O Filho de Hipnos
5 Ninfa
Em seu último sonho lúcido, Tristan estava num lugar escuro e apertado, com três janelas à sua frente, que revelavam três tênues raios de luz que não serviam de grande coisa, pois na maioria das vezes a luz do sol era oculta por alguma coisa, já que, pelo visto, o chão estava se movendo e era possível ouvir as rodas. Estavam em algum veículo, e Tristan percebera que não era o barulho das rodas, e sim do atrito gerado por um trilho. Estava numa espécie de trem.
– Tristan... Finalmente acordou. Tristan não percebera que Ninfa também estava naquele quadrado. Quando as janelas se fecharam de repente, após um barulho metálico e alto, apenas a iluminação dos olhos de Ninfa garantiam a visão de Tristan. Mas seus olhos não estavam verdes como antes... Estavam vermelhos. Um tom indiscutível e brilhante de vermelho, que dava uma grande visão de seu rosto, sujo de sangue e terra. Tristan sentiu um arrepio subir a espinha e esticou suas pernas por puro impulso, mas sentiu algo redondo e cabeludo semelhante a uma cabeça bater em seu calcanhar, parecia uma cabeça, e de fato era. Ninfa deu uma risadinha e abriu um sorriso assim que puxou pelos cabelos a cabeça suja e branquela de Nico Di Angelo. O sangue ainda jorrando de onde deveria ser seu pescoço, e seus olhos não existiam, eram buracos na sua face. – Eu o matei, Tristan – disse Ninfa, com um tom animado da voz, como se tivesse orgulho da façanha – o matei, o arranquei a cabeça, o arranquei os olhos. Roubei seus olhos, e aqui estão eles. Não são lindos? Com eles eu posso enxergar o que eu não enxergava! Isso não é demais, Tristan? Tristan notou o vestido de Ninfa sujo de sangue. Ela tinha sujado Tristan com o sangue de Nico. Psicopata de merda. Ninfa pulou no colo de Tristan para abraçá-lo sem motivo aparente, mas ele a chutou, quase a esmagando contra a parede. – Fique longe de mim! – Mas... Tristan... Meus olhos... – Não estou nem aí para seus olhos. Apenas saia! – Tristan chutou a barriga de Ninfa, a fazendo tossir – Saia! – outro chute, outros gritos, outros chutes, até que Ninfa não aguentou. Agarrou a perna de Tristan, e a mordeu, algo que não foi nada demais no começo, mas depois, Tristan percebeu que a dor era maior do que deveria. Os dentes estavam cravados em sua carne, e não eram dentes humanos, eram dentes afiados. Afiados e assustadores. – Não... Me solta, me solta! – Tristan balançava a perna na intenção de se livrar dos dentes de Ninfa, mas isso só fazia se cravarem mais ainda na batata da perna. Os olhos de Ninfa estavam arregalados e sem expressão, como se estivesse distraída. Notou que estava olhando diretamente para a cabeça de Nico. Tristan se conteve para ignorar a dor, que estava azucrinante. Não conseguia se mover, era como se estivesse em um leito de morte, por mais que não se lembrasse de como ERA um leito de morte. Talvez sempre estivesse em um leito de morte. Talvez todos estivessem. Sempre. Moveu a cabeça com dificuldade para olhar para Nico, e o que viu quase o espantou. Ele, ou melhor, a cabeça dele, estava rindo. Nico Di Angelo era uma cabeça longe do corpo, sangrenta e risonha, provavelmente rindo da desgraça que Tristan estava passando. Tristan demorou a perceber que Ninfa tinha tirado os dentes de sua perna, e achou uma boa hora para um contra-ataque. Aproveitou-se da distração e deu uma joelhada no nariz dela, que desmaiou quase que instantâneo. Agora sobrara o silêncio. Nico tinha parado de rir. O sangue ainda jorrava da ferida. Ninfa desmaiada, sem expressão. Só o barulho do sangue escorrendo, e o atrito do trilho. Depois de alguns minutos de silêncio, Tristan se perguntara como que a dor dele tinha passado, mesmo com tanto sangue perdido. – Sonhos... – resmungou – Malditos sonhos. Ouviu um barulho metálico e sentiu-se pequeno. Um corredor tinha surgido, inexplicavelmente, como se o veículo tivesse ficado maior. Tristan se levantou, com uma mínima dificuldade, como se sua ferida tivesse se tornado uma câimbra. Percorreu o corredor mancando levemente, e ouviu vozes vagas enquanto passava. Até o barulho do trilho parecia silencioso, o eco dos seus passos geravam vozes irritantes, que não tinha sentido. Eram apenas vozes, não sílabas, não palavras. Só vozes. O corredor não parecia ter fim, e Tristan sabia que não haveria. Ele tropeçaria, bateria a cabeça no chão e acordaria, ou passaria para outro sonho. Tristan teve um sobressalto, quando ouviu fixamente as vozes. Os fragmentos de vozes, ele já reconhecera de seus pesadelos. Pesadelos sem fim de um sonhador lúcido, talvez o único que tivera pesadelos. As vozes... Eram fantasmas. Não fantasmas de filmes de terror. Os verdadeiros fantasmas, que atormentam na vida real, mas adoram os sonhos. Fantasmas que Tristan odiava chamar de memórias. Elas o alcançaram, e ele foi pego. Seu estômago começou a se revirar, e as vozes se tornaram um zumbido, presenças tomavam conta de sua volta até quase esmagá-lo, mas não havia ninguém ali. Continuou andando, mas recuou, seu estômago contorceu-se novamente, e ele precisou cair de joelhos. A memória que o pegou, foi a que ele menos esperava. A mais distante, supondo que ele não se lembrava de mais nada. Uma memória de antes mesmo de seu sátiro chegar e levá-lo ao acampamento.Tristan estava no segundo ano do ensino fundamental. Era uma criança ingênua e nem sequer era um sonhador lúcido, mas tinha suas paixões, por mais que idiotas. Uma garota linda... Aliás, qualquer adulto a consideraria fofinha apenas, mas enfim, uma garota roubava o coração de Tristan de maneira que ele só pensava nela. Talvez fosse o único menino que pensava em garotas invés de futebol americano ou baseball. Um dia, decidiu falar com ela. Sabia que não teria chance, mas persistiu. A garota, que se chamava Clove, estava sentada num banco do lado de uma árvore, na hora do intervalo, sozinha, e Tristan achou que era a oportunidade. Caminhou até ela, com passos um tanto trêmulos, mas se pôs firme, até se aproximar do campo de visão de Clove. Sua boca ficou seca, sem palavras, e ele ficou com vontade de fugir.
– Ãm... – disse Clove – Oi? – Oi... – Tristan começou a olhar para os lados, como se o assunto estivesse lá, mas teve uma ideia – O que você está lendo? – Ah... Harry Potter. Você gosta? – Nunca li, é legal? – É fantástico! Leia, você vai amar... Você quer que eu te empreste quando terminar? – Clove fechou o livro, mostrando a capa para Tristan. – Ah... Não, pode deixar. Eu pego da biblioteca mesmo. – Senta aqui. – disse Clove, dando tapinhas no espaço do banco ao lado dela – Por que tá em pé ai, igual um idiota? – Ah... Claro. – Tristan se sentou, sem olhar fixamente para Clove, parecia estar tremendo. De fato estava. – O que você gosta de ler? – Clove disse, com um sorriso confortador. – Eu não leio muito... – Ah. Nada mesmo? – Acho que o único livro bom que li foi O Pequeno Príncipe, conhece? – Oh! Eu amo esse livro! – É... Como consegue ler tantos livros sendo tão nova? Eu não conseguiria. Clove riu. Uma risadinha adorável, fofa, e que deixava Tristan louco. Infelizmente, foram interrompidos pelo sinal que indicava o fim do intervalo. – Ah... Vamos ter que ir. A gente se fala mais amanhã, no intervalo, ok? Vou sentar aqui de novo. Clove se levantou, limpou as migalhas do seu lanche, fechou o livro, e saiu caminhando, depois de apontar um sorriso para Tristan. Ato que ele adorou. Esse diálogo foi o começo de todo. Eles se amavam, e nenhum percebeu isso. Era um amor correspondido, mas não revelado. Eles eram novos demais para algo sério, mas isso não os impedia de se falarem todo dia. Graças a ela, Tristan tinha lido duas vezes a coleção toda de Harry Potter, e mais algumas. Tinha se apaixonado pela literatura, e principalmente pela vida. Mas tudo acabou em certo dia. Clove estava de férias, no shopping com os pais, e ao sair, foram assaltados. Os pais de Clove se recusaram a dar qualquer coisa para o assaltante, e tentaram fugir, mas foram interrompidos por um tiro, que não atingiu nenhum membro de vital, de nenhum deles, mas sim o olho de Clove. Não a matou, por algum motivo, mas a arrancou o olho. Clove tinha nascido sem a visão do olho direito. Tinha ficado completamente cega depois do acidente, e Tristan fora sua única companhia. Sem a visão, e de cama, estava ansiosa para terminar seu livro, mas não poderia. Poderia aprender braile, mas não tão rápido. Estava triste e isso era aparente. Mas foi no período que Clove estava de cama que o sátiro de Tristan chegou para levá-lo ao acampamento. Passou seu primeiro verão sem parar de pensar em Clove. Geralmente não participava das atividades porque ficava muitas vezes no seu chalé, dormindo e sonhando, vezes com Clove, vezes com alguma profecia. No começo ele nem percebia isso, mas seus sonhos revelavam uma espécie de oráculo. Isso até ele começar a ter sonhos lúcidos. A partir daí seus sonhos ficaram desorganizados e ele pôde controlá-los, tirando seus pesadelos, que geralmente saíam do controle. Quando o verão acabou, estava ansioso para ver Clove. Mas... Recebeu péssimas notícias. Pouco depois de Tristan ir para o acampamento, Clove já tinha recebido alta e já podia manter contato com o mundo, por mais que com dificuldades, e provavelmente ainda precisava da ajuda de alguém. Tristan pensara nisso, e se imaginara guiando ela como se fosse seus olhos. A segurando quando ela caísse... Seria perfeito. Era isso que ele queria. Uma vida perfeita, eterna. Com a pessoa que ele amava. Mas a notícia que ele recebeu acabou com todos seus planos. O corpo de Clove foi encontrado debaixo de uma ponte. Sua perna e o crânio quebrado. Médicos disseram que a morte foi por traumatismo craniano, mas qualquer coisa poderia ter a matado. Tristan não entendera porque ela morreu. Porque estava sozinha quando se jogou da ponte. E como conseguiu fazer aquilo. Mas quando soube da notícia, queria morrer. Ver a cadeira onde Clove sentava vazia, o atormentava mais que tudo. Não conseguia levar a sério os treinos do acampamento e se não fosse por seus colegas campistas, teria se jogado para as fúrias há um bom tempo. Sua cabeça doía toda vez que acordava no acampamento. Tudo girava. Seu estômago... ... revirava enquanto o carro se movia entre os trilhos. Ele queria se libertar, se jogar no chão e acordar, mas as memórias tinham o pego e o enfiado em um flashback... Maldição. Péssimo momento. Ele pôde ouvir Ninfa resmungando e se arrastando atrás dele, o sangue pingando de seus dentes. Aquilo o fez Tristan pensar em sua ferida, mas ela já não existia, como se tivesse tido um corte leve. Aquilo não o surpreendia. Feridas não eram incuráveis nem na vida real, nos sonhos pareciam não causar dano. Tristan voltou a fugir de Ninfa, suas mãos em cima do estômago, que parecia querer pular pra fora. Começou a engatinhar em mútua velocidade, causando uma espécie de dor nos joelhos. Os fragmentos de voz tinham se tornado a voz de Clove, dos médicos, dos professores, de seus pais... Reproduções de vozes irritantes da vida de Tristan. Memórias, que iam e vinham. Os sons pararam com um som metálico. A testa de Tristan se colidindo com alguma parede á sua frente. Analisou a superfície, e achou uma maçaneta. Uma porta, talvez um fim. Levantou-se para abri-la, mas Ninfa agarrou sua perna. – Não vá – Ninfa implorou – agora eu tenho olhos... Meus olhos estão bem aqui... Eu posso enxergar agora, Tristan! – Me solta, Clove! – Clove... Esse é meu nome, não é? Meu nome nunca foi Ninfa, sempre odiei esse nome e ficava irritada quando você me deu ele... Mas porque eu ficaria irritada com você, meu amor? Você sempre cuidou de mim... Por que não fica aqui comigo? Podemos ler juntos novamente, como a gente fazia, lembra? Porque agora eu tenho olhos e... Clove foi interrompida por um chute, semelhante a um coice, vindo de Tristan, que acertou seus seios. – Me solta! Você não precisa de mim! Você nem sequer existe!– Eu existo... – disse Clove, agonizando de dor – Eu sempre existi, e você sabe disso, amor. Fique aqui comigo, não vá embora... Outro chute. – Por favor... – Clove começou a tossir, cuspindo sangue na perna de Tristan – Não vá, Tristan... Você sabe que eu te am... Tristan deu outra joelhada no nariz de Clove. Ela caiu no chão, e só sentiu pé de Tristan atingir sua face, fazendo-a girar e bater de cara com a parede de ferro. Começou a chorar. Angústia, dor, tristeza. Tristan não acreditava que um personagem do seu psicológico poderia sentir alguma coisa assim. Mas ela chorava. Não gotas transparentes e salgadas de lágrimas, e sim sangue. Um sangue indiscutível, que se destacava no rosto pálido dela, um rosto doentio, demoníaco, com aquele sangue e olhos vermelhos. Não era Clove. Apenas o que sobrou dela, na cabeça de Tristan. Abriu a porta, e um raio de luz enorme tomou conta do recinto e o engoliu, tomando conta de sua visão, forçando-o a fechar seus olhos. Estava prestes a acordar, quando ouviu no fundo da sua mente, uma voz nada familiar, ácida, feminina e enjoativa.Eu chamo isso de vida, Tristan. É vida. Você foi um péssimo guia, Tristan. Volte para lá. Tristan pôde sentir uma lágrima cair sobre seu rosto, e ele deu um leve suspiro, conseguindo soltar um som que nem mesmo ele podia ouvir, mas tinha um sentido. – Ninfa...
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