O Fim
4 Capítulo 4.1
Notas iniciais
As atenções se voltam para a entidade rubra em pé. Teria ele, finalmente, encontrado uma solução para o final dos tempos? Ele não dizia mais nada, parecia que estava esperando algum de seus amigos perguntar: “O que vamos fazer?” Até que se manifesta:
– Vocês não vão perguntar? — Guerra
– Tamo esperando você falar animal! — Peste
– Mas ai não tem graça...
– Fala logo!
– Ok... Vamos explodir o Sol!
– Pera... Que? — Morte
– Pensem comigo. Não podemos intervir diretamente na humanidade, certo? — Guerra
– Sim... — Peste, Morte, Fome
– Mas o Sol não é a humanidade. Podemos fazer o que bem entendemos com ele. — Guerra
Eles se tornam pensativos com a proposta do Guerra. Até que Fome se manifesta:
– Cara. Isso é genial... Eu topo! — Fome
– Pode dar muito errado... Mas é melhor do que estamos fazendo agora. — Morte
– Essa foi a coisa mais brilhante que você disse em um século. Vamos explodir essa porra toda! — Peste
– Eu discordo... — ?
Todos se viram imediatamente para o ser misterioso que acabara de surgir entre eles. Um humano de porte físico perfeito, todos os seus músculos eram cuidadosamente planejados e delimitados pelo próprio criador. Porém seu rosto era comum, a face mais comum de todo o planeta. Todo o ser humano vivo, tanto as almas que já se foram, todos, podiam se identificar em tal rosto. Seu corpo lembrava um corpo feminino, porém também tinha características masculinas. Era impossível falar qual era o gênero de tal entidade misteriosa.
Como é de se esperar, todos estão catatônicos pela chegada inesperada e repentina da entidade desconhecida, todos o fitam com uma visão que independe de olhos (já que os quatro não os possuíam), enquanto ele apenas os encara de braços abertos nas bordas da terma, deixando suas pernas e cintura submersa. Esse estado se estende até que Morte pergunta ao individuo:
– Eh... Como posso dizer isso? Nhe... Quem é você?!
– Ah é, não nos fomos apresentados ainda. Que grosseria da minha parte. Chamo-me Primus. Eu sou o rascunho de Adão. O primeiro ser humano.
– Cara... Então ta. Ok, você é o primeiro ser humano, legal, bacana... Mas o que caralhos você está fazendo aqui? — Peste
– Nossa, que grosseria, Ele só me mandou aqui para avisar vocês...
– ... — Peste, Morte, Fome, Guerra
– ... — Primus
– Avisar do que? Porra! — Guerra
– Calma. Eu já ia contar. Vocês estão quebrando as regras. Vocês que tem que destruir a humanidade, e mais, não podem fazer isso diretamente. Nada de envolver o Sol, Lua, ou qualquer outro ornamento do Criador.
– Ok, mas já estamos tentando fazer do jeito certo já faz 100 anos, e não deu em nada. Só quando paramos de tentar fazer algo que a humanidade começou a se foder. — Fome
– O problema não recai em mim. Ele só me disse que as consequências de um ato como destruir o Sol, isso destruiria o planeta. A Terra tem que ficar intacta, só a humanidade tem que deixar de existir. Caso ela for destruída, isso afetaria diretamente os planos pós-morte. E todas as almas que já passaram por essa esfera rochosa seriam obliteradas. Até mesmo Eu e vocês seriamos reduzidos a poeira cósmica... E não haveria nada depois disso... Só o vazio eterno...
– E esse foi o plano divino genial de Deus!? Transformar humanos semi-retardados (no caso nós) em seres divinos com poderes quase ilimitados com uma tarefa quase impossível, que já se estendeu por um século e, pelo jeito, ira se estender mais, de dar um fim a humanidade? Esse é o esquema supremo de Deus? O Gran Finale? ...Ele tem demência?! — Guerra
– O Criador escreve certo por linhas tortas... Se é isso que ele planejou para nós, então esse é o caminho a ser seguindo.
– Você não conhece o plano dele também, não é? — Morte
– Não faço ideia. Estou tão confuso quanto vocês.
– E depois vocês ainda tem a coragem de reclamar que existem ateus no mundo! Aposto que nem ele sabe o que planejou! Que tipo de credibilidade ele quer ter com esse tipo de comportamento? — Peste
– Não importa o que vocês acham dele. Essas são as regras e acabou.
–... E se nós desrespeitarmos essas regras? O que aconteceria? — Fome
– Você é burro? Não ouviu o que eu disse? Se a Terra for destruída vocês serão obliterados com ela. E não haverá uma eternidade aguardando por vocês, como tem agora.
– Então esse grandessíssimo filho de uma puta ainda estava reservando uma vida eterna para nós? — Fala Guerra para Primus. Ele e seus companheiros não queriam mais ficar no plano físico, mas a eternidade em qualquer um dos planos espirituais era repulsiva.
– E vocês não querem uma eternidade de alegria? Que tipo de seres pervertidos e deformados são vocês?!
– Do tipo que sabe que, para ter alegria, é preciso ter tristeza. E que a vida só é valorizada quando existe a morte. Uma eternidade... De alegria ainda... Qual é a dificuldade disso? Digo, qual é aquele gosto de superação, aquele sentimento de conquista que você sente e que é o motivo de viver que nós move? — Morte
– Mas... Você mesma disse! Disse que queria ir para outro plano!
– E quero. Queria conhecer, não apenas um plano, mas todos. A simples ideia de passar a eternidade em algum deles... Qualquer um deles... Me da repulsa. — Morte
– Vocês são loucos... Não foi por essas formas vis que eu servi de molde...
– O que? Pensei que você foi o rascunho de Adão. — Fome
– Eu fui o rascunho do ser humano! Sou o molde da humanidade. A forma básica que faz dos humanos, humanos! E por isso sou o Avatar do Homem. Eu represento cada um, vivo ou morto. E vocês se afastaram de mim... E por consequência do Criador! E tem...
– Cala a boca! Você não sabe o que é ser um humano. Como você mesmo disse, você é apenas um rascunho, um projeto, não possui a noção e a amplitude total do que é ser um de nós. Já eu e meus companheiros, fomos tirados desse estado quando ainda éramos jovens e idiotas! Alcançamos o máximo que a mente humana pode aguentar, sem ruir. E isso em 100 anos. Para uma eternidade... Isso não é nem o começo. Por isso estamos cansados, e só queremos acabar nosso trabalho para poder descansar. — Guerra
– E você fala demais Primus... Chega de você! — Morte
Primus encontra-se em um estado catatônico, Morte não tinha noção de poder de suas palavras. Em seu olhar se estampa pavor profundo, olha para suas mãos, e as vê se desfazendo em uma fumaça branco azulada. Seu corpo se desconstroi aos poucos, e o pavor em seu olhar se torna ódio. Ele olha para morte e grita:
– Você tem noção do que acaba de fazer?! Você tem... — Seus gritos são interrompidos pela sua completa aniquilação.
A fumaça branco azulada pairava sobre suas cabeças. Eles estão pasmos, pois não possuíam noção, ate então, da extensão de seus poderes. A fumaça desce e penetra em suas peles. Por alguns instantes eles se observam.
– Mas que acabou de acontecer? — Guerra
– Eu não sei... Mas me sinto estranho... Como se houvesse algo na minha cara... — Peste
– Também sinto isso... — Após morte se pronunciar, ela sente sua pele escorrer pelo seu rosto. Enquanto ela se esforça para retirar a película sufocante que está cobrindo sua face, exclama: — Mas que merda esta acontecendo agora!?
Todos estão tentando retirar as camadas de material orgânico que se acumulavam em suas faces. Pela primeira vez em um século, se sentiam sufocados, sentiam que precisavam de ar (Exceto Guerra. Ele realmente achava que estava com sinusite). Quando finalmente retiram esse material que os sufocava, se espantam de maneira surreal. Seus rostos e corpos originais haviam retornado. Apenas a cor de suas peles permanecia.
Fome admira seu reflexo na água. Peste tateia seu rosto, como se fosse um bebe que acabara de aprender a usar as mãos. Morte se encontra em um canto da piscina, enquanto passa as mãos em seus cabelos a muito perdidos. E Guerra, após ver seu rosto na água, fica em pé, olha para o Sol nascendo no horizonte e solta uma gargalhada. Peste fala:
– Nós voltamos... He... He he... Nós voltamos!
–Não voltamos não camarada! Pelo tom dourado brilhante da sua pele, acredito que ainda somos os Senhores da Destruição! — Guerra
– Então por que nossa forma humana voltou?! — Fome
– Ha Ha Ha Ha Ha Ha! A essência de Primus! Nós absorvemos o molde da humanidade! — Morte
– Meus amigos! Creio que isso é um sinal! Hoje será o último dia da Terra! O último dia do Sistema Solar em si! Pois, no próximo nascer do Sol, nós vamos explodir esse caralhudo em bilhões e bilhões de micropartículas no espaço! E Deus vai precisar ficar o próximo bilhão de anos para fazer tudo de novo! — Guerra
– Excelente ideia! Mas... Por que esperar? — Peste
– Eu não sei você, velho amigo com atitudes possivelmente homossexuais, mas eu não vou me despedir desse planeta de merda sem comer alguém! As próximas 24hrs serão nossa festa de despedida! — Guerra
– Nossa! Demoro! Vamos pra onde?! — Morte
– Las Vegas! — Fome
– Eu estava pensando nisso mas sua sugestão é perfeita! Vamos para Las Vegas! — Guerra
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