O Fim Das Sombras

2 Espero que esteja, Amy


O inverno já esta chegando, já era a hora de estarmos com os depósitos cheios de comida. Otários, não prestam nem para fazer isso, serão obrigados a partir para a floresta mesmo no inverno, o que temos não dará para todos, não todo esse tempo. Não era para menos, além do trabalho mal feito, há os malditos vândalos que insistem em roubar nossos mantimentos, estão prejudicando a si mesmo e são burros o suficiente para não perceber.

– Porque não para de pensar na desgraça que estamos e no trabalho mal feito dos outros e não começa a fazer sua parte?

Jake, quem era ele para me dizer o que fazer ou não? Ah, poupe-me.

– Vá para a merda Jake, como sabes em que pensava? – Eu gritei levantando os olhos para vê-lo direito e como sempre, me surpreendi com o que via.

Jake era de uma beleza estranha que eu insista em negar, os cabelos negros contrastavam com os olhos quase transparentes que de tanto que brilhavam pareciam querer sair do rosto dele, mas não fora isso que me chamara atenção, ele carregava uma carcaça de lobo, arrastando-a sem qualquer cuidado pelo chão.

– Há tempos em que só diz isso por todo o canto e para todo mundo, cansa ouvir sabia? – ele jogou a carcaça à minha frente – mas parece que alguém faz o trabalho, não é mesmo? Toda sua, limpe-a.

– Eu não sou sua escrava, Jake, comece a falar comigo direito. – eu me levantei e bati as mãos no vestido velho que eu usava, minhas mãos agarraram em uma parte rasgada da roupa o que me fez suspirar por mais raiva.

– É quase isso, Katherine. – vi Jake saindo enquanto ria debochadamente do que havia acontecido, e que raiva me subia a cabeça.

Mas seus lábios tinham os desenhos perfeitos e me acalmavam além da cor de fruta dos bosques, e o sabor também... Como eram doces... Mas isso não me vem ao caso, não agora.

Eu peguei minha lança ao lado da pedra em que sentava e a finquei no lobo, não que fosse nojo, mas o cheiro me dava náuseas. Até chegar a um lugar apropriado para limpa-lo é um longo caminho, bom eu ia me acostumar.

É incrível como os olhares aqui ou são de um profundo ódio ou de um profundo amor, e sinto o ódio pairando sobre mim a cada pessoa por quem passo. Incomoda-me saber que o fato de eu não ser lá o que chamam de ‘uma pessoa normal’ interfira tanto na hipocrisia das pessoas. Mas há aquelas que me acolhem, reza a lenda que só fazem isso por tendem a ser ou são como eu, mas não acho que seja bem isso. Não se joga tantas maldições em recém-nascidos assim, por nada.

– Katherie, jogue graças ao Pai! O que é isso? Esse é dos grandes, hein! – Era Amy, minha ‘tutora’, não é bem esse o nome, apenas uma amiga ou quase isso, mas com muito mais experiência, e por experiência, quero dizer outonos de vida.

Ela tem uma beleza imprescindível, não se diz à idade que tem. Os cabelos loiros avermelhados e os olhos azuis esbranquiçados como gelo, é de congelar qualquer homem e talvez isso nem seja uma metáfora. Ela é magra, alta e desejada até pelos filhos, se possível cometer incesto, é o que eles mais querem.

– Amy! Sim, esse foi especial, Jake quem trouxe.

– É especial por ser grande ou porque foi ele quem trouxe querida?

– Ah, não diga isso Amy, aquele traste não merece nem os sapatos que calça, deveria de ficar descalço e acabar com os pés pisando em pedras faiscantes. – arranquei a lança e a segurei em meu lado suspirando – Pode dar um jeito, Amy? Não estou com paciência nem para olhar pra isso e sei que você pode limpa-lo em menos de segundos.

– Não, é trabalho seu. – a voz dela estava brusca e não me parecia a Amy de sempre. Será que mais uma vez acontecerá? Não... Não poderia... – E afinal, não esta com raiva? Desconte-a no animal, lhe fará bem.

Ela estava fria, sua pele branca e pálida finalmente lhe fez agrado aos sentimentos. Mas não era a Amy que eu conhecia. Aconteceu, tenho certeza. Aquilo a pertenceu novamente, esta rondando de novo o Vilarejo, eu posso ser a próxima e... Não quero cometer mais um suicídio, não seria o certo, eu não estaria fazendo bem nem a mim mesma, não posso me culpar mais uma vez pelo resto da minha vida.

Por sinal, já estou condenada, de fato não faria tanta diferença, nem tenho tanto tempo, são só mais alguns outonos, só mais alguns.

– Faça um bom trabalho, docinho. – ela me deu um beijo na testa, como quem diz “ainda estarei contigo” e andou em direção à igreja, velha, acabada.

“Será mesmo que estará comigo?”

Eu me fiz várias perguntas ali parada, era um turbilhão na minha mente, eu me perdi entre elas, me fiz pensar em tantas coisas em menos de segundos. Era mesmo a hora de tudo acabar, não é? Já se foi o meu tempo. As três senhoras, elas vivem me dizendo isso. “Ou você, ou ele.”, é só o que dizem e voltam a tecer, é assustador, elas conseguem controlar Westshad sem nem levantar das cadeiras em frente à igreja.

– Espero que esteja, Amy. – Eu sussurrei isso a mim mesma e continuei a arrastar o animal com a lança.

Notas finais
Espero que gostem, se possível, comentem e me ajudem a continuar. Beijinhos :*