O Filho do Inventor
45 Capítulo 45 - Adam & Luma
Luma contou a Adam tudo que sonhara durante o coma — exceto a parte de Jeremy, claro. Era claro que precisavam falar com Quíron o mais cedo possível. Porém, algo os impedia. O pôr do sol.
Estavam os dois sentados no deque, com as barras de suas calças dobradas e os pés na água.
– Então ele a mantém presa numa caverna em São Francisco... — ecoou Adam
– É o que pude perceber. — eles não se olhavam
– Mas por que faz isso?
Luma encarava a água mudando de cor ao refletir o pôr do sol, distraída.
– Hum? — perguntou, com o olhar ainda fixo na água
– Não faz sentido algum, Luma. — Adam ainda processava tudo aquilo — Pensa comigo. — os dois se olharam e ele continuou: — Se ele quisesse algum tipo de resgate teria deixado claro para nós.
– Não, não acho que seja um sequestro. — respondeu Luma, lembrando-se de todo o tempo que passara naquela caverna observando os dois — Ela parecia ter concordado com aquilo em algum momento, se dizia arrependida... E parece que há algo entre eles... Um romance.
– Faz menos sentido ainda. — Adam balançou a cabeça — Quer dizer, se ele gosta dela e ela concordou com isso, por que fugir? Se esconder em uma caverna, mantê-la presa?
Luma ficou sem palavras. Adam tinha razão, por que Ângelo manteria Isis presa se ela havia concordado com aquilo?
– E já que ela quer tanto fugir, por quê não usa aquelas sandálias que Hermes lhe deu? Por quê não convoca um de nós em sonho? — completou o filho de Tânatos
– Não sei. — Luma balançou a cabeça para a água — É tudo muito estranho mesmo. Nós temos de falar com Quíron. Se ele não nos autorizar a sair ou sequer nos ajudar a desvendar essa história, pelo menos os sátiros de busca saberão com mais detalhes onde procurá-los.
– Tem razão. Temos de falar com Quíron. — o garoto concordou
Porém, nenhum dos dois se mexeu. Apenas levantaram o olhar para o céu colorido.
A ideia de declarar-se a Luma de uma vez visitava a cabeça de Adam com insistência, como quando você sabe que tem lição de casa para o dia seguinte e continua assistindo à televisão. Afinal, estavam sozinhos, assistindo ao pôr-do-sol, com a água macia e morna do lago em seus pés... Não podia haver um momento mais perfeito. Mas duvidava que ela fosse levar numa boa, quer dizer, estavam falando sobre algo muito difícil para ambos os dois, embora a cabeça de Adam estivesse em outro lugar. Não achava que seria tão fácil para ela esquecer o assunto e prestar atenção ao que Adam tinha a lhe dizer.
Talvez conseguisse repetir o momento no dia seguinte.
Finalmente, a corneta soou, anunciando o jantar.
Os dois levantaram e seguiram juntos ao pavilhão do refeitório. Luma ainda recebia algumas boas-vindas.
Serviram-se de tacos e Coca-Cola. Fizeram suas oferendas aos deuses na fogueira e sentaram-se, cada um na mesa de seu respectivo chalé.
– Terra para Adam. — brincou um de seus meio-irmãos, enquanto ele sorria para Luma, a várias mesas de distância.
– Esse aí é um caso perdido, Fred. — brincou outro, fingindo que sussurrava, mas claramente tentando chamar a atenção de Adam
E funcionou. Adam olhou-os, deixando de sorrir e disse:
– Parem com isso.
– Ui. — Fred levantou as mãos, num gesto que pedia para que Adam se acalmasse — Desculpe, senhor fui-atingido-pelo-cupido-e-não-me-importo-mais-com-meus-amigos.
– Deixe ele em paz, Fred. — pediu uma garota na mesma mesa, não como se estivesse tentando ser legal com Adam, mas sim estivesse cansada de ouvir as vozes de seus irmãos. Parecia muito entediada.
– Tudo bem, tudo bem. — Fred fez o mesmo gesto, desta vez como um pedido de desculpas — Foi só uma brincadeira.
Adam encarava o resto de taco em seu prato, brincando com a carne.
– Mas quem é a garota, Adam? — perguntou o segundo garoto, Eddie
– Hã? Luma? — Adam tentou disfarçar o sentimento embargado em sua voz, reprimido por tanto tempo — Uma filha de Apolo, só uma amiga.
– Luma? — perguntou-se Eddie — Este nome não me é estranho...
Ele era de descendência asiática, com a pele muito branca e o cabelo muito escuro, levantado na frente. Seus olhos eram de um verde escuro cor-de-alga, e seu maxilar parecia travado o tempo inteiro. Era magro, porém alto e, todos sabiam, muito capaz de quebrar a cara de alguém. Mas não era esse tipo de cara, como todos sabiam também. Eddie era tranquilo e amigável, embora às vezes sumisse da face da Terra e voltasse apenas semanas depois, como se nada houvesse acontecido.
– Uuuh. — Fred fez o favor de lembrar — É aquela garota pela qual você pulou o café da manhã e saiu à sua procura pelo Acampamento afora?
Fred, por sua vez, era baixinho, menos amigável, e bastante sem noção. Porém, também era confiável e fiel. O cabelo ruivo, incomum no chalé de Tânatos, era enrolado e bastante rebelde. Fred parecia o tipo de pessoa que não conhecia o significado de pente ou condicionador, mas sabia tudo sobre videogames. Tinha a pele bastante clara — não mais que a de Eddie — e infestada de sardas.
– Sim! — lembrou-se Eddie — Ele até sumiu por um tempo e, quando voltou nem se incomodou em nos explicar a situação, só passou semanas indo atrás de evidências que pudessem lhe esclarecer quem foi o culpado do coma de sua amada.
– Ok. Para o seu governo, eu descobri. — afirmou — E Luma é só uma amiga. — completou sem disfarçar que não era o que queria com ela
– Own... Coitadinho, está na friend zone... — Fred fez uma imitação forçada de choro
Eddie riu.
– Coitadinho de você. — disse a Fred — Que nem na FRIEND zone está de garota alguma.
– Como assim? Amy é minha amiga! — disse, abraçando a garota a seu lado, a mesma que havia pedido para que deixassem Adam em paz.
Amy era tão morena quanto Adam, sem a descendência indígena. O cabelo era vermelho escuro, pintado, a franja contrastando com os olhos prateados como a lâmina de Skiá, a foice de Adam. Era mais alta que Fred e tinha porte majestoso, estava sempre séria.
– Cai fora. — disse, com o mesmo ar entediado e o sotaque britânico
O resto da mesa (mais uns três adolescentes) riu de Fred.
– O que tá rolando, Luma? — perguntou Brian, ao seu lado
– Como assim? — continuava distraída
– Como assim "como assim"? — ele se indignou — Primeiro você desaparece e Adam te acha em coma, passa um mês sumido e, quando volta, não sossega até achar quem quer que tenha lhe feito mal. Mais algumas semanas depois você volta, nem cumprimenta seus irmãos direito, apenas passa a tarde com ele, assistindo o pôr do sol no deque e, agora, os dois não param de se olhar, sorrir um pro outro... Tem alguma coisa que eu não esteja sabendo?
– Ah, Brian... — Luma suspirou, distante — Como eu queria que tivesse.
Após o jantar, Luma e Adam se encontraram novamente e aproveitaram o tempo que passariam no anfiteatro para conversar com Quíron.
– Olha, Luma... Eu sei o quanto deve ser difícil para você não poder fazer muito para salvar Isis, mas também é difícil para mim. — explicou o centauro — Eu queria poder autorizar os dois a saírem do Acampamento e buscarem sua amiga, mas o problema é que isto pode ser mais perigoso que vocês pensam. Principalmente, agora que sabemos que ela está em São Francisco. Tenho certeza que você já ouviu falar de Percy Jackson, nosso mais aclamado campista. Mesmo sendo quem é, Percy só pôde ir à São Francisco após anos de treinamento e era uma missão. E mesmo assim, teve muitos problemas e podia não ter voltado. Você, Luma, passou tecnicamente apenas semanas aqui. Novamente, não posso autorizar a saída de vocês.
Luma ainda não estava satisfeita. Não conseguiria se satisfazer em esperar e assistir Isis sofrer em seus sonhos.
– Mas e Adam? — então teve essa ideia
Adam se surpreendeu ao ouvir seu nome.
– Adam ficou mais tempo neste Acampamento que o próprio Percy. — continuou — Teve mais treinamento que todos os campistas aqui e acho que é perfeitamente capaz de ir à São Francisco e voltar com Isis. — sugeriu
– Este é outro problema, Luma. — Quíron parecia realmente preocupado. Queria mesmo ajudá-los, mas não tinha os recursos — Não posso liberá-los sem uma missão. Não sou eu quem libero vocês a sair, entende? Vocês precisariam de uma missão para isso.
Luma ficou quieta. Adam a olhou, solidário. Odiava vê-la tão preocupada.
– Bom, mas agora que sabemos com mais precisão onde Isis está, será mais fácil para a equipe de busca achá-la. Se sentiria melhor se eu mandasse mais sátiros? — perguntou gentilmente
– Honestamente, sim. — respondeu Luma
– Ótimo. — após uma pausa, Quíron disse: — Tente não pensar nisso, Luma. Estamos muito mais perto de resgatá-la, graças a você.
– Obrigada, Quíron. — Luma acenou com a cabeça e retirou-se, seguida de Adam
– Ei, Adam. — chamou Quíron, quase sussurrando
Adam virou-se.
– Tente fazer com que Luma se distraia. Faça-a pensar menos nisso, vai dar tudo certo.
– Tudo bem. — esboçou um sorriso — Obrigado, Quíron.
– Por nada. — murmurou, enquanto via-o partir
Os dois voltaram ao deque, sem colocar os pés na água desta vez. Apenas cruzaram as pernas e admiraram o luar.
– Luma. — Adam chamou. Sua voz estava baixa, muito calma
Ela o olhou. Adam mirava as estrelas, sem retribuir-lhe o olhar.
– Quíron tem razão, sabe?
– Sobre o que? — perguntou
– Você não devia pensar tanto nisso.
Luma pareceu indignada, mas não respondeu, apenas olhou o céu estrelado.
– Quer dizer, não há nada que possamos fazer. Tudo que podíamos, fizemos. Contamos a Quíron o que sabemos. Essa é toda ajuda que podemos dar a Isis no momento. — ele a olhou, que por sua vez não lhe retribuiu o olhar
Após um suspiro, Luma respondeu:
– Mas é tão difícil. Digo, a melhor amiga que tive em anos está sendo mantida presa por um cara que diz amá-la. E eu não posso fazer nada. Essa é a pior parte.
– Fizemos o que pudemos, Luma. E tenho certeza que Isis não iria querer que você ficasse assim. Vai ver, daqui a alguns dias ela estará aqui, nos contando de toda a experiência e todo o tempo que você passou pensando demais nisso não vai fazer diferença alguma.
Ela o olhou, finalmente. Lançou-lhe um rápido sorriso e um olhar que lhe dizia "Obrigada". Mas o olhar não foi tão rápido quanto o sorriso. Continuou ali, pairando no frio ar de outono, fitando-o.
Adam se aproximou, entrelaçou os dedos de uma de suas mãos em seus cabelos, beijou-a na têmpora e puxou sua cabeça levemente para si, pousando-a em seu ombro, acariciando-lhe os cabelos. Embora possa parecer que aquele seria o momento perfeito, Adam sabia que não era. A fragilidade de Luma no momento era por conta de sua tristeza, e não era assim que ele queria. Ele devia ser o causador de sua fragilidade.
Luma levantou a cabeça devagar, na direção de seu pescoço, como se fosse sussurrar-lhe algo ao pé do ouvido. Mas não o fez. Apenas ficou ali, arrepiando a nuca de Adam a cada respiração que delicadamente lambia seu pescoço.
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