O Filho do Inventor
46 Capítulo 46
O que Luma teve não foi exatamente um sonho.
Estava tudo preto, porém alguém falava com ela. Uma mulher. Mas ela não reconhecia a voz, embora não fosse com isso que se preocupava no momento.
– Luma. — a voz chamou — Luma, pode me ouvir?
– Quem está aí? — disse para a escuridão
– Ótimo. — a mulher ignorou a pergunta — Olha só, não temos tempo para isso. — a voz tinha um certo crepitar, como fogo — Sei que esteve aqui durante o coma. Me sinto péssima por não poder contar a Isis tudo o que você passou e dizê-la que você está tentando ajudar. Mandar sátiros para cá, Luma... É genial, porém não vai adiantar. — a voz disparava
– Espera aí. — Luma cortou-a — Como sabe que estive em coma, que mando sátiros para buscar Isis... Quem é você?
– Luma, por favor, só ouça. Não temos muito tempo. — então continuou: — Não adianta mandar sátiros, ele os está despistando com um tipo de máquina... Não sei o que é, mas eles passam direto por aqui, sem desconfiar que tem algo e sem se aproximar muito por causa do bichinho de estimação dele. — Luma se perguntava por que a mulher se referia a Ângelo como ele, pronunciando de uma forma tão agressiva.
– Bichinho de estimação? — soou Luma
– Só você pode vir para cá, Luma. — a mulher continuou — Só você pode nos salvar. Sendo filha de Apolo, você não será enganada por esta máquina idiota. — a voz começou a sumir, como se alguém estivesse baixando o volume — Venha nos achar, Luma! Só você é capaz.
Então sumiu.
E Luma acordou. Como sempre, eram por volta das cinco horas da manhã. O primeiro raio de sol a atingi-la lhe acordava.
Levantou-se e se dirigiu ao criado mudo na ponta da beliche. Segurou o espelho que recebera de Isis no dia em que fora reclamada. Escovou os cabelos e notou que, mesmo após tanto esforço para dar fim àquela maquiagem toda, ainda restavam vestígios de lápis preto em seus olhos. Vestiu um jeans de lavagem clara. Calçou seu Converse preto novamente e observou no espelho o colar de Apolo, como sempre presente em seu pescoço, agora combinado com a palheta que lhe deixara. A petúnia que trouxe, uma das muitas que Adam lhe dera, ainda estava ali, intacta.
Ainda não estava na hora do café da manhã. Portanto, Luma foi ao seu ponto preferido após um sonho tão tenso: O deque.
Tentou se concentrar no sonho, mas era distraída pelo sol saindo de trás das nuvens ou pelas belas náiades brincando nas águas.
– Aí está você. — disse Adam, atrás dela
– Ah, oi. — Luma olhou-o
– Dormiu bem? — perguntou, sorridente
– Tive um sonho, mas dormi bem, obrigada.
– Me conta. — Adam sentou-se ao seu lado, olhando-a com atenção
– Não sei se foi bem um sonho... Eu não vi nada, mas alguém falava comigo. Não faço ideia de quem era. Era uma mulher e ela sabia tudo o que passamos. Foi estranho. Ela dizia que não adiantaria de nada mandar sátiros para salvar Isis, pois Ângelo tinha uma máquina que os despistava e um "bicho de estimação" que os afastava. Disse também que só eu seria capaz de salvar Isis porque a máquina de Ângelo não tem efeito sobre mim ou algo assim.
Adam não disse nada, apenas processou as informações e tentou juntar peças.
– Sabe o que era mais estranho? — Luma voltou a olhar o céu — Ela se referia a Isis como se estivesse junto com ela. Dizia que só eu poderia salvá-las. A ela e a Isis.
– Talvez esteja então. – ele deu de ombros
– O que quer dizer?
– Téfra. – concluiu — Digo, você não podia se comunicar com ela antes, mas quem disse que não pode agora? Talvez ela tenha lhe convocado em sonho e te dito tudo isso.
Luma não sabia o que pensar. Será que finalmente podia se comunicar com a fênix? Era a única explicação plausível.
– E, talvez por serem fruto do mesmo deus, vocês estejam conectadas de alguma forma. Talvez ela tenha visões do que você passa longe dela. Talvez ela sonhe com você do mesmo jeito que você sonha com ela.
– Então eu nunca estive sonhando com Isis e, sim com ela. — percebeu Luma — Ela me chamava em sonho para assisti-los.
– Sim. — concordou ele — Será que finalmente Quíron vai nos ouvir? Digo, agora sabemos que só vocêpode ajudar. Sátiros não ajudam.
– Luma! — berrou outra pessoa, à distância — O que você fez? Por que fez isso?
Era Audrey, ofegante. Parecia brava.
– O que eu fiz, Audrey? — Luma levantou-se, sem entender
– Você mandou Jeff para se arriscar lá fora, atrás de Isis.
– O que? — Luma então percebeu, que "mais sátiros" incluíam Jeff — Ah! Veja bem, não fui eu.
– Mas você concorda com isso, não é? Não está achando ruim!
– Não. Admito que não estou, afinal, se pudesse eu mesma ia.
– Fantástico! — exclamou, indignada — Fantástico. Você não se importa, não é? Não está nem aí que Jeff talvez morra lá fora!
– Ei. — Adam levantou-se — Acalme-se, Audrey. Luma não tem culpa de Quíron tê-lo escolhido, ok?
– Que bela amiga! — continuou ela, ignorando Adam — Deixando-o ir ao lugar mais perigoso possível para nós! Ele vai morrer lá, Luma! Você não vê o que fez?
– Eu não fiz nada, Audrey! Caramba. — Luma estava começando a perder a paciência com ela
– Luma! — ela indignou-se mais ainda — Ele queria se meter com Sangue de Górgona por você! Ele estava disposto a morrerpara ajudar Adam a achar seu agressor. E agora você simplesmente volta ao Acampamento sem nem sequer agradecer-lhe e já quer deixá-lo morrer por causa das suasfrescuras de novo?
– Você não é nenhum exemplo de boa amizade, não é, Audrey? — Adam meteu-se na discussão, dando um passo a frente — Afinal, estava disposta a deixar Luma mofar em coma para que seu precioso namoradinho não se machucasse!
– Adam, não. — Luma suplicou, mas sua voz fora imediatamente abafada pela de Audrey:
– Alguém tem de protegê-lo, não é? E você conseguiu o que queria, não foi? Não precisou colocar Jeff em risco para isso!
– Risco? Sangue de Górgona não tem efeito desde que você não engula. Ele não sofria risco algum! E ninguémtem de protegê-lo, Audrey! Ele é um cara crescido, não precisa da sua superproteção! Você o está sufocando.
– Adam. — Luma segurou seus ombros rígidos
– Não, Luma! Ela tem que perceber! — então voltou-se novamente a Audrey: — Eu estou te ajudando aqui. Se Jeff ainda não quis ficar com você, tenha certeza de que este é o motivo.
Mas aquilo saiu um pouco rude demais.
– Adam! — Luma era a indignada agora.
O olhar de Audrey se suavizou, a raiva se dissolvendo em tristeza. Ela recuou devagar, balançou a cabeça negativamente e, sentindo os olhos umedecerem, virou-se e foi embora.
– Adam, aquilo não foi legal! — Luma entrou em sua frente
– Eu sei, ta bom? Já estou arrependido. — ele passou a mão no cabelo, frustrado. Gesto que Luma já havia assistido várias vezes e adorava — Mas, poxa, ela estava te atacando por querer ajudar Isis, sendo que ela não ajuda ninguém, apenas banca a mãe de Jeff e esquece nossa existência. Alguém precisava acordá-la, certo?
– É. — Luma sentou-se novamente — Acho que sim.
Adam sentou-se ao seu lado, bufando.
– Eu só... Me descontrolei. Ela não tinha o direito de falar isso para você.
– Por que você se importa? — Luma soltou
– Está brincando? — Adam olhou-a — Você salvou a minha vida duas vezes. Isso não é coisa de quem não é boa amiga.
Luma deu um riso fraco e olhou o chão. Amiga. Além de não dizer-lhe de uma vez o que sentia, ainda lhe torturava desta forma.
Mas ele pareceu perceber o erro. Ficou sem graça, sem pensar no que diria, sem pensar que, se Luma ficara daquele jeito, significava que ela sabia e correspondia. Adam abriu a boca para começar a se desculpar, mas mudou de ideia. Suspirou, olhou o céu cor-de-rosa e uma ideia lhe ocorreu subitamente.
– Ei, Quíron disse que não pode nos dar uma missão, certo?
– Sim, e fez questão de repetir isso várias vezes. – Luma revirou os olhos, ainda indignada por não poder fazer nada para salvar a amiga, mesmo que agora já soubesse que ela era quem deveria fazê-lo.
– Exatamente! Acho que ele queria que a gente percebesse! – Adam levantou-se, animado
– Percebesse o quê? – ela o acompanhou
– Luma! – ele passou a mão pelo cabelo – Luma, seu pai é o deus das profecias. Quíron não pode nos dar uma profecia, mas seu pai... – ele sorria, esperando que ela processasse aquilo.
– Você tem razão! – então o sorriso se esvaiu do rosto de Luma – Mas se ele quisesse que eu fosse não acha que já teria dado a profecia, ou pelo menos me contatado por sonho?
Adam cobriu a boca em um gesto pensativo.
– Não sei. Mas não custa nada tentar – ele deu de ombros.
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