O Filho do Fogo
1 Prólogo
Notas iniciais
A lua brilhava no céu, imponente. Sua doce luz refletida sobre todas as coisas, iluminando-as como um sol na noite. Em seu quarto minguante, ela não passava de uma fina faixa branca. Mesmo assim lá estava ela, no céu, e Lys estava lá também, apoiada sobre ambos os joelhos dobrados, em cima do banco. Da janela aberta, por onde ela olhava o céu, vinha uma suave brisa, que dava-lhe arrepios desde a espina. Frio. Levantou-se, suavemente, e deslizou até a porta, verificando novamente se estava trancada. Estava. Xingou, baixo. Voltou para o banco e continuou a olhar a lua. Lá embaixo, metros e metros abaixo, o mar batia na pedra, levando o odor de maresia até lá, mesmo no último andar da torre.
Devia ser meia-noite quando ela ouviu o barulho da fechadura se movendo. Tinha esperanças de ser seu pai, mas não era. Nunca era.
—Senhora, pediram-me para levá-la até a sala principal. — Era Merrik, o arauto de seu pai. Sempre com sua voz em tom de deboche e zombaria para com ela.
— Senhor Merrik. Peço tempo para colocar trajes mais propícios, e então irei. — Ela repetiu, proclamando todas as palavras no tom cortês que sempre lhe fora ensinado,
— Sim, minha senhora. Todo o tempo do mundo para ti. — Ele fez uma brusca reverência e se retirou. Não trancou a porta.
Lys retirou seu pijama e, com calma, colocou roupas diferentes. Respirou fundo enquanto prendia o vestido com uma fita. Prendeu a espada à cintura. Sentia-se mais confiante, mas não fazia diferença, ela não teria a chance de usá-la. Ergueu-se e andou. Mesmo antes de chegar à porta, suas pernas juvenis tremiam, e seu andar era desajeitado. “ Dezessete anos, e presa. Presa em um casamento. Presa em um castelo. Presa por quem eu acreditava ser meu amigo. Obrigado, pai.” ela pensou.
Ao abrir a porta, se deparou com alguns homens em armadura completa. Em todos, o maldito símbolo: a lua vermelha, com o grande V negro sobre ela. “Aquele V não é o de seu pai, mas o de seu inimigo. “ Ela tentou manter a calma.
— Lady Elysa — Cumprimentou-a Glyce Raizor, capitão da Guarda. — Perdoe-me pela abordagem mais cedo. Ainda dói o local? — No mesmo momento, a garota colocou a mão no lado esquerdo da face, onde mais cedo fora esbofeteada.
— Vou bem, Glyce. Espero que meu pai saiba sobre o que você e Hugo fizeram. Ele vai mandar matar vocês! Pendurar seus corpos de cabeça para baixo! Assim como O Empalador fazia com suas vítimas! Vocês vão ver! — Toda a calma que Elysa lutara para ter se perdeu em segundos, assim como a de Glyce, e seu punho, revestido em aço, atravessou o ar e se chocou contra o lado direito do rosto da menina. Lys caiu, indefesa, no chão.
— Levantem-na. Não desperdiço mais minhas palavras com ela. Levem-na à qualquer custo para a sala. — Ele deu meia volta, com fúria nos olhos, e se foi.
Ergueram a moça com cuidado e a levaram adiante. Podia ter sacado a espada e atacado os nove homens, mas não era nem habilidosa nem forte suficiente. Não para isso. Como tudo mudara em poucas horas. Antes, tudo era belo, e os cidadãos do castelo andavam, com sorrisos nos rostos. Agora, todos andavam de cabeça baixa, alguns machucados, outros não, alguns de roupas comuns, outros de uniforme. Todos, no entanto, a olhavam, talvez com esperança.
Também havia mais guardas. Quase o dobro estava presente. Todos em armaduras impecáveis, alguns tolos e felizes, outros nem tão tolos e nem tão felizes. Sabiam o que faziam.
Quando entraram no salão de portas escuras, Lys teve uma surpresa.
Centenas de pessoas estavam lá. Todos da alta nobreza, brindando e rindo, conversando. Como todos ousariam trair o pai dela? Ela viu Adeline, Christina, Anna, Jason, todos. Todos com quem ela cresceu.
Levaram-na até o centro da sala, aonde todos podiam vê-la. E no fundo, os três tronos.
O mais alto era chamado de Pai dos Três, pois foi o trono de Vlad III, o primeiro da linhagem. Ele era o central. O do lado era chamado de Irmão dos Três, e fora construído em homenagem à Alexander Vlad, o quarto de seu nome. Era o esquerdo. E o mais baixo era chamado de Filho dos Três, em homenagem à Aryam Vlad, o quinto de seu nome. No entanto, agora, ao invés de três figuras sobre eles, restava apenas um jovem de vinte e quatro anos.
—Princesa, ó, minha princesa! — Disse-lhe o rapaz, com cortesia no tom. — Pensei que não viesse mais para nossa festa. Nossa comemoração. Pergunte, minha cara, sobre o que comemoramos.
A garota preferiu não contrariar. — Comemoram sobre o quê?
Ele riu. — Sobre minha vitória. Minha vitória e sua derrota. Ah, perdoe-me se Glyce te fez algo. — Ele apontou para o rosto, avermelhado. — Da próxima vez peço que lhe bata em outro local, pois não há motivo de estragar tão belo rosto.
Hugo era um homem magro. Seu rosto era belo e delicado e seus cabelos eram castanhos escuros. Seus olhos, entretanto, eram cinza. Seu sorriso era jovial e seus dentes totalmente brancos. Usava roupas simples: um colete negro por cima de uma blusa cinza. Calças negras e botas. No peito dele brilhava um broche. Um broche com a lua de sangue e o V.
Ele se levantou do trono e andou até Lys.
—Minha querida. — Disse, sorrindo. — Por que está assim? Parece assustada. — Hugo a acariciou no rosto com as costas da mão esquerda. — Se preocupa se serei um bom rei? Ah, claro que serei. Serei melhor que seu pai. Te tratarei com carinho. — Ele se aproximou dela. Seus narizes se tocaram. A garota quis recuar, mas os soldados a seguraram. — Case-se comigo, Elysa. Seremos rei e rainha. Te darei jóias, ouro, poder. Eu te amo. Você sabe. O avanço foi rápido: reunindo suas forças, a jovem impulsionou sua cabeça contra o outro, que recuou alguns passos, com dor.
— Se me amasse não faria isso. Por quê? Por que fazer isso tudo? Se casava comigo, e logo seria o sucessor do trono. Por quê?
— Não te diz respeito! Cale a boca, menina! Eu sou o rei!
— Será? Não consegue nem se convencer disso! De quem é essa armação toda? Quem é o responsável por isso? — Lys logo se arrependeu de ter perguntado isso. O olhar que Hugo lhe deu foi algo entre o humano e o bestial.
— Vou te matar! Vou te matar sua… — Ele avançou, espada em punho, pronto para atacar. — Já cansei de você. Princesinha mimada. Agora, quero ver pisar em mim.
A espada subiu, acima da cabeça do jovem.
— Lorde Hugo. — Disse uma voz, em meio aos demais. A espada desceu, inofensiva, e Hugo olhou ao redor até achar quem lhe dirigira a voz. — Meu senhor. — A mesma pessoa disse. Hugo encontrou seu dono: um homem. — Por que, ao contrário de uma morte rápida e lenta, o senhor não a tortura. Talvez fogo? Garanto que nos...te divertirá mais. — Silêncio. — Se for de seu agrado….claro.
Hugo riu. — Por quê? Deixe-me pensar. Talvez, apenas talvez, porque eu não tenha lhe perguntado nada.
— Sim, claro, senhor, claro. — Ele disse, recuando dois passos e abaixando a cabeça.
— Mais alguém deseja compartilhar uma ideia? — A porta se abriu no início da sala. Dez homens entraram, em armaduras completas. Se ajoelharam ante ao novo rei.
— Lorde Hugo. — Disse um gordo que parecia ser o líder. — Trago notícias urgentes. Do Norte. Lorde Glorian negou teu pedido, vossa senhoria. O Duque se nega a ajudar aquele que derrubou o rei. Além disso, ele ousou ameaçar de atacar-nos, caso não devolva a coroa.
— E meu pai? — Perguntou o jovem senhor. — O que ele disse.
— Renega-te também. Diz que não desejava guerra, que assumiria legalmente. E que se você tomou a coroa para si, deve lutar para sustentá-la. Sozinho.
— Droga! Malditos! Querem guerra! Eu sou o rei! — Sentou-se no trono, desolado. — Mais alguma coisa? Ou já estragou minha noite?
— Na verdade, sim. Uma última notícia. — O gordo se virou e pegou com um outro soldado um embrulho. Era grande e comprido. Parecia pesado também.
— Abra-o. Quero vê-la. Abra-o! — Ele disse, parecendo contente. Assim o homem fez. Desfez um nó, depois outro, e abriu o pano. E no meio uma espada brilhou. Não, não era uma espada qualquer. Era bela, dourada, incrustada de jóias. Um rubi. Um diamante. Uma esmeralda. Uma safira. Um ônix. Um cristal. Devia ter um metro e noventa de comprimento. Lys jamais vira espada tão comprida. — Ela é linda! Deixem-nos sozinhos.
— Hum...senhor, e a garota? O que fazemos com ela? — perguntou um guarda.
— Tranquem-na no quarto de novo. Depois decidirei o que fazer com ela.
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Os homens empurraram-na bruscamente para dentro do quarto, a jogando no chão.
— Glyce virá mais tarde falar com a senhora. Recomendo que não o irrite. As batalhas estão deixando-o louco. — Disse um que estava mais atrás. Ela reconhecia a voz dele. — Perdoe-me, senhora. Não queria que isso acontecesse.
— Eu pensei que tivesse amigos nesse castelo. Mas vejo que apoiam um usurpador de tronos.
— Minha senhora, pela lei ele não está errado. Se alguém desafia o rei e este perde, o trono é dado ao ganhador. — O homem parecia realmente triste.
— Vamos. Ela não é mais senhora de nada. — Disse um outro. — Ela agora é só uma moeda de troca de Hugo! — Caçoou. Eles se viraram e fecharam a porta.
Elysa andou até a cama e se deitou, apertando os travesseiros e chorando.
Lua de Sangue. Nome propício para aquela noite. Uma noite em que a lua brilhava, e que o sangue escorria. Ela podia sentí-lo: nas casas, nos vilarejos, no castelo. Ela sabia que ela seria usada como Hugo bem entendesse, e não teria ninguém para protegê-la. Todos eram traidores. E ela...ela estava sozinha, nas mãos de quem dizia que a amava…..
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