O Fim Das Sombras

3 Não quer que ele volte?


Eu finalmente cheguei ao depósito mais próximo, é um caminho oriundo e que me sufoca os pensamentos, deveria ter ido para outro, mesmo que mais longe, eu não estaria e sentindo assim.

Peguei o animal e joguei com dificuldade em cima da mesa, que rangeu os pés parecendo que iria desmoronar. Ficaríamos sem comida e sem mesa, maldito lugar, eu não aguento mais.

Há um arsenal de facas ao meu lado, dá pra escolher o 'brinquedinho' com que quero me divertir. Peguei a mais macabra das facas e furei o animal rasgando sua pele de cima a baixo, vi o sangue jorrando e escorrendo pela mesa até os meus pés, senti o sangue permeado pelos meus calçados velhos e surrados de pano e logo passando por entre meus dedos, isso de alguma forma me agonizou e me cobriu um desejo insano.

- Kath?

Ao virar-me vi Milly, minha irmã mais nova, ela chorava, em silencio, como se quisesse estancar suas lagrimas com suspiros. Nunca senti desejo algum de abraçar alguém, mas naquele momento era o que eu mais queria. Estiquei os braços, que pingavam o sangue escuro do animal e mesmo assim Milly não hesitou. Correu e abraçou-me o mais forte possível. Eu senti as lagrimas rolando pelo meu ombro e ouvia a respiração ofegante da minha pequena irmãzinha. Eu queria de verdade saber como ampara-la, mas me parecia algo impossível. Eu nunca soube resolver meus problemas, quanto mais o dos outros, mesmo sem saber do que se tratava. Então apenas a apertei em meus braços e aconcheguei sua cabeça em meu ombro.

- O que foi minha pequena?

- Kath… o Dan… ele… — ela soluçava entre as palavras, como se fosse difícil de mais para ela dizer aquilo. Era dor de mais nos olhos de uma criança, e eu estava desatada — ele… ele desapareceu de novo…

Eu respire fundo naquele momento, sabia que aconteceria novamente mas não esperava que tão cedo. Dan, Daniel Mason Rain, é um dos meus melhores amigos e tem a pequena Milly como sua companheira fiel em aventuras, ou quase isso. Milly o tinha, o tem, como um irmão mais velho e isso nunca mudaria, independente de qualquer coisa que aconteça ou que digam que aconteça, Daniel faz parte do seu cotidiano e é integrante permanente no seu pequeno coraçãozinho. Dan mudou com a morte de sua lunática mãe no ano passado, mudou bastante, ele some de vez em quando, tenta provar que os fatos de Alice eram verdade, pois não acreditava que ela poderia ser louca, de fato. Os sumiços eram poucos, mas foram se tornando até rotineiros. Todas as vezes que ele some meu coração gela, como se ele trouxesse mal para Westshad quando volta e posso ver minha irmã aos prantos todas as vezes, sem exceções.

- Ei, ele vai voltar, tudo bem? — a afastei dos meus braços e olhei nos seus olhos que brilhavam por tanto lacrimejar — Ele sempre volta, não é mesmo?

- Eu não gosto quando ele volta, Kath… eu não gosto. Eu não gosto, Kath!

Ela se descabelava enquanto falava e se arranhava, como se precisasse tirar algo de dentro, como se precisasse descontar qualquer coisa em si mesma para aliviar o que sentia, era tortura com si própria e isso, além doas seus gritos, me assustava.

- Porque não? — Segurei seus braços, tentando conte-la, mas ela começou a me arranhar no lugar. — Ei, calma, vai ficar tudo bem… calma... por Deus Milly, tenha calma!

Ela se assustou com meus gritos e caiu ajoelhada, chorando, desamparada novamente. Eu abracei e esperei que tudo isso fizesse algum efeito.

- Não quer que ele volte?

- Não quero que ele se vá…

A porta se abriu e o tempo parou ali, o vento se acalmou, as árvores não mais rangiam, o rio trancou seus sons de água corrente e o que ouvi foi apenas um grito desesperados vindo da floresta.

- Não foi culpa minha, já disse-lhe milhões de vezes!

Charlotte entrou gritando e Amy logo atrás. Lottie era minha melhor amiga, desde… sempre. Era filha de Amy e tinha um ar explosivo e impactante que só destacavam a pele clara e o cabelo quase branco caindo nos olhos.

- Claro que não Charlotte, fora minha culpa.

- Agora esta entendendo, querida mãe.

Amy rangeu os dentes e foi direto ao lobo em ainda em cima da mesa e o esfaqueou várias vezes. Eu estava paralizada segundando Milly e tentando a fazer com que não ouvisse, sei de quem falavam, sei que o assunto ali era Dan.

- Falei para segui-lo, Charlotte, você sabe das consequencias, ele não sabe o que faz, nunca soube…

- Segui-lo iria adiantar de que? Acha que eu conseguiria impedi-lo? Sério? Expectativas de mais não fazem muito bem, mamãe.

Amy descontava toda a raiva no animal e não que eu não gostasse… o trabalho estava sendo feito, pelo menos. Eu estava ganhando... em parte.

Eu queria interromper, uma briga das duas nunca da em boa coisa, são poderosas de mais, pode influenciar em tudo para Westshad, no tempo, no clima, na colheita, até no humos dos meus vizinhos, e quem sabe, interromper as três senhoras que tecem. Mas eu não posso, não posso se quer tentar influenciar nas duas, Lottie se magoaria de mais comigo e Amy… bem, era capaz de me por no lugar do animal.

- Charlotte... se ele... se ele invocar algum demônio, eu juro, juro que te culparei para o resto dos milênios, e sabe que não brinco com essas coisas.

- Culpe-me, sem problemas. Você é ocupada de mais, não é? Não podia ir la, porque ainda acha que há um jeito de pisar em solo sagrado, mesmo depois do encantamento. Ah, poupe-me mãe, você insiste nisso há anos, ja basta. — Lottie se ajoelhou e fez um movimento com as mãos chamando Milly, que correu para os seus braços — Acha realmente isso mais importante que Daniel, mãe? É, pode mesmo se esperar tudo de Amy Brown.

Maldita boca, Lottie! Milly não precisava saber que era de Dan que falavam. Por Deus, ele precisa voltar logo, ninguém mais sabe acalma-la. A vi se afastando de Charlotte e se descabelando novamente, ela berrava, como se uma dor horrível a tivesse domado de novo, voltou a se arranhar e os olhos brilhavam em um azul cada vez mais branco.

Lottie se afastou dela com medo e Amy arregalou os olhos para mim como se pedisse explicação. Mas a única coisa que ouviram fora a voz de Milly, calma novamente, perguntando pelo assunto indesejado.

- Daniel? Era de Dan que falavam?

Notas finais
Espero que gostem, novamente. E comentem, se possível, para me ajudar a melhorar, beijinhos :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.