O Filho da Lua
6 VI – Transformação e partida.
Notas iniciais
–O que foi? – perguntou Matheus depois que percebeu que Luna quase o esmagara.
–Tive uma visão, nunca tive uma visão acordada antes! – exclamou ela – Você, você foi exposto na escola, por Diogo.
–Exposto? – perguntou Matheus.
–Faz sentido, em fase de transição você ainda não é escondido pelo véu mágico, ele te molhou no meio da escola, suas barbatanas do braço cresceram e os seus pés mudaram também.
–Tem como saber quando ele fez isso? Quando ele fará isso? – perguntou.
–Bem, suas barbatanas do braço estavam completas, e seus pés também mudaram, a mudança nos pés só ocorre na fase final, então... – ela fez as contas na cabeça, conhecia um pouco dos Atlantis – semana que vem.
–Mas quando? – perguntou Matheus.
–Acha que eu sou vidente? – perguntou ela.
–Você acabou de ter uma visão.
–Não é essa a questão! – cortou Luna – Temos que... Entendi – ela viro ele ainda a tempo de ver Diogo correndo pra bem longe da praia – isso explica como ele descobre, ele deve ter visto você usando seus poderes.
–Vamos atrás dele, temos que impedir o futuro! – exclamou Matheus pegando a própria mochila e a bolsa de Luna.
Os dois correram atrás de Diogo, Luna parou no meio do caminho, mas Matheus conseguiu alcança-lo e imobiliza-lo na parede de uma casa.
–Me solta aberração! – mandou Diogo – Vocês dois são aberrações.
–Pare com isso, sou seu melhor amigo! – argumentou Matheus.
–Não, você é algum tipo de mutante da água, eu vi as escamas, vi você controlando a água. – contou Diogo.
–Visão boa vu, minhas escamas são tão pequenas e você estava tão longe... espera – Matheus mexeu nos bolsos do amigo e tirou um binóculo dobrável. – Estava espionando a Luna, você gosta dela?
–Não, vocês dois são anormais! – respondeu ele tentando se soltar, achara que ficaria mais fácil agora que Matheus só o segurava com uma mão, mas estava enganado – Como é tão forte?
–Sempre fui! – respondeu Matheus – guarde meu segredo! – pediu – Somos amigos.
–Nossa... ufa... Você corre em Matheus! – exclamou Luna chegando onde eles estavam.
–Ele vai guardar segredo não vai Diogo? – perguntou Matheus.
–Vou, vou sim – garantiu o garoto e Matheus o soltou e devolveu o binóculo.
–Não era pra você ter deixado ele ir! – argumentou Luna depois que Matheus a levou pra casa dele.
–O que houve? – perguntou Guilherme.
–Tive uma visão do Diogo expondo ele na frente da escola, nós percebemos que Diogo estava nos observando e viu ele usando os poderes, e ele o deixa ir! – contou Luna.
–Queria que eu matasse ele? – perguntou Matheus.
–Não ia fazer nenhuma falta! – argumentou Luna.
–Ele é meu amigo! – respondeu Matheus.
–Não, ele é alguém que sabe seu segredo! – interrompeu Guilherme – Era pra ter trazido ele pra cá, eu iria apagar a memória dele, acha o que? Que isso é um seriado de sereias onde você pode confiar seu segredo a qualquer um?
–Ele não é qualquer um! – argumentou.
–Ela teve uma visão dele te traindo, e você o deixa ir? – perguntou Guilherme – Ele não é seu amigo, é um seguidor em busca de status.
–Não diga isso! – mandou Matheus.
–Pare de ser ridículo! – gritou Guilherme com a voz mais grossa que o normal – Temos que apagar a memória dele, se ele te descobrir e expor, você vai virar escravo dele!
–Ele nunca faria isso! – insistiu Matheus.
–Não é só seu segredo, é o meu também, e da sua mãe, de seu pai, e de todos nós! – argumentou Guilherme.
–E meu também! – acrescentou Luna.
–Podem confiar nele? – perguntou Matheus.
–Luna quando é a próxima lua cheia? – perguntou Guilherme.
–Em três dias! – respondeu.
–É quando você vai ganhar a cauda! Então, não, não podemos confiar que ele vá ficar quieto por tanto tempo, se fosse pra você ganhar a cauda hoje ainda seria um problema, daqui a três dias então....
–Espera, eu não devia ganhar a cauda em uma semana ou mais? – perguntou Matheus.
–Se você fosse normal sim, mas eu liguei pra sua mãe falando de seu poder com a água, e ela me contou que nossa família está ligada a lua, sendo assim amadurecemos como ela! – explicou Guilherme.
–Vamos ver, hoje é segunda, minha visão vai acontecer quinta! – comentou Luna – Vamos atrás dele e apagar a memória dele!
–Não! – exclamou Matheus calmamente, ele havia se lembrado do que Gui o havia contado na noite passada – Eu o escolho como meu fiel ao segredo.
Fiel ao segredo é um trouxa/mortal/humano/norminho/vocês já entenderam, que um ser mágico qualquer escolhe pra guardar o segredo. Cada ser mágico tem direito a dois fieis pela constituição mágica do Brasil, sendo que, se um destes revelar o segredo, terá sua memória apagada, e sofrerá algum tipo de pena mágica sem nem ao menos saber que sofreu.
–Isso é algo muito importante, eu vi ele te traindo, não pode escolhe-lo como seu fiel! – argumentou Luna.
–Você não entregou o medalhão pra ele, sendo assim ele ainda não é seu fiel, e eu ainda posso ir atrás dele! – argumentou Gui saindo da casa.
–Espera! – chamou Luna – Tem um feitiço que minha vó escreveu, “sonho do destino”, vou precisar de algumas ervas pra fazer a poção, e você fala as palavras, ele toma, e tem uma visão do destino certo que vai acontecer, se ele tomar uma decisão, nesse caso a decisão de contar pro Diogo.
Foi difícil mas acharam as ervas, Guilherme e Matheus que demoraram pra aceitar seguir o plano, mas resolveram seguir porque assim um dos dois provaria sua tese, mas Guilherme foi atrás de Diogo e o prendeu no quarto de Sr. Simon depois de usar seu encanto de Tritão pra descobrir se ele tinha contado a alguém, ou escrito alguma mensagem. Ele não contou alguém mas tentou deixar uma mensagem no bloco de notas do celular.
–Viu só? – perguntou Guilherme depois que apagou.
–Ele quis garantir que não ia esquecer, eu faria a mesma coisa! – argumentou Matheus.
–Matheus eu vou com você – informou Luna – Vamos tomar juntos e ir parar no mesmo futuro! Assim eu poderei dizer: “Eu bem que te avisei!”.
Os dois tomaram a poção e se deitaram na cama de Matheus. Guilherme disse as palavras do livro e ambos fecharam os olhos.
Matheus se viu naquele momento no futuro, contando pra Diogo tudo sobre a futura cauda, e a transformação. Diogo perguntou quando seria a transformação completa e Matheus respondeu que provavelmente seria naquela quinta-feira. Luna o tempo todo apontava a expressão facial de Diogo.
–Eu sei ler as pessoas, ele tá com repulsa no olhar, e vai fazer algo, isso é fingimento! – argumentou ela.
–Ele não vai me trair! – respondeu Matheus observando a própria imagem conversar com Diogo.
Continuaram a observar. Adiantando o tempo pra não terem que esperar o tempo “real” que seria até quinta. Naquela quinta Matheus amanheceu diferente, ele não parecia nada bem. Foi a escola sentindo os braços coçarem, e as pernas também. Assim que chegou no pátio da escola foi recebido por um balde de água.
–Como na minha visão! – exclamou Luna.
Exatamente o que ela viu aconteceu, ele ficou com as escamas na frente de todo mundo, enquanto Diogo tirava fotos com o celular, e os outros alunos olhavam pasmos sem acreditar.
–Vamos apagar a memória dele? – perguntou Luna.
–Vamos – respondeu Matheus já acordado do sonho/visão.
Guilherme fez o procedimento usando o gás de amnésia. Diogo não se lembrava de nada. Luna levou Diogo ainda zonzo pra casa, e Gui percebeu que Matheus não estava bem:
–Você estava certo, não devia ter confiado nele! – disse Matheus. – Não posso confiar em ninguém normal.
–Não fale assim – Gui o segurou pelos ombros e o fez olhar em seus olhos – Amizade verdadeira é um laço muito forte, você vai achar um bom amigo e fazer dele seu fiel, e você vai sentir que é o certo. Você nunca sentiu isso co Diogo, mas quando considerar alguém como se ele fosse seu irmão, ai você vai confiar a ele a medalha.
–Você já é meu irmão! – disse Matheus abraçando-o.
–Te amo primo, mas se lembra o que eu disse sobre confiar depressa demais? – perguntou Gui retribuindo o abraço, obvio que ele não falava serio, mas Matheus tinha que se precaver. – Ok, me solta ou te mostro o lado colorido da vida.
–Tchau! – exclamou Matheus subindo pro quarto.
–Bom garoto! – exclamou Gui.
Ainda naquele dia, as escamas do braço de Matheus foram aumentando e ganhando a forma de barbatanas, antes dele ir dormir ainda não tinha um desenho definido, mas já dava pra perceber mais ou menos o formato. No dia seguinte, terça-feira, começaram a nascer escamas no joelho e nas batatas da perna, e o dedo mindinho dele se alongou.
Foi mais difícil não se molhar naquele dia. Parecia que todo mundo andava com uma pistola de água. Ao anoitecer, não era mais só o mindinho, todos os dedos do pé tinham uma aparência estranha e alongada, e torta. Os dedos do pé direito se entortavam pra direita, e os da esquerda para esquerda.
–Suas barbatanas estão quase formadas! – explicou Gui.
–Percebi, e não dá pra andar com isso, e eu vou cair! – respondeu se segurando na parede do lado da banheira.
–Cê sabia ia acontecer, porque não se deitou logo na banheira? – perguntou Guilherme ajudando o primo a se sentar.
–Eu tinha que pegar a lavanda – justificou Matheus.
–Vire homem! – mandou Guilherme.
–Amanhã vai ser pior né? – perguntou Matheus.
–Sim, e quinta-feira vai ser o dia – respondeu Guilherme – vendo suas barbatanas assim eu tenho certeza.
No dia seguinte, Matheus se despedia discretamente de todos os colegas, e todos os professores, ele realmente ia sentir falta daquele lugar. Igor ele deu um abraço com força na hora da saída, ia sentir falta dele, com Diogo ele foi mais imparcial. Luna ficou na casa deles, os dois ainda não tinham rotulado a relação. Era algo complicado. Não sabiam se estavam ficando ou namorando, não sabiam se gostavam-se ou odiavam-se, mas ela estava ali com ele.
Na manhã de quinta, Matheus foi direto pra banheira. Sr. Simon e Gui estavam prontos pra carregar ele e joga-lo ao mar. Afinal as cinco da manhã não tinha ninguém na praia então seria fácil carrega-lo. Sr Simon o carregou e desceu as escadas com ele nos braços.
–Espera! – exclamou Gui – as escamas estão sumindo.
–E? – perguntou Rafael Simon.
–Se fosse agora a hora ele ficaria com elas até ir pro mar, onde as pernas grudariam e a cauda apareceria – explicou Gui.
–Então o que eu faço? – perguntou Matheus.
–Vá pra escola e não se molhe, acho que você só vai ser transformar em água salgada e estamos muito perto da maresia, se fosse pra você se transformar agora já tinha acontecido. – comentou Gui.
Mas porque ir pra escola? – perguntou Matheus.
–Achei que queria ver Luna. – respondeu Guilherme.
–Vou me arrumar.
–Você tem que ir pra casa! – exclamou Luna na escola depois que Matheus contou tudo a ela– e se você se transformar aqui?
–Como? Eu não me transformei em minha casa que é em frente ao mar...
–Mas e se não for a influencia do mar, mas sim a influencia da lua? – perguntou Luna – Ao meio dia não dá pra ver mas a lua está em equilíbrio espiritual com o sol assim como a meia noite, são horários espirituais.
–Agora não dá mais pra sair! – constatou Matheus entrando em desespero.
–Fique do meu lado e vamos rezar pra eu estar errada! – disse Luna.
Trabalho redobrado pra não se molhar. Mas pelo menos não houve nem sinal das barbatanas no meio dia. Mas houve meio dia e meia quando o sinal tocou. Assim que sentiu as escamas nascerem no braço pegou a mochila e correu pra o banheiro mais próximo.
Os sapatos dele rasgaram e as barbatanas prateadas apareceram, escamas verdes e azuis percorriam suas pernas. Matheus não pode pensar em outra coisa a não ser o quão magnífica a cauda dele seria quando suas pernas se unissem, mas pra isso ele teria que chegar no mar, e era meio difícil considerando que ele estava na escola.
–Luna, Pai, Gui, socorro.
Pai socorro.
Pai me ajude.
Rafael Simon estava no trabalho, mas sentiu algo estranho, ligou pra Guilherme e perguntou por Matheus. Guilherme disse que ia busca-lo na escola e Sr Simon saiu do trabalho desesperado. Luna encontrou com Guilherme no caminho. Ela estava justamente indo chamar ele.
–Ele me entregou isso! – ela deu a mochila onde estava também a calça de Matheus – Está trancado no banheiro com várias escamas na perna.
O colégio de Matheus era na baixa do Bonfim, bem perto da praia, bastava descer uma ladeira. Mas naquele horário aquela praia podia estar cheia. Guilherme e Luna tinham que tira-lo de lá, e leva-lo pra o Humaitá, ali sim estaria deserto. Mas como tira-lo da escola?
–Ele está no banheiro de baixo, e a maioria dos alunos já foi embora – informou Luna.
–Uso o feitiço do seu livro e atraio todos pra longe enquanto Rafael carrega ele pra o carro – planejou Guilherme – Você já testou esse feitiço? – perguntou Guilherme.
–Minha avó já, ela disse que é perfeito. – respondeu – Há uns três anos quando estava viva, mas não importa.
–Vou atraí-los pra lá pra cima mesmo, e depois corro até vocês! – informou Guilherme.
Os dois estavam numa academia em frente ao prédio da escola com o livro na mão esperando Rafael Simon chegar com o carro.
Rafael estacionou em frente a escola e Guilherme correu pra dentro murmurando o feitiço. Todos começaram a segui-lo na direção que ele queria, e ele não perdeu a concentração. Rafael e Luna tiraram Matheus do banheiro as pressas, o garoto já estava sem camisa e usava apenas a cueca. Rafael o carregou as pressas pro carro bem na hora que Guilherme corria atrás deles.
Os quatro entraram no carro e dirigiram com toda a velocidade pra o Humaitá. Obviamente chegaram bem rápido, e realmente estava vazio.
–Ali, ali é fundo! – apontou Guilherme.
–Me joguem logo na água essas escamas coçam muito! – implorou Matheus.
Sr. Simon estacionou e ele e Guilherme carregaram Matheus até a ponte de onde ele podia se jogar.
–Espera! – gritou Matheus quando Guilherme e seu pai iam te jogar na água – Tenho que me despedir! – lembrou ele.
–Ah, é claro! – Rafael mudou o filho de posição segurando-o nos braços e abraçando-o – Se cuida filho, vou sentir saudades, muitas saudades.
–Eu volto logo pai, prometo! – Respondeu Matheus. – Gui me ajuda aqui.
Guilherme segurou o primo pra que ele ficasse em pé enquanto abraçava Luna.
–Até logo Matheus! – disse ela abraçando-o. – você vai se dar bem lá.
–Até logo Luna, vou sentir sua falta! – respondeu ele. – Agora pode me jogar Gui, vamos terminar logo com issoooooooooooo.
Guilherme o jogou para o alto e ele caiu em cheio na água salgada.
–Super força lembram? – perguntou. – Até logo gente.
Ele deu um abraço rápido nos dois e se jogou na água.
A água em volta de Matheus brilhava. Suas pernas grudaram como previsto, e um brilho azulado e esverdeado cobriu todo seu corpo. As escamas brotaram de sua pele modelando sua enorme cauda azul e verde. Verde com a membrana da barbatana azul como ele já tinha visto. O tom era tão lindo que parecia se camuflar com o mar. Ele nadou pra superfície e saltou dando uma ultima olhada no pai e na amiga.
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