "ME BEIJA SEU TROUXA"???
Eduardo: talvez
Tiago: puta merda kkkkkkkkkkkkkkkkk eu não acredito nisso eu realmente n acredito nisso
Eduardo: kkkk pelo menos agr eu sei q ela gosta de mim, né
Tiago: ela gosta mesmo, pq senão já tinha desistido faz tempo, mas tá de boa, castilho, cê ainda tem chance… só n vacila da próxima vez
Eduardo: kk blz, blz
Tiago: ou melhor… quer q eu marque um encontro pra vcs e eu mesmo escrevo na sua testa “BEIJA ELA, SEU OTÁRIO”???
Eduardo: vai se ferrar kkkkkkkk
Eduardo riu sozinho, balançando a cabeça. Tiago nunca falhava em tornar qualquer situação num show de risadas.
E, por alguns minutos, Eduardo se deixou levar pela leveza da conversa.
Por alguns minutos, ele esqueceu do peso que aquilo realmente carregava, mas logo o peso voltou ao seu peito.
Porque Tiago não sabia da verdade. Não sabia por que ele hesitou. Não sabia que, enquanto caminhava com Kayla, enquanto sentia a mão dela na sua, sua mente estava longe dali. Em outro lugar. Em outra pessoa.
Leo.
Eduardo apertou o celular na mão, sentindo um nó apertado na garganta. Uma culpa surda se espalhou pelo seu peito. Leo não fazia ideia. E, ao mesmo tempo, Eduardo sabia que não queria que ele soubesse.
Mas então… por que ele sentia como se tivesse feito algo errado?
O celular vibrou de novo nas mãos de Eduardo, e, por reflexo, ele desbloqueou a tela.
Dessa vez, não era Tiago.
Era Leo.
Leo: minha mãe fez cocada hj
(foto de um prato cheio de cocadas recém-feitas, com a luz da cozinha da fazenda iluminando o doce dourado)
Leo: e vc n veio, perdeu
Leo: pior q tava boa
Leo: mas agora já era, todo mundo comeu um monte, ngm mandou vc dar perdido
Eduardo ficou olhando para a tela, sentindo algo no peito que não soube definir direito.
Respirou fundo, os dedos pairando sobre o teclado. Por um instante, considerou dizer a verdade.
"Fui ao cinema com Kayla."
Mas a ideia foi esmagada antes mesmo de tomar forma. Ele não queria ver Leo chateado. Não queria imaginar a reação dele.
Então, digitou a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
Eduardo: impossível vc n ter guardado pelo menos um pedaço pra mim
Leo: claro q não, riquinho, a gente trabalha duro aqui, sem tempo p sentir pena dos playboy q nos abandonam
Eduardo riu baixo.
Eduardo: cruel
Leo: a vida é
Houve uma pausa. Leo não mandou mais nada.
Eduardo encarou a tela, sentindo o peito pesar de novo. Ele podia fingir para si mesmo que nada estava acontecendo, que aquela saída com Kayla foi só um momento aleatório no meio da sua rotina, mas com Leo…
Com Leo, sempre foi diferente.
E ele sabia que se continuasse escondendo aquilo, cedo ou tarde, ia se afogar nesse peso.
Mas, ainda assim, não contou.
Não podia contar.
Porque, se contasse… talvez nada mais fosse o mesmo.
Então, forçou um sorriso, tentou afastar a culpa e continuou digitando.
Eduardo: pelo menos descreve o sabor p eu imaginar q comi
Leo respondeu rápido.
Leo: docinho, cremoso, um toque de coco queimado pq a senhora dona rita é uma gênia na cozinha…
Eduardo riu.
Por alguns instantes, foi fácil fingir que tudo estava bem.
Mas, bem no fundo, ele sabia que aquilo era só um disfarce. Que a verdade, por mais que ele tentasse esconder, ainda estava lá.
E que, em algum momento, ela poderia vir à tona.
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