O Filho do Inventor

39 Capítulo 39 - Luma


Notas iniciais
Pessoal, não achem estranho, mas nesse capítulo, o narrador muda, ok? Mas, poxa, ninguém pode entrar na cabeça da Luma enquanto ela está em coma e dizer o que ela sente, certo? Por isso o narrador nos capítulos "em coma" é ela. Enjoy (:

Não é fácil estar em coma.

Principalmente quando tem de passar por uma cirurgia no cérebro. Os caras acham que você não pode ouvir ou sentir nada, por isso te dão uma dose menor de analgésicos. O que me aterrorizou bastante pelo fato de que eu podia, sim sentir tudo e não poderia gritar de dor. Mas foi tudo muito bem. Não senti dores na cirurgia. Não senti nada. Apenas dormi e não foi como se alguém estivesse abrindo minha cabeça e remexendo meus miolos.

A parte ruim? Bem, além de que aquela vadia da Annie me fez passar por tudo isso, ainda rasparam o meu cabelo! Agora tudo o que queria era continuar em coma até que ele crescesse novamente. Um pouquinho pelo menos. Quer dizer, não tive a chance de ver se fico bem ou não careca, mas eu realmente gostava do meu cabelo.

Mas, enfim, não era isso o que estava pensando naquela hora. Afinal, quando você está em coma, não é seu cabelo que importa.

Eu pensava no que minha mãe estava passando. Se perguntando qual seria a melhor decisão. Eu tenho uma ideia de como é, afinal, fui a líder da missão. Mas não tive a vida de ninguém em jogo. Não que eu soubesse.

Enfim, me levaram de volta ao meu quarto e, infelizmente, o efeito do analgésico começou a se dissipar. Minha cabeça doía na lateral como se tivesse levado uma pancada. Sabe quando você se abaixa pra pegar algo que caiu no chão e quando se levanta bate a cabeça na mesa, ou sei lá? Minha dor também podia ser descrita assim.

Mas eu tentava não pensar nisso. Embora não tivesse nada de bom para pensar. Quer dizer, se Adam me visitasse me veria careca. Isso não era legal. Basicamente, se qualquer um me visitasse, eu estaria careca. Brincadeira, esse não era o problema. O problema era "vê-los" chorando e não poder dizer que eu ia ficar bem, que estava ouvindo e que entendia, que era para eles ficarem calmos. Se bem que, conhecendo minha mãe, sei que ela não ficaria calma enquanto eu não estivesse correndo por aí.

Bom, para acelerar a história, meses se passaram. Já era Novembro. Você não tem ideia de como é ruim ficar meses sem poder se mexer ou sequer abrir os olhos e ver um pouco de televisão. Não podia. Tinha de ficar paradinha, apenas respirando e ouvindo qualquer coisa que acontecesse por perto. Meses sem tocar ou cantar. Droga, foi horrível.

Mas, durante esses meses, eu ficava submersa em algum tipo de segunda dimensão. Como se estivesse sonhando o tempo inteiro. Só voltava quando alguém me chamava, mas honestamente, não queria voltar. Afinal, eu estava vendo Isis todos os dias. Ok, era naquela condição horrível de não se mexer, falar ou descer o cacete no Ângelo, mas eu via o tempo todo ela tentando se comunicar com Téfra (coisa que nem eu mesma conseguia fazer), tentando combinar um plano com ela de sair dali, mas ela não entendia. Sua única saída era descer a montanha sozinha que, descobri, ficava em São Francisco. Já ouvi falar muito que São Francisco não é lugar para semideuses. É, tipo, a fonte de monstros dos EUA. E, se ela tentasse descer a montanha sozinha, teria de lutar até sair do estado. Sem parar. E Ângelo havia deixado-a fraca o suficiente para que não fosse possível para ela fazer isso. Ela passava noite e dia arrasada, chorando, o que não era típico de Isis, mas ela estava presa pela única coisa que a deixava assim. Sua claustrofobia. Passar o dia dentro de uma caverna escura e apertada não deve ser nada agradável. Imagine então se você tem claustrofobia. Bem pior.

Um dia, Ângelo gritou "Consegui! Consegui!" e até Isis ficara animada com o que quer que ele tivesse conseguido. Mas não pude ver o que era, pois a porta de meu quarto abriu e minha consciência me trouxe de volta à esta dimensão.

Pensei "Deuses! O que é agora?", mas me arrependi assim que ouvi:

– Oi, Luma. — uma voz exausta, como se tivesse passado noites chorando

Ainda sim, uma voz sedosa, mesmo que meio rouca, levemente viril.

Era Adam.

Quis gritar, me esconder embaixo dos lençóis brancos do South Nassau Communities Hospital.

– Você está ótima, sabia? — disse, claramente só por educação, afinal, quem fica ótima após meses em coma sem poder passar maquiagem, lavar o cabelo (que provavelmente estava mais curto que o de Audrey), fazer nem uma esfoliação? Ainda por cima sem sol, devia ter voltado a ser aquele fantasma-vampiro que era antes e, alimentando-me só de soro, devia estar mais magra que um bicho-pau.

Adam aproximou-se e sentou-se ao meu lado, na cama. Segurou uma das minhas mãos com suas duas.

– É muito... — ele pensou na palavra para expressar o que sentia — agoniante. Muito doloroso te ver aqui. É só por isso que não vim antes.

Uma lágrima pingou em minha mão. Ele limpou com o polegar e continuou acariciando minha mão com ele.

Era gratificante saber que estava chorando. Não porque ele estava triste, ou porque havia escolhido Thalia antes de mim. Não. Era só porque isso expressava o quanto se importava comigo.

– Mas não resisti, não conseguiria ficar longe de você por mais tempo. Ainda mais porque fui o primeiro a te achar, fui eu que mostrei você caída aos outros. Senti sua falta no café da manhã e saí à sua procura. O primeiro lugar que imaginei foi o deque. Sei como você gosta de ficar lá. — ele deu um riso fraco, era muito difícil não poder vê-lo — Infelizmente, você estava mesmo lá. — e então sussurrou, com um soluço: — Morta.

Ele tirou uma das mãos da minha brevemente e quando me tocou novamente com ela, estava molhada. Ele havia afastado as lágrimas com ela. Lágrimas por mim.

– Pelo menos tive o bom senso de chamar outros e não apenas começar a chorar do seu lado e tentar resolver tudo sozinho como normalmente faria. Não que eu não tenha chorado. Chorei muito. É tudo o que tenho feito nestes meses. O Acampamento é muito triste sem você. Pelo menos é como acho que está. Eu fugi. Não conseguiria ficar lá, sendo obrigado a treinar e assistir a aulas enquanto chorava por você. Voltei para casa. Foi bom rever minha mãe, embora ela tenha me dado uma bronca porque eu não devia sair do Acampamento sozinho e correr o risco de ser atacado. Contei à ela em certo tom de desespero o que aconteceu com você. Ela parou de me dar bronca desde então. Acho que ela entendeu que eu... — "continua, Adam! Droga! Você não sabe que eu posso te ouvir!", pensei. Mas ele apenas suspirou e soluçou.

Ele novamente afastou uma das mãos e levou ao rosto, para secar as lágrimas. Após alguns segundos, continuou:

– Bem, mas estou aliviado que você não possa me ver nesta situação. — outro riso fraco — Tenho passado dias e dias no meu quarto, chorando. Estou mais inchado que o Sr. D. Não saí mais para a aparar o cabelo. Está quase maior que o seu. Aliás, não se preocupe. Sua mãe fez um bom trabalho orientando os médicos sobre como raspar o seu cabelo. Não rasparam tudo, apenas a lateral. — disse, e então continuou, sorrindo (quer dizer, eu não podia ver, mas era facilmente reconhecível em sua voz): — Sinceramente, está melhor em você que em Thalia.

"Ok. Sem me torturar, Adam", pensei. Sério, tudo o que queria era pular nele, agarrar seu pescoço e lhe beijar. Mas não podia. Ainda bem, pois ficaria mal se pudesse porque não teria feito. Teria amarelado.

– Ah, e também queria lhe agradecer por ter me chamado para ir na missão com você. De verdade. Se não tivesse me chamado eu nunca teria reencontrado Thalia.

"Tava bom demais pra ser verdade", pensei.

– E essa história ainda não teria acabado... Eu e você não teríamos ficado mais próximos. — "Ah, ok, pode continuar" – Eu não teria percebido que, não só o corte de cabelo, mas tudo é melhor com você. E você não teria tomado o lugar de Thalia em minha vida.

"YES! ELE DISSE! AÍ SIIIIIIIMMMM!!!" fiquei tão feliz que quis explodir. A máquina ao meu lado começou a pulsar mais rápido. tu, tu, tu, tu...

– Bom... — disse ele, provavelmente percebendo a aceleração dos meus batimentos cardíacos — Ainda bem que você não pode me ouvir, certo? — então falou, como se estivesse se cortando: — Não! O que eu estou falando!? Você deveria me ouvir! Não, eu deveria te dizer quando você pudesse me ouvir! — "É. Você já disse." – Eu sou tão estúpido. Já perdi um amor por não dizê-la de uma vez o que sentia. Não acredito que vou fazer o mesmo com você.

"Não vai porque eu não vou deixar." Cara, como eu queria não estar em coma naquela hora.

Ele ficou ali, minutos em silêncio, refletindo sobre o quanto era estúpido. Então voltou a falar:

– Pois é, falei, falei e acabei não contando o que queria... Bom, apesar de ter fugido, acabei voltando ao Acampamento e, mesmo arrasado, quis compensar o que você fez por mim, quer dizer, você salvou minha vida duas vezes. E eu não fiz nada para impedir que Annie te matasse. — raiva retumbava em sua voz e, aparentemente, ele sabia sobre Annie — Bem, eu liderei a investigação sobre quem fizera isso com você e Will Solace me disse que recolhera um pouco do veneno que escorria em seu pescoço, no local onde foi apertado. Aliás, nem está tão vermelho quanto me disseram — observou, aparentemente para si mesmo -. Ele já havia levado a diversos filhos de Hécate que se sentiam ofendidos e não falavam nada além de negar que sabiam algo sobre venenos, mas, como filho de Tânatos, tenho certa... Perícia com coisas... Bem, coisas mortais. Ao cheirá-lo, soube que era Sangue de Górgona. E se fosse do lado direito, o bom, eu não saberia, portanto, era Sangue de Górgona do lado esquerdo, o mortal. — após poucos segundos, continuou: — Com sorte, Annie não sabia como usá-lo para te matar então apenas envenenou seu chicote. Enfim, com aquele cheiro em mente, procurei mais dele por todo o Acampamento. Claro, qualquer sátiro poderia fazer isso, e com certeza com resultados mais rápidos, mas eles estavam com medo de cheirar aquela coisa. Jeff estava disposto a fazê-lo, por você, mas Audrey aconselhou-o de que era melhor não. Então achei um frasco enterrado atrás do chalé de Éris, e foi aí que soube que Annie é filha de Éris. Quando tentei interrogá-la, ela negou, disse que aquilo era ridículo. Mas consegui achar sua arma. Um chicote de couro bem peculiar. Couro de grifo. Assim, falei com Quíron, ele veio te visitar novamente, examinou seu pescoço e, voilà! Foi comprovado que o padrão do couro é igual ao padrão da marca de seu pescoço. Eu estava certo, a culpada é Annie Claire, porém, não sabemos o motivo. — suspirou, triste e voltou a acariciar minha mão — Parece que teremos de esperar você acordar, não, é? Pois a garota não fala de jeito nenhum. Mas Quíron já a puniu — garantiu -. Não acho ser o suficiente, mas ele a baniu de qualquer missão que poderia ser chamada, também afastou o Chalé de Éris do Caça à Bandeira até o próximo verão e informou seu pai, que declarou que ela não ganhará presente de Natal ou maquiagem nova até o fim do ano. Tem muita gente evitando-a, mas, aparentemente ela não se importa, passa o dia trancada no chalé fazendo sabe-se lá o quê.

Mais uma longa pausa. Adam levantou-se e se postou do lado de meu rosto. Mexeu em algum tipo de embalagem na estante ao lado da cama.

– Trouxe flores para você. São petúnias brancas e amarelas. — novamente, suspirou — Espero que você acorde cedo o suficiente para vê-las. Acho que vai gostar... Tem um cartão.

Sorri mentalmente.

– Também lhe trouxe isso. — disse, erguendo meu velho iPod — deve estar um tédio aí, e imaginei que você iria querer ouvir um pouco de suas músicas favoritas, então pedi à sua mãe.

Ele colocou o iPod na estante, ao lado das flores e apertou play. Imediatamente, Megadeth começou a passar e eu fiquei tão agradecida.

Ele acariciou meu rosto e beijou minha testa. Após segundos apenas me acariciando, disse:

– Estou te esperando, Luma. Só queria que você soubesse...

E, para minha infelicidade, deixou o quarto.