Tristan estava cansado de todos esses seus sonhos lúcidos. Queria pelo menos uma vez ter a ilusão de que estava na vida real, e não deitado em um travesseiro enquanto seu psicológico te coloca na situação mais confortável possível. Não era esse mesmo o caso, Tristan ainda estava deitado em um colchão pendurado em uma árvore, e teve uma tênue esperança de que tinha acordado. Não estava nem aí para a situação em que se encontrava, só queria sentir as próprias mãos, tocar num solo físico, respirar um ar real, e sentir a realidade. Toda essa falsa esperança se esvaiu quando olhou pelas folhas e viu Ninfa se banhando no lago abaixo da árvore. Estava levemente feliz por ver Ninfa bem. E por mais que nos últimos sonhos ela sobrevivesse com uma cobra dentro do seu organismo, ela agora estava animada no meio da água. Seu corpo sem nenhuma gota de sangue, e estava quase nua, apenas com o vestido molhado cobrindo seu corpo, porém, o vestido estava quase transparente devido à água. Distraído, Tristan sentiu o conforto de seu colchão desaparecer, as folhas o abraçarem juntamente com os galhos, que quebraram, e os que sobraram desses galhos simplesmente o arranharam, e ele sentiu o ar se tornar seu chão, e todo o sentido da gravidade desapareceu antes dele perceber que tinha simplesmente caído da árvore. Tristan abriu os olhos que tinham sidos forçados a fechar devido à queda e viu Ninfa correndo em sua direção.
– Ei, calma! – exclamou Tristan, com um tom de voz maior do que ele desejara – Eu estou bem... Pode ficar aí... No lago...
– Ah... Tudo bem... É que você caiu. Achei que tinha se machucado.
– Não, não. O colchão amorteceu a queda.
De fato tinha amortecido, mas o coração de Tristan quase tinha pulado pra fora com a queda. Não queria, mas levantou-se. Tinha que se manter em contato com água, mesmo se fosse algo psicológico. Caminhou até o lago e em questão de segundos e quando viu já estava sentado em sua beira, molhando os pés, e observando Ninfa nadar.
Os sonhos que Tristan tivera foram violentos, mas eram inexplicavelmente lúcidos. Agora, estava num clima pacato que não vira desde o primeiro sonho.
– Ei... – chamou Ninfa, após alcançar a superfície – Eu não perguntei o seu nome até agora.
– Ah...? – Tristan abriu um sorriso que não abrira faz um tempo, era como se sua sanidade tivesse puxado seu pé, e ele sabia que era o contrário – Tristan. Meu nome é Tristan.
– Hm... – Ninfa desviou o olhar e refletiu, como se soubesse que aquela era uma ótima oportunidade para duvidas. Abriu a boca para falar, mas nada saiu. Então, por fim disse – Como é que é lá fora? Digo... Na vida real, longe dos sonhos.
– Ah? A vida real... Bem... Ela é...
Tristan arregalou os olhos. Seu coração começou a bater mais forte pelo simples fato de não conseguir responder. Ele não se lembrara de mais nada além de seus sonhos. Não se lembrava de nada que ocorreu antes de ficar preso na lama. A desejava, mas não se lembrava da
vida real. Ele queria se lembrar, mas não conseguia. Só se lembrava do seu chalé, seu nome, seu pai Hipnos, e mais nada. Aquele desespero que sentiu ao notar que não se lembrava de mais nada quase desfigurou o cenário, e novamente suas emoções alteravam o sonho. Ninfa estava quase assustada.
– Tristan...? – disse ela – Tudo bem, não precisa pensar. Não é pra você pensar... Isso só vai acabar com tudo. Você não precisa do mundo lá fora, está bem?
Ninfa e os pensamentos conturbados de Tristan foram interrompidos por uma presença vinda do matagal que cercava o lago. Um rapaz branquelo, com roupas surradas de aviador e um short rasgado que revelava suas canelas magricelas tropeçou entre o matagal e caiu de quatro. Mas em questão de segundos recuperou a postura novamente. Tristan conhecera bem aquele cara. Nico Di Angelo estava com uma faixa envolvida na cabeça, tampando os olhos. Tristan passava a maioria do tempo dele no chalé, dormindo, obviamente, mas já vira Nico passando pela janela, e a primeira visão que Tristan tivera de Nico é que ele se achava muito para uma criança daquela idade. Pelo menos era um crianção na última vez que foi visto. Agora aparentava ter uns 17 anos.
– Nico – disse Tristan – Bela pessoa para aparecer em meus sonhos... Que sentido isso faz?
Nico não respondeu. Sua expressão estava séria e tensa. Bem, pouco definida, já que seus olhos estavam tampados.
– Nico... – interveio Ninfa – Um nome engraçado. Você é filho de Hades?
Nico virou sua cabeça para Ninfa e começou a encará-la... Bem... Era isso o que parecia.
– Sou sim. – disse Nico. Tristan já o ouvira falar, e sua voz estava bruscamente alterada, mais grave e adulta, mas isso era sempre assim em seus sonhos, então deixou passar – e como sabe disso, jovem ninfa?
– Eu conheço seu pai. Ele tem quase a mesma aura que você. Você também é quase idêntico a ele.
– Por que não me sinto elogiado? – respondeu Nico, num tom quase ameaçador – Deuses não prestam, e quero-os longe de mim. Não repita o nome Hades novamente, ouviu?
– Ah... Certo...
Ninfa, com uma expressão ofendida, se jogou na água e mergulhou, como se tivesse se esquecido do assunto.
– Bem... – Tristan interveio – Por ser filho dele, você deve entender os mortos, né? Bem, uma dúvida frequente... Eu estou morto? Eu pareço estar morto?
Tristan nunca descartou a hipótese de que havia morrido e estava vivendo uma vida pós-morte. Era totalmente provável, mas era tenebroso pensar que sua rotina seria dia-após-outro viver uma experiência sobrenatural, e muitas vezes, nada agradável. Ele era um herói em seus mundos, mas não via motivo para viver no Campo de Elísios. Não era um herói na vida real.
– Não... Não vejo nada morto em você. Mas está próximo. Você está apenas sonhando, Tristan. E vai se arrepender de ter sonhado quando Tânatos e seu pai andarem de mãos dadas.
– O que quer dizer com isso?
Nico não respondeu. Apenas deu um sorriso quase sádico, e caminhou até uma árvore, sentando-se em sua sombra. Ele enxergava racionalmente, mesmo sem olhos. Tristan lembrou-se novamente que estava sonhando. Isso era a coisa mais válida.
– Seu pior defeito – Nico continuou – e talvez o efeito de todo filho de Hipnos, é enxergar pelos sonhos, e não com os olhos. Ou devo dizer... Pelos olhos?
Tristan ficou confuso. Não sabia nem se aquilo tinha tom de pergunta retórica, mas respondeu.
– Talvez?
– É isso mesmo. Não há mais esperança, Tristan. Nem na vida real, nem nos seus sonhos. Os inimigos venceram, e tudo por causa da incompetência dos deuses. Não deveríamos nos orgulhar por sermos filhos deles.
– Wow... Do que você tá falando?
– Não se faça de bobo...
Nico levantou-se. Seu anel em formato de caveira brilhava junto com o sol conforme ele andava. Encontrou um caminho por entre as árvores, e desapareceu entre as sombras, deixando pra trás a faixa que tampava os olhos. Tristan deu a volta no lago para alcançar a tal faixa. Ao pegá-la, viu que estava suja de sangue.
– O que foi, Tristan? – disse Ninfa, que já estava se secando na beira do lago.
– Fica aí... – Tristan disse, com um tom confuso – Vou ver o que há de errado com aquele cara.
Atravessou a densa floresta em busca de Nico, com a faixa branca e ensanguentada na mão. Notara que estava ficando escuro conforme ele andava, como se o sol se movesse em questão de espaço, e não de tempo. Ele não vira, mas Ninfa estava correndo logo atrás dele, não atendera seu pedido de esperar no lago. A linha de árvores acabava em uma cerca torta e destruída, com um leve tom preto de queimado, como se um raio tivesse caído por cima dela recentemente. Tristan não duvidava disso.
Além da cerca, havia uma planície cinzenta que se expandia até onde os olhos de Tristan não podiam alcançar. Uma chuva havia começado no tempo em que Tristan estava na floresta. Não era tão fraca, mas não parecia incomodar ninguém, no entanto, o cenário estava como a mente de Tristan: melancólico, tempestuoso e sem cor.
Pulou a cerca, e andou pela planície. Percebeu uma presença abstrata ao meio, uma era Nico Di Angelo, parado, como uma estátua, observando com os olhos vidrados à uma outra pessoa logo à frente. Alta, curva, usava uma touca que ia até os calcanhares e um pijama, fora que havia asas semelhantes as que se encontravam nas sandálias de Hermes em suas têmporas.
– Hipnos... – disse Tristan, um tanto impressionado. Só percebeu que estava andando quando parou. Estava ao lado de Nico, e seus olhos, por sua vez, estavam tampados por riscos que dançavam a frente dos seus olhos – ou a ausência deles – como se ele fosse uma fotografia que teve os olhos riscados. Estava boque aberto diante de Hipnos, que tinha olhos azuis brilhantes, assim como os de Ninfa.
– Filho... – disse Hipnos, referindo-se a Tristan – Ela ganhou. Não temos o que temer.
– Do que você está falando?
– Os deuses maiores... Eles não souberam escolher. Eles perderam.
Tristan olhou de relance para Ninfa.
– Você disse que conhecia Hades... O que queria dizer com aquilo?
Ninfa não respondeu. Estava tão vidrada quanto Nico. Tristan tentou recuar para chacoalhá-la, mas foi impedido por seu pai, que agarrou seus braços e começou a encará-lo com um sorriso psicopata aberto até a orelha e olhos arregalados, mostrando a total cor azul, que hipnotizava Tristan.
– Esse é seu pior defeito, filho... – a voz de Hipnos estava totalmente insana, não pertencia à ele, definitivamente – O defeito de todos os meus filhos, é não saber enxergar o mundo. E eu devo agradecer eternamente por isso. Eu sempre quis que meus filhos se tornassem heróis, mas por quê? Eles só sabem dormir. Pois eu sou a merda de um deus do sono. Do que adianta ser um deus dessa forma? Zeus pensava exatamente assim, mas não foi assim que Ela pensou. Ela me confortou, e confortou todos nós. E por fim, ela ganhou. Ganhou de todos seus amiguinhos campistas repugnantes. – Hipnos ainda agarrava os braços de Tristan com força mútua. Olhou para os lados, depois voltou a encarar seu filho – Você não serve pra mais nada, Tristan. Volte pra lá.
Hipnos empurrou Tristan para a grama molhada da planície, fazendo-o cair de costas. Tristan pôde sentir a água cair sobre seu rosto, e ele não queria sair. Logo percebeu que não
podia sair. Estava afundando, como no primeiro sonho. Levantou sua cabeça quando viu que seu corpo todo estava submergido em lama, e sua cabeça foi forçada para baixo pela sola da sandália de Nico. Estava prestes a ficar submergido em terra quando viu os olhos azuis de Hipnos, os olhos verdes de Ninfa e os olhos de Nico, que até então estavam manchados, mas agora, estavam com um tom brilhante e indiscutível de vermelho, como a cobra dos últimos sonhos. Os três se curvaram e tamparam o rosto de Tristan com a terra em volta.
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